18 de dezembro de 2016

Capítulo 7

Halt estava preso. Ele amaldiçoou a si mesmo por tomar o inimigo de forma tão leve.
Uma vez que tinha chegado a Abelard, tinha superado facilmente seus perseguidores. Aos poucos, seus passos morreram no silêncio e, confiante de que tinha fugido, deixou Abelard baixar para um trote. Ele não tinha ideia de que outro grupo de inimigos estava a cavalo e estavam cavalgando pelo flanco e o cortaram na estrada principal que levava de volta para o feudo Redmont.
Pior ainda, esse segundo grupo tinha cães. Abelard os captou muito antes de Halt fazer. Ele viu as orelhas do pequeno cavalo levantarem um pouco e ouviu o relincho nervoso, de alerta. Um tremor percorreu o corpo do cavalo resistente. Halt pode senti-lo e soube que algo estava errado. Ele pediu Abelard para trotar uma vez mais, quando o sol mostrou-se acima da borda das árvores.
Então ele ouviu o latido e percebeu que seus perseguidores conseguiram ficar entre ele e a estrada. Ele girou a cabeça de Abelard de volta, na esperança de deixar eles para trás e retornar depois para a estrada. Foi quando o primeiro dos cães surgiu das árvores.
Aquele não era cão de perseguição. Ele corria em silêncio, não desperdiçando sua energia latindo e uivando para os outros. Este cão era um assassino. Um cão de guerra, treinado para perseguir silenciosamente, em seguida, atacar sem aviso ou piedade.
Era enorme, o seu pelo curto cinzento manchado de preto e os olhos vermelhos em chamas de ódio. Ele viu a sua presa e pulou em Abelard, se dirigindo para a garganta do cavalo com os seus dentes enormes.
Qualquer cavalo normal poderia ter congelado no terror ou recuado violentamente ao ataque repentino. Mas Abelard era um cavalo arqueiro, bem treinado, inteligente e corajoso. Ele girou em suas pernas traseiras e saltou para o lado, evitando a corrida desenfreada do monstro. No entanto, o fez com um mínimo de pânico e com a quantidade de movimento necessário. O instinto de Abelard, a cargo de longos anos de experiência, lhe disse que a sua melhor defesa estava com a figura sentada montado nele. E uma reação violenta repentina poderia derrubar seu cavaleiro.
As garras do cão passaram no ar vazio, perdendo a garganta do cavalo por poucos centímetros. Ele caiu no chão, girou e ficou tenso, pronto para saltar de novo. Agora, pela primeira vez, ele emitiu um som... um grunhido surdo profundo. Que foi cortado quase que instantaneamente pela primeira flecha de Halt. Para não errar a mira, o arqueiro esperou até que o cão tivesse levantado a cabeça para soar o desafio rosnado.
Abelard estava parado como pedra, dando a Halt uma plataforma estável. Então Halt atirou para a garganta, o impacto da flecha pesada, com os oitenta quilos do peso de seu arco para trás, enviando o cão para longe diagonalmente.
A segunda flecha, vindo alguns segundos depois da primeira, golpeou o rosnador assassino no coração, deixando-o cair morto de pedra.
Halt afagou o pescoço do cavalo. Ele sabia da força de vontade que Abelard tinha tomado para estar parado, permitindo-lhe atirar. Ele entendeu a profundidade da confiança do pequeno cavalo tinha acabado de colocar nele e ficou feliz que não tivesse desapontado seu velho amigo.
— Bom rapaz  disse ele calmamente. — Agora, vamos sair daqui.
Eles viraram, girando para o caminho por onde tinham vindo. O lugar era estranho para Halt e por enquanto tudo o que ele podia fazer era tentar colocar distância entre ele e os cães latindo – bem como quaisquer outros cães de guerra que poderiam estar perseguindo silenciosamente pela floresta atrás deles.
O latido ainda estava perto atrás deles quando eles saíram da cobertura pesada de árvores e começaram a subir uma ladeira. O chão estava coberto de arbustos altos, salpicados com afloramentos rochosos ocasionais e grama. Mas quando se aproximava do topo, Halt percebeu tarde demais, que tinha cometido um erro fatal. O que ele tinha pensado ser uma colina era um blefe – uma parte inclinada do terreno que estava gradativamente diminuindo e levava a um penhasco com vista para o fundo e largo rio.
Ele girou Abelard e começou a correr de volta para baixo da encosta. Mas não foi muito longe antes de ver movimento nas margens das árvores, na base do morro. Era tarde demais para voltar. Eles foram presos na metade do caminho. Enquanto observava, outra forma maciça cinza e preta se desvinculou do grupo e veio subindo a ladeira depois deles, a barriga perto do chão, dentes arreganhados em um enorme emaranhado assassino.
Abelard grunhiu um aviso.
— Eu o vi  Halt disse calmamente e o cavalo relaxou, sua fé absoluta em Halt.
Normalmente, Halt gostava de cães. Mas ele ia matar estes animais sem receio. Esse não era nenhum cão. Essa era uma máquina de matar impiedosa, pervertida pela sua formação extremamente cruel que procurava apenas matar e matar novamente.
O cão estava a cinquenta metros de distância quando Halt deslizou da sela, pegando uma flecha enquanto o fez. Ele deixou o voraz animal chegar mais perto. Trinta metros. Vinte e cinco.
Abelard relinchou levemente consternado. O que você está esperando?
— Acalme-se  Halt disse, e o cavalo relaxou.
Foi um tiro de morte instantânea. O cão correndo simplesmente entrou em colapso a meio passo, dobrou as pernas sob ele, deixando cair a cabeça, de modo que rolou várias vezes, seu impulso levando-o para a frente antes de parar. Uma parada mortal, Halt pensou sombrio.
Abelard relinchou novamente. Halt pensou que poderia detectar uma nota de satisfação no som, mas ele podia ter imaginado.
— Eu disse a você que sei o que estou fazendo  disse ele.
Mas então ele franziu a testa. Porque ele não tinha certeza do que ia fazer a seguir. Ele podia ver os homens emergindo das árvores, apontando para cima quando viram Abelard e ele próprio a meio caminho da encosta. Vários deles estavam carregando arcos e um deles começou a elevar o seu, uma flecha na corda.
Ele mal começou a pressionar quando uma flecha escura assobiou baixo e mandou-o rolando de volta para as árvores. Seus companheiros olharam o seu corpo sem vida, olharam novamente para a figura indistinta acima deles e viram que ele estava entalhando outra flecha. Como um, todos voltaram para a cobertura das árvores, tropeçando nos cães animados enquanto os vencia fora do caminho. A segunda flecha bateu, tremendo, no tronco de uma árvore na altura do peito. A mensagem era clara. Não se mostre se deseja manter-se com saúde.
Na confusão, nenhum deles viu a figura de capa camuflada levar seu cavalo para um amontoado de pedras. Quando olharam para trás, não havia nenhum sinal do homem ou cavalo.


O dia passava. O sol subiu no seu limite e começou a descer em direção ao horizonte ocidental. Mas os forasteiros ainda não podiam ver nenhum sinal da figura acima do monte. Eles sabiam que ele estava lá em algum lugar. Mas exatamente onde eles não tinham ideia. Havia pelo menos meia dúzia de pedras caídas que poderiam estar abrigando o estrangeiro e seu cavalo. E eles sabiam que se tentassem correr cegamente até o morro, pagariam por isso com suas vidas.
No meio da tarde, eles lançaram outro cão de guerra para ver se ele iria denunciar o arqueiro. O cão virou para trás e para frente, farejando o ar por alguns traços do homem e do cavalo. Em seguida, pegou um ligeiro aroma na brisa e começou a correr – sem remorsos, barriga no chão como todos de sua espécie.
Todos os olhos estavam sobre o cão conforme ele se estabeleceu em seu ataque. Isso foi um erro, pois ninguém viu de onde a flecha veio quando ela atingiu o cão e o mandou rolando morro abaixo, os olhos vidrados, língua para fora.
Subindo a inclinação, atrás de um amontoado de pedras de grandes dimensões, Halt olhou para onde Abelard estava deitado, as pernas dobradas debaixo dele para que ele estivesse completamente escondido da vista.
— Em Gálica — o arqueiro disse conversando — este poderia ser chamado de um impasse. Mas você deve saber disso. Você fala galês, depois de tudo.
Ele não esperava resposta do cavalo, é claro. Mas Abelard inclinou a cabeça com a fala Halt, gostando do som de sua voz.
— A questão é: o que vamos fazer agora?
Novamente, Abelard não tinha resposta. E pela primeira vez, nem Halt tinha. Ele sabia que quando a escuridão chegasse, poderia fazer o seu caminho até a ribanceira e deslizar através da linha de observadores. Mesmo os cães não seriam qualquer problema para ele. O vento tinha mudado de modo que soprava dos homens para ele. Eles não iriam pegar o seu cheiro até que ele estivesse passado deles.
Mas o problema era Abelard. Ele não podia esperar levar o cavalo com ele e evitar a detecção. Mesmo se os homens não os vissem, os cães certamente ouviriam algum ruído ligeiro de cascos no chão. Os cavalos de arqueiro eram treinados para agir em silêncio. Mas mesmo eles não podiam se mover tão silenciosamente como um arqueiro.
E Halt não ia deixar Abelard trás. Isso era impensável. Ele não tinha ideia se havia mais cães assassinos à espera lá embaixo na linha das árvores. Se houvesse, Abelard sozinho não teria a menor chance.
Ele considerou se deslocar para trás até se jogar para o precipício. Tinha visto o sinuoso rio abaixo da ribanceira, cerca de 20 metros abaixo. Se a água estivesse a uma profundidade suficiente, ele poderia sobreviver a um salto. Mas Abelard não. Ele era muito mais pesado do que Halt. Eles cairiam na mesma velocidade, mas a massa extra do cavalo significaria que ele iria atingir a água com força muito maior do que Halt iria. E ao contrário de seu mestre, Abelard não poderia racionalizar o seu corpo para reduzir o impacto quando atingisse a superfície da água. Ele iria pousar em sua barriga.
— Portanto, não podemos ir para cima e não podemos descer  falou Halt.
Abelard bufou. Você vai pensar em alguma coisa.
Halt levantou uma sobrancelha em sua direção.
— Não tenha tanta certeza  disse ele. — Se você descobrir alguma maneira, eu gostaria de ouvi-la.
O sol estava bem abaixo das copas das árvores a oeste no momento. A luz no local estava tornando-se incerta. Halt espiou por uma pequena fenda nas rochas. Não havia nenhum sinal de movimento abaixo.
— Ainda não  ele murmurou. — Nós veremos o que acontece quando estiver totalmente escuro.
Às vezes, pensava ele, tudo que se podia fazer é esperar. Este parecia ser um desses momentos.


Quando a noite caiu, ele descompactou um balde de lona dobrável de seu alforje e o encheu pela metade com água de um de seus cantis para que Abelard pudesse beber. Ele mesmo estava um pouco sedento, mas sentia que poderia esperar um pouco mais.
Ele ouviu atentamente os sons da noite que começavam a encher o ar. Rãs e um grilo persistente em algum lugar. O som ocasional de uma coruja caçando. De vez em quando, pequenos animais passando rápido através dos arbustos e da grama alta. Cada vez que Halt ouvia um som, ele olhava interrogativamente para Abelard. Mas o cavalo não mostrou nenhum sinal de interesse, de modo que Halt sabia que todos eram sons da natureza.
Ele esperava que os forasteiros fizessem algum tipo de sonda durante a noite. Essa era a razão pela qual ele escutava tão atentamente os sons de animais e pássaros. Ele estava sintonizando-se com o espectro de sons naturais ao seu redor, absorvendo o padrão de modo que algo estranho ou diferente se destacasse como um respingo de tinta sobre uma tela em branco.
Havia também outro motivo. Ele queria encontrar um som que não estava lá para que ele pudesse usá-lo como um sinal para Abelard. Ele ouviu atentamente por alguns minutos, então decidiu.
— Um martim-pescador  disse ele suavemente.
Estritamente falando, eles não eram aves noturnas. Mas às vezes se aproveitavam do fato de que os ratos e pequenos animais se sentiam livres para apressar-se em torno da escuridão. Se os inimigos deles ouvissem o som, poderia ser suspeito. Mas eles não podiam ter a certeza que não era um real martim-pescador se agitando.
Ele se moveu para Abelard e apontou para cima com a palma da mão. A posição reclinada e encolhida não era a mais confortável para o cavalo e ele reagiu com gratidão, ficando sobre seus pés. No escuro, havia pouca chance de serem vistos sobre as rochas.
Abelard ficou parado enquanto Halt se movia na direção dele. O arqueiro estendeu e alisou a textura macia do nariz do cavalo, acariciando-lhe três vezes. Então ele colocou as duas mãos em cada lado do focinho e olhou nos olhos do cavalo. Apertou as mãos duas vezes e viu as orelhas de Abelard levantarem. Era uma rotina de treinamento de longa data, uma das muitas compartilhadas por arqueiros e seus cavalos. Abelard sabia que Halt estava prestes a ensinar-lhe um som. E da próxima vez que Abelard ouvisse aquele som, seria esperado que reagisse a ele.
Suavemente, Halt emitiu o baixo gorgolejo de um martim-pescador. Foi uma boa aproximação da coisa real, mas não perfeito. Se um martim-pescador real passasse na área, Halt não queria Abelard se tornando confuso. A precisão auditiva do cavalo iria perceber a diferença entre a coisa real e a representação Halt. Um homem talvez não.
Os ouvidos Abelard foram para frente e para trás duas vezes em uma rápida sucessão – o seu sinal para Halt que ele tinha registrado o som. Halt afagou o focinho novamente.
— Bom rapaz  disse ele calmamente. — Agora relaxe.
Ele voltou ao seu ponto de observação entre as rochas. Havia uma fenda entre duas das maiores pedras onde podia se sentar, a cabeça e o rosto escondidos pelo capuz de sua capa, e observar a área escura da encosta abaixo dele. A lua não subiria por pelo menos quatro horas. Assumiu que o inimigo, se estava planejando tentar alguma coisa, iria fazer isso antes que o declive fosse banhado pelo luar.
De vez em quando Halt ouvia os latidos e rosnados silenciados dos cães enquanto eles lutavam entre si, em seguida, os gritos de seus treinadores para os silenciarem. Eles seriam os perseguidores, ele sabia. Os maciços, os cães de guerra que não faziam barulho. Eles foram treinados para não fazerem.
Ele considerou a possibilidade de que o inimigo pudesse liberar outro cão de guerra sob o manto da escuridão, mas decidiu que era pouco provável. Já tinham perdido três dos monstros para suas flechas e cães como esses não eram para ser desperdiçados com rapidez. Levaram-se anos para criar e treinar. Não, ele pensou, se o ataque viesse, seriam os homens que o lançariam. E antes que eles fizessem isso, teriam que explorar sua posição. Pelo menos era isso que Halt estava esperando.
Ele estava começando a ver o primeiro vislumbre de uma saída para este dilema. Com cuidado, colocou seu arco e aljava ao lado das pedras. Ele não iria precisar deles. Qualquer confronto durante a noite seria de perto. Chegou perto de seu alforje e encontrou seus dois strikers.
Estas eram armas únicas de arqueiro. Eram cilindros de metal do tamanho de uma mão com um botão de chumbo ponderado em cada extremidade. Quando fechado em um punho, os strikers transformavam a mão em uma arma sólida e firme, com o empréstimo de peso e mais força para um soco. Eles também podiam ser cortados, formando uma clava de arremesso que tinha o mesmo equilíbrio de uma faca de caça de arqueiro.
Ele deslizou os dois cilindros pesados no bolso lateral da túnica.
— Fique aqui  ele disse a Abelard, apesar de não haver necessidade de fazê-lo.
Depois, de barriga para o chão, usando os joelhos e cotovelos para impulsionar, ele escorregou para fora da cobertura das rochas e moveu-se para baixo. Trinta metros abaixo do local onde ele tinha se escondido, ele parou, tornando-se quase invisível sob seu manto logo que parou de se mover.
Agora tudo o que tinha a fazer era esperar. Ele pensou ironicamente que tinha passado grande parte de sua vida à espera em situações como esta.
“Então você deveria estar pronto para isso agora”, pensou.

4 comentários:

  1. Um pequeno erro
    " Ele esperava que os forasteiros fizessem algum tipo de sonda (ronda) durante a noite."

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Corrigido, obrigada, David :)

      Excluir
    2. Na vdd "sonda" está certo
      Ronda é oa vigilia revesada entre companheiros de Acamp. E sonda é um ataque com o objetivo de descobrir novos elementos

      Excluir
  2. Eu que te agradeço pelo seu maravilhoso blog.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)