29 de dezembro de 2016

Capítulo 7

As duas flechas, uma um pouco à frente da outra, arquearam longe no céu cinzento.
Horace, observando seu voo, perdeu-as de vista contra as nuvens. Ele estava consciente do fato de que Halt e Will já tinham preparado novas flechas e estavam prontos para o próximo tiro.
Então, os olhos atentos na figura corpulenta na popa do Garra, pegou um pequeno movimento quando as duas flechas caíram. Ele não poderia dizer qual flecha atingiu O’Malley. Halt era um ótimo arqueiro, Horace sabia, mas Will era tão bom quanto.
Uma flecha bateu no baluarte e ficou tremendo a pelo menos um metro do leme. A outra se enterrou dolorosamente na parte carnuda do braço esquerdo de O’Malley – o lado que estava virado para eles.
Com o barulho do vento e do mar, Horace não pôde ouvir o grito de dor do contrabandista. Mas ele o viu cambaleando, soltando o leme e segurando o braço esquerdo ferido.
O efeito sobre o Garra foi quase instantâneo e desastroso. Livre da pressão do leme que o equilibrava, o barco de repente foi empurrado a favor do vento, e a vela quadrada arqueou e as cordas estalaram como cordas de uma harpa superesticadas com o aumento da pressão, enquanto a força vinha agora da popa fora de controle. O balançar do navio atirou O’Malley para o convés. Ao mesmo tempo, vários remadores falharam completamente o golpe dos remos na água e caíram para trás nos bancos. Um remo caiu do barco. Vários outros embaralharam com seus vizinhos. O resultado foi caos.
O balanço preciso das forças que Halt havia observado foi totalmente interrompido.
O Garra oscilava com a força do vento, já passando pela popa do Sparrow, correndo loucamente em direção às águas em ebulição do Recife da Paliçada.
Um dos tripulantes estava cambaleando através da plataforma de mergulho, indo para a cana do leme, que estava se debatendo para trás e para frente, fora de controle.
― Pare ele, Will — Halt disse brevemente.
Eles atravessaram para o lado oposto da plataforma, onde tinham uma visão mais clara do navio contrabandista fora de controle. Novamente eles atiraram. Desta vez, as duas flechas encontraram seu alvo e o homem caiu para frente, rolando nos embornais enquanto o navio se inclinava.
O capitão do Sparrow assistiu de boca aberta.
— Ninguém pode atirar assim — ele disse suavemente.
Horace, ao lado dele se permitiu um sorriso sem humor.
— Esses dois podem — disse.
A bordo do Garra, a equipe percebeu que era tarde demais para salvar o navio, que ia à direção dos recifes. Eles começaram a disputar entre si para chegar à proa, tentando instintivamente evitar o primeiro ponto de impacto. O navio descontrolado atingiu a primeira das rochas, escondida debaixo da água espumante. Houve um estrondo e o navio estremeceu, seus movimentos controlados por um momento pela rocha que os havia parado. O mastro se curvou para frente sob o súbito impacto, em seguida, quebrou um metro acima do convés. Ele desabou sobre o navio em um emaranhado de cordas, lona e madeira lascada, esmagando e prendendo alguns que tinham sido apanhados por baixo. O peso extra de um lado levantou o navio e isso pareceu libertá-lo momentaneamente das garras da primeira pedra. Ele subiu, cambaleou no emaranhado do recife e bateu com força contra outra irregular massa preta que saia do mar. Uma onda quebrou sobre o casco e vários dos homens a bordo foram varridos para o mar.
Halt e Will tinham abaixado seus arcos.
O arqueiro barbudo virou-se agora para o capitão.
— Nós devemos fazer algo para ajudá-los — disse.
O capitão sacudiu a cabeça com medo.
— Eu não posso levar meu barco para tão perto dos recifes! — protestou ele.
— Não estou sugerindo que faça isso. Mas nós poderíamos lançar alguns barris no mar para ajudá-los. Pode dar-lhes uma chance.
Halt olhou friamente de volta para o navio naufragado.
— O que é mais do que eles nos dariam.
Horace balançou a cabeça sério. A visão do Garra, tão recentemente rápido e ágil como uma criatura do mar, agora se transformou em um naufrágio, estilhaçado e indefeso, era um fato terrível. Mas ele sabia que os homens a bordo estavam dispostos a dar a ele, a seus amigos e a tripulação do Sparrow, exatamente o mesmo destino.
Em uma palavra do capitão, alguns dos tripulantes do Sparrow deixaram os remos e começaram a colocar barris vazios sobre o trilho e Horace moveu-se para ajudá-los. No momento seguinte, uma linha de barris flutuantes estava descendo em direção ao navio afundando.
O capitão virou-se para Halt, com medo em seus olhos.
― Eu preciso de meus homens agora para voltar aos remos — disse ele — ou vamos nos juntar a eles no recife.
Halt assentiu.
— Nós fizemos tudo o que podíamos. Vamos sair daqui.
Os marinheiros voltaram aos seus bancos e começaram as alçadas nos remos novamente.
Lentamente, o Sparrow começou a arrastar-se para longe do terrível recife. Mas foi por um triz. Uma das pedras irregulares passou a poucos metros da proa e desapareceu escondida pelo baluarte, ressurgindo na popa à medida que iam navegando para frente.
Horace estremeceu ao vê-la. Ele não tinha ideia de como chegaram tão perto. Em sua mente, ele podia ver o Sparrow de repente se esmagando contra a rocha, preso contra ela pelo vento, depois girando ao redor, com seu mastro desabando sob o choque, os homens sendo jogado em todas as direções, conforme as ondas cinzentas quebravam acima do convés. Ele afastou a imagem para longe de seu pensamento, enquanto o navio se afastava em segurança. Então sentiu uma sensação estranha quando o vento que batia em sua bochecha direita vacilou e morreu, sendo substituído por uma rajada de vento vinda da esquerda, depois mais outra, então se tornou uma brisa constante. Eles chegaram ao back-lift!
— Vamos agora! — o capitão estava gritando e a equipe deixou os remos e correu para as adriças.
A vela grande começou a balançar pesadamente, em seguida, com um estalo se encheu ao contrário. Como se ela estivesse ciente do perigo que tinha acabado de enfrentar, o Sparrow se afastou em gratidão para longe do recife.


Eles pararam o navio na margem sul da foz do largo rio, passando a proa sobre a areia para que o navio diminuísse gradualmente sua parada. Enquanto a equipe montava uma tipoia no mastro para rebocar os três cavalos a terra, o capitão confrontou Halt.
― Você deveria ter me avisado — disse ele em tom acusador. ― Deveria ter me dito que O’Malley era seu inimigo.
Surpreendentemente, Halt apenas balançou a cabeça.
— Você está certo — respondeu. — Mas eu sabia que você nunca iria nos levar se eu contasse e eu precisava chegar até aqui.
O capitão sacudiu a cabeça e começou a dizer algo mais. Em seguida, ele hesitou, lembrando-se da habilidade incomum dos dois arqueiros quando eles tinham enviado suas flechas cruzando a água para o navio do contrabandista. Talvez ele não pudesse mostrar muita indignação com esses homens, ele pensou.
Halt viu a luta em seu rosto e tocou em seu braço levemente. Ele entendeu os sentimentos do homem e admitiu para si mesmo que tinha usado ele e sua tripulação e colocado todos em perigo.
— Eu te pago mais — disse ele se desculpando. — Mas preciso de todo o ouro que me resta.
Ele pensou por um momento, então falou:
― Traga-me um tinteiro e papel.
O capitão hesitou por um momento, até que Halt lhe deu um aceno de cabeça e ele desapareceu dentro da baixa cabine na popa. Passaram vários minutos antes que ele surgisse, com uma folha áspera de gumes de pergaminho e uma pena tinteira de escrever. Ele não fazia ideia do que Halt pretendia e sua expressão mostrava isso.
Halt pegou os instrumentos de escrita, olhou em volta por um lugar onde apoiar o papel e viu o cabrestante na proa do navio. Caminhou até ele, o capitão seguiu-o curiosamente, então Halt espalhou o papel na superfície plana de madeira. A parte superior do tinteiro estava presa no lugar por tinta seca e levou alguns segundos para soltá-la.
— Qual é seu nome? — ele disse de repente.
A questão tomou o capitão de surpresa.
— Keelty. Ardel Keelty.
Halt pensou por um segundo ou dois, então escreveu rapidamente. Cobriu o pergaminho fino com meia dúzia de linhas, recostou-se para ler o que tinha escrito com a cabeça em um pequeno ângulo, em seguida assentiu satisfeito. Ele assinou a folha com um floreio e o balançou no ar para permitir a secagem da tinta. Então ele entregou ao capitão, que olhou para aquilo e encolheu os ombros.
— Eu não sou bom em leitura — disse ele.
Halt assentiu. Isso explicava o tempo que Keelty tinha levado para encontrar o papel e a pena, bem como o estado do tinteiro. Ele pegou o papel e leu em voz alta.
― O Capitão Keelty e a tripulação do navio Sparrow, foram fundamentais para a tomada e o afundamento do notório navio pirata e de contrabando chamado Garra, ao largo da costa de Picta. Eu peço que a esses homens seja dada uma recompensa adequada dos cofres reais. Assinado Halt, Arqueiro de Araluen.
Ele olhou para cima, e acrescentou:
— É dirigida ao rei Sean. Apresente-o isso para ele e fará valer o seu tempo.
O capitão rosnou ironicamente quando Halt entregou-lhe novamente a folha.
— Rei Sean? Nunca ouvi falar dele. Ferris é o rei de Clonmel.
— Ferris está morto — Horace acrescentou.
Ele queria poupar Halt da angústia de discutir a morte de seu irmão.
— Estamos seguindo os homens que o mataram. Seu sobrinho Sean assumiu o trono.
O capitão virou-se para Horace. Ele ficou um tanto surpreso com a notícia da morte do rei. Baía Fingle ficava a um longo caminho a partir da capital, depois de tudo. Ele olhou com ceticismo para as palavras que Halt havia escrito.
— Então, se ele morreu — disse ele — porque é que este novo rei daria alguma atenção a você?
— Porque ele é meu sobrinho — Halt disse.
Seus olhos escuros queimavam nos de Keelty e o capitão soube instintivamente que ele estava dizendo a verdade. Então um pensamento ainda o feria.
― Mas você disse... Ele era sobrinho de Ferris? — falou. — Então isso significa que você é... — ele parou, não tinha certeza se a sua linha de pensamento estava correta, pensando se havia perdido alguma coisa.
— Isso significa que eu estou interessado em sair desta banheira com cheiro de esgoto e continuar meu caminho — Halt disse rapidamente.
Ele olhou em volta, viu que Will tinha trazido suas bagagens e as selas de cima dos pequenos beliches que eles haviam partilhado. Ele acenou com gratidão e moveu-se para a proa. Os marinheiros tinham colocado uma escada de mão para que os três passageiros pudessem descer pela queda de dois metros até a areia com mais facilidade.
Halt balançou a perna por cima da amurada e olhou para Keelty, que estava com a folha de papel tremulando ao vento.
— Não perca isso — advertiu ele.
Keelty, ainda de boca aberta enquanto ele tentava juntar todos os fatos, assentiu distraidamente.
— Eu não vou.
Halt olhou para seus dois companheiros.
— Vamos — disse ele e desceu ligeiramente pela escada até a areia.
Ele ficou grato com a sensação do chão sob seus pés mais uma vez.

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