29 de dezembro de 2016

Capítulo 6

— Seu amigo não parece muito feliz.
O comandante do navio cutucou Will com o cotovelo e fez um gesto com um sorriso para a figura encolhida na proa do Sparrow, encostado ao baluarte com o capuz jogado por cima da sua cabeça.
Era um dia nublado, com vento soprando em cima deles do sudeste e as ondas agitadas imprevisíveis surgindo a partir do norte. O vento soprava o topo das ondas e as arremessava de volta para o navio que mergulhava e era arremessado contra o mar cinzento.
— Ele vai ficar bem — Will disse.
Mas o comandante do navio parecia estar excepcionalmente divertido, só de pensar que alguém sofria de enjoo num navio. Will pensou que talvez isso lhe desse um sentimento de superioridade.
— Nunca falha — o capitão continuou alegremente. — Em terra, esses tipos são fortes e quietos, mas se transformam em rostos verdes e gritam como bebês uma vez que sentem o movimento do navio, balançando uma ou duas polegadas debaixo de seus pés.
Na verdade, o Sparrow estava balançando muito mais do que isso. Ele estava mergulhando, saltando e lutando contra as forças opostas do vento e das ondas.
— Aquelas pedras são um problema? — Horace perguntou, apontando para onde uma fileira de pedras se projetava do mar. Conforme cada nova onda passava por elas, a água parecia ferver por causa da espuma que formava. Estavam a várias centenas de metros a bombordo do navio e o vento os empurrava na diagonal em direção as pedras.
O capitão considerou a linha de pedras enquanto elas desapareciam e reapareciam com o movimento das ondas.
— Aquele é o Recife da Paliçada — disse a eles.
Ele apertou um pouco os olhos, medindo as distâncias e ângulos em sua mente, vendo que a situação não mudou desde a última vez que ele tinha verificado – que tinha sido apenas alguns minutos atrás.
— Parece que estamos chegando cada vez mais próximo dele — disse Horace. — Ouvi dizer que não é uma boa ideia.
— Nós vamos chegar perto, mas vamos resistir bem — respondeu o capitão. — As pessoas da terra como você, sempre ficam um pouco nervosos ao ver o Recife Paliçada.
— Eu não estou nervoso — Horace disse a ele. Mas o tom duro da sua voz desmentia suas palavras. ― Eu só queria ter certeza de que sabe o que está fazendo.
— Bem, agora meu rapaz, olhe para lá, por isso que nós colocamos os remos para fora. A vela está impulsionando o barco, mas a força do vento está nos enviando para perto do recife. Com a força dos remos, conseguimos corrigir nosso curso tempo suficiente para nós chegarmos ao back-lift.
― O back-lift? — Will perguntou. — O que é isso?
― Vê como a linha de recifes corre para a ponta do Paredão? ― O capitão disse a ele, apontando.
Will assentiu com a cabeça. Ele podia ver a linha de águas turbulentas que marcavam o recife. Ela corria do pé do pontal para o noroeste – o Paredão de Linkeith.
― E vê como o vento está vindo por cima do meu ombro aqui, nos empurrando para o recife propriamente dito?
Mais uma vez, Will assentiu.
― Bem, os remos nos manterão longe o suficiente para o leste, a fim de evitar o recife. Assim poderemos chegar mais perto do paredão. O vento vai bater nele e voltar nos empurrando para a rota correta – isso é o back-lift. Com esse efeito inverso, o vento nos soprará para longe dos recifes. Depois, só faltará uma simples corrida por mais alguns quilômetros, abaixo da baía até a foz do rio. Teremos que continuar remando, porque o back-lift só vai durar por algumas centenas de metros, o suficiente para nos tirar do recife.
— Interessante — Will disse pensativo, estudando a situação e avaliando as distâncias e os ângulos por si próprio.
Agora que ele entendeu o processo, podia ver que o Sparrow passaria tranquilamente pelo fim do recife conforme tivessem passado pelo paredão. O capitão poderia ter falta de sensibilidade, mas ele parecia conhecer o seu negócio.
― Talvez eu deva ir até o seu amigo e mostrar o recife — disse o capitão sorrindo. — Isso vai ser uma boa piada. Aposto que ele ainda não viu.
Ele riu de sua própria sagacidade.
— Eu vou ficar olhando, enquanto você faz isso?
O capitão assumiu uma aparência preocupada, franzindo as sobrancelhas e fingindo mastigar suas unhas. Will o considerou friamente.
― Você até pode fazer— ele concordou. E acrescentou: — Diga-me, o seu primeiro imediato é um bom marinheiro?
— Bem, é claro que ele é! Eu não o traria comigo, se não fosse — respondeu o capitão. ― Por que você pergunta?
— Nós podemos precisar dele para levar o navio, quando Halt jogar você ao mar — Will respondeu suavemente.
O capitão começou a rir, então viu o olhar no rosto de Will e parou indeciso.
— Halt torna-se muito mal-humorado quando está enjoado — Will disse. — Particularmente quando as pessoas tentam fazer piada dele.
— Especialmente quando as pessoas tentam fazer piada dele — Horace acrescentou.
O capitão de repente, não parecia tão seguro de si.
— Eu estava só brincando.
Will balançou a cabeça.
— Foi assim com aquele escandinavo que riu dele. — Ele olhou para Horace. — Lembra-se do que Halt fez com ele?
Horace assentiu com seriedade.
― Não foi bonito.
O capitão olhava agora de um para o outro. Ele negociou com os escandinavos ao longo dos anos. A maioria dos marinheiros negociava. E ele nunca encontrou alguém que os superasse.
— O que ele fez? Seu amigo eu quero dizer? —ele perguntou.
— Ele vomitou no capacete dele — Will disse.
— E vomitou bastante — Horace acrescentou.
A mandíbula do capitão caiu enquanto tentava imaginar a cena. Will e Horace não se preocuparam em explicar que na época Halt estava usando o capacete emprestado, nem que ele estava sob a proteção do enorme Erak, futuro oberjarl dos escandinavos. Portanto, o comandante partiu do princípio, que o homem de barba grisalha que estava na proa tinha arrancado o capacete de uma gigante cabeça de um escandinavo e vomitado dentro dela – uma ação que normalmente seria equivalente ao suicídio.
— E o escandinavo? O que ele fez?
Will deu de ombros.
— Ele se desculpou. O que mais ele poderia fazer?
O capitão olhou de Will para Halt e voltou para Will. O rosto do jovem estava sério, sem nenhum sinal de que ele estava brincando com o capitão. O capitão engoliu várias vezes, então decidiu que mesmo que estivesse sendo enganado, talvez fosse mais sensato deixar Halt sofrer seu enjoo em paz.
― Vela!
O grito veio do olheiro no mastro. Instintivamente, todos os três olharam para ele. Ele estava apontando para trás, o braço estendido para o sudeste. Depois moveram suas cabeças para olhar aonde o braço apontava. Havia um rápido movimento no mar por entre a neblina mais adiante. Conforme olhavam, uma forma escura começou a surgir saindo dela, mantendo um firme curso.
— Você pode vê-lo? — gritou o capitão.
O vigia protegeu os olhos, olhando mais atentamente para o navio distante.
— Seis remos um lado... e uma forma quadrada. Ele está vindo para cima de nós rapidamente. Parece que vai nos alcançar!
O navio estranho estava velejando com o vento por trás e remando fortemente também. Aquele navio era capaz de apontar para um ponto na frente do Sparrow e alcançá-lo antes deles. Não havia nenhuma maneira que eles poderiam evitar.
— Você pode ver quem é? — repetiu o capitão.
Houve um momento de hesitação.
— Eu acho que é o Garra. O navio do Black O’Malley! — o vigia gritou.
Will e Horace trocaram um olhar preocupado.
— Então Halt estava certo — Will disse.
Pela manhã, após o confronto com O’Malley na taverna, Halt despertou os seus dois companheiros mais cedo.
— Vistam-se — disse-lhes brevemente. — Nós vamos voltar para a Baía Fingle.
— E o café da manhã? — Horace perguntou irritado, sabendo qual resposta viria.
— Nós vamos comer no caminho.
— Eu odeio quando comemos no caminho — Horace resmungou. — Isso é terrível para minha digestão.
No entanto, ele era um militar experiente. Vestiu-se rapidamente, organizou suas coisas e guardou a sua espada. Will estava pronto alguns segundos depois dele. Halt olhou-os, verificando se eles tinham todos os seus equipamentos.
— Vamos — disse ele e liderou o caminho para baixo das escadas.
Ele pagou o estalajadeiro pela sua estadia e fizeram seu caminho para os estábulos. Os cavalos relincharam uma saudação conforme entraram.
— Halt — Will perguntou quando eles já estavam na estrada — por que Baía Fingle?
— Precisamos de um navio — Halt disse.
Will olhou por cima do ombro, para a cidade de onde tinham acabado de sair. Eles estavam quase no topo da colina e a floresta de mastros era claramente visível.
— Há navios aqui — ele ressaltou e Halt olhou de soslaio.
— Claro que sim — ele concordou. — E O’Malley está aqui também. Ele já sabe para onde estamos indo. Eu não quero que ele saiba quando iremos.
— Você acha que ele vai tentar nos impedir, Halt? — Horace perguntou.
O arqueiro assentiu.
― Acho que vai. Na verdade, eu tenho certeza que ele vai. Mas se ele não souber quando partimos, significa que podemos ganhar tempo. Além disso, os comandantes na Baía Fingle são um pouco mais honestos do que aquele ninho de ladrões e contrabandistas.
— Mas só um pouco? — Will perguntou escondendo um sorriso.
Ele sabia Halt tinha uma má opinião dos comandantes em geral – provavelmente, devido ao fato de que ele odiava viajar pelo mar.
— Nenhum comandante é muito honesto — Halt respondeu severamente.
Na Baía Fingle, eles contrataram o capitão do Sparrow, um mercador sorridente com espaço suficiente para eles e seus três cavalos. Quando o capitão ouviu o seu destino, ele franziu a testa.
— Craiskill River? — disse ele. ― Um antro de contrabandistas. Ainda assim, é um bom local para desembarcar. Provavelmente porque os contrabandistas o usam com tanta frequência. Eu vou querer um extra se vamos para lá.
― De acordo — disse Halt.
Ele sentiu que era razoável pagar o homem pelo risco que ia assumir. Mas o extra não foi tão bom como o capitão queria para que o risco valesse à pena. Eventualmente, eles acordaram um valor e Halt o pagou. Então, ele acrescentou mais três pedaços de ouro na pilha, em cima da mesa na frente deles.
O capitão levantou os olhos para ele.
— O que é isso?
Halt empurrou o dinheiro para ele.
— Isso é para você manter a boca fechada — disse ele. — Eu gostaria de sair depois de escurecer e não quero que as pessoas saibam para onde estamos indo.
O comandante deu de ombros.
— Meus lábios estão selados — disse ele, em seguida, virando-se, gritou uma coleção de palavrões e instruções para um grupo de tripulantes que estavam carregando barris no porão do navio.
Will sorriu.
— É muito barulho para alguém que vai ficar de boca fechada — observou ele.
Agora, lá estavam eles, a poucos quilômetros de seu destino e O’Malley tinha os encontrado.
O navio de O’Malley navio era mais rápido e mais navegável. Ele foi projetado para vencer os navios do rei, enviados para interceptá-lo. E levava um grupo maior de homens do que o Sparrow. Will podia ver suas cabeças que se alinhavam no baluarte e enxergar ocasionalmente o brilho das armas. Na proa elevada, ele poderia ver até O’Malley, esforçando-se no leme para manter o Garra no curso.
— Nós não podemos vencê-los, podemos?
Will se assustou em surpresa com a voz de Halt, logo atrás dele. Ele se virou para ver que o arqueiro tinha deixado seu posto na proa e estava agora olhando o navio que os perseguia. Estava pálido, mas parecia no controle de si mesmo.
Anos atrás, na longa viagem para Hallasholm, Will se lembrou de discutir sobre o enjoo com Svengal, o primeiro imediato de Erak.
― Você precisa de algo para desviar sua mente — o escandinavo corpulento lhe tinha dito. — Quando se tem algo para distraí-lo, não tem tempo para ficar enjoado.
Parecia que ele estava certo. A atenção de Halt estava fixa no barco do contrabandista, que vinha por trás deles. Ele parecia ter esquecido seu estômago embrulhado.
O capitão estava balançando a cabeça em resposta à pergunta de Halt.
― Não. Nós não podemos vencê-los. É mais rápido do que nós e com aquele barco ele pode aproveitar mais o vento do que eu. Ele quer nos empurrar para baixo em direção ao recife ou...
Ele parou, não gostando da alternativa.
— Ou o quê? — Horace perguntou.
Ele soltou a espada na bainha. Ele também tinha visto os homens armados a bordo do Garra.
— Ou então ele virá para cima de nós. A proa do seu navio é reforçada. O boato é que ele já afundou mais de um navio desse jeito. — Ele olhou para Halt. — Se você tivesse me dito que O’Malley viria atrás de você, eu nunca o teria trazido a bordo.
A mais leve sugestão de um sorriso tocou o rosto pálido de Halt.
— É por isso que eu não te disse — falou. ― Então o que você pretende fazer?
O capitão encolheu os ombros impotente.
— O que posso fazer? Eu não posso fugir dele. Não é possível lutar contra ele e não podemos nem sequer te entregar. Ele não deixaria testemunhas. Nós apenas vamos ficar aqui e esperar que ele nos afunde.
Halt levantou uma sobrancelha.
— Eu creio que podemos fazer um pouco melhor do que isso — disse ele. — Deixe-o chegar um pouco mais perto.
O capitão encolheu os ombros.
— Eu não posso impedi-lo de chegar um pouco mais perto. — E acrescentou: ― O que você vai fazer?
Halt estava retirando o arco que estava sobre seu ombro esquerdo. Ao mesmo tempo, ele levou a mão a alijava no seu ombro direito e pegou uma flecha. Will, vendo o movimento, retirou seu próprio arco.
— Uma ou duas flechas não vão parar o navio — o capitão disse.
Halt o encarou com alguma curiosidade.
— Eu perguntei o que você pretendia fazer. Aparentemente você ficou contente em esperar aqui, enquanto O’Malley nos arrebenta, nos afunda e nos deixa afogar.
O capitão se mexeu desconfortavelmente.
— Podemos chegar à praia — disse ele. — Posso jogar barris vazios e madeira para aliviar o peso. Poderíamos ser capazes de chegar à praia.
— O mais provável é que vamos ser arrastados para o recife — disse Halt.
Mas ele não estava olhando para o capitão. Ele aproximou-se do parapeito e tinha uma flecha pressionada na corda. Seus olhos estavam fixos na figura ao leme do Garra. O’Malley tinha os pés apoiados e afastados conforme ele controlava o leme, segurando o navio contra o vento lateral, mantendo pressão nas velas e ao mesmo tempo sua tripulação remando.
O navio inteiro estava em um delicado estado de equilíbrio. Vento, remos e leme, criando um triângulo de forças em conflito, que resultava no navio seguir rapidamente ao encontro deles. Halt sabia que se um desses elementos fosse perturbado, o resultado seria alguns momentos de caos, conforme as forças restantes tomassem conta da situação.
Ele aferiu a distância e os movimentos do navio sob seus pés. Estranho, agora que ele estava se concentrando no problema de acertar esse tiro, a náusea causada por este movimento tinha diminuído. Ele franziu a testa. O Garra estava subindo e descendo também. Ele teria que pensar nesse fator para o cálculo do tiro. Sentiu Will ao se lado, com o arco pronto.
— Bom rapaz — disse ele. ― Quando eu der o sinal, nós dois vamos atirar.
— Eu lhe disse — exclamou o capitão. — Um par de flechas não vai parar esse navio. Temos poucas chances como está agora. Se você hostilizar O’Malley, ele vai se certificar de que todos nós estejamos mortos antes que vá embora.
— A meu modo de ver — Halt disse ― ele não vai embora. Tudo bem Will. Agora!
Como se eles estivessem ligados por uma força invisível, os dois arqueiros levantaram seus arcos, puxaram, miraram e atiraram. As duas flechas cortaram o ar, meio segundo de diferença uma da outra.

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