9 de dezembro de 2016

Capítulo 6

O hotel era chamado de Jayavarman – Durma Aqui, nomeado por causa de uma famosa linhagem de antigos reis de Khmer. Não havia roupões de banho macios e chinelos, e não havia necessidade disso.
Também não havia piscinas e ar-condicionado, por isso estava quente para roupa extra.
Atticus o descrevia como “uma cama e café da manhã tirando o café e a cama”. Eles dormiram em esteiras de bambu no chão. Cada vez que alguém se mexia, o som parecia como um vasto exército de formigas marchando em uníssono. Havia poucos móveis e não tinha TV.
Mas era limpo, espaçoso, e relativamente livre de insetos, graças aos mosquiteiros presentes em todos os lugares. Melhor ainda, a proprietária, a Sra. Bopha, falava nenhuma das línguas conhecidas pela humanidade, nem mesmo por Atticus. Ela não podia trair a localização dos Cahill mesmo se Galt Pierce a encontrasse e a interrogasse pessoalmente.
— É perfeito — declarou Amy. — O mundo inteiro acha que somos garotos ricos bem tratados. Este é o último lugar que alguém iria procurar por nós.
— Ninguém iria procurar no esgoto, tampouco — Dan apontou amargamente. — Isso não significa que devemos começar a ficar lá.
— Olhe para isso — Ian estava sentado de pernas cruzadas em seu tapete de dormir, olhando para o computador com perplexidade. — O que for que Pony estava rastreando, está aqui em Siem Reap. — Ele virou a tela de modo que eles pudessem ver claramente o ponto brilhante se movendo pelas ruas.
— Isso não fica longe daqui — Dan observou. — Talvez devêssemos dar uma olhada.
— Não tão rápido — Jake ressaltou. — E se for Galt e Cara?
A porta se abriu e Hamilton e Jonah entraram, pingando em seus trajes de banho, atirando toalhas um no outro e molhando todo o quarto.
Ian fechou o laptop.
 —Selvagens! Se esse computador estragar, em seguida, onde estaremos? Em Tonle Sap, sem rumo, é onde estaremos!
— Esse chuveiro é impressionante, yo! — Jonah gargalhou.
— É uma tenda ao ar livre com um balde de água em um suporte giratório — Hamilton revelou. — Quando você puxa a corda, ele despeja tudo em você!
— Eu estava pensando em colocar uma piscina de ondas artificiais na minha casa em LA — acrescentou Jonah. — Mas talvez eu só faça um desses. Vou economizar uma fortuna! Me lembre de enviar uma foto para meu arquiteto.
Dan e Atticus trocaram um olhar significativo.
Imediatamente, eles estavam pegando suas roupas de banho das mochilas e correndo para a porta.
— Devemos ir atrás deles? — Jake perguntou a Amy. — Nós realmente precisamos trabalhar.
— Deixe-os ter um pouco de diversão — Amy respondeu com um sorriso triste. — O problema com toda a coisa Cahill é que isso rouba a sua infância.
E alguns de nós podemos não estar vivos tempo suficiente para nos tornar adultos.

* * *

Quarenta e três quilômetros a leste da costa do Maine, uma verdadeira joia da Nova Inglaterra surgia das ondas. Originalmente conhecida como Shattuck’s Folly, a ilha tinha sido rebatizada como Pierce Landing pelo novo proprietário, J. Rutherford Pierce. Ele queria chamar de Pierceland, mas sua equipe política o aconselhara contra isso. Pareceria antiamericano, segundo eles, criar o que soava como um país privado às portas dos Estados Unidos.
Claro, se Rutherford fizesse de seu modo, todo os EUA e o resto do mundo, também, seria Pierceland em breve, refletiu Debi Ann Pierce enquanto as câmeras do 60 Minutes gravavam.
Rutherford não revelou nada disso para o repórter, é claro. Tecnicamente, ele não era nem mesmo um candidato a presidente ainda.
— Bem, Steve — ele falou suavemente, — eu não estou pronto para falar sobre o meu futuro no momento. Mas todo o país está convidado para vir a Pierce Landing no quinze de maio para o meu churrasco-de-amêijoas americano, dia em que revelarei os meus planos — ele riu. — Eu gostaria de poder acolher todos os cidadãos aqui na ilha. Mas isso ficaria um pouco apertado, mesmo para esse velho e grande lugar. Assim, peço a todos que nos assistam na TV. Nós faremos grandes coisas juntos, a América e eu, porque essa terra é nossa terra...
Logo atrás das câmeras, em uma pequena área de estar, Debi Ann costurava um nariz de botão em um de seus ursos de pelúcia artesanais. Outra entrevista, ela pensou com um suspiro. Já eram três por dia agora. Ela só podia imaginar quantas haveriam após o grande anúncio do marido. Uma vez que ele fosse oficialmente o candidato Patriota a presidente, sua agenda ficaria ainda mais frenética, e ele teria pouco tempo para ela e as crianças. Ela tinha que aceitar isso como o destino de uma mulher de um grande estadista.
Ela cortou a última linha, enfiou a agulha em sua almofada de alfinetes, e sentou-se para admirar seu trabalho manual. Havia uma qualidade atemporal em seus ursos de pelúcia. Eles diferiram muito pouco dos seus primeiros, criados durante o tempo de Teddy Roosevelt. Era emocionante considerar que ela e sua família poderiam em breve estar vivendo na mesma Casa Branca outrora lar do grande homem.
Ela levantou-se para encontra um lugar para seu novo urso em seu gabinete. Ela franziu a testa.
Já estava bastante cheio. Rutherford era tão ocupado, e Galt e Cara estavam viajando também. Tinham deixado Debi Ann muito sozinha – e sua produção de ursos aumentara.
Enquanto ela começava a arrumar suas criações para liberar espaço, um livro encadernado em couro escorregou de trás de um urso preto e caiu aos seu pés no chão.
O que era isso? Apanhou-o, notando suas páginas amareladas e o cheiro de mofo. Na capa interna lia-se:

Olivia Behan Cahill
Livro de cuidados domésticos
Anno Domini 1499

Olivia Cahill! Debi Ann experimentou um arrepio de excitação com a enormidade desta descoberta. Olivia era a matriarca de toda a família Cahill! A esposa de Gideon! Mãe de Luke, Katherine, Thomas, Jane e Madeleine!
A família de Debi Ann – os Starling – fazia parte do brilhante ramo Ekaterina, descendente de Katherine. Como este tesouro da história Cahill viera parar em seu gabinete, escondido entre seus ursos?
Apenas uma pessoa poderia ter colocado lá – Rutherford. Ele não era um Cahill. Por que possuía tal item?
Ela começou a folhear as páginas quebradiças, incapaz de dar sentido a mais de uma ou duas palavras. Havia Post-its aqui e ali, e aqueles certamente não vinham de 1499. Eram em sua maioria perguntas, escritas na inconfundível caligrafia grossa de Rutherford: Levar ao criptógrafo... significa atrás do poema?... locais para checar outra vez...
E o que fez seu coração bater um pouco mais rápido: ligado a Hope?
 Hope Cahill, filha da lendária Grace. O próximo pensamento a fez estremecer, mesmo depois de todos esses anos. Rutherford tinha sido loucamente apaixonado por Hope Cahill. Ele a perseguira com a mesma fanática unicidade com a qual perseguia todo o resto – incluindo a presidência.
Debi Ann sabia que ela tinha sido a segunda escolha, e seu marido só se virara para ela depois de Hope ter se casado com Arthur Trent. Se Rutherford não podia ter a Cahill que queria, então ficou com a Cahill que estava disponível. Lágrimas encheram seus olhos. Depois de todos esses anos e dois filhos lindos – e Hope ter ido há muito tempo – nada havia mudado.
Quando Rutherford encontrara essa relíquia dos Cahill, seu primeiro pensamento não foi para a própria esposa, mas para Hope.
Ela estava competindo com uma mulher morta.
E estava perdendo.
Rutherford sempre fora ambicioso, mas desde que a presidência aparecera em seus horizontes, sua obsessão de alcançar seus objetivos aumentara ao ponto de não haver espaço para qualquer outra coisa em sua vida.
Debi Ann uma vez acreditou que sua esposa e filhos eram imunes a isso, que eles sempre manteriam um lugar especial no coração de Rutherford. Agora, ela suspeitava que eles eram apenas mais três peões no grande, vasto e complexo tabuleiro de xadrez de seu Grande Plano.
E peões que podiam ser sacrificados.

Um comentário:

  1. LUAMARA Cahill Madrigal infiltrada Ekhaterina28 de fevereiro de 2017 10:32

    pelamor prima ! coragem!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)