29 de dezembro de 2016

Capítulo 5

Nialls e Dennis se levantaram imediatamente, mas O’Malley levantou a mão para impedi-los de tomar qualquer ação.
― Está tudo bem, meninos. Calma, calma.
Eles não retomaram seus lugares, mas se posicionaram atrás dele formando uma parede sólida de músculos e carne entre O’Malley e a lareira. O’Malley, recuperando-se da surpresa inicial e estudou o homem sentado à sua frente. Ele era pequeno. E havia mais cinza do que preto em seu cabelo. Ao todo, não era alguém que normalmente causaria muita preocupação ao contrabandista. Mas O’Malley por muitos anos havia avaliado potenciais inimigos e ele sabia olhar além do lado físico das pessoas. Este homem tinha os olhos duros. E um ar de confiança. Tinha acabado de entrar na cova de um leão, encontrou a cabeça e balançou sua cauda. E agora estava sentava em sua frente, frio como um pepino. Despreocupado. Desaforado. Era um homem tolo ou um muito perigoso. E ele não parecia um tolo.
O’Malley olhou rapidamente para cima, para a companhia do homem. Alto, ombros largos e atléticos, ele pensou. Mas o rosto era jovem – quase pueril. E ele não tinha o ar calmo e confiante do homem pequeno. Seus olhos estavam em constante movimento, entre O’Malley e seus dois companheiros. Julgando. Medindo. Mas descartou o jovem. Não havia nada a temer. Esse erro, muitos haviam cometido antes dele – para depois se arrependerem.
Agora, ele olhou para trás em direção à porta e viu o jovem que se aproximou dele na noite anterior. Ele estava um pouco para o lado da porta, seu arco longo na mão e uma flecha pressionada na corda. Mas o arco estava sem tensão no momento, não ameaçando ninguém.
Isso poderia mudar em um segundo, pensou O’Malley. Dennis e Nialls lhe tinham contado da habilidade do jovem com o arco. A orelha de Nialls ainda estava fortemente enfaixada onde a flecha do menino tinha acertado quando passou perto de sua cabeça.
Este – ele procurou lembrar o nome do recém-chegado, então lembrou – Halt – tinha um arco semelhante. E agora O’Malley percebeu que ele estava vestindo uma capa semelhante também, malhada e com capuz. Mesmas armas, mesmas capas. Havia algo oficial neles e O’Malley decidiu que não gostava daquilo. Ele não queria ter qualquer contato com qualquer oficial.
— Você é um homem do rei? — ele disse para Halt.
Halt encolheu os ombros.
— Não o seu rei.
Ele viu os lábios do contrabandista contraírem-se em desprezo com essas palavras e suprimiu uma pequena chama de raiva por seu falecido irmão ter deixado o reino ficar tão degradado. Mas não demonstrou nenhum sinal de emoção em seu rosto ou nos olhos.
— Eu sou araluense — ele continuou.
O’Malley ergueu as sobrancelhas.
— E eu suponho que todos nós devemos ficar extremamente impressionados com isso? — perguntou sarcasticamente.
Por alguns segundos Halt não respondeu. Ele considerava o outro homem com o seu olhar, medindo-o, julgando-o.
— Se você quiser ficar! — disse ele. — É irrelevante para mim. Falo isso apenas para assegurar-lhe que não tenho interesse em suas atividades de contrabando.
Esse tiro pegou no alvo. O’Malley não era um homem de discutir abertamente o seu trabalho. Uma carranca formou-se no rosto do hiberniano.
— Cuidado com suas palavras! Nós não somos gentis com as pessoas que andam aqui nos acusando de contrabando e coisas do gênero.
Halt encolheu os ombros, indiferente.
— Eu não disse nada sobre coisas do gênero — ele retrucou. — Eu simplesmente disse que não estou preocupado pelo fato de que você é um contrabandista. Eu só quero alguma informação, isso é tudo. Diga-me o que eu quero saber e eu não vou incomodá-lo mais.
O’Malley tinha se inclinado sobre a mesa, para enfatizar o aviso para Halt. Agora, ele sentou-se para trás irritado.
— Se eu não falei para o menino — falou ele, sacudindo o polegar para a figura silenciosa junto à porta — o que faz você pensar que eu vou dizer para seu avô?
Halt levantou uma sobrancelha.
— Ah, isso foi um pouco duro. Tio pode estar mais perto da verdade, eu acho.
Mas agora o traficante decidiu que já era o suficiente.
― Saia — O’Malley ordenou categoricamente. — Eu já terminei com você.
Halt sacudiu a cabeça e olhou com tédio para O’Malley.
— Talvez — disse ele. — Mas eu não terminei com você.
Houve uma ameaça e um desafio implícito nas palavras. E eles foram entregues em um tom de desprezo velado. Foi demais para O’Malley.
— Nialls. Dennis. Jogue esse idiota na rua — disse ele. — E se o amiguinho deles ao lado da porta puxar uma polegada daquele arco, corte sua garganta antes que consiga.
Seus dois capangas avançaram ao redor da mesa sobre Halt, Nialls indo para a direita, Dennis à sua esquerda. Halt esperou até que eles estivessem quase em cima dele e depois disse uma palavra.
— Horace...
Ele estava interessado em ver como o jovem guerreiro ia cuidar do problema. Horace começou com um soco de direita na mandíbula de Dennis. Foi um golpe sólido, mas não um nocaute. Ele simplesmente teve a intenção de ganhar um pouco de espaço e de tempo. Dennis cambaleou para trás e antes que Nialls pudesse reagir, Horace tinha girado e o acertado com um gancho esmagador no queixo com sua esquerda. Os olhos de Nialls viraram e os joelhos cederam. Ele caiu como um saco de batata e bateu no chão desmaiado.
Mas agora Dennis estava voltando, balançando a mão direita selvagemente, indo para cima de Horace. O jovem abaixou-se sob ele, martelando dois socos de esquerda nas costelas do contrabandista, então veio com um golpe poderoso de baixo na mandíbula de Dennis.
O golpe de baixo tinha todo o poder das pernas de Horace, do tronco, ombros e braço, subido com força. Ele bateu no queixo de Dennis e enviou uma mensagem instantânea para seu cérebro. Por trás dos olhos de Dennis, uma luz se apagou como uma vela em um furacão. Seus pés realmente levantaram alguns centímetros do chão sob a força do golpe terrível. Então ele também simplesmente dobrou no lugar e caiu para a áspera cobertura de serragem no chão.
A sequência inteira demorou um pouco menos de quatro segundos. O’Malley arregalou os olhos de espanto do jeito como seus dois guarda-costas foram despachados com tanta facilidade e desprezo – e por um jovem que ele tinha julgado não oferecer nenhuma ameaça. Ele começou a levantar. Mas um punho de ferro segurou seu colarinho, arrastando-o para baixo e por cima da mesa. Ao mesmo tempo, ele sentiu algo afiado – muito afiado – contra a sua garganta.
— Eu disse que não terminei com você ainda. Então, sente-se.
A voz de Halt era baixa e muito persuasiva. Ainda mais convincente era a faca de caça afiada que estava pressionada com firmeza contra a garganta do contrabandista.
O’Malley não o tinha visto desembainhar a arma. Ocorreu-lhe que este velho indivíduo deveria ser capaz de mover-se com alarmante velocidade – assim como seu jovem companheiro tinha feito.
O’Malley olhou para os olhos do homem, em primeiro lugar viu a imagem reluzente do aço assassino que descansava contra sua garganta.
― Agora, eu vou deixar seu comentário sobre, avô, passar — disse Halt. ― E não vou mesmo tomar como ofensa, o fato de você ter mandado seus meninos me baterem. Mas vou te fazer uma pergunta e vou perguntar uma vez. Se não me responder, eu vou matar você. Bem aqui. Agora mesmo. Will! — ele falou abruptamente para o lado. — Se aquele sujeito grande der mais um passo em minha direção, coloque uma flecha nele.
— Já o vi, Halt — respondeu Will.
Ele levantou o arco na direção que Halt havia mencionado. O marinheiro fortemente construído pensou que ele não tinha sido visto e de repente levantou as duas mãos. Como a maioria dos outros na sala, tinha ouvido sobre as duas flechas que foram atiradas entre Nialls e Dennis na noite anterior. Inicialmente, ele pensou que talvez valesse a pena dar uma mão para O’Malley. Mas definitivamente não valia a pena tomar um tiro.
Will fez um gesto com a flecha e o homem afundou-se em um banco comprido. A flecha brilhante era o suficiente para preocupá-lo. Mais preocupante ainda foi o fato de que o homem de barba grisalha não parecia ter olhado nenhuma vez em sua direção.
―Agora — disse Halt — onde estávamos mesmo?
O’Malley abriu a boca para responder, em seguida a fechou novamente. Esse era um território novo. Ele estava acostumado a mandar, acostumado aos outros cuidando das coisas para ele. Ele não se enganava, os homens que frequentavam a taverna da gaivota não gostavam muito dele. Mas sabia que era temido, o que era ainda melhor. Ou assim ele pensava. No momento em que o povo da taverna lotada viu alguém colocar medo nele, como ele próprio jamais fez, ficaram impotentes. Se pelo menos ele fosse querido por aqui, talvez, alguém o ajudaria. Mas sem Nialls e Dennis, ele sabia que estava sozinho.
Halt o estudou por um momento, viu a compreensão do processo por parte de O’Malley acontecendo por trás dos olhos do homem. Ele viu o lampejo de dúvida e incerteza e sabia que ele estava em vantagem. Tudo o que Will disse a ele sobre seu primeiro confronto com o contrabandista levava a crer que O’Malley não era uma figura bem vista.
Halt entrou nessa briga apostando nisso e agora ele viu que era verdade.
— Alguns dias atrás, você transportou um homem chamado Tennyson e mais um grupo pessoas, para algum lugar fora do país. Você se lembra disso?
O’Malley não deu nenhum sinal de lembrava. Seus olhos estavam cravados em Halt. Halt podia ver a fúria reprimida há pouco – a fúria alimentada pelo desamparo de O’Malley, na situação atual.
— Eu espero que você lembre — Halt continuou — porque sua vida pode depender disso. Agora preste atenção no que eu vou falar. Eu farei esta pergunta uma única vez. Se você quiser continuar vivendo, vai me dizer o que eu quero saber. Está claro?
Ainda não houve resposta do contrabandista. Halt respirou fundo e continuou.
— Onde é que você levou Tennyson?
Houve um silêncio quase palpável, quando todo mundo na sala parecia se inclinar para frente em expectativa, esperando para ver o que O’Malley ia dizer. O contrabandista engoliu várias vezes, e a ação fez a ponta da faca de caça cravar dolorosamente na carne macia da garganta. Em seguida, com a boca seca, sua voz parecia quase um coaxar, ele respondeu.
― Você não pode me matar.
A sobrancelha esquerda de Halt subiu. Um meio sorriso de surpresa torceu sua boca.
— Realmente? — disse ele. — E por que eu não faria isso?
— Porque se você me matar, nunca vai saber o que quer — O’Malley disse a ele.
Halt soltou um suspiro com uma breve risada.
— Você não pode estar falando sério.
A testa de O’Malley enrugou-se em uma carranca. Ele jogou sua única carta e o estranho estava tratando com desprezo. Ele estava blefando, decidiu O’Malley e sua confiança que estava baixa, começou a crescer mais uma vez.
— Não tente blefar — disse ele. — Você quer saber onde esse tal de Tennyson foi. E quer muito saber, senão nunca teria voltado aqui esta noite. Então tire a faca da minha garganta e eu vou considerar em falar para você. Embora isso vá custar.
Ele acrescentou as últimas quatro palavras, posteriormente refletindo. Ele tinha a mão forte, pensou ele e poderia muito bem usá-la para um contra ataque. Halt não disse nada por um segundo ou dois. Então se inclinou sobre a mesa. A ponta da faca permaneceu na garganta de O’Malley.
— Eu quero que você faça algo para mim, O’Malley. Olhe nos meus olhos e me diga se você pode ver qualquer sinal que eu seja incapaz de te matar.
O’Malley fez como lhe foi dito. Ele teve que admitir que os olhos de Halt eram uma coisa arrepiante de se ver. Lá não havia nenhum sinal de piedade ou fraqueza. Este homem seria capaz de matá-lo em um instante, ele sabia.
Exceto pelo fato de que Halt precisava dele vivo. O que fazia sua vitória ainda mais doce. Este desgraçado de barba grisalha iria matá-lo em um instante. Ele provavelmente queria matá-lo agora. Mas ele não podia, precisava dele.
O’Malley não pode deixar de sorrir, enquanto pensava sobre isso.
— Claro, estou convencido de que seria capaz — disse ele quase jovialmente. — Mas você não pode, pode?
“Eu nunca jogaria poker com esse cara”, O’Malley pensou. Os olhos de Halt não mostraram nenhum sinal da frustração e incerteza, ele sentia que agora O’Malley tinha começado a blefar.
— Vamos rever isso, certo? — Halt disse suavemente. — Você diz que eu não posso matá-lo, porque então eu nunca vou descobrir o que você sabe. Mas, ao mesmo tempo, você já disse que não vai revelar essa informação.
― Ah... certo, agora isso pode estar aberto à negociação — O’Malley começou, mas Halt o interrompeu.
— Então, se eu te matar, não estarei perdendo nada, não é verdade? Então vai haver alguma compensação para os problemas que você causou. Em resumo, acho que realmente quero te matar. Você é uma pessoa chata, O’Malley. Na verdade, agora que penso sobre isso, estou feliz que você não tenha me dito nada, porque então eu me sentiria no dever de poupar sua vida miserável.
— Agora, olhe aqui...
A confiança de O’Malley tinha ido embora novamente. Ele foi muito longe ao pressionar aquele homem, ele percebeu. Mas agora a ponta da faca pesada, deixou sua garganta e foi parar na ponta do seu nariz.
— Não! Você que vai me escutar! — Halt disse. Ele falou baixinho, mas sua voz cortava como um chicote. — Olhe ao redor desta sala e me diga se há aqui alguém que lhe deve qualquer sentimento de lealdade ou amizade. Existe alguém aqui que vai protestar por um segundo que seja, se eu simplesmente cortar sua garganta?
Os olhos de O’Malley vagaram rapidamente para os rostos atentos. Ele não viu nenhum sinal de ajuda.
― Agora me responda isso: quando você estiver morto, você tem certeza que não haverá ninguém nesta sala que possa saber onde você levou Tennyson e que poderia estar disposto a compartilhar essa informação?
E esse foi o ponto onde O’Malley sabia que havia perdido. Certamente havia pessoas na sala, que sabiam onde ele havia levado o homem de vestes brancas. Na época, isso não tinha sido nenhum grande segredo. E se ele, O’Malley, não estivesse por perto para garantir seu silêncio, eles passariam um por cima do outro para contar para esse estrangeiro tudo o que queria saber.
— Rio Craiskill — disse ele, quase num sussurro.
A faca vacilou.
― O quê? — Halt perguntou a ele.
Os ombros de O’Malley caíram e ele baixou o olhar.
― Rio Craiskill. É em Picta, abaixo do banco de areia de Linkeith. É um dos nossos pontos de encontro onde entregamos a carga.
Halt franziu o cenho, incrédulo por um momento.
— Por que diabos Tennyson estaria querendo ir para Picta?
O’Malley deu de ombros.
— Ele não queria ir especificamente para lá. Ele queria sair daqui. É onde eu estava indo, de modo que é onde eu o levei.
Halt estava acenando lentamente a si mesmo.
— Eu poderia levá-lo lá — sugeriu O’Malley esperançoso.
Halt riu com desdém.
― Ah, eu tenho certeza que você pode! Meu amigo, eu confio em você tanto quanto sei que Horace não poderia chutá-lo – e estou tentado descobrir o quão longe iria. Agora saia da minha vista.
Ele soltou o pescoço do outro homem e o empurrou para trás. Desequilibrado, O’Malley tentou recuperar-se e então Halt o deteve.
— Não. Só mais uma coisa. Esvazie a bolsa sobre a mesa.
— Minha bolsa?
Halt não disse nada, mas suas sobrancelhas se uniram em uma linha escura. O’Malley notou que a faca de caça ainda estava em sua mão direita. Ele correu para soltar a bolsa e derramou o seu conteúdo em cima da mesa. Halt tocou as moedas com o dedo indicador e escolheu uma peça de ouro. Ele ergueu-a.
— Isso é seu, Will?
— Parece que sim, Halt — Will falou alegremente.
Depois de ter sido humilhado por O’Malley, ele tinha gostado do confronto desta noite.
— Cuide melhor disso na próxima vez — Halt disse a ele.
Então se voltou para O’Malley, com a cara fechada, olhos escuros e ameaçadores.
— Quanto a você, dê o fora daqui.
O’Malley, finalmente vencido, ergueu-se. Ele olhou ao redor, não viu nada além de desprezo nos rostos daqueles que o observavam. Então foi embora.

8 comentários:

  1. Halt é muito sinistro kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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    1. Sério ? Ele nem olho para o outro cara e mandou o Will atirar caso ele tentasse algo. kkkkkkk

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  2. Ae, eu leio isso e lembro que o Halt pode estar em perigo... Deve ser um vilão mais foda que o Madara, pra colocar medo no Halt.

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  3. kkkkkkkkkkkkkk Eu tbm pensei isso, mas não vou dar Spoiler aqui kkkkkkk

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  4. kkkkkkkkkk; Halt e de mais! Colocou o pessoal pra correr!
    Ass: Bina.

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  5. Halt émuito loco mais mito divertido

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  6. Que capítulo dahora. Halt mito

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Boa leitura :)