18 de dezembro de 2016

Capítulo 5

O caminho era estreito e irregular, e a subida era íngreme. Mas os escandinavos, apesar da sua maioria, estavam todos em excelente condição física e mantiveram um ritmo vivo atrás de seu líder. Houve alguns grunhidos de esforço de vez em quando e, ocasionalmente, uma pedra rolando para baixo. Mas, no geral, os trinta invasores fizeram pouco barulho enquanto movimentavam-se no caminho para Al Shabah.
“Tudo é uma questão de encontrar o meio-termo”, Erak pensou. Assim como ele tinha tomado o menor dos dois riscos, se aproximando ao longo da costa da baía, agora ele tinha de equilibrar velocidade contra permanecer invisível. Quanto mais tempo eles levassem para atingir seu objetivo, maior a chance de que se sua presença fosse descoberta. Isso tornaria a luta muito mais difícil. Pela mesma razão, se corressem a toda velocidade, eles também aumentariam a chance de serem ouvidos. Portanto, a melhor maneira era continuar em um curso médio, mantendo um movimento constante.
Suas botas de pele de foca batiam suavemente na areia e pedra sob os pés. Era mais ruído do que ele teria gostado, mas estimava que permaneceriam despercebidos, mesmo que houvesse ouvintes no topo do penhasco.
Houve um momento ruim, quando um dos homens imediatamente atrás de Erak perdeu o equilíbrio e cambaleou, os braços acenando desesperadamente na beira da encosta íngreme que conduzia ao mar. Felizmente, o machado estava em seu cinto, caso contrário, seu braço acenando poderia ter separado algumas cabeças de seus amigos.
Ele soltou um grito involuntário e seus pés embaralhados lançaram uma saraivada de pedras e rochas que ecoavam pela encosta abaixo. No instante em que estava prestes a cair, um punho de ferro conseguiu segurar a gola de lã e ele se sentiu puxado de volta para terra firme pelo oberjarl.
— Graças a deus! Obrigado, chefe... — ele começou.
Mas uma grande mão calou sua boca, cortando as novas palavras. Ele meteu a cara perto do outro e sacudiu-o, não muito delicadamente.
— Levante-se, Axel — ele sussurrou ferozmente. — Se você quer quebrar o pescoço, faça-o baixinho ou eu vou quebrá-lo para você.
Ele era um grande homem, um dos membros da tripulação de remo. Remadores não eram consideradas como as pessoas mais inteligentes na tripulação de um navio e ele estava prestes a dizer a Erak que não havia nenhum ponto em ameaçar quebrar seu pescoço por uma segunda vez. Não era lógico.
Então ele teve dúvidas. O oberjarl, ele sabia, não era bom na lógica quando estava irritado. Ele era, no entanto, bom usando os punhos para resolver um desentendimento e, grande como ele era, não tinha desejo de discutir com Erak.
— Desculpe chefe. Eu só... — ele murmurou e Erak o sacudiu novamente.
— Cale a boca! — ele assobiou.
Em seguida, liberando o seu controle sobre o pescoço do outro homem, ele olhou ansiosamente para o topo do penhasco, esperando para ver se havia algum sinal de que o remador barulhento e gritando tinha sido ouvido.
O grupo de ataque inteiro esperou em silêncio por vários minutos. Então, como não havia nenhum som de alarme sendo levantado acima deles, houve uma liberação geral de tensão.
Erak apontou para cima e abriu o caminho novamente, movimentando-se constantemente na ladeira íngreme. A poucos metros do topo, ele sinalizou para os homens pararem. Em seguida, apontando para Svengal para acompanhá-lo, ele cobriu a distância restante para o topo rastejando, olhando com cautela sobre a crista conforme chegava a ela. Svengal, um metro ou mais atrás dele, espelhava suas ações, e os dois grandes escandinavos ajoelharam-se lado a lado, fazendo um balanço da situação.
Al Shabah estava a quarenta metros, depois de um caminho de terra nua. A cidade era cercada por uma muralha de estuque baixo, com menos de dois metros de altura. Mesmo que houvesse patrulhamento, não apresentaria nenhum obstáculo real aos escandinavos. Eles eram hábeis em escalar muralhas como essas. Dois homens estariam na base da parede, segurando um comprimento de um remo velho entre eles, na altura da cintura. O resto do grupo se afastaria e daria início a uma corrida, um de cada vez. Conforme cada homem subia na ponta do remo, os dois homens segurando a empurrariam para cima, enviando seus companheiros subindo pela parede. Era preciso prática para acertar o tempo, mas era uma das habilidades que todos os escandinavos praticavam desde a infância.
Hoje, não haveria necessidade disso.
Não havia sentinelas na parede. No entanto, havia um arco de quatro metros à sua direita. O portão estava aberto e a entrada estava sem guarda.
— Fácil demais — sorriu Svengal.
Seu capitão franziu a testa.
— Isso é o que eu estava pensando — disse ele. — Onde estão os guardas? Onde estão os vigias?
Svengal encolheu os ombros. Apesar da ausência de guardas, ambos estavam ainda mantendo sua voz baixa, falando mal acima de um sussurro.
— Nós estamos os apanhando com a porta traseira aberta, chefe — ele acrescentou. — Os guardas, se existem, estão provavelmente na parte de frente da cidade, de frente para o oceano. É onde eu esperaria vir um ataque.
Erak esfregou o queixo, desconfiado.
— Talvez — disse ele. — Espere aqui enquanto eu dou uma olhada.
Levantando em um meio-agachamento, Erak se moveu para a abertura na muralha. A cada segundo, ele esperava um desafio. Um grito ou um toque do sino de alarme. Mas Al Shabah estava em silêncio. Alcançando a parede, ele superou o seu caminho para o portão aberto. Com um movimento fluido, estendeu seu enorme machado de batalha fora de seu cinto e deixou-o em sua mão direita e, em seguida, movendo-se com velocidade impressionante para alguém tão volumoso, ele pulou pela porta aberta, logo em seguida, virando da direita para esquerda, machado pronto e escudo para proteger o seu lado esquerdo.
Nada.
Casas brancas de teto-plano esticaram longe dele em uma rua estreita. As poucas janelas eram negras no estuque branco. As portas estavam bem fechadas.
Nada mudou. Ninguém se mexeu. Al Shabah estava deserta.
Erak hesitou alguns segundos. Parecia errado. Deveria haver um guarda. Pelo menos um homem patrulhando na muralha. Então ele deu de ombros. Talvez Svengal estivesse certo e os guardas de arridi estavam concentrados no lado do mar da cidade. Talvez todos os vigias estivessem esticando os olhos para a primeira vista de um navio que se aproximasse. Ou talvez apenas ficaram complacentes. Fazia mais de vinte anos desde que um navio escandinavo tinha invadido aqui. O segredo que rodeava o calendário das caravanas de tesouro mantinha as cidades costeiras em segurança. Foi apenas a aquisição de sorte do calendário que levou Erak a planejar o ataque.
Ele balançou a cabeça. Talvez ele estivesse ficando muito nervoso. Talvez o tempo que gastou sentado em Hallasholm estivesse fazendo ele se comportar como uma tia solteira nervosa. De repente, tomou uma decisão, voltou para o portão e sinalizou para Svengal e os outros se juntarem a ele.
O baque macio de botas de pele de foca em todo o solo arenoso não despertou nenhuma resposta da cidade. Svengal olhava indagador ao seu líder.
— Para onde agora, chefe?
Erak gesticulou com o machado.
— Centro da cidade. Vamos seguir essa rua. Parece estar indo na direção certa. Mantenham seus machados prontos e os olhos abertos.
Ele abriu o caminho de novo e o grupo de ataque seguia em duas filas, olhando à sua volta para as casas em silêncio. De tempos em tempos, os dois últimos homens na linha faziam uma varredura, através de um círculo completo para se certificar de tropas inimigas não vinham atrás deles, e estudando os terraços das casas em ambos os lados de seu caminho para um sinal de inimigos. Mas não havia nada para ser visto.
A rua feria seu caminho em direção ao centro da cidade, eventualmente se abrindo em uma pequena praça, onde um prédio maior ficara de frente para eles, levando todo um lado da praça. Este seria o apartamento oficial do chefe cidade, Erak adivinhou. Ele procurou em sua memória para o nome do edifício – Khadif, lembrou. O equivalente a uma prefeitura ou uma casa de fiscal em outras cidades.
Meia dúzia de ruas estreitas abriam para o pequeno quadrado. As construções que formavam os outros três lados – provavelmente lojas, restaurantes e pousadas – possuíam colunas e varandas profundas que dariam sombra acolhedora do calor do sol durante o meio-dia. Conforme ele tinha o pensamento, Erak olhou para o leste, onde o céu já estava iluminando com estrias de cor de rosa.
A frente do khadif encarando a praça também possuía colunas. O edifício em si era a única estrutura de dois andares a vista. Como os outros, no entanto, tinha um telhado plano, oculto por uma fachada decorativa concebida para dar uma adicionada sensação de domínio ao edifício atrás dela.
No centro da praça havia uma pequena fonte. Seu reservatório estava atualmente cheio de água, mas o mecanismo que permitia a água fluir a partir do seu bico central parecia estar desligado.
Erak saiu para a praça, os seus homens o seguindo.
À medida que saíram da rua estreita, eles formaram uma formação compacta de diamante, com o oberjarl, Svengal e Axel na frente. Alguns homens balançaram suas achas experimentalmente enquanto cruzavam o prédio de dois andares. Nele havia um quadrado de luz nas duas portas. A luz crescente aumentava suas sombras alongadas, formas fantásticas por trás deles. Erak parou na frente da varanda de mármore antes das grandes portas duplas do khadif. Ele as estudou brevemente.
Sólidas, ele pensou. Madeira pesada com latão de ligação e um bloqueio bem forte. Ainda assim, escandinavos levavam suas próprias chaves para portas como esta e ele apontou para dois de seus remadores darem mais um passo à frente.
— Machados — disse ele, apontando para a porta.
Os homens sorriram para ele. Um deles pôs o seu machado para baixo por um momento, cuspiu em suas mãos, em seguida, pegou o machado em um aperto de duas mãos.
Erak se afastou, dando espaço ao homem para um bom golpe no bloqueio.
— Pare aí!
O comando veio de fora, atravessando a praça e os escandinavos viraram em surpresa.
Uma figura apareceu em uma das ruas que desembocavam no espaço aberto. Alguns dos invasores amaldiçoaram em alarme. Os olhos de Erak se estreitaram e ele sentiu uma sensação de afundamento no poço de seu estômago. Tudo tinha sido muito fácil, ele pensou.
O recém-chegado era alto e magro, vestido à moda de um guerreiro Arridi. Leve camisa branca e calças, sem dúvida, de linho fino, estavam cobertas por uma armadura de metal e couro. Uma espada curva comprida pendurada ao seu lado e um escudo circular de metal – bronze, provavelmente – estava no seu braço. O escudo, Erak observou, era equipado com uma parte afiada no centro. Era uma arma de ataque, bem como de defesa. Um simples estilo de capacete redondo, também cravado, encima de um pequeno rolo de tecido fino que envolvia a cabeça do homem, que possivelmente era projetado para evitar o contato do metal aquecido sobre a pele ao sol do meio-dia.
O capacete era altamente polido, e uma cota de malha de prata brilhante desprendia dele, protegendo o pescoço, as laterais e atrás. Isso, e o metal altamente polido da armadura, eram suficientes para mostrar que este era um oficial sênior.
Enquanto observavam, uma dupla fileira de guerreiros, equipados em trajes semelhantes, moveu rapidamente para fora da rua, abanando para os lados de seu líder.
Erak estimou que houvesse pelo menos quarenta deles. Houve um aumento do movimento de seus próprios homens quando os guerreiros arridi apareceram.
— Mantenham-se — ele rosnou para eles. Fora do canto da boca, ele disse a Svengal — nós estamos em desvantagem.
— Não muito — Svengal respondeu. Ele também estava contando a oposição. — Eu penso que os nossos meninos podem tomar esses fantasiados sem muita dificuldade.
Ao contrário de Erak, ele não se preocupou em manter a sua voz baixa e foi escutado por toda a praça até o oficial arridi. Eles viram sua estreita barba dividir em um sorriso quando ouviu o comentário de Svengal. Ele levantou um apito de prata aos lábios e soprou uma vez.
Houve um som de batidas de madeiras pesadas arrastando pedras e os escandinavos viram cada uma da meia dúzia de saídas que levavam para a praça de repente bloqueada por barreiras pesadas empurrada para fora das paredes.
— Não as notamos — Erak disse calmamente para Svengal.
Eles devem ter passado por uma das barreiras quando entraram na praça, mas ele estava ocupado demais para perceber o seu significado.
— Você parece estar preso — o arridi disse.
Erak ficou um pouco mais firme e trouxe seu escudo até a posição de defesa. Seus homens copiaram o movimento.
— Tanto quanto você — ele respondeu.
Mais uma vez o outro homem sorriu. Os dentes brancos eram muito óbvios em seu rosto de barba escura.
— Ah — disse ele. — Mas quantos arqueiros você tem com você?
Ele levantou o pequeno apito prata à boca e soprou uma explosão muito estridente. Houve um mistura de sobrecarga de movimento e conforme Erak observava, os telhados dos três lados da praça em frente de repente eles estavam vivos com arqueiros. Ele não tinha dúvidas de que havia mais em cima do telhado do apartamento khadif também.
Mesmo sem contar com o que ele podia ver, havia cerca de cem homens, todos armados de arcos recurvos curtos, cada um deles com uma seta armada e pressionada, tendo em mira o grupo rebelde de escandinavos.
Erak olhou tristemente ao longo da linha de arqueiros. Os arcos eram armas de curto alcance. Em um campo de batalha, ele poderia ter os ignorado. Mas aqui, no espaço confinado da praça, eles seriam mortais.
— Ninguém se move — disse ele calmamente.
Um movimento em falso poderia significar agora uma saraivada de flechas enviadas em sua direção.
Axel, ao lado dele ainda, grunhiu de frustração. Seu sangue lutador estava agitado e ele não gostou da ameaça de uma centena de flechas destinadas a ele. Seu instinto era para atacar alguém e causar dano.
— Eles não podem pegar todos nós, chefe — disse ele. — No mínimo podemos fazer um estrago para o menino bonito aqui.
O arridi alto sorriu com as palavras, a mão caindo casualmente à empunhadura do sabre curvo que ele usava. Erak conhecia um homem bom de luta quando via um e apesar dos apetrechos altamente polidos, tinha a sensação de que este era um guerreiro perigoso.
— Cale-se Axel — ele disse, não pela primeira vez naquela noite.
O arridi tomou um ritmo para frente. Ele levantou o braço para os homens nos telhados e fez um sinal de mão. Os arqueiros liberaram a tensão sobre os seus arcos, embora Erak percebesse que eles mantiveram as setas armadas e prontas.
— Não há nenhuma necessidade de lutar — disse ele.
Sua voz era educada e agradável. Seu tom era razoável e inofensivo.
— Há apenas um de vocês que nós estamos interessados. O deixe conosco e o resto de vocês pode ir livre.
— E quem poderia ser esse homem? — Erak perguntou, embora sentisse que ele já sabia a resposta à pergunta.
— Erak, o que vocês chamam de oberjarl — o arridi olhou para ele.
Impulsivamente, Axel tomou um passo à frente, levantando seu machado ameaçadoramente.
— Você vai ter que passar pelo resto de nós para levá-lo! — gritou em tom desafiador.
Erak deu um suspiro profundo e agitou-se em irritação.
— Muito bom, Axel — ele disse. — Você acabou de dizer a eles que estou aqui.

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