29 de dezembro de 2016

Capítulo 52

Will encontrou os outros esperando por ele na estrada ao sul de Macindaw.
No momento em que o jovem arqueiro cavalgou para se juntar a eles, Horace não conseguiu evitar o sorriso quando ele viu uma bola de pelos pretos e brancos empoleirados na sela de Will. Ele sabia o quanto havia machucado o coração de Will ter de dar Sombra para Trobar meses atrás.
― Presente de Trobar? ― ele perguntou e Will confirmou com a cabeça, sorrindo.
― De quem mais seria? ― ele disse. E continuou ― o nome dela é Ébano.
― Bom nome ― Halt disse. ― Você que escolheu?
Will balançou a cabeça.
― Escolha de Trobar.
Horace gesticulou sabiamente.
― Isso explica.
Will chegou a pensar em encará-lo, mas decidiu que não valia o esforço. Pela primeira vez em meses, eles estavam livres de qualquer obrigação.
― O que nós faremos agora? ― ele perguntou.
Foi Halt quem respondeu.
― Nós iremos para casa.
E houve grande contentamento em sua voz enquanto ele dizia.
Eles viraram os cavalos para o sul e cavalgaram em um ritmo tranquilo para casa. Não havia motivos para se apressarem, nada de emergências esperando para serem tratadas, então eles tomaram seu tempo, aproveitando a companhia um do outro. Horace estaria rumando de volta para Castelo de Araluen e eles não sabiam quando o veriam de novo.
Eles aproveitaram o máximo do tempo juntos, com Halt sempre atrás deles assistindo e ouvindo a conversa entre os dois jovens amigos. Eles eram um bom par, ele pensou, do mesmo jeito que ele e Crowley foram em seus dias de juventude, quando o Corpo dos Arqueiros vivia tempos ruins e precisava ser revigorado.
Estava feliz de pensar que Will tinha um amigo como Horace. Ele tinha uma vaga memória de que em seu delírio, havia contado a um Crowley imaginário que esses dois homens poderiam muito bem segurar o futuro de Araluen em suas mãos. Se ele havia realmente dito aquilo, ele pensou, ele estava certo.


A atmosfera em volta do acampamento armado toda noite era iluminada pelo filhote. Ela parecia estar se apegando a Puxão, agachando na frente do cavalo cabeludo, seu queixo em suas patas e seu traseiro levantado, cauda ondulando enquanto ela o desafiava com um rosnado feroz.
Se Puxão fazia o menor movimento em direção a ela, ela dava um salto para trás, dando passadas laterais e girando ferozmente enquanto corria em círculos para escapar. Então ela retornaria para se agachar perante Puxão e desafiá-lo de novo, com seu maníaco olho azul fixo no animal que se elevava sobre ela.
Puxão, por outro lado, tratava o pequeno filhote com bom humor e tolerância. Em uma ocasião, Horace estava convencido que viu o cavalo levantar uma sobrancelha para Ébano. Os outros não acreditaram nele, mas ele sabia que estava certo.
De vez em quando, ela rosnava e agachava na frente de Abelard também. Mas eles notaram que ela nunca tentava isso com Kicker. Ela poderia ser brigona e pequena, mas Border Shepherds nunca eram estúpidos e ela sentia que enquanto os pequenos cavalos toleravam sua abordagem, o cavalo de batalha provavelmente iria chutá-la pro meio da próxima semana.
Seu nome era “Kicker”, afinal de contas, que significava coice em uma língua estrangeira.
Uma hora, ela agachou perante Puxão, rosnando e latindo e fazendo pequenos movimentos de avançar no cavalo, que a olhou com um ar de divertimento. Vagarosamente, Puxão abaixou sua cabeça até que seu focinho estava a poucos centímetros do rostinho minúsculo preto e branco. Então de repente bufou, e o cachorro, pego de surpresa, rolou para trás em choque, mexendo suas patas e se chacoalhando para ter certeza de que tudo estava no lugar e inteiro.
Não me irrite, cachorrinho, Puxão parecia dizer. Eu conheço sua mãe.
Mais tarde naquela noite, fazendo ronda no acampamento antes de ir se deitar, Will achou Puxão deitado, quieto embaixo de uma árvore, suas patas dobradas embaixo dele.
Aninhado entre suas patas dianteiras havia uma figurinha preta e branca, que se aumentava e diminuía enquanto respirava. Puxão olhou para cima enquanto Will se aproximava.
Ela teve um longo dia. Está cansada.


Logo eles alcançaram uma encruzilhada na estrada onde Horace iria se separar para ir para o Castelo de Araluen. Eles acamparam ali. Os dois jovens conversaram até tarde da noite. Quando estavam indo se deitar, Will largou a mão no ombro musculoso de Horace.
― Eu gostaria que você pudesse se transferir para Redmont ― ele disse. ― Tenho certeza que Crowley poderia dar um jeito.
Horace permitiu que um sorriso surgisse no canto de sua boca.
― Eu virei visitá-lo ― ele disse. ― Mas você sabe, tem algumas coisas que gosto na vida do Castelo Araluen.
Will olhou para ele, a cabeça um pouco inclinada para um lado enquanto ele refletia a fala.
― Tipo Evanlyn?
― Talvez ― Horace disse, tentando soar normal.
Mas ele não conseguia parar de dar um largo sorriso enquanto ele dizia aquilo.
Will sorriu de volta. Ele já suspeitava há tempos que havia algo de especial entre Horace e a princesa.
― Bom para você ― ele disse.
De manhã, eles tomaram seus caminhos separados e uma vez, enquanto eles cavalgavam depois da despedida, Will olhou para trás quando chegou ao topo de uma colina. Ele viu Horace virado em sua sela olhando de volta para ele e acenando, e logo em seguida se virando e continuando cavalgando.
Os dois arqueiros haviam sido avistados muito antes de terem chegado ao Castelo Redmont e no momento em que cruzaram os portões, com os cascos de seus cavalos retinindo nas lajes, uma grande multidão havia se amontoado para cumprimentá-los.
E na frente da multidão, é claro, estava a figura desajeitada do Barão Arald. Mas enquanto Will e Halt desciam de suas selas, o barão sorriu para eles e se afastou, se curvando enquanto conduzia duas pessoas para frente.
Ambas eram altas. E elegantes. Usavam vestidos brancos que as marcavam como mensageiras do rei.
Halt ficou imóvel enquanto sua esposa se aproximava. Normalmente ele era uma pessoa que evitava exibições em público. Mas ele sentiu seu coração subir na sua garganta enquanto a via agora – a mulher que ele amou sua vida inteira. Ele se lembrou de quão perto da morte esteve quando deitado em seu saco de dormir no norte, lutando uma batalha perdida contra o veneno genovês. Ele tinha acabado de encontrar Pauline e estava tão perto de deixá-la para trás. Atirando para o lado seu jeito reservado, ele andou ao seu encontro, a puxou para seus braços e a beijou por um longo, longo tempo.
― Oooooooooooooooooh! ― Fez a multidão.
Will, assistindo em uma surpresa nada pequena, sentiu uma mão gentil em seu braço e olhou ligeiramente em encontro com os olhos sorridente de Alyss.
― Parece ser uma boa ideia ― ela disse, inclinando sua cabeça em direção, apontando, para Halt e Lady Pauline.
Will tinha que concordar. Ele deu um passo à frente, a envolveu e a beijou. Sua cabeça nadou um pouco enquanto ela correspondia de forma entusiasmada.
― Ooooooooooooooh! ― Fez a multidão de novo.
Finalmente, os dois casais se separaram, e se firmaram, de mãos dadas, olhando profundamente um nos olhos do outro. Barão Arald deu um passo à frente e limpou sua garganta.
― Meus amigos! Uma ocasião como essa merece um discurso para marcar...
― Ohhhhhhhhhhhh ― suspirou a multidão, mas dessa vez com um tom de decepção.
O barão sorriu abatido.
― Mas talvez não ― ele concluiu, e o desapontamento se tornou um gigante “Aaaaaaaaaah” de alívio. Arald podia gostar do som de sua voz, Will pensou, mas ele sabia como trabalhar com uma multidão.
― Ao invés disso ― o barão continuou ― eu irei anunciar um banquete de boas vindas no salão essa noite.
E a multidão eclodiu em satisfação.
― Quem é esse? ― Alyss perguntou, notando uma bola de pelos se contorcendo na gola aberta da jaqueta de Will.
― Essa é a Ébano.
Ele tirou o filhotinho de sua jaqueta e Alyss acariciou sua cabeça gentilmente.
― Cuidado! Ela vai te morder ― Will avisou, mas Alyss virou os olhos para ele.
― É claro que ela não vai ― ela respondeu ― Ela é uma dama.
E em verdade as palavras de Alyss, Ébano permitiu que fosse afagada sem se contorcer, latir ou morder. Will levantou suas sobrancelhas em surpresa.
― Você só precisa saber como tratar uma dama ― Alyss lhe disse, sorrindo.
Ele balançou a cabeça em reconhecimento e colocou o pequeno cachorro no chão. Por um momento, ela permaneceu lá, com as patinhas apoiadas, estudando a cena a sua volta. Seu mundo tinha se enchido de repente com uma floresta de pernas e imensos seres. Sua cauda abaixou, e ela deu um passo rápido para o santuário entre os cascos dianteiros de Puxão.
Uma vez lá, sua cauda subiu novamente e ela decidiu que era seguro novamente latir para o mundo. Puxão girou sua cabeça de um lado para o outro com o intuito de olhá-la.
Então ele olhou para Will e Alyss.
Vão em frente e aproveitem. Eu ficarei vigiando ela.


O barão Arald amava um bom banquete. E os melhores eram aqueles em que o mestre Chubb, o cozinheiro Chefe do Castelo Redmont, e Jenny, sua aprendiz, competiam entre si para criar os melhores pratos. Motivo pelo qual ele sugeriu que fossem eles que arcassem com o banquete de boas vindas para Halt e Will.
A comida estava maravilhosa, e honras foram pronunciadas até mesmo entre o Chef e sua pupila. Ambos mimaram a mesa principal, onde estavam os convidados de honra, ambos oferecendo petiscos cada vez mais maravilhosos para os arqueiros.
Várias pessoas bem intencionadas passaram pela mesa, dando boas vindas a Halt e seu aprendiz. As pessoas em Redmont eram muito orgulhosas de seus dois arqueiros. Sir Rodney, o mestre de batalhas, foi um dos primeiros.
Ele imediatamente pediu para Halt um relatório de Horace, seu próprio aprendiz. Ele brilhou de prazer quando Halt o afirmou que Horace foi magnífico em sua missão. Gilan chegou na metade da refeição e foi uma adição bem vinda. Ele havia sido o arqueiro temporário de Redmont na ausência deles e ele havia sido chamado para dar um jeito em um bando de ladrões. Sabendo que os arqueiros do feudo haviam sido enviados em uma missão, os ladrões começaram a incomodar os viajantes nas estradas de Redmont. Eles ficaram surpresos quando descobriram que o lugar de Halt havia sido tomado por Gilan, um arqueiro tão habilidoso e possivelmente mais energético. Gilan os seguiu até o seu covil e então guiou uma patrulha para prendê-los.
Foi notável que uma vez que Gilan se juntou à mesa deles, a jovem Jenny se concentrou menos em servir opções de comidas para Halt e Will e mais em apresentá-los para o alto e bonito arqueiro.
Como era sempre o caso, Halt e Will falaram um pouco sobre os detalhes de sua missão. Eles deram um pequeno esboço para o barão, que acenou com a cabeça em aprovação de seus atos. Seus relatórios detalhados seriam passados para Crowley e então para o rei. Mas as pessoas estavam acostumadas com a relutância usual do arqueiro de ser o centro das atenções.
Eles simplesmente estavam felizes por estar em casa, seguros.
Uma pessoa é claro, ouviu a história inteira dos lábios de Halt. Mais tarde naquela noite, quando o salão de jantar de Redmont estava quase vazio e os últimos convidados estavam indo para suas camas fazendo barulho, lady Pauline acenou para Will e o moveu para o lado para falar em particular com ele. Sua expressão sombria estava mais séria do que nunca e Will percebeu que havia estado preocupada com seu marido durante o tempo em que ele esteve fora.
― Halt me contou o que aconteceu lá no norte, Will. Ele disse que teria morrido se não fosse por você e por Horace.
Will mudou seu pé de posição, desconfortável.
― O crédito de verdade deveria ir para Malcolm, minha senhora ― ele disse, e então quando ela levantou um dedo para lembrá-lo, ele se corrigiu ― quero dizer, Pauline. Afinal, foi ele quem curou Halt.
― Mas foi você que cavalgou dias e noites para buscá-lo. E você foi quem capturou o assassino para que Malcolm pudesse descobrir qual veneno foi usado. Eu sei para onde devem ir os agradecimentos, Will. E eu lhe agradeço de todo meu coração.
Mas Will estava balançando sua cabeça. Ele estava sendo incomodado por algo desde que eles descobriram aquela terrível ferida infectada no braço de Halt. Isso estava na parte de trás de sua mente o tempo todo e só agora ele conseguia traduzir isso em palavras.
― Minha senhora... Pauline, antes de partimos, você me pediu para tomar conta dele ― ele disse e ela confirmou.
― Eu me lembro.
― Bom, eu não fiz um bom trabalho. Eu deveria ter percebido que algo estava errado. Deveria ter olhado aquela ferida mais cedo. Eu sabia que ele havia sido atingido, mas simplesmente deixei pra lá. Ele estava se comportando estranho. Os sinais estavam todos lá e eu deveria tê-los visto. Mas eu simplesmente não estava pensando. Eu deveria ter feito algo mais cedo.
Ela lhe tocou na bochecha gentilmente. Tão jovem para sentir tanta responsabilidade, ela pensou com ternura. Ela sabia que ela e Halt provavelmente nunca teriam filhos. Esse jovem seria seu filho, ela pensou. E ela não poderia ter pedido por um melhor.
― Pauline ― Will estava dizendo ― eu vim com o sentimento de ter falhado com você. Eu vim com um sentimento de ter decepcionado Halt.
― Mas você não o fez, não vê? ― ela lhe disse. ― Você não o decepcionou. E eu sei que nunca irá.

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