29 de dezembro de 2016

Capítulo 51

Eles estavam indo para o norte de novo, de volta para a Floresta de Grimsdell. Era justo, Will pensou, escoltar Malcolm para casa. Ele tinha se preparado para ir por conta própria, mas Halt anunciou que todos eles fariam a viagem.
― Você pode acompanhar Malcolm de volta para a floresta ― ele disse. ― Horace e eu temos alguns negócios no Castelo Macindaw.
Will o olhou curiosamente por um momento sem entender. Então Halt explicou.
― O grupo de bandidos que estava trabalhando com Tennyson ainda está foragido ― ele disse. ― Eles precisam ser detidos. Nós vamos arrumar uma patrulha de Mancidaw para tomar conta disso. Harrison pode liderá-los. Ele deve estar ansioso para fazer alguma coisa.
Harrison era o mais novo arqueiro nomeado para o feudo Norgate, Will lembrou. A nomeação foi anunciada na Reunião Anual dos Arqueiros. Ele sacudiu a cabeça. Parecia que havia se passado tanto tempo desde a Reunião. Tanta coisa aconteceu nesse intervalo de tempo.
Eles acharam os cavalos que Tennyson e seus homens haviam se apropriado pastando num campo perto das ruínas da caverna. Eles pegaram o mais silencioso para Malcolm.
Como sempre, o mais silencioso era o maior e o pequeno curandeiro se empoleirou no topo do cavalo, suas pernas mal rodeavam o corpo redondo do cavalo, mas ele permanecia ereto.
Antes de partirem, Halt havia falado para os antigos seguidores do culto de Tennyson, os ensinando a necessidade de suspeitarem mais dos líderes de religiões que ofereciam resolver todos os seus problemas em troca de ouro. As pessoas abaixavam a cabeça e mexiam os pés, envergonhados. E, finalmente, Halt os dispensou para que voltassem para suas fazendas.
― Parece que eles aprenderam a lição ― Horace disse.
Halt bufou desconsiderando o que Horace havia dito.
― Até que o próximo charlatão chegue e prometa o céu na terra.
Malcolm sorriu de seu cinismo.
― Você não tem respeito algum com o senso comum do seu companheiro, tem?
Halt balançou a cabeça.
― Eu estive vagando por muito tempo. Ganância e medo irão sempre vencer o senso comum.
Malcolm balançou a cabeça, concordando. Sua própria experiência dava força às palavras de Halt.
― Temo que você esteja certo.
― Quanto tempo você acha que vai levar para eles voltarem aqui? ― Will perguntou.
Horace olhou para ele, sem entender.
― Por quais motivos eles voltariam?
Will sorriu para ele.
― O ouro deles ― ele disse. ― Está enterrado nos escombros, lembra? Aposto que eles vão voltar aqui, para cavar, em uma semana.
Horace riu, entendendo o que ele quis dizer.
― Aquilo deve mantê-los ocupados pelos próximos dez anos ou mais.
Então rumaram para o norte e, muitos dias depois, viram a sólida estrutura do Castelo Macindaw perante eles, curvada na via de entrada de Picta, barrando o caminho para as tribos do norte. Halt virou-se na sela para encarar Malcolm.
― Durante toda a agitação ― ele falou ― posso ter esquecido algo importante. Obrigado por salvar minha vida ― ele disse com simplicidade.
Malcolm sorriu.
― O prazer foi meu ― ele disse. ― Sempre apreciei lutar ombro a ombro com lendas.
Mas Halt não iria deixar que Malcolm deixasse isso pra lá, tão descontraidamente.
― Mesmo assim, se você algum dia precisar de ajuda de alguma forma, procure por mim. Eu irei. Você tem minha palavra.
Malcolm ficou sério. Ele viu o olhar firme de Halt e balançou a cabeça.
― Vou me lembrar disso ― ele disse.
Os dois apertaram as mãos em despedida. Seguraram os punhos por longos segundos. Então, Malcolm soltou a mão de Halt e se virou para Horace, o sorriso voltando ao seu rosto.
― E quanto a você, Horace, tente ficar fora de encrencas, certo? E não coma toda a comida do pobre do Xander.
Xander era o mordomo de Macindaw e ele guardava os mantimentos do dono do castelo mais severamente do que um miserável protegendo seu ouro. Horace riu em retorno e apertaram-se as mãos.
― Obrigado por tudo, Malcolm. Se não fosse por você, Will e eu nunca seríamos capazes de encarar lady Pauline novamente.
― Eu terei de conhecer essa extraordinária mulher algum dia ― ele disse. ― Vamos então Will, há pessoas esperando para lhe rever.


Enquanto Halt e Horace continuavam seguindo rumo ao norte, Will e o pequeno curandeiro viraram seus cavalos para o leste e para a negra linha no horizonte que marcava o começo da Floresta de Grimsdell.
Enquanto eles cavalgavam sob um céu escuro mais uma vez, Will ficou maravilhado com o senso de direção de Malcolm. Uma vez que eles estavam cercados por árvores e folhagens, sem nem sinal do sol, Will ficou rapidamente desorientado. Mas Malcolm continuou em frente e, em um surpreendente curto espaço de tempo, eles estavam na clareira onde ficava a cabana de Malcolm.
O primeiro a cumprimentá-los foi uma figura preta e branca que escorregou na clareira na direção deles, com uma cauda peluda balançando para frente e para trás. Puxão relinchou em saudação, e Will desceu de sua sela para acariciar a cabeça do cachorro e a pele macia embaixo de seu queixo e pescoço. Uma grande sombra caiu sobre ele, o que o fez olhar para cima.
― Olá, Trobar ― ele disse. ― Está tomando conta muito bem dela, ela está maravilhosa.
Realmente, Sombra estava lustrosa e brilhante e sua longa pelagem havia, obviamente, sido aparada regularmente. Trobar sorriu ao elogio de seu melhor amigo.
― Bem‘indo, Wi‘ Trata‘o ― ele disse, suas palavras sendo distorcidas por causa da deformação em sua boca.
Will ficou parado e Trobar lhe deu um abraço de quebrar os ossos. Malcolm sorriu por causa do contraste causado pelo arqueiro franzino e o imenso Trobar.
Então, mais rostos familiares surgiam timidamente das árvores que rodeavam a clareira e Will cumprimentava a todos, notando que eles sorriam quando ele lembrava-se de seus nomes e eventos que aconteceram na sua visita anterior.
Próximo de Trobar, uma mesa estava arrumada no meio da clareira e comida havia sido preparada. Um banquete improvisado se seguiu e durou até bem depois do pôr do sol. Will olhava em volta, para essa gente feliz e acolhedora. Eles haviam sido rejeitados pelo mundo lá fora por causa de suas enfermidades ou pelo fato de seus corpos serem deformados. Porque eles eram diferentes, ele pensou. Mas isso era mentira. Essas pessoas não eram diferentes de nenhuma outra.
Por fim, exausto por causa do banquete e da longa viagem, ele se recolheu para a cama em um quarto disponível na casa de Malcolm. Enquanto ele estava ali, antes de adormecer, ele podia ouvir os piados distantes de corujas em algum lugar na floresta e o leve sussurro do vento nas árvores.
Ele se despediu de Malcolm na manhã seguinte, antes mesmo de que muitos dos habitantes da clareira do curandeiro estivessem de pé e se movendo.
― Você sabe o quanto eu lhe devo ― ele disse. ― Quero lhe agradecer não só pelo que você fez, mas pelo jeito que você fez.
Malcolm franziu a testa, sem entender nada, então Will elaborou a fala.
― Eu cheguei aqui sem nem avisar, pedindo ajuda para um amigo há quilômetros de distância. Você não fez perguntas. Não hesitou. Arrumou suas coisas e foi comigo.
O franzido desapareceu.
― Nós somos amigos ― Malcolm disse com simplicidade. ― É isso que os amigos fazem uns pelos outros.
― Lembre-se do que Halt disse. Se você algum dia precisar de ajuda...
― Eu procurarei os dois ― Malcolm abraçou Will rapidamente. ― Boa sorte, Will. Viaje com segurança. Eu diria “fique fora de problemas”, mas duvido que você fará isso algum dia.
Will deu um passo pra trás. Ele sempre se sentia estranho em despedidas. Ele deu a volta em Puxão, subiu na sela e se preparou para partir. Mas uma voz o parou.
― Wi‘ Trata‘o!
Era Trobar, parado na parte mais distante da clareira. Ele estava acenando para Will. Malcolm sorriu como se soubesse de algum segredo.
― Acho que ele tem algo para lhe mostrar ― ele disse.
Will começou a atravessar a clareira em direção ao gigante. Algo estava errado, ele pensou, e então percebeu o que era. Não havia sinal de Sombra, que nunca perdia Trobar de vista.
Enquanto Will chegava perto, Trobar se virou e o guiou entre as árvores. A poucos metros dentro da mata, havia uma cabana baixa. Will notou que era ali que Trobar dormia. De um lado, havia uma pequena estrutura, com quase um metro de altura, com uma larga abertura na direção deles. Trobar apontou para lá e Will se ajoelhou para ver dentro.
Os olhos azul e marrom de Sombra retornaram o olhar, e ele viu o balançar lento de sua cauda. Então ele viu outro movimento e quatro figurinhas pretas e brancas a rodeando, passando por cima dela e mordendo com seus dentinhos afiados como agulha em qualquer lugar de sua carne que eles podiam achar.
― Filhotes! ― ele disse com gosto. ― Ela teve filhotes!
Trobar sorriu para ele e colocou uma mão gigante dentro do canil. Gentilmente, empurrando os outros filhotes de lado, ele pegou um e levantou, latindo de felicidade fora do canil. Sombra o assistiu com cuidado enquanto ele entregava a bolinha de pelo preto e branco para Will.
― Peg‘ um d‘ nin‘da ― ele disse e por um momento Will franziu a testa, tentando decifrar as palavras.
Então ele lembrou. Quando ele deixou Sombra com Trobar, ele havia falado para o gigante: “Se um dia ela tiver filhotes, eu quero um da ninhada”.
― Pegue um da ninhada? ― ele traduziu então, e Trobar sorriu, segurando a pequena e contorcida forma para ele.
― Par‘ vo‘ê, Wi‘ Trata‘o.
Will pegou o filhote, que imediatamente mordiscou seu dedo, rosnando e latindo alternadamente. Ele a estudou. Ela ainda estava coberta de uma pelagem de filhote rala e sua cauda, que mais tarde se tornaria maior, balançando vagarosamente pela extensão de seu corpo, tinha agora a forma de um chicote estreito com a ponta branca.
Ela olhou para cima até o rosto dele, e o arqueiro riu maravilhado quando viu que ela tinha herdado os olhos de sua mãe – um marrom e outro azul. O olho azul tinha um peculiar olhar maníaco. Ele acariciou o pelo na sua cabeça e ela parou de se preocupar com seu polegar. A cauda de chicote foi pra frente e para trás de felicidade.
― Ela é linda! ― ele disse. ― Obrigado, Trobar. Muito Obrigado.
Ele sorriu olhando para o filhotinho que se contorcia.
― Eu me pergunto, como devo chamá-la? ― ele meditou.
― Éb‘no ― Trobar disse firmemente. ― O no‘e de‘a e Éb‘no.
Mais uma vez Will franziu a testa enquanto ele tentava interpretar a palavra. Então descobriu.
― Ébano ― ele disse e Trobar sorriu confirmando. ― É um bonito nome, eu gostei.
Trobar ainda sorrindo, disse.
― Mel‘or  q‘ P’eti’a.
― Melhor que Pretinha? ― Will perguntou.
Aquele era o primeiro nome que ele havia proposto para Sombra. Trobar foi severo com ele quando mudou o nome do cão. Trobar acenou com a cabeça vigorosamente.
― Eu suponho que nunca serei perdoado, serei? ― Will perguntou.
― Nun‘a ― Trobar replicou com grande convicção.
Ele sorriu para o filhotinho e pôs a imensa mão no ombro de Will.
― Nun‘a ― ele repetiu.
Will levantou uma sobrancelha para ele.
― Eu entendi da primeira vez ― ele disse.

3 comentários:

  1. Ébano: uma árvore da qual se extrai a madeira escura e rijada, muito rara. É considerada nobre e valiosa. É usada para produzir instrumentos musical ou decorativos.
    No sentido figurado a palavra ébano é usada para dar ênfase àquilo que possui a cor preta e lustrosa.

    Ele consegui deu uma enfase maior que sombra. >w<

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  2. "Ela olhou para cima até o rosto dele, e o arqueiro riu maravilhado quando viu que ela tinha herdado os olhos de sua mãe – um marrom e outro azul."
    Que perfeito! Eu também tenho olhos diferentes, mas é um castanho e outro verde, queria ter um gato com olhos dessa cor.

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Boa leitura :)