29 de dezembro de 2016

Capítulo 50

Por um momento ouve silêncio na imensa caverna. Então alguém na multidão gritou.
― E o nosso ouro?
Houve um coro de aprovação dos outros. Eles poderiam estar preparados para abandonar a falsa religião que haviam adotado. Mas seu ouro e joias eram outros quinhentos. Halt levantou sua mão pedindo silêncio.
― Vocês terão a chance de recuperá-lo ― ele lhes disse. ― Mas agora devem tomar uma decisão. Vocês têm sido enganados por este homem. Mas estupidez não é um crime. Vão e não haverá mais consequências. Fiquem e nós os consideraremos parte de sua gangue.
Ele apontou para o túnel que levava pra fora da caverna. Outra longa pausa se seguiu, então duas pessoas começaram a ir naquela direção. Eles foram seguidos por mais três. Depois outro homem por conta própria. E vagarosamente, a quantidade de pessoas deixando a caverna se tornou uma inundação.
Tennyson, vendo isso, não conseguia acreditar na sua sorte. O estranho estava os deixando ir. E fazendo isso, ele dava a Tennyson e seus homens uma vantagem. Contra cem ou mais pessoas do campo nervosas, eles não teriam nenhuma chance. Mas agora ele tinha vinte homens e eles estavam sendo encarados por apenas três – quatro se contar a pequena imagem parecida com um monge que ele agora conseguia enxergar na parte de trás na caverna.
Fez um gesto para que seus homens esperassem e recuou poucos passos para a parede da caverna que estava atrás dele. Havia outra saída da caverna. Ele sabia disso, mas o segredo só era compartilhado por poucos de seus seguidores. O acesso pra saída estava bem acima dele, onde um túnel se iniciava de uma saliência na parede.
Uma vez que a população local tivesse saído, ele iria ordenar seus homens para atacarem. Na confusão, iria escalar rapidamente até a saliência, seguiria pelo túnel e iria sair no topo da falésia, livre para seguir em frente e começar de novo. Ele teria que abandonar a maior parte dos saques da paisagem local. Mas tinha escondido um saco de ouro e uma seleção das mais valiosas joias no túnel, para o caso de uma eventualidade como essa. Isso seria o suficiente para ele escapar e começar de novo em algum outro lugar, longe dali. Talvez dessa vez ele tomasse rumo à Gálica. Não havia nenhuma lei real e ordem naquele país desorganizado. Um homem poderia se dar muito bem lá, ele pensou.
O último da população local estava tomando seu rumo pra fora da caverna agora. Halt assistiu eles irem. Ele queria tirá-los do caminho. Ele sabia que Tennyson não iria ficar quieto, e com a caverna cheia de gente seria difícil dizer quem era amigo e quem era inimigo. Além disso, como havia dito, essas pessoas eram tolas, não criminosas, e ele não queria ver nenhum deles machucados ou mortos.
Agora, ele pensou, essa deve ser a hora de aparar a disputa ainda mais. Ele olhou a fila de vestes brancas o encarando. Estavam todos armados, viu. Poucos tinham espadas ou maças. A maioria carregava clavas e adagas. Devia ter alguns lutadores de verdade entre eles, pensou, mas a maioria seria nada mais do que bandidos. Ele estava confiante de que ele, Horace e Will poderiam dar conta facilmente.
― Minha disputa não é com nenhum de vocês ― ele disse. ― Quero Tennyson, só isso. Qualquer um de vocês que decidir sair agora, pode partir livremente.
Ele viu poucos dos de vestes brancas trocarem olhar de incerteza. Eles deviam ser araluenses, pessoas que sabiam que se meter com dois arqueiros poderia não ser a melhor ideia do mundo. Os hibernianos seguidores de Tennyson permaneceram firmes. Mas antes que algum de seus seguidores pudesse desertar, Tennyson gritou.
― Vocês acham que ele apenas os deixará ir? ― ele os desafiou. ― Ele irá os caçar uma vez que estiverem fora daqui. Só há uma coisa a se fazer. Nós os temos em menos quantidade! Um velho e dois garotos! Matem-nos! Matem-nos!
No momento em que sua voz atingiu o pico de urgência, a tensão se quebrou e os de vestes brancas avançaram em grupo, de armas levantadas.
Rapidamente, Halt recuou antes do primeiro ataque, sacando sua faca de caça para desviar a investida de uma adaga, logo em seguida ferindo o antebraço do agressor com o gume afiado. O homem gritou de dor e caiu fora da luta, cuidando do seu braço ensanguentado. Mas havia outros atrás dele e Halt continuou a se afastar. Ele também sacou a faca pequena. Bloqueou o corte de espada de um homem com a de caça, entrou em cena e enfiou profundamente a outra faca. Halt viu os olhos do homem brilharem enquanto vagarosamente seus joelhos iam cedendo. Mas não havia tempo de ver mais nada. Outro agressor os estava pressionando e havia mais dois a sua direita. Ele se virou para encarar um novo ataque.
Logo em seguida havia espaço a sua volta enquanto Horace saltava para lhe ajudar, sua espada reluzia a incerta luz das velas e do fogo como uma roda gigante flamejante de luz. Ele cortou três agressores em um espaço de poucos segundos. Um quarto saiu cambaleando, agarrado ao cabo de uma flecha que projetava de seu peito. Will de novo, Halt pensou.
Os de vestes brancas recuaram para se recuperar. Eles haviam perdido quase um quarto de seus números na primeira louca investida. Clavas e adagas não eram páreas para a espada de Horace, e mesmo entre os que estavam com espadas, não havia nenhum com habilidades com arma. E o arqueiro, com suas duas facas era tão rápido quanto uma cobra dando o bote.
Então, um mais ousado ou bravo do que os outros deu um passo à frente, acenando para o seguirem.
― Qual é! Só tem...
Um BANG ensurdecedor abafou suas palavras e uma imensa nuvem de fumaça marrom levantou a sua frente. Ele recuou em pânico. Houve outra explosão bem alta e outra nuvem densa de fumaça se sucedeu enquanto Malcolm lançava uma segunda bola de lama no grupo de homens. Eles retrocederam, chorando de medo.
Então o primeiro homem parou, balançando a cabeça. A explosão ocorreu bem a seus pés, meramente um metro de distância. Ainda sim, apesar do zumbido nos seus ouvidos e do cheiro acre da fumaça, ele não estava ferido. Os mísseis, ou seja, lá o que eram, eram inofensivas.
― Elas não podem machucar vocês! ― ele gritou. ― São apenas barulho e fumaça! Vamos lá!
Ele foi adiante, mas apenas uns poucos o seguiram. O resto se amontoou, incertos, desorientados pela explosão ensurdecedora e o turbilhão de fumaça.


Empoleirado nas rochas, Will se preparou para apanhar qualquer um dos de vestes brancas que pudessem representar uma ameaça para Halt e Horace. Seus instintos imploravam para descer das rochas e se juntar a eles, mas a razão lhe dizia que ele seria mais útil ali em cima.
Além disso, ele podia ver que os de vestes brancas não estavam mais interessados na luta. Eles estavam intimidados, amontoados em um grupo, se afastando vagarosamente de Halt e Horace. Alguma coisa sacudiu as pedras embaixo dele, e um fio de areia caiu do teto da caverna, perdido na escuridão em cima dele. Ele reparou que isso acontecia com cada uma das explosões. As bolas de lama podiam ser inofensivas, mas o barulho elevou as vibrações dentro da caverna e derrubava pedras e areia dentro do espaço confinado.
Houve um barulho alto de rochas caindo e um pequeno desabamento vindo do teto no centro da caverna, caindo perto do grupo dos abatidos de vestes brancas. Will torceu para que Malcolm fosse mais discreto com as bolas explosivas. O teto parecia decididamente instável. Muita vibração e eles poderiam estar em problemas. Não levaria muito para...
Onde está o Tennyson?
O pensamento surgiu do nada. Ele procurou pela caverna. Ele não estava com o pequeno grupo que sobrou encarando Halt e Horace. Estava no altar quando Will o viu pela última vez. Quando ele mandou seus seguidores atacarem. Mas ele...
Lá! Lá estava uma figura de túnica escalando a parede distante, atrás do altar. Ele estava quase a seis metros do chão da caverna. Acima de Tennyson, Will viu uma saliência e uma boca de outro túnel a apenas poucos metros da figura que escalava desesperadamente. Não havia dúvida de que ele estava indo pra lá. E não havia dúvidas na mente de Will de que o túnel era uma rota alternativa para fora da caverna. Em poucos minutos, Tennyson alcançaria a saliência e teria partido.
Ele colocou uma flecha em seu arco, mirou e atirou. A luz do fogo tremeluzida juntamente com a turva fumaça marrom que enchia a caverna tornou quase impossível atirar com precisão. A flecha tirou faíscas da rocha acima de Tennyson e sumiu na escuridão.
Estimulado pela visão e o som disso, Tennyson rapidamente se moveu de lado, para uma abertura de um pilar vertical que saia da parede. Will podia ver apenas relances dele enquanto ele continuava escalando – não o suficiente para um tiro preciso.
Quando ele atingiu a saliência, Will teria um segundo para mirar e atirar de novo. Mas a luz trêmula e as nuvens de fumaça fariam com que fosse quase impossível um tiro preciso. E se ele errasse, Tennyson escaparia.
Ele hesitou. Logo em seguida estava descendo as rochas para o chão da caverna, correndo através do chão claro para o pedregulho onde Malcolm estava empoleirado, sua caixa de bolas de lama aos seus pés. Will se mexeu até ele. Ele teve tempo pra reparar que agora havia apena três agressores encarando Halt e Horace e quando o fez, viu os três homens largando as armas e fugindo.
Mas do outro lado da caverna, Tennyson estava escapando.
Ele abaixou e pegou a caixa de explosivos de Malcolm, olhando para ela para ver quantas ainda havia.
Malcolm começou com uma dúzia e havia usado três. Como Will, ele percebeu os efeitos que as vibrações estavam causando na caverna e decidiu que era muito arriscado continuar com elas. Além disso, Horace e Halt estavam tomando conta das coisas de maneira bem admirável, pensou. Agora ele olhava, horrorizado, enquanto Will pegava a caixa com nove bolas de lama e movia seu braço para trás.
― Will! Não! ― ele exclamou. ― Você vai derrubar a...
Ele não foi adiante. O jovem arqueiro levou seu braço pra frente e enviou a caixa, girando, através da caverna. Instintivamente Malcolm se agachou tapando suas orelhas com suas mãos. O violento movimento que envolvia o lançamento das caixas poderia ser suficiente para chocalhar as bombas ali dentro e as detonarem.
Contudo a caixa, girando vagarosamente, atravessou a grande caverna, alcançando quase a metade do caminho para o altar antes de atingir o chão de areia. Ela pulou, saltando para o ar de novo, então foi pra cima e atingiu o solo de novo, mas dessa vez em um canto.
No momento antes de a caverna se encher com uma imensa erupção de barulho e fumaça, Will viu Tennyson chegar à saliência, seguindo para o túnel. O falso profeta olhou para trás, para a cena na caverna. Então a terra sacudiu sob seus pés e um estrondo encheu a caverna.
Rochas e areia caíram na caverna em quantidade cada vez maior. Pequenos deslizamentos de terra começaram nas rochas que faziam o perímetro da caverna, rapidamente crescendo em tamanho e em violência. Uma gigantesca massa de fumaça amarela acastanhada subiu. Antes de ela escurecer a parede distante, Will viu uma imensa rocha se soltar da parede da caverna sobre a saliência onde Tennyson estava parado. A rocha caiu ao seu lado, quase um metro dele. Instintivamente, o pregador recuou, pisando em falso no ar, e caindo vagarosamente da saliência. Ele bateu contra as rochas caídas na base daquela parede de pedra e Will deu uma última olhada para seu corpo quebrado e sem vida.
Então ele foi escondido pela visão de uma massa de fumaça marrom.
Rochas caiam rapidamente e aumentava a quantidade cada vez mais e o fio de areia tinha se tornado uma dúzia de cascatas em diferentes partes da caverna. Não havia dúvidas. As paredes e o teto estavam desabando e eles tinham apenas segundos para se safarem. Will agarrou o braço de Malcolm e o puxou pra baixou do pedregulho.
― Vamos lá! ― ele gritou.
Malcolm estava momentaneamente congelado. Ele encarava as rochas caindo e e a chuva de areia.
― Você está maluco? ― ele perguntou e Will empurrou o fortemente através do túnel de entrada.
― Sim! Agora dê o fora daqui! ― Will gritou e, finalmente, o curandeiro seguiu para a saída.
Satisfeito que ele estava se movendo, Will correu de volta para onde Halt e Horace ainda estavam parados, encarando os de vestes brancas derrotados, barrando o caminho deles para o túnel. Os seguidores de Tennyson, já derrotados e desmoralizados, estavam agora totalmente desorientados devido à aterrorizante sequência de fatos que eles acabaram de presenciar.
― Vamos! ― Will gritou.
Ele agarrou o braço de Horace, arrastando-o consigo.
― Halt! Nós temos que sair daqui agora!
Horace estava indo com ele, mas Halt hesitou.
― Tennyson? ― ele perguntou, mas Will acenou para ele urgentemente.
― Ele já era! Eu o vi cair. Vamos, Halt!
Ainda assim Halt hesitou. Mas então uma seção inteira do teto desabou e se espatifou em uma nuvem de poeira e areia, adicionando a massa de fumaça marrom, e sua decisão estava tomada. Ele virou e correu para a entrada do túnel.
Num erro fatal, os sobreviventes de vestes brancas correram na direção oposta, desaparecendo no turbilhão de areia e poeira.
Will, levando Horace, chegou à entrada do túnel. Por um momento o guerreiro empacou no buraco escuro, mas Will o puxou para frente.
― Estou com você! ― ele disse e sentiu a resistência de Horace desaparecer enquanto ele seguiu seu amigo para a escuridão sombria do túnel.
Uma sombra encheu a entrada quando Halt veio atrás deles.
Para Horace, o túnel estava ainda pior do que antes. O espaço ecoava o estrondo das rochas caindo e causando desmoronamentos. Ele podia sentir as terríveis vibrações no chão embaixo de seus pés e nas paredes enquanto ele passava as mãos nelas. E agora o túnel estava se enchendo de nuvens de poeira. Ele não podia ver a poeira na escuridão total, mas ela entrava na sua garganta e nariz e o fazia tossir sem ter nada que o ajudasse.
A escuridão, o barulho, a poeira – eram tudo parte dos seus piores sonhos e ele estava perto de perder o controle. Mas o aperto de Will no seu braço era firme e lutou contra o pânico e seguiu seu amigo.
Ele sentiu a pressão diminuir no seu braço e deduziu que estariam perto da saída baixa do túnel. Agachou, seguindo Will, e sentiu um impacto contra ele, vindo de trás e depois de um momento endurecido de medo, percebeu que era Halt.
Então os três camaradas cambalearam, tossindo violentamente, para a menor caverna e o alívio abençoado da luz cinzenta do escurecer, vindo das fendas de ventilação no alto da parede. Poeira surgiu da abertura que eles haviam acabado de passar e eles se afastaram dela enquanto a nuvem de poeira começava a encher a caverna menor.
Malcolm estava esperando por eles na entrada do segundo túnel, fazendo gestos fervorosamente para que se juntassem a ele.
― Vamos! ― ele gritou ― A caverna inteira está instável, ela vai entrar em colapso a qualquer minuto!
Quase na mesma hora, a seção da parede interna desabou e se partiu em pequenos pedaços pelo chão. Mais poeira explodiu no ar.
Então estavam na escuridão mais uma vez e a curva levou a um túnel estreito, com o som da terra entrando em colapso atrás deles e Will permaneceu agarrando o braço de Horace para guiá-lo.
Por um momento Horace ficou horrorizado pensando que o túnel poderia desmoronar e ele ficaria enterrado ali dentro. Mas abafou o pensamento, sabendo que se ele se submetesse ao pânico congelaria e não sairia do lugar.
Então a escuridão a sua volta não estava tão escura e percebeu que podia reconhecer a figura escura de Will, o guiando, delineado pela luz cinzenta que vinha da entrada do túnel.
Com um gemido de alívio, Horace cambaleou para fora do túnel. Malcolm, esperando do lado de fora, segurou seu braço apressando-o para fora. Will esperou pra ter certeza de que Halt o havia seguido e então os dois arqueiros correram lado a lado, tossindo e com os olhos lacrimejando, até que todos estavam fora da entrada da caverna.
Cansados, os quatro viraram para ver a estreita fenda na rocha. Poeira saiu dali. Então houve um grande estrondo na terra e a poeira se tornou uma grande nuvem que foi esguichada numa corrente pela fenda, sendo expelida do alto nível, forçado pelo desmoronamento da caverna.
Halt usou uma mão para limpar seu rosto empoeirado.
― Bem ― ele disse ― parece que o culto dos forasteiros finalmente foi para debaixo da terra.
Então ele se afundou, cansado, na terra. Vagarosamente os outros se juntaram a ele e se sentaram em silêncio, assistindo a poeira que continuava sendo expelida do túnel. Halt esfregou seu joelho que doía por ter batido em uma rocha enquanto estava cego no túnel.
― Estou realmente ficando muito velho pra esse tipo de coisa.

3 comentários:

  1. "― Estou realmente ficando muito velho pra esse tipo de coisa."
    Como assim?! Primeiro corta o cabelo, depois se casa, e agora está falando que que está velho de mais?! O que está acontecendo com você, Halt?

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Boa leitura :)