9 de dezembro de 2016

Capítulo 5

A prisão ainda era uma prisão, independente de os carcereiros apreciarem sua comida.
Nellie Gomez estava atrás do balcão do refeitório da Trilon Laboratories, a instalação secreta de Pierce em Delaware, seu cabelo enfiado dentro da touca de chef e as mãos dentro de luvas de látex. Ela colocou um pequeno prato de sobremesa na bandeja do cientista na frente dela.
Ele considerou o prato com aprovação.
— Nellie, eu caminharia de pés descalços sobre vidro quebrado por um quilômetro pelo seu tiramisu.
— Bon appétit — ela respondeu brilhantemente. Continue sorrindo, garota, ela disse a si mesma. Não os deixe perceber que está tramando contra eles.
Três dias atrás, ela posava como pesquisadora neste lugar para resgatar o Cahill cientista – e totalmente quente – Sammy Mourad. Agora ela era uma prisioneira ali, exposta como impostora e forçada a servir como assistente de laboratório de Sammy, fabricando o soro para J. Rutherford Pierce. Tinha sido pura sorte que a cozinheira tivesse ficado doente, e ela se oferecera para assumir a cozinha. Uma vez que os cientistas perceberam que tinham uma chef francesa treinada no local, o trabalho era dela. Ela já podia sentir o abrandamento na segurança que sufocava a ela e a Sammy. Sim, os guardas ainda estavam ali. Mas as armas estavam no coldre, em vez de apontando para suas têmporas à queima-roupa. Agora as armas pendiam nas laterais de homens que estavam encurvados sobre porções de suflê de chocolate. Era uma diferença enorme.
Um bom suflê pode fazer milagres. Esse era o lema de sua mentora nas cozinhas de Paris. Nellie nunca quis acreditar tanto nisso. Se um suflê ou um pastel ou até mesmo um jantar com doze pratos pudesse ajudar Amy, Nellie moveria céus e terra para ajudá-la.
Pobre Amy, com apenas um punhado de dias para viver. Somente o antídoto poderia salvá-la, e os ingredientes para isso estavam espalhados pelos quatro cantos do globo. Nellie estava impotente para ajudar suas crianças, e só de pensar nisso sua alma tremia. No entanto, também reforçava a sua determinação. Talvez ela não pudesse produzir o antídoto, mas ela faria sua parte nessa luta contra Pierce. E quem entrasse em seu caminho seria atropelado.
Outra bandeja deslizou ao longo dos suportes, mas quando Nellie ofereceu um prato, ele foi rejeitado.
Ela olhou nos olhos escuros de Sammy.
— O que você está fazendo, Nellie? — ele assobiou. — Eles nos prenderam aqui como ratos, e agora você cozinha para eles?
— Shhhh — ela alertou. — O caminho para o coração de uma pessoa é através do estômago.
— Quem se importa? Os caras daqui não dão as ordens, Pierce, sim. E ele não tem um coração.
— Quanto mais eles gostarem da minha comida, mais vão confiar em mim. E vai ser mais fácil para nós – você sabe... — ela examinou a sala, observando os vários cientistas, seus assistentes e a guard du jour, que, embora focados em sua sobremesa, nunca tirava completamente os olhos dela — esterilizar os tubos de ensaio.
Sammy assentiu. Esterilizar os tubos de ensaio era o código deles privado para seu objetivo final – destruir o laboratório. Já era ruim o suficiente que Pierce estivesse usando o soro Cahill para aprimorar a si mesmo, suas crianças tolas e seus supermusculosos guarda-costas. Mas, quando o laboratório acelerasse a produção das coisas, ele logo seria capaz de dá-lo para milhares de capangas ao invés de apenas dezenas. Esse era o propósito da Trilon – a instalação ultrassecreta no porão, de qualquer maneira – e a razão pela qual Sammy havia sido sequestrado em primeiro lugar.
Ultimamente, porém, os cientistas estavam experimentando uma nova fórmula. O principio envolvia a combinação do soro com certas propriedades do antídoto para criar um tipo de super-soro. “Franken-soro”, Nellie tinha chamado. Seria uma dose, extrapoderosa, e evitaria todos os efeitos habituais. Se os Cahill estavam para ter alguma chance de fazer o trem de carga de Pierce descarrilar, Nellie e Sammy tinham que derrubar o laboratório antes de o Franken-soro se tornar realidade.
— Conversaremos mais tarde — ela sussurrou, forçando o prato para ele.
Enquanto Sammy se dirigia para a mesa, ela voltou sua atenção para a próxima pessoa que vinha na fila. Seu nome era Dr. Jeffrey Callender, diretor do instituto Callender em Nova York, onde Fiske Cahill era um paciente.
O idoso Fiske não estava indo bem, e o Dr. Callender era o motivo. Seu instituto estava testando o soro no pobre Fiske – expondo-o a doses perigosamente altas e monitorando os efeitos colaterais. Callender estava em conluio com Pierce o tempo todo, e os dois estavam usando o velho como um rato de laboratório.
— Não pule a sobremesa, Jeffrey — o parceiro de almoço de Callender aconselhou. — Nossa Nellie é treinada em Paris.
Dr. Callender olhou para baixo por sobre seu longo nariz apontado para Nellie.
— Senhorita Gomez e eu já estamos familiarizados.
— É um prazer vê-lo novamente, doutor — Nellie disse docemente. Seria um prazer maior bater nessa sua cabeça podre com um taco de beisebol.
Claro, ela não poderia dizer isso em voz alta.
Então, quando ninguém estava olhando, Nellie discretamente cuspiu em um prato de tiramisu antes de colocá-lo na bandeja de Callender.
— Aproveite.
Esta era outra coisa que tinha aprendido em Paris.

* * *

De acordo com o rastreador no computador de Pony, o jato de Pierce estava se dirigindo para Siem Reap no Camboja, o aeroporto mais próximo das antigas ruínas de Angkor.
— É muito perigoso segui-los até lá — Jake decidiu. — Eles vão chegar com tempo para montar uma armadilha.
— Deixe-os tentar — disse Amy impetuosamente. — Nós podemos com eles.
Os olhos dos dois se encontraram. Amy era conhecida por manter a cabeça fria, mas isso tinha mudado. Agora que ela sentia que podia vencer os capangas de Pierce em uma luta justa, ela parecia estar ansiosa.
Os dois se voltaram para Dan, que olhou para cima, surpreso.
Gostando ou não, era seu trabalho dizer qual seria o próximo movimento.
— Vamos tentar evitar um confronto até que tenhamos o antídoto. Talvez possamos voar até um aeroporto diferente e irmos até Angkor sem os capangas de Pierce perceberem.
— Há algo que eu não entendo muito bem — Ian arriscou. — Como foi que Pony conseguiu rastrear o avião de Pierce? Ele não pode ter se infiltrado na tripulação e plantado um transmissor a bordo. Ele é um hacker, não um agente secreto.
— Talvez ele não esteja rastreando o avião – e se ele estiver rastreando alguém dentro dele?
— De qualquer modo, ele conseguiu — disse Dan tristemente. — Não valeu o preço que ele teve de pagar.
Amy esfregava um creme sobre o rosto queimado de Dan com a mão esquerda, que era menos suscetível a seus tremores. Ela fez uma pausa, e seu sofrimento indizível e seu arrependimento borbulharam para preencher o silêncio. Pony tinha se juntado a eles voluntariamente. Mas não havia como negar que o valente cowboy digital estaria vivo hoje se nunca tivesse se cruzado com Amy e Dan.
— Nós devemos dormir um pouco — disse ele rapidamente. — Temos quatro horas antes de aterrissarmos, e duvido que será muito relaxante depois disso.

* * *

Phnom Penh era a capital do Camboja, e abrigava o maior aeroporto do país. Jonah teve que passar pelo Controle de Passaporte porque todos os agentes aduaneiros queriam autógrafos. Mas o astro finalmente foi capaz de convencer seus fãs de que ele não estava planejando qualquer concerto ou aparições públicas.
— Eu sou só um turista, yo, olhando os pontos turísticos de seu país — assegurou ele.
Por fim, com seu famoso primo corretamente escondido atrás dos óculos de sol e um boné de beisebol, o grupo Cahill saiu da esteira de bagagens.
— Gente! — era uma voz familiar. — Por aqui!
Era um musculoso Hamilton Holt, uma cabeça mais alto e pelo menos trinta quilos mais pesado que todos no aeroporto.
— Meu rapaz! — Jonah chegou ao primo deles primeiro, e os dois compartilharam um abraço vigoroso que mais parecia uma cena de luta livre.
Eles eram os mais improváveis melhores amigos – um Tomas musculoso e um chamativo e artístico Janus – mas cada um teria atravessado paredes pelo outro.
— Vamos precisar de um SUV para caber todos os sete — Amy decidiu.
— Não é necessário — Hamilton a informou. — Eu peguei um barco para nós.
— Por quê? — Ian estava boquiaberto. — Estamos a trezentos quilômetros de Angkor!
— É muito rápido — Hamilton prometeu. — E vai ser bom tê-lo quando chegarmos lá. Nós estamos procurando pela serpente d’água de Tonle Sap. Adivinhem qual rio vai daqui para Angkor – o Tonle Sap! Eu peguei algumas redes de pesca. Talvez tenhamos sorte e encontraremos uma cobra na viagem.
— Só que elas estão praticamente extintas! — Ian apontou.
— Sério? — Hamilton ficou chocado. — Como é que vamos conseguir uma?
— Bem-vindo ao mundo dos Cahill — Dan suspirou em um tom exausto. — Se não for impossível, não vale a pena.

* * *

O barco deles era listado como uma “embarcação de luxo”, o que significava que tinha um para-sol de lona pregada a uma estrutura apodrecida. Seu nome era Kaoh Kong, e Dan e Atticus imediatamente o apelidaram de King Kong.
Phnom Penh estava localizada na intersecção de Tonle Sap e Mekong Rivers.
— O cara que aluga barcos me desenhou um mapa — Hamilton explicou enquanto o motor rugia para vida em uma nuvem de fumaça de óleo azul. — Não precisa ser um gênio. Você tem de seguir para o norte e pega a esquerda na bifurcação. Depois disso, é direto para Siem Reap e Angkor. O que pode dar errado?
O que deu errado foi algo que o “cara que aluga barcos” não se preocupou em mencionar.
O rio Tonle Sap era uma torrente durante as chuvas das monções. Mas esta era a estação das secas, quando a poderosa hidrovia estava reduzida a um riacho lamacento. Mesmo à velocidade máxima, a viagem levaria pelo menos esgotantes oito horas no calor e na umidade.
A fim de passar o tempo de forma produtiva, eles se revezavam nas redes na esperança de conseguir pegar uma serpente d’água. Todos pegaram, no entanto, um punhado de bagres, e algumas aves mortas. Jonah estava sob o dossel, seus braços e pernas abertos em uma tentativa de atrair o pouco que havia de brisa.
— Eu não estou pedindo pelo Queen Mary, mas isso é medieval.
— Londres nunca fica tão quente — gemeu Ian. — Pelo menos, não desde o grande incêndio de 1666.
— Esqueça o calor — Jake estava fora de si. — Nós estamos gastando oito horas da vida de Amy! Certamente até mesmo o ônibus seria mais rápido que isso!
Amy lançou um olhar semicerrado em sua direção.
Ela entendia sua angústia – ele era um espectador impotente enquanto os efeitos do soro a devastavam. Ainda assim, ela precisava que ele parasse de tentar protegê-la.
— É melhor assim — ela disse corajosamente. — Aeroportos e terminais de ônibus podem ser vigiados, mas ninguém estará esperando que nós saiamos rastejando para fora do pântano.
De seu lugar atrás do volante, Hamilton parecia grato pelo seu apoio. Ele sabia que estava sendo responsabilizado pelo desconforto geral.
Amy estava pondo uma máscara corajosa, mas ela sofria mais do que ninguém. Os tremores nas pernas e nos braços estavam se tornando cada vez mais difíceis de esconder. Mais assustador ainda, o calor da selva parecia estar acelerando suas alucinações.
Em um ponto, ela se agachou no convés para evitar o mergulho de um pássaro tropical que não estava lá. Como ela poderia explicar isso para Jake e Dan, se os dois que raramente tiravam os olhos dela?
Eles estavam com calor demais para apreciar a vista – pitorescas aldeias de pescadores engenhosamente concebidas de bambu ao longo do rio. Sedimentação forte dava à água uma textura que se assemelhava a tecido, estendendo-se por quilômetros. Bagres gigantes quebravam a superfície antes de desaparecer novamente. Búfalos d’água os assistiam passar em calmo interesse, mugindo entre si como se discutissem sobre os estranhos recém-chegados.
— Sem autógrafos, yo — Jonah resmungou para eles numa névoa de sono.
Atticus, o gênio linguístico, tinha um conhecimento lido de khmer. Mas acabou por ser khmer antigo, por isso tudo o que ele conseguiu dos pescadores que encontraram foi expressões vazias. Jake tentou dizer a palavra para serpente e acenar punhados de dólares norte-americanos e riel cambojanos. Os moradores pareciam querer levar o dinheiro, mas não podiam fornecer as cobras.
Além da aldeia de Kampong Chhnang, a hidrovia tornou-se mais ampla e profunda, e eles foram capazes de aumentar a velocidade. Após seis horas de mesmice quase total, o cenário começou a mudar dramaticamente. O rio se ampliou num grande lago, calmo e cristalino, pontilhado por comunidades de pesca construída nas margens estreitas de terra.
— Esse é o Tonle Sap — explicou Atticus. — É realmente um grande lago!
— É lindo! — Amy exclamou. Eles pareciam estar navegando em um espelho líquido gigantesco, com as nuvens e o céu perfeitamente replicados em toda a superfície plácida. — E pensar que metade do país depende da pesca daqui como fonte de proteína.
Eles fizeram um ótimo tempo ao atravessar a vasta extensão do lago antes de desacelerar novamente para navegar o Rio Siem Reap, um afluente estreito que levava ao destino deles. Mais uma vez, eles estavam rastejando ao longo de um córrego estreito cercados por floresta.
Passaram por mais algumas habitações em ruínas e, em seguida, Jonah apontou:
— Vejam – as casas daqui são todas feitas de palitos de picolé. Então como aquela lá na frente parece como Malibu?
Todos eles esticaram o pescoço para olhar.
Depois de uma curva estava uma casa de luxo no estilo Califórnia. Além dela havia uma construída no estilo do rio Mississippi. Todos os tipos de barcos estavam amarrados na doca ao longo da orla – não apenas canoas de pesca artesanal, mas agradáveis embarcações importadas.
— Subúrbios — Jake concluiu. — O que significa que estamos perto de uma cidade.
Logo a espessa selva deu lugar ao paisagismo, e os edifícios de Siem Reap vieram à tona. Não era uma grande metrópole com arranha-céus e chaminés de indústria pesada. Mas em comparação com as aldeias primitivas por que tinham passado no rio, era moderno e convidativo.
Não havia uma marina formal, então Hamilton habilmente amarrou o Kaoh Kong em um tronco ao lado de vários barcos.
— Terra firme — disse Ian reverente quando deu um passo para fora da doca para a margem gramada. — Nunca pensei que eu ficaria sobre ela novamente.
Jonah estava igualmente agradecido.
— Ar-condicionado! Chuveiros! Eu tenho um palco monstro suado sem o palco!
— Se vocês não gostam de meu barco, na próxima vez podem vir à nado — Hamilton comentou, seu braços musculosos nos quadris. — Tenho certeza de que os bagres apreciarão a companhia.
Dan assumiu o comando.
— Siem Reap é a cidade mais próxima de Angkor, então um monte de turistas vem aqui. Vamos escolher o melhor hotel da cidade e reservar um andar inteiro de suítes!
— Isso não parece um modo de passar despercebido — Amy observou. — Queremos um lugar onde Galt nunca nos procuraria.
— Entendido — Ian reconheceu. — Pelo interesse da segurança, temos de aceitar um quatro estrelas em vez de cinco.
— Que tal um sem estrelas — Amy sugeriu. — Uma casa de hóspedes administrado por uma velha senhora que não fale sobre seus clientes.
— Tudo bem — suspirou Ian. — Desde que ela forneça roupões de banho macios e chinelos.
Jake riu na cara dele.
— Prepare-se, Kabra. Prepare-se para ver como é o outro lado da vida.

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Boa leitura :)