29 de dezembro de 2016

Capítulo 4

Halt e Horace alcançaram o cume de uma pequena subida e frearam seus cavalos. A menos de um quilômetro de distância, Porto Cael estendia-se diante deles. Edifícios pintados de branco, amontoados no alto de uma colina e se estendendo para baixo até o porto – um quebra mar feito pelo homem, adentrava para o oceano, em seguida, virava em ângulo reto para formar uma baía em forma de L, um paraíso para a pequena frota ancorada no interior das muralhas.
De onde estavam, os navios podiam ser vistos apenas como uma floresta de mastros, misturados e indistintos como embarcações individuais. As casas no morro eram pintadas e pareciam cuidadosamente mantidas. Mesmo sob o céu nublado, pareciam brilhar. Descendo o morro e mais perto do cais, uma visão mais clara dos edifícios mostrava que a cor predominante era cinza opaca.
Típico de qualquer porto, Halt pensou. As pessoas mais distintas viviam na colina, em suas casas impecáveis. A ralé perto da água.
Ainda assim, ele apostaria que as casas impecáveis da colina continham a sua quota de vilões e comerciantes sem escrúpulos. As pessoas que lá viviam não eram mais honestas do que os outros, apenas mais bem sucedidas.
— Aquele não é alguém que conhecemos? — perguntou Horace.
Ele apontou para o lugar onde uma figura encapuzada estava sentada à beira da estrada, a algumas centenas de metros de distância, com os braços em volta dos joelhos. Perto dele, um pequeno cavalo desgrenhado pastava na grama, que crescia na borda da vala de drenagem que corria ao lado da estrada.
― É sim — Halt respondeu. ― E ele parece ter trazido Will com ele.
Horace olhou rapidamente para o seu companheiro. Ele sentiu que seu ânimo havia melhorado. Halt não era de fazer muitas piadas, mas essa foi a primeira que ele fez desde que haviam deixado o túmulo de seu irmão em Dun Kilty. O arqueiro nunca foi um companheiro tagarela, mas tinha estado ainda mais calado do que o habitual ao longo dos últimos dias. Compreensível, pensava Horace. Afinal, ele tinha perdido seu irmão gêmeo.
Agora o arqueiro parecia preparado para sair de sua depressão. Possivelmente isso tinha algo a ver com a perspectiva de ação iminente, o jovem cavaleiro pensou.
— Parece que ele perdeu uma moeda de ouro e encontrou um centavo — disse Horace, depois acrescentou desnecessariamente — Will, eu quero dizer.
Halt virou-se na sela considerando o homem mais jovem e levantou uma sobrancelha.
— Eu posso parecer senil aos seus olhos Horace, mas não há nenhuma necessidade de explicar o óbvio para mim. Eu dificilmente pensaria que você estivesse referindo-se à Puxão.
— Desculpe-me, Halt.
Mas Horace não pôde evitar um sorriso no canto da boca. Primeiro uma brincadeira e agora uma resposta mordaz. Era melhor do que o silêncio taciturno que envolveu Halt desde a morte de seu irmão.
— Vamos ver o que o está incomodando — disse Halt.
Ele não fez nenhum movimento ou sinal visível para seu cavalo que Horace pudesse perceber, mas Abelard seguiu imediatamente em um trote lento. Horace tocou os calcanhares nas costelas de Kicker e o cavalo de batalha respondeu rapidamente, alcançando o cavalo menor e ficando ao lado dele.
À medida que eles se aproximaram, Will se levantou escovando-se. Puxão relinchou uma saudação para Abelard e Kicker e os cavalos responderam do mesmo jeito.
— Halt, Horace — Will os saudou enquanto puxavam as rédeas ao seu lado. — Eu esperava que vocês chegassem aqui mais tarde.
— Nós recebemos a mensagem que você deixou na Baía Fingle — Halt lhe disse ― então saímos bem cedo esta manhã.
A Baía Fingle havia sido o destino original de Tennyson. Era um local de próspero comércio e um porto de pesca ficava a alguns quilômetros ao sul de Porto Cael. A maioria dos armadores e capitães de lá eram homens honestos. O Porto Cael era o lar de operações mais obscuras, como Tennyson e então Will, haviam descoberto.
— Teve alguma sorte? — Horace perguntou.
Enquanto ele e Halt tinham ficado para arrumar as coisas em Dun Kilty, Will tinha ido em frente e seguido as pistas de Tennyson, para descobrir onde ele estava indo. O arqueiro jovem agora encolhia os ombros.
— Alguma — disse ele. — Eu temo que boa e ruim. Tennyson fugiu do país, como você achou que faria, Halt.
Halt assentiu. Ele tinha esperado isso.
— Para onde ele foi?
Will mudou de posição desconfortavelmente de um pé para o outro. Halt sorriu para si mesmo. Ele sabia que seu ex-aprendiz odiava falhar em qualquer tarefa que Halt dava a ele.
— Temo que esta seja a notícia ruim. Eu não consegui descobrir. Sei quem o levou. Foi um contrabandista chamado Black O’Malley. Mas ele não me falou para onde. Sinto muito, Halt — ele acrescentou.
Seu antigo mentor encolheu os ombros.
— Tenho certeza que você fez tudo o que podia. Marinheiros em um lugar como este podem ser notórios em fechar a boca. Talvez eu tenha uma conversa com ele. Onde é que podemos encontrar este exótico personagem, chamado O’Malley?
— Há uma taverna no cais. Ele está lá quase todas as noites.
— Então eu vou falar com ele hoje à noite — disse Halt.
Will deu de ombros.
— Você pode tentar. Mas ele é um caso difícil, Halt. Eu não tenho certeza de que você vai tirar alguma coisa dele. Ele não está interessado em dinheiro. Tentei fazer isso.
— Bem, talvez ele vá fazê-lo só pela bondade de seu coração. Tenho certeza que ele vai se abrir para mim — disse Halt facilmente.
Horace observou um rápido brilho nos olhos de Halt. Ele estava certo, a perspectiva de ter algo a fazer, tinha levantado o animo de Halt. Ele tinha contas a acertar e Horace pensou que não seria nada bom estar na pele desse tal de Black O’Malley.
No entanto, um Will duvidoso ainda observava Halt.
— Você acha?
Halt sorriu para ele.
— As pessoas adoram falar comigo — disse ele. — Eu sou uma pessoa sociável e tenho uma personalidade brilhante. Pergunte a Horace, eu vim falando em seu ouvido ao longo de todo caminho de Dun Kilty, não vim?
Horace assentiu em confirmação.
— Ele ficou falando sem parar por todo o caminho — disse ele. — Ficarei feliz em vê-lo usar essa eloquência com outra pessoa.
Will considerou os dois malignamente. Ele odiava admitir o fracasso para Halt. Agora, seus dois companheiros pareciam pensar que toda a questão era uma piada e ele simplesmente não estava no melhor estado de espírito para apreciá-la. Ele tentou pensar em algo esmagador para dizer, mas não conseguiu. Finalmente, ele pulou na sela de Puxão e saiu para a estrada com eles.
— Eu tenho quartos reservados para nós em uma pousada na parte alta da cidade. É bem limpa, e com preço razoável — disse a eles.
Isso chamou a atenção de Horace.
— Como é a comida? — ele perguntou.


Eles ficaram para trás, alguns metros a partir do final do beco escondidos nas sombras. De sua posição, tinham uma visão clara da entrada da taberna e podiam ver os clientes indo e vindo sem serem vistos. Até agora, não havia sinal de O’Malley e seus dois amigos.
Will se movia irrequieto. Estava chegando perto da meia-noite.
— Eles estão atrasados, se é que estão vindo — falou baixinho. — Eles estavam aqui mais cedo na ultima noite.
— Talvez eles tivessem vindo cedo demais na noite passada — sugeriu Horace.
Halt não disse nada.
― Por que não esperar lá dentro, Halt? — Horace perguntou.
A noite estava fria e ele podia sentir o frio úmido subindo para seus pés e pernas, através de suas botas. Suas batatas da perna estavam começando a doer. “Frio e paralelepípedos molhados”, pensou. “A pior superfície possível para ficar de vigia”. Ele queria mexer seus pés para fazer o sangue fluir, mas sabia que tal ação iria ganhar uma repreensão rápida de Halt.
— Eu quero surpreendê-los — disse Halt. — Se eles entrarem e nos ver esperando, perderemos a surpresa. Vamos esperar até que se sentem, em seguida, chegaremos rapidamente, vamos pegá-los antes que tenham muitas chances de reagir. Além disso, se esperarmos por eles lá dentro, há chance de alguém sair e lhes contar.
Horace assentiu. Tudo fazia sentido. Ele não tinha grandes sutilezas, mas podia reconhecê-la nos outros.
— E Horace — Halt começou.
— Sim, Halt?
— Se eu lhe der o sinal, gostaria que você cuidasse dos dois capangas do contrabandista.
Horace sorriu amplamente. Não pareca que Halt esperasse que ele fosse sutil quanto a isso.
— Por mim tudo bem, Halt — disse ele. Então, um pensamento lhe ocorreu: — Qual vai ser o sinal?
Halt olhou para ele.
— Eu provavelmente vou dizer algo como Horace.
O guerreiro alto inclinou a cabeça para um lado.
— Horace... o quê?
―É isso — Halt respondeu. — Apenas Horace.
Horace pensou por alguns segundos, depois assentiu, como se entendendo a lógica.
— Bem pensado Halt. Manter as coisas simples. Sir Rodney diz que é a melhor maneira de agir.
— Qualquer coisa particular que você quer que eu faça? — Will perguntou.
— Assista e aprenda — disse-lhe Halt.
Will sorriu ironicamente. Ele estava decepcionado com sua incapacidade de fazer O’Malley falar. Agora estava estranhamente ansioso para ver como Halt lidaria com o assunto. Ele não tinha nenhuma dúvida de que Halt faria isso, de um jeito ou de outro.
— Isso nunca muda, não é? — disse ele.
Halt olhou para ele, sentiu a mudança em seu humor, à ansiedade tinha substituído o seu desapontamento.
— Somente um tolo pensa que sabe tudo — disse ele. — E você não é um tolo.
Antes que Will pudesse responder, ele fez um gesto em direção à rua estreita.
— Eu acredito que os nossos amigos chegaram.
O’Malley e seus dois comparsas estavam fazendo seu caminho até a rua do cais. Os três araluenses viram conforme eles entraram na taberna. Os dois grandões ficando de lado para permitir que seu capitão entrasse primeiro. Houve um breve burburinho de vozes quando a porta se abriu, derramando a luz na rua. Em seguida, o ruído e a luz foram cortados quando a porta fechou novamente por trás deles.
Horace começou a avançar, mas Halt colocou a mão em seu braço o segurando.
— Dê-lhes um ou dois minutos — disse. — Eles vão pegar suas bebidas e, em seguida tirar alguém que pode estar sentado em sua mesa. Onde eles estão em relação à porta, Will? — ele perguntou.
O arqueiro jovem franziu a testa enquanto imaginava a disposição do cômodo. Halt já sabia a resposta à sua pergunta. Ele interrogou Will no início da tarde. Mas queria manter a mente do jovem ocupada.
― Entrando. Dois passos para frente e meio para direita. Cerca de três metros da porta, junto à lareira. Cuidado com a cabeça na moldura da porta, Horace — ele adicionou.
Ele sentiu Horace acenar nas sombras. Halt estava de pé, olho fechado e contando os segundos, imaginando a cena dentro da taverna. Will se mexia, querendo entrar em ação. A voz baixa de Halt veio a ele.
— Acalme-se. Não há pressa.
Will respirou fundo várias vezes, tentando acalmar a sua pulsação acelerada.
— Sabe o que eu quero que você faça? — Halt o perguntou.
Ele já tinha falado isso aos dois nessa tarde na pousada. Mas não faria mal ter certeza.
Will engoliu várias vezes.
— Eu vou entrar e ficar de olho no recinto.
— E lembre-se, não tão perto da porta, você pode ser derrubado se alguém entrar inesperadamente — Halt lembrou.
Mas não havia necessidade disso. Nessa tarde, Halt havia feito Will imaginar o quão estranho poderia ser se ele de repente fosse apanhado por um indivíduo ansioso, empurrando a porta com força para entrar.
— Entendi — disse Will.
Sua boca estava um pouco seca.
— Horace, tudo entendido?
— Ficar com você. Manter-me em pé enquanto você se senta. Observar os dois meninos valentões e se você disser “Horace”, derrubá-los.
— Muito sucinto — Halt disse. ― Não poderia ter colocado isso melhor.
Ele esperou mais alguns segundos, depois saíram das sombras.
Eles atravessaram a rua e Halt abriu a porta. Will sentiu a onda de calor, o ruído e a luz mais uma vez, então entrou depois de Halt e se moveu para o lado. Ele ouviu um baque surdo e um rosnado “droga!” de Horace, quando ele se esqueceu de baixar ao passar pela porta.
O’Malley, de costas para o fogo, olhou para os recém-chegados. Ele reconheceu Will e aquilo o distraiu por alguns segundos, até que fosse tarde demais para reagir a Halt que caminhou rapidamente pela taverna, pegou um banquinho e sentou-se diante dele.
― Boa noite — disse o estranho barbudo. — Meu nome é Halt e é hora batermos um papo.

7 comentários:

  1. Aquele momento em que Halt fala
    "― Boa noite — disse o estranho barbudo. — Meu nome é Halt e é hora batermos um papo."

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  2. Como o Horace é descomplicado! Adoro quando o Halt diz: Hora de batermos um papo! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  3. Com Horace e tudo na borrada, é só dizer "Horace, batam neles!" Que ele ganha o dia!
    Ass: Bina. kkkkkkkkk

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  4. Horace e sua simplicidade, não sei do que ele gosta mais, lutar ou comer. Quando o Halt chega assim... tenho é pena desse cara. Mentira, quero é ver o circo pegar fogo.

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  5. Um erro " Não 'pareca' que Halt esperasse que ele fosse sutil quanto a isso."

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  6. Deborah A Morena das quebrada intera19 de setembro de 2017 06:58

    As vezes eu acho o Horace parecido com o Tyson!!

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Boa leitura :)