18 de dezembro de 2016

Capítulo 49

A tropa atravessava o deserto lentamente, rumo ao oásis onde a tribo khoresh bedullin estava acampada.
Os guerreiros bedullins montados arrebanhavam uma fila de prisioneiros tualaghis algemados na frente deles, os bandidos forçados a andar enquanto seus captores montavam. Os tualaghis, não mais que flagelo do deserto, eram um grupo lamentável – mais parecidos com mendigos do que com os invasores temidos que tinham sido. Em um símbolo final de sua queda, Selethen e três de seus oficiais haviam caminhado entre os bandidos, rasgando o véu azul de seus rostos e jogando-os no chão. Conscientes da maneira como trataram o seu guarda-costas, o wakir também removeu suas botas, deixando-os cortar e machucar os pés durante a viagem.
Ao contrário de Yusal, no entanto, forneceu-lhes água o suficiente.
Antes que o grupo deixasse Maashava, Selethen convocou o povo na praça do mercado. Erguendo-se acima deles, na plataforma que tinha sido destinada para a sua execução, ele discursou para a multidão, lembrando-lhes de como eles haviam gritado por seu sangue apenas alguns dias antes.
As pessoas da cidade abaixaram a cabeça e embaralharam seus pés culpadas. Ele garantiu que estaria em contato com o wakir de sua província e que um pesado imposto seria cobrado. A primeira parte deste imposto serviria para Maashava reformar suas muralhas e torres de vigia e organizar uma força de defesa eficaz. O povo de Maashava assentiu com tristeza. As muralhas estavam em estado precário e repará-las significaria meses de trabalho pesado. Mas, filosoficamente, aceitavam suas palavras. Selethen estava certo, afinal. Eles deveriam estar melhor preparados para se defenderem contra futuros saqueadores.
Houve pelo menos um pouco de boa notícia para alegrar o espírito dos habitantes da cidade. Selethen decidiu deixar trinta tualaghis capturados para trás para fazer o trabalho pesado.
— Eles vão passar por maus bocados — Erak disse ao wakir quando ouviu sobre essa disposição.
Selethen virou os olhos impiedosos para ele.
— Eles mataram os homens que o escoltavam, lembra? — falou friamente e Erak assentiu. Ele não tinha nenhuma simpatia real pelos tualaghis.
Os prisioneiros restantes seriam levados do oásis para Mararoc, onde iriam passar suas vidas no trabalho duro. Selethen tinha negociado com Umar por uma escolta de guerreiros bedullins para conduzi-los até lá. Umar concordou prontamente. Ele ficaria feliz em ver tantos inimigos em potencial levados e mantidos em cadeias. Como Erak, não tinha simpatia por eles.


O grupo da guerra e os seus membros adicionais, receberam uma ruidosa e entusiasmada saudação quando chegaram ao oásis. As mulheres bedullins se situavam em duas linhas de boas-vindas, em um canto, enquanto seus homens andavam lentamente de volta para o bosque de árvores enormes.
Os prisioneiros tualaghis, seguindo atrás, foram recebidos com um silêncio sinistro. Eles passaram pela linha dupla de mulheres em silêncio com suas cabeças inclinadas e seus olhos para baixo. Ainda não estavam acostumados a mostrar ao mundo seus rostos e estavam muito conscientes de que suas vidas descansavam no fio da navalha.
O ex-líder, Yusal, viajou em uma maca atrás de um camelo. Ele ainda estava atordoado do golpe que tinha levado na testa quando míssil pesado de mármore de Evanlyn o ferira. Nas raras ocasiões quando recuperou a consciência, delirava e falava coisas sem sentido. Às vezes ele foi visto com lágrimas escorrendo pelo rosto. Evanlyn considerava o resultado de sua obra com algumas dúvidas.
— Você acha que ele vai recuperar seus sentidos? — ela perguntou ao curandeiro que tinha acompanhado o grupo de guerra bedullin.
O homem mais velho tocou o hematoma enorme azul e amarelo que desfigurou a testa do Tualaghi e encolheu os ombros.
— As feridas na cabeça são incertas — ele disse a ela. — Talvez amanhã ele vá melhorar. Talvez em um ano. Talvez não. — Ele sorriu para ela. — Não se preocupe muito, jovem senhorita. Ele não merece qualquer piedade.
Ela assentiu com a cabeça. Mas não estava completamente consolada. Ela não gostou do fato de que tinha reduzido um homem – não importa o quão mau ele poderia ser – a um idiota babando.
Seu ânimo melhorou na segunda noite de volta ao oásis, quando os khoresh bedullins organizaram uma festa de celebração de boas-vindas. Eles comeram cordeiro assado temperado, pimentas escurecidas no fogo até que as suas camadas exteriores resistentes poderiam ser descascadas, em seguida, recheadas com arroz aromatizado e um cereal chamado pelos bedullins de cuscuz – era leve e macio, temperado com açafrão, cominho e cardamomo e adornado com sultaninas e flocos finos de amêndoas tostadas.
Havia outros deliciosos pratos de carne de carneiro ou frango, cozidos em uma estranha panela cônica de argila chamadas tagines e misturados com mais especiarias, tâmaras, damascos e raízes. As tampas em forma de cone retiam o vapor e mantinham o sabor do líquido de cozimento, deixando assim a carne muito suculenta e macia.
Todos comiam com as mãos e pedaços de pão sírio eram rasgados e serviam como talheres. Foi uma noite deliciosa, de dedos gordurosos de comer em excesso – o grupo acreditava que merecia um pouco de prazer depois das dificuldades do deserto.
Halt, Gilan, Evanlyn, Horace e os dois escandinavos foram agraciados com uma posição de destaque no círculo sentado ao redor do fogo. Selethen e Will, no entanto, estavam nos lugares de honra, sentados à direita de Umar e Cielema, respectivamente. Evanlyn sorriu para Horace e apontou o dedo para o jovem arqueiro, atualmente envolvido em uma animada conversa com o líder bedullin e sua esposa. As duas pessoas mais velhas caíram na gargalhada com algo que ele havia dito e ele abaixou a cabeça, sorrindo, satisfeito por tê-los feito rir.
— Ele se sente bem em todos os lugares, não é mesmo? — ela falou um pouco melancólica.
Horace olhou através do fogo para seu velho amigo e balançou a cabeça.
— As pessoas gostam dele — respondeu ele. Em seguida, acrescentou: — Há muito nele para gostar, afinal.
— Sim — disse Evanlyn, os olhos fixos em Will.
Por um momento, estudando-a, Horace viu uma sombra de tristeza breve passar em seu rosto. Ele cutucou-a com um cotovelo, um pouco mais entusiasmado do que os bons costumes ditavam.
— Que tal atirar um pêssego para nós? — disse ele.
Ela levantou uma sobrancelha e sorriu.
— Você não está falando sério, não é? — disse ela.
Ele sorriu, feliz por ver que se livrou da melancolia da princesa, sabendo que ela não seria capaz de resistir a uma piadinha utilizando a palavra “atirar”. Ele ergueu as mãos na frente do rosto, fingindo pavor.
— Por favor! Poupem-me disso! — ele disse, e ambos riram.
Os bedullins, como regra geral, não bebiam álcool, mas em deferência aos dois escandinavos, vários frascos de arariki, uma aguardente feita a partir de tâmaras fermentadas e pêssegos, foram fornecidos. Agora Erak e Svengal, na sua própria insistência, decidiram que iriam realizar um cântico do mar para a apreciação e educação do grupo reunido. Eles ficaram com as pernas um pouco instáveis e começaram a berrar a irreverente história de um pinguim que se apaixonou perdidamente por uma baleia jubarte.
Como a audiência do deserto nunca tinha visto nenhum dos dois animais e, portanto não tinha ideia da diferença em seus tamanhos, grande parte do humor se perdeu, assim como grande parte da melodia. Mas eles aplaudiram o entusiasmo dos cantores e o volume absoluto em que apresentaram. Os dois lobos de mar retomaram seus lugares, confiantes de que haviam defendido a honra da Escandinávia.
Halt estava tranquilo, Gilan pensou. Mas Halt era quieto normalmente em eventos como este. Os olhos dele estavam atentos ao rosto animado do seu jovem aprendiz que estava falando e rindo com o aseikh bedullin e sua esposa.
— Will se saiu bem — Gilan falou e Halt se virou para ele, um sorriso raro tocando o rosto barbado.
— É verdade — ele concordou.
— Eu disse a você que ele conseguiria — Gilan disse sorrindo.
Halt assentiu reconhecimento.
— Sim, você falou. Você estava certo.
Gilan girou para encarar Halt mais diretamente, lembrando algo que Halt havia dito alguns dias antes.
— Mas você sabia, não é? Disse para nós quando estávamos em Maashava que Yusal tinha se esquecido que Will estava lá fora. Você sabia que ele havia sobrevivido. Como explica isso?
O rosto de Halt tornou-se sério enquanto ele considerava a pergunta.
— Eu acho que saber é um termo muito definido. Eu sentia isso. Sempre tive uma sensação sobre Will. Esse garoto é predestinado. Eu senti isso desde o primeiro dia que ele se juntou a mim.
— E agora está quase na hora de deixá-lo andar com os próprios pés — Gilan falou gentilmente.
Ele viu uma mistura de tristeza e orgulho aparecer nos olhos Halt. Em seguida, o arqueiro grisalho suspirou.
— Sim, está — disse ele.


Após a festa acabar, o grupo de Evanlyn sentou-se com Umar e Selethen em torno de uma pequena fogueira. Cielema passava servindo café para todos.
— Talvez seja hora de falarmos um pequeno negócio — Selethen começou, os olhos em Evanlyn. — Há a pequena questão do resgate de Erak.
Ele fez uma pausa, esperando que Evanlyn mostrasse a ordem de pagamento e o anel com o selo real. Ambos os itens foram recuperados de Yusal. Evanlyn, no entanto, não mostrou nenhum sinal de fazê-lo.
— Seu resgate? — ela perguntou e ele assentiu com a cabeça, impaciente.
— Sim. Você concordou em pagar o resgate. Tenho certeza que você pode lembrar isso — ele acrescentou com ironia.
Evanlyn assentiu com a cabeça várias vezes, começou a falar, depois parou, a mão levantada no ar. Então, como se incerta, disse ao wakir:
— Apenas explique o conceito de resgate para mim, por favor?
Selethen franziu a testa. Ele tinha a esperança de apressar este assunto e ter resolvido antes de qualquer pensamento muito profundo sobre isso. Parecia que as coisas não iam correr dessa forma.
— Acho que todos nós sabemos que é um resgate — disse ele, evasivo.
Evanlyn sorriu para ele.
— Explique, por favor. Estou meio confusa.
Através do fogo, Cielema escondeu um sorriso por trás da mão. Umar, que tinha sabido do pano de fundo desta discussão por Will, inclinou-se prestativo.
— Se me permitem ajudar, o resgate é pago por uma parte, quando uma segunda parte está mantendo uma terceira como refém.
— São muitas partes, não é mesmo? — Horace sussurrou para Will e o jovem arqueiro sorriu.
— Entããão — Evanlyn continuou — se eu fosse a primeira parte, teria que pagar uma quantia combinada para a segunda parte que está mantendo a terceira? Isso está correto?
— Correto — disse Selethen, com lábios apertados. Evanlyn franziu o cenho para ele, uma expressão atordoada no rosto.
— Você não espera realmente que eu pague sessenta e seis mil moedas de prata para Yusal, espera?
— Para Yusal! — o wakir exclamou, aproximando-se engasgando com o café. — Por que em nome de tudo que é sagrado você pagaria algo para Yusal?
Evanlyn estendeu as mãos num gesto ingênuo.
— Bem, ele era a segunda parte, não era? Ele estava mantendo Erak refém quando o encontramos. Não você — ela acrescentou, depois de uma pausa significativa.
— Isso é um detalhe técnico — Selethen começou em tom vociferante. Mas ele tinha um sentimento de naufrágio. Estava sendo enganado. Ele pensou que poderia ser uma boa tática mudar de assunto, então trabalhar de volta à questão do resgate posteriormente. — Além disso, o futuro de Yusal ainda está para ser decidido — disse ele.
— É um bom ponto — Halt acrescentou. — O que vai acontecer com Yusal?
Selethen gesticulou para Umar.
— Isso é para os bedullins decidirem, eu diria. O que você quer fazer com ele, aseikh Umar?
Umar encolheu os ombros.
— Eu não quero ele. Você pode tê-lo se quiser.
Selethen sorriu pela primeira vez desde que esta discussão começou.
— Oh sim, eu o quero. O homem é um assassino e um rebelde e temos uma cela pronta e esperando por ele em Mararoc. Ele tem sido uma pedra em nosso sapato por mais tempo do que eu lembro. Com ele fora do caminho, os tualaghis serão muito mais fáceis de manusear. Na verdade, o emrikir vem oferecendo uma substancial re...
Ele interrompeu-se uma fração de segundo mais tarde, percebendo que tinha falado demais. Ele fingiu um acesso de tosse para cobrir a sua caducidade.
Evanlyn esperou até ele terminar, em seguida, puxou-o pela manga, forçando-o a fazer contato visual.
— Uma substancial re... — disse ela, imitando sua hesitação. — Teria que ser “recompensa” o que você ia dizer?
— Sim.
A palavra foi forçada a sair por entre os lábios finos Selethen de repente.
— Agora vamos ver se eu entendi — Evanlyn disse pensativa. — Quem realmente capturou Yusal? Quero dizer, quem realmente o derrotou?
Ela olhou para as estrelas, sua testa franzida no pensamento. Então sua expressão se desanuviou e ela disse alegremente:
— Oh, eu me lembro! Eu o fiz! Com a minha pequena atiradeira.
— Ela está certa — Umar disse, sorrindo ferozmente. — Se alguém tem o direito de determinar seu destino, é ela.
— Então eu tenho direito a essa “substancial recompensa” que você mencionou?
Selethen estava em uma situação constrangedora. Se estivesse realizando essa discussão em Al Shabah ou Mararoc, ele teria a vantagem de negociação que vinha com um grande número de homens armados para defender seu argumento. Mas a única força grande aqui eram os bedullins, e seu líder parecia estar de acordo com Evanlyn. Em cima disso, o wakir admitiu, houve certa validade para todas as suas reivindicações. Ele não estava com Erak quando ele foi resgatado, e a princesa de Araluen foi quem derrubou Yusal. Tecnicamente, o líder da guerra tualaghi era seu prisioneiro. Tecnicamente, ela não devia nada a Selethen e ele lhe devia a recompensa. Isso não era como ele tinha planejado as coisas, pensou.
— Tudo bem, vamos falar a respeito — disse Evanlyn, deixando de representar a menininha e de repente tornando-se séria. — Selethen, creio que lhe devo alguma coisa. Mas não sessenta e seis mil moedas. E nós definitivamente devemos algo a Umar e aos bedullins porque, sem eles, Erak ainda estaria no cativeiro de Yusal.
— Nós não fizemos isso por dinheiro. Fizemos por amizade — disse Umar, indicando Will quando ele mencionou a amizade.
Evanlyn assentiu em reconhecimento.
— Você sempre pode devolvê-lo se quiser — ela disse, e como Umar apressou-se a fazer um gesto negativo, ela sorriu. — Então aqui está a oferta: estou disposta a pagar a Umar e seu povo vinte mil em moedas por sua ajuda.
Ela fez uma pausa, tendo nos olhares de concordância e aprovação em torno do fogo. Era uma quantia razoável. Ela continuou:
— Vou pagar o mesmo valor para você, Selethen. Vinte mil. Acho que você merece alguma coisa.
Antes que o wakir pudesse dizer alguma coisa, ela acrescentou:
— E vou renunciar à “substancial recompensa” por Yusal. Você pode tê-lo. Mantê-lo. Cortar-lhe as orelhas. Deixá-lo cair em um poço, se quiser. Eu não o quero. Isso é justo?
Selethen hesitou, então seu próprio senso de justiça cortou isso. A oferta era efetivamente mais de quarenta mil. Ela poderia não oferecer nada e fugir.
— É justo. Eu aceito com gratidão — disse ele.
Erak assentiu sua aprovação também. Ele pensou que Evanlyn tinha tratado o assunto como um grande estadista. Uma grande estadista, ele se corrigiu.
— Você é muito generosa, princesa — disse ele, sorrindo com indulgência para ela.
Evanlyn olhou para ele, uma sobrancelha levantada.
— Não, eu não sou — disse ela. — Você é. Você reembolsará os quarenta mil para meu pai, lembra-se?
— Oh, sim... naturalmente — Erak disse. Ele sentiu uma pontada no peito. Escandinavos às vezes tinham essa sensação quando perdiam dinheiro. De repente, não sentiu mais vontade de sorrir.


A reunião terminou pouco depois e Evanlyn andou de volta para sua barraca, descansando a mão levemente no braço de Halt. Quando eles estavam fora do alcance da voz de ambas as orelhas bedullins e arridis, ela se virou para ele, um pouco ansiosa.
— Halt, como eu fui?
Ela concluiu que, como todos os outros, queria a aprovação de Halt acima de tudo. Ele virou aquele rosto sombrio e barbudo sobre ela e balançou a cabeça lentamente.
— Deus me perdoe, eu criei um monstro — ele disse.
Então ele sorriu e acariciou-lhe a mão suavemente.
— E estou muito orgulhoso de você.

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