29 de dezembro de 2016

Capítulo 48

Will liderou o caminho, escorregando em torno do pilar de pedra e para dentro da estreita entrada que dava para a rede de cavernas. Os outros esperaram por ele fora da entrada. Depois de alguns minutos, ele reapareceu, acenando para frente.
― A primeira câmara está vazia ― relatou. ― Eu posso ouvi-los na câmara interna. Parece que estão cantando.
Halt acenou-lhe para ir em frente.
― Mostre o caminho.
Will desapareceu na estreita fenda na rocha mais uma vez. Halt o seguiu, dando-lhe alguns segundos para chegar à frente, e então, Horace continuou depois dele. Antes que ele entrasse na caverna, Malcolm pôs uma mão em seu braço para detê-lo.
― Horace ― ele disse ― isso pode ajudar se você se sentir ficando em pânico.
Ele entregou ao guerreiro um pequeno pacote feito de lona. Horace abriu-o e olhou o conteúdo, intrigado. Parecia ser uma pequena pilha de casca podre, coberta de algum tipo de fungo esverdeado. Ele experimentou cheirar aquilo. Decididamente tinha um cheiro de terra.
― É musgo, misturado com uma espécie de fungo ― Malcolm explicou. ― Ele ocorre naturalmente em árvores em todo o norte. Mas brilha no escuro. Vai lhe dar um pouco de luz. Apenas o suficiente para você se orientar, mas não o suficiente para ser visto mais abaixo no túnel. Basta abri-lo se você precisar dele.
― Obrigado, Malcolm ― Horace disse a ele e, virando-se de lado, forçou seu caminho através da estreita entrada do túnel.
Ele era bem maior do que Halt e Will e precisou de um pouco de esforço para forçar sua passagem. Horace teve que espremer seu peito e prender sua respiração, mas finalmente passou.
Nos primeiros metros, havia luz suficiente na entrada para mantê-lo orientado. Mas depois que o túnel começou a retorcer e virar, tornou-se mais escuro e ele sentiu a antiga e familiar onda de pânico enquanto imaginava a escuridão ao seu redor espremendo-se nele. Em sua mente, a escuridão era algo sólido, como a própria rocha, e ele começou a fantasiar que ela estava esmagando-o, segurando-o em um aperto cada vez maior, de modo que ele não conseguia respirar. Seu coração começou a correr quando ele olhou ao seu redor, não vendo nada. Seu peito estava apertando e então ele percebeu que, em seu nervosismo, tinha realmente prendido sua respiração. Ele respirou profundamente, estremecendo.
A poucos metros de distância, ele ouviu o suave sussurro de Malcolm.
― Abra o pacote.
Extraordinário, pensou Horace. O pânico foi tão grande que ele tinha se esquecido do pacote que Malcolm havia lhe dado apenas alguns minutos antes. Ele sentiu o fecho e abriu.
Uma suave luz verde brilhava do centro do pacote. Ainda estava escuro, mas depois da escuridão total, impenetrável, foi mais do que o suficiente para deixá-lo ver as paredes, ásperas, de pedra só a poucos centímetros de seu rosto. Instantaneamente sua respiração ficou mais fácil e ele sentiu sua frequência cardíaca relaxar um pouco. Ele ainda não se sentia feliz sobre estar em um local confinado, mas era infinitamente melhor que estar em um espaço confinado e totalmente escuro.
― O que é isso? ― a voz de Halt disse em algum lugar na escuridão à frente dele.
Em seguida, Horace conseguiu distinguir a forma fraca do rosto do arqueiro se refletir na luz verde. Ele estava apenas um metro ou mais de distância.
― Malcolm me deu ― ele explicou.
Ele ouviu Malcolm alcançá-lo do outro lado dele.
― Não é brilhante o suficiente para ser visto além da próxima curva do túnel ― disse o curandeiro.
― Você provavelmente está certo ― Halt concordou ― você é uma caixinha de surpresas, não é?
Mas ele sabia da aversão de Horace para espaços escuros confinados e percebeu que o pequeno pacote verde e brilhante não era, exatamente, um risco.
― Tudo bem, Horace. Eu vou na frente. Se você me ouvir estalar os dedos, significa que eu posso ver você chegando. Cubra o pacote assim que você ouvir.
E, com isso, ele desapareceu na escuridão novamente. Horace deu a ele alguns segundos e começou a segui-lo. Apesar de seus esforços, seus passos arrastavam na areia debaixo de seus pés e seu cinto e sua espada tendiam a raspar contra as pedras as suas costas. Quando eles chegassem à primeira câmara, decidiu que os tiraria e os carregaria. Haveria menos chance de atrapalhar desse modo.
Ele contornou outra saliência da rocha e percebeu que podia ver uma fraca luz cinza à frente. Ele cobriu a o embrulho brilhante e colocou o pacote dentro de sua jaqueta. A luz ficou mais forte até que ele emergiu na câmara que Will havia descrito.
Os feixes da luz do sol da tarde surgiam através do conjunto de fissuras no alto das paredes da câmara. Horace respirou profundamente. A menor das duas cavernas não era o tipo de lugar que ele escolheria para passar o tempo. Mas era muito menos apertada e desafiadora que o túnel escuro e estreito que tinha acabado de passar.
Will e Halt tinham se movido para a parede interior da câmara e estavam agachados, escutando. Quando Malcolm surgiu do túnel, ele e Horace se aproximaram dos arqueiros. Horace podia ver a pequena e baixa entrada para a próxima parte do túnel. Ele trincou os dentes. Não ia gostar de passar por ali, com ou sem o embrulho luminoso. Will olhou para cima, viu seu rosto pálido e sorriu encorajador.
― Tudo bem até agora? ― ele perguntou.
Horace tentou sorrir em troca, mas sabia que seria um esforço em vão.
― Estou adorando.
Então Halt silenciou ambos com um gesto impaciente, se aproximando mais da abertura do próximo túnel.
― Ouçam ― disse ele, e os outros se reuniram mais perto ao redor dele.
Eles podiam ouvir a menor sugestão de uma voz mais embaixo no túnel. Ela estava fraca demais para que se pudesse discernir as palavras, mas podiam ouvir a ascensão e a queda da cadência do discurso. Em seguida, o som parou e uma fração de segundo depois, um som mais alto pôde ser ouvido. Desta vez foi reconhecível. Era o som de um grande grupo de vozes, respondendo a essa primeira voz solitária. Eles ainda não podiam diferenciar as palavras – o eco criado pelas voltas e mais voltas do túnel e o efeito que a rocha criava ao abafar os sons dificultavam o entendimento. Mas o entusiasmo e a energia por trás da resposta eram inconfundíveis.
― Fanáticos ― disse Halt. ― Você não os adora?
Ele olhou para Will e sacudiu a cabeça em direção ao túnel.
― Veja o que eles estão fazendo ― disse ele.
Will assentiu com a cabeça por alguns instantes. Ele agachou-se e desapareceu na boca negra do túnel.
Horace, inconscientemente, sentia dentro de sua jaqueta o pacote de casca de árvore luminosa. Então, recordando seu pensamento anterior, ele soltou sua espada, envolvendo o próprio cinto em torno da bainha. Halt olhou para ele, viu a ação e assentiu.
― Boa ideia ― disse ele.
Ele retirou sua aljava do ombro. Por um segundo ou dois, debateu a possibilidade de desarmar seu arco. Seria mais fácil de carregar desse jeito e menos incômodo no espaço confinado do túnel. Mas a ideia de seguir desarmado até o final não era nem um pouco convidativa.
Passara-se dez minutos quando o rosto de Will reapareceu na entrada. Ele sorriu para eles.
― Tudo limpo ― anunciou. Então ele se afastou e se ergueu. ― Não há guardas no túnel e nem na entrada. Tennyson tem um altar no final da caverna e todos os devotos estão em um semicírculo, encarando ele.
― E não o túnel? ― Halt disse, com um tom satisfeito em sua voz.
Will confirmou com a cabeça.
― Nós sairemos logo atrás deles, e em um ângulo de quarenta e cinco graus do local onde eles estão observando. Ninguém estará olhando em nossa direção. Mesmo Tennyson achará difícil de nos ver. O final da caverna está iluminado por velas, tochas e um enorme fogo. Nós estaremos mais ou menos na escuridão. E há muitas rochas para nos fornecer abrigo.
As vozes se tornaram discerníveis outra vez quando Tennyson começou outra sequência de perguntas e respostas com a multidão. Era tudo muito familiar para Halt, Will e Horace. Eles já haviam ouvido aquilo antes. Malcolm, que tinha sido avisado por eles sobre os métodos operacionais de Tennyson, podia adivinhar muito bem o que estava sendo dito na caverna. Como Halt tinha dito, seria uma versão do louve Alseiass e entregue seu dinheiro. Embora, o curandeiro pensou com um sorriso, talvez um pouco menos descarado.
― Muito bem ― Halt disse. ― Vamos continuar. Lidere novamente, Will. E Horace, no minuto que você enxergar luz no final do túnel, cubra esse seu musgo.
Horace assentiu. Halt curvou e desapareceu na entrada baixa. O guerreiro alto respirou profundamente várias vezes, preparando-se. Ele sentiu um leve toque em seu braço.
― Eu estarei logo atrás de você ― Malcolm disse. ― Deixe-me saber se estiver com problemas.
O curandeiro conhecia pessoalmente a coragem de Horace e sabia que esse medo de lugares escuros e confinados não tinha nada a ver com bravura física. Era algo gravado no fundo da mente de Horace – talvez algum acidente na sua infância que ele tinha há muito se esquecido. Sabendo disso, ele reconheceu a verdadeira coragem que Horace estava demonstrando em vencer seu medo.
― Eu ficarei bem ― o jovem guerreiro disse, seu rosto com expressão séria.
Então ele relaxou e sorriu com sofrimento.
― Quero dizer, talvez não esteja bem. Mas eu lidarei com isso.
Segurando sua espada em sua mão, ele alcançou o pacote dentro de sua jaqueta, então abaixou-se e arrastou-se para dentro do túnel.
Depois do breve período de penumbra da caverna, a escuridão do túnel parecia esmagadora mais uma vez. Ele alcançou o teto com sua espada embainhada, traçando a linha do teto acima dele. Então, como ela não encontrou mais resistência, ele se ergueu lentamente. Mais uma vez, teve a terrível sensação de cegueira, o sentimento de que seu mundo havia se reduzido ao seu espaço pessoal. O medo de que seus olhos não estivessem mais funcionando. Seu coração começou a bater rapidamente mais uma vez e ele abriu o pacote com musgo brilhante, vendo aquela maravilhosa pequena centelha de luz aninhada na palma de sua mão. Atrás dele, ouviu Malcolm se arrastar ao longo do túnel.
Acalmado pela pequena fonte de luz, Horace continuou túnel abaixo, se movendo mais confiante agora que a escuridão não era mais total. Ele olhou para cima várias vezes, mas o tênue brilho do musgo não foi suficiente para atingir o teto acima dele. Havia sido engolido pela escuridão. Virando em outra curva no túnel, ele se tornou ciente de uma luz acinzentada a frente. Rapidamente, cobriu o musgo e percorreu a última curva da rocha.
Uma luz parecia se despejar a partir da grande caverna enquanto ele se aproximava do fim do túnel, onde Will e Halt estavam agachados, observando a cena diante deles.
Como Will havia contado, a caverna era do tamanho de uma pequena catedral, com um teto alto e crescente que desaparecia na escuridão acima deles. Na outra extremidade da grande caverna havia um pouco de luz, onde tochas e velas foram colocadas em suportes. No meio, no chão, havia uma grande fogueira e suas chamas produziam sombras nas paredes. Atrás da fogueira, e iluminado pelo que parecia ser um grande número de tochas e velas, havia um altar. Era o altar de costume, construído em ouro e prata e decorado com joias preciosas. No entanto, embora parecesse real, o ouro era apenas uma fina camada sobre uma estrutura de madeira e a prata e as gemas eram todas falsas. Os itens reais estariam seguramente guardados nas bolsas de Tennyson.
Tennyson estava em pleno discurso, os braços estavam totalmente abertos, enquanto ele emitia um apelo emocionado à assembleia.
― Alseiass te ama! ― entoou. ― Alseiass quer trazer luz, alegria e felicidade a suas vidas.
― Louvamos Alseiass! ― a congregação entoou.
― Vocês dizem as palavras! ― Tennyson falou-lhes. ― Mas seus corações são sinceros? Alseiass só ouve as orações dos que creem. Vocês realmente acreditam?
― Sim! ― A multidão respondeu.
Malcolm aproximou sua boca do ouvido de Horace e sussurrou.
― As pessoas realmente acreditam nessa imbecilidade?
Horace confirmou.
― Nunca deixo de me espantar quão ingênuas as pessoas podem ser.
― Há perigo nesta terra! ― Tennyson continuou.
Sua voz agora estava cheia de maus presságios.
― Perigo, morte e destruição. Quem é que pode salvá-los desse perigo?
― Alseiass! ― a multidão rugiu.
Tennyson jogou a cabeça para trás e olhou acima de todos eles, no recôndito do teto da caverna.
― Mostre-nos um sinal! ― ele pediu. ― Mostre-nos um sinal, Alseiass, deus da luz, de que você ouviu as vozes dessas pessoas!
Malcolm seguiu mais adiante para obter uma visão melhor. Ele passou anos elaborando sinais e manifestações nas profundezas da Floresta Grimsdell – sinais como os que Tennyson estava agora pedindo ao seu não-existente deus.
― Isso deve ser interessante ― disse ele, para ninguém em particular.

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