18 de dezembro de 2016

Capítulo 47

— Cavaleiros do Véu Azul! Guerreiros tualaghis! Ouçam-me!
O tom de voz desagradável e áspero de Yusal correu ao longo da praça do mercado no silêncio repentino que havia recebido a pausa no combate. Como um, tualaghis, arridis, bedullin e todos se viraram para olhar para ele.
Ele estava no lado oriental da praça, em pé sobre uma tenda do mercado para lhe permitir chamá-los. Halt observou o bruto curativo das feridas em torno de seu braço. O líder de guerra dos bandidos saiu da plataforma de execução nos momentos confusos quando Will começou a atirar. Agora, tinha conseguido se reagrupar. Uma força de vinte homens estava ao redor dele, as espadas prontas, rostos cobertos por véus onipresentes azuis.
A praça estava vazia agora de habitantes – exceto por aqueles que tinham sido apanhados na batalha entre as duas forças e agora jaziam em montes amassados no chão pedregoso.
Empoleirado no alto da torre, Will ouviu as palavras do aseikh também. Mas Yusal estava oculto aos olhos de Will pelos edifícios ao longo do lado norte da praça.
— Olhem ao seu redor! Olhem para o inimigo! Há quase quarenta deles! — Yusal continuou.
E ele estava certo. A força de invasão tinha sido duramente pressionada na batalha, e muitos deles tinham caído, nunca levantando novamente. O restante estava agrupado na frente da plataforma onde Halt e os outros deveriam ter sido executados.
— Nós superamos os números deles! Se trabalharmos juntos, podemos esmagá-los!
Havia um resmungo mal-humorado do parecer favorável das gargantas dos guerreiros tualaghis. Eles também perderam homens na luta difícil. Mas tinham começado com uma superioridade de 4 para 1 e mantiveram a relação. Quando Yusal fez o seu ponto, eles começaram a perceber que ele estava bem ao seu alcance para esmagar o pequeno grupo que se opunha a eles.
— Seley El'then! Vou dar-lhe uma chance. Uma chance única. Jogue as suas armas e renda-se!
Selethen riu asperamente.
— Me render? Você acha que nós acreditamos que você nos mostrará misericórdia, Yusal? Você estava prestes a matar todos nós!
Yusal estendeu as mãos na frente dele.
— Eu vou oferecer-lhe uma morte rápida — ele respondeu. — Caso contrário, você vai prolongar sua morte por vários dias em agonia. Você sabe que meus homens são mestres de tortura lenta.
Selethen olhou de soslaio para Halt.
— Isso é verdade — disse ele calmamente. — Eu acho que seria melhor morrer com as armas em nossas mãos.
Halt foi responder, e então parou. Em algum lugar por perto, ele podia ouvir um zumbido fraco – um zumbido que aumentava gradualmente de tom e intensidade. Ele não tinha ideia do que era. Ele balançou a cabeça, negando o som estranho.
— Eu estou com você — disse ele. — Nós vamos continuar a lutar. Você nunca sabe quando algo vai acontecer.
Yusal esperou alguns minutos para a resposta de Selethen. Quando percebeu que nenhuma estava vindo, ele levantou o braço acima da cabeça, se preparando para dar um sinal aos seus homens para um ataque final esmagador no grupo menor.
— Muito bem. Você rejeitou a minha oferta. Agora vai pagar. Cavaleiros tualaghi, vamos...
Suas palavras foram cortadas em um grunhido estrangulado de dor e suas mãos voaram até a testa. Um som alto pôde ser ouvido claramente em torno da praça. Então as mãos Yusal caíram e revelaram uma máscara de sangue que cobria os olhos e a parte de cima do rosto, descendo para mergulhar em seu véu azul. Ele tomou um passo vacilante, perdendo o fio da tenda em que estava equilibrado e caiu de corpo inteiro para o chão duro abaixo. Ele ficou lá, imóvel.
Os tualaghis se agitaram, inquietos. O seu líder tinha sido cortado no meio da frase. No entanto, não havia nenhuma arma evidente que o ferira, só o estalo forte seguido por um rio de sangue que fluía para baixo sua cara.
Os cavaleiros do deserto eram supersticiosos. Acreditavam que djinns, demônios e espíritos moravam nessas montanhas antigas. Agora, um deles, praticamente surgido do nada, parecia ter abatido o seu líder com uma força terrível. Eles começaram a se afastar da linha defensiva dos guerreiros arridis e bedullins, murmurando uns aos outros, perguntando o que tinha acontecido com Yusal. Um de seus tenentes, mais corajoso do que o resto, saltou para cima da barraca em lugar de seu líder e tentou reorganizá-los.
— Guerreiros tualaghis! — ele gritou, a voz embargada. — Agora é a hora de...
Novamente houve um som e, como Yusal, as mãos do homem voaram para se agarrar a uma ferida súbita que apareceu em sua testa. Ele cambaleou, tentou agarrar o toldo da barraca, errou e caiu no chão. Ele ajoelhou-se ali, dobrado, segurando seu rosto e gemendo de dor.
Desta vez, Halt viu Evanlyn, na parte traseira da plataforma, abaixando devagar a atiradeira. Ela chamou sua atenção e lhe deu um sorriso. Ele notou que o pesado colar de pedras de mármore já não estava em seu pescoço.
— Puxa, quem iria imaginar uma coisa dessas? — Ele perguntou para ninguém em particular.
Desmoralizados, confusos e cheios de temor supersticioso, os tualaghis começaram a recuar.
Depois, houve um coro de gritos de guerra e choque de armas quando Umar e o resto de sua força de ruptura surgiram na praça. Os guerreiros bedullins espalharam-se rapidamente em um semicírculo e os tualaghis se viram cercados, com Umar e os seus homens à sua volta e os quarenta defensores determinados dentro deles.
Os tualaghis eram essencialmente bandidos e ladrões. Iriam lutar sem piedade, mas apenas quando as chances eram solidamente em seu favor. A vantagem de 4 para 1 era o tipo de relação que eles procuravam em uma batalha. Quando os números eram praticamente iguais e sem líder para estimulá-los, sua ânsia para a batalha tendia a desaparecer.
Lentamente no início, em seguida, com frequência crescente, as armas começaram a cair no chão a seus pés.


— Há uma última coisa para cuidarmos —, Erak disse.
As tropas de Umar tinham desarmado os tualaghis restantes e estavam ocupados os dominando, amarrando suas mãos atrás das costas e os deixando sentados de pernas cruzadas no quadrado. Yusal tinha sido amarrado e levado sob escolta para o armazém que ele próprio tinha usado como prisão. O aseikh ainda estava atordoado e apenas semiconsciente.
A pedra de mármore pesada do estilingue de Evanlyn tinha deixado uma contusão grave.
— Toshak? — Svengal respondeu a ele.
Erak assentiu.
— Toshak. O suíno traiçoeiro sumiu em algum lugar em toda a confusão.
— Ele estava na frente da plataforma, quando a coisa toda começou — Halt apontou.
Evanlyn assentiu.
— Mas ele começou a se mover para as colunas quando Will começou a atirar — disse ela. Ela olhou em volta. — Onde está Will, afinal? O que o está fazendo demorar-se?


Will ajoelhou-se debaixo dos escombros da torre, seu arco e aljava descartados, a cabeça de Aloom descansando sobre o joelho. O tenente arridi estava morrendo. A perda de sangue de seus múltiplos ferimentos tinha sido muito grande. Quando Will caiu levemente na parede para cuidar dele, ele olhou para cima e viu o comerciante gordo que tinha o traído, ainda de pé, paralisado, olhando para eles.
— Encontre um médico — ele ordenou, e quando o homem hesitou, repetiu o comando. — Vá! Traga um médico! Faça isso logo!
Os olhos do homem gordo o traíram. Eles deslizaram para longe de Will, e virou-se para ir embora. A voz fria de Will o parou.
— Espere!
O homem se virou para trás. Ainda assim, ele não iria fazer contato visual com o arqueiro.
— Olhe para mim — Will comandou e, lentamente, o homem ergueu os olhos. — Se você fugir, se não voltar, é certo que eu vou te caçar — Will disse. — Eu juro que você não vai gostar disso.
Ele viu o medo lentamente superar a traição aos olhos do homem e ele concordou rapidamente. Então virou-se e se esgueirou para fora do beco por trás dele.
Aloom estava resmungando febrilmente. Will pegou o cantil do cinto do arridi e escorreu algumas gotas de água na boca do homem. Aloom piscou por alguns instantes e ele olhou para Will.
— Nós ganhamos? — ele perguntou.
Will assentiu com a cabeça.
— Nós ganhamos — ele assegurou-lhe.
Ele viu o alívio nos olhos de Aloom. Em seguida, o tenente tentou lutar para ficar em uma posição sentada, mas Will teve que segurá-lo suavemente.
— Descanse — disse ele. — Há um médico vindo.
— O wakir? — Aloom disse, depois parou e pegou diversas respirações irregulares, como se o mero esforço de falar esgotava ele. — Ele está seguro?
Will assentiu com a cabeça novamente.
— Ele está bem. Eu o vi com Halt quando tudo acabou. Algo aconteceu com Yusal — acrescentou inconsequentemente, ainda tentando entender o que tinha acontecido na praça.
Ele tinha ouvido a voz de repente de Yusal cortar em um grito de agonia. No entanto, sabia que nenhum de seus amigos tinha um arco com eles.
Aloom voltou em um estado de delírio, novamente, como se a notícia de que seu senhor estava seguro era o suficiente para ele. Seus braços e pernas começaram a tremer e sua respiração vinha em rajadas irregulares.
Will ouviu o som suave de passos se aproximando e pegou o cabo da faca de caça. Ele havia a recuperado do corpo do morto tualaghi quando desceu do muro. Duas figuras surgiram das sombras do beco, e ele reconheceu o gordo comerciante. Ao lado dele estava um homem mais velho, carregando uma bolsa de couro sobre um braço.
— Este homem é um curandeiro — disse o comerciante e seu companheiro veio para frente, caindo de joelhos ao lado do tenente resmungando.
Ele olhou em volta, viu a capa descartada de Will deitada por perto e a enrolou em um travesseiro improvisado. Então colocou sob a cabeça Aloom, permitindo que Will saísse do lugar. Ele examinou o homem ferido rapidamente e olhou para Will.
— Seu amigo? — ele perguntou.
Will assentiu com a cabeça. Ele só conhecia Aloom por alguns dias, mas o homem tinha segurado três espadachins para dar a Will a chance de salvar os outros. Você não poderia pedir mais de um amigo do que isso.
O curandeiro sacudiu a cabeça.
— Eu posso lhe dar algo para aliviar a dor, nada mais — disse ele. — Ele perdeu sangue demais.
Will assentiu com tristeza.
— Faça isso — disse ele e viu quando o curandeiro pegou um pequeno frasco de sua bolsa e permitiu que várias gotas de um líquido claro caíssem na boca do Aloom, em sua língua. Em poucos segundos, Aloom começou a respirar mais livremente. Seu peito subia e descia mais uniformemente. Então as respirações vieram mais lentas, até que, finalmente, elas pararam.
O curandeiro olhou para Will.
— Ele se foi.
Will assentiu com tristeza. Olhou para cima e viu o comerciante olhá-lo com medo. O homem, obviamente, estava lembrando de como havia entregado os dois estranhos aos tualaghis. Agora, um deles tinha sido morto e o outro tinha mostrado que, jovem como era, não era um homem a se enfrentar. O comerciante torcia as mãos e seguiu em frente, implorando misericórdia. Ele caiu de joelhos.
— Senhor, por favor... Eu não sabia que você era... — ele começou.
Will o cortou com um gesto de desprezo. O homem os tinha traído, ele sabia. Mas também tinha retornado com um curandeiro. De repente, Will sentia que tinha matado o suficiente neste dia.
— Ah, vá embora — ele disse calmamente. — Somente... vá embora.
Os olhos do homem se arregalaram. Não podia acreditar na sua sorte. Ele levantou-se lentamente e afastou-se. Então hesitou, certificando-se que Will não tinha mudado seu pensamento. Por fim assegurado, ele afundou no beco. Will ouviu o som dos sapatos sobre as pequenas pedras por alguns minutos, e então o silêncio.
O curandeiro o considerava com simpatia. Tinha estabelecido Aloom com as mãos cruzadas sobre o peito.
Will recuperou sua capa, Aloom não tinha mais utilidade para ela. Ele estendeu o próprio manto do tenente sobre o corpo, cobrindo o rosto. Então sentiu no bolso e entregou ao cirurgião uma moeda de prata.
— Pode ficar com ele? — ele perguntou. — Fique olhando-o até eu voltar.
Ele estendeu a mão, recuperou seu arco e aljava e partiu para o caminho até a praça do mercado.

2 comentários:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)