29 de dezembro de 2016

Capítulo 46

― A entrada é difícil de encontrar ― Will disse. ― É por isso que eles não necessitam de guardas lá fora.
Ele desenhou com um galho pontiagudo no chão ao lado da lareira. Halt, Horace e Malcolm estavam reunidos em torno dele, observando atentamente enquanto explicava a estrutura do novo quartel general de Tennyson.
― A primeira entrada desse túnel leva até aqui. Uma caverna com o tamanho de uma pequena sala. Teto alto, bem iluminada e ventilada. Porém completamente vazia.
― Portanto, mesmo se alguém encontrar essa entrada, pode vir até esse ponto e ainda pensar que é tudo o que tem ali? ― Malcolm perguntou.
Will assentiu com a cabeça.
― É por isso que não há guardas. A entrada para o segundo túnel está bem escondida – e é um pouco mais alta que a cintura.
― Mais diversão para mim ― Horace disse pesadamente.
Will lançou-lhe um sorriso.
― Não é tão ruim. Ela permanece baixa por alguns metros e então se amplia para fora e o teto fica maior. Tem muito espaço nesse túnel, uma vez que você já passou os primeiros metros.
― Os primeiros metros é que são o problema ― Horace afirmou.
Ele olhou para Malcolm esperançoso.
― Você não teria uma poção que possa curar meu ódio de espaços confinados?
Malcolm balançou a cabeça.
― Infelizmente, não. Mas é uma aflição bastante compreensível. Eu acho que a cura para isso é enfrentar o medo e superá-lo.
Horace assentiu com tristeza.
― Por que eu sabia que você ia dizer isso? Qual a utilidade de um curandeiro se ele não pode te dar uma poção para as coisas realmente importantes?
Halt apontou para o mapa desenhado no chão, sinalizando para Will voltar às suas explicações.
Will assentiu com a cabeça e continuou.
― O túnel vira à direita aqui, que é onde eu vi as luzes, e se abre para a catedral.
― A catedral? ― Halt disse sarcasticamente. ― Você está sendo levado pelo fervor religioso de Tennyson, Will?
Will sorriu.
― Parecia um bom nome para ela, Halt. É praticamente do tamanho de uma pequena catedral. Eu posso chamá-lo de “O Grande Salão”, se você preferir ― ele adicionou.
Halt não respondeu. Will não esperava que ele fosse responder.
― E quantas pessoas ao todo? ― Halt perguntou.
― Contando com os vinte homens com vestes brancas de Tennyson...
― Vestes brancas de Tennyson? Quem são eles? ― Malcolm interrompeu.
― São seus guarda-costas e cobradores ― explicou Will. ― Seus capangas, se preferir, aqueles que sabem o segredo.
Malcolm assinalou seu entendimento e indicou para Will continuar.
― Contando eles há perto de cento e vinte, eu diria. Além disso, há obviamente uma das quadrilhas operando na área.
Halt mastigou um galho por alguns segundos.
― Os bandidos podem esperar ― disse ele. ― Nossa prioridade é desacreditar Tennyson na frente dos novos convertidos, só em seguida, cuidar dele e de seus capangas.
― Como você propõe fazer isso? ― Malcolm perguntou.
Ele olhou para os três rostos determinados diante dele. Apenas três deles. E Will tinha dito que ainda havia pelo menos vinte capangas com Tennyson.
― Provavelmente haverá violência envolvida ― Halt disse, com enganosa suavidade em sua voz.
― Três contra vinte? ― Malcolm argumentou energicamente.
Halt encolheu os ombros.
― Poucos dos vinte, se há mesmo algum, foram treinados como guerreiros. A maioria deles são bandidos, usados para matar por trás e aterrorizar agricultores desarmados. É incrível como eles ficam dóceis quando se deparam com a extremidade da arma de outra pessoa.
Malcolm não estava completamente convencido. Mas então, ele pensou, ele havia visto Will e Horace em ação no cerco do Castelo Macindaw, onde os dois haviam forçado o seu caminho para o topo das muralhas e seguraram a guarnição até que seus próprios homens pudessem subir pelas escadas e se juntar a eles. Talvez eles possam lidar com vinte valentões.
Horace, observando-o, viu a dúvida em seus olhos.
― Há um velho ditado, Malcolm ― ele disse. ― Um motim, um arqueiro. Você entendeu?
― Presumo que isso significa que, em caso de motim ou perturbação, basta um arqueiro para restaurar a ordem? ― Malcolm disse.
Horace assentiu.
― Exatamente. Bem, olhando em volta, eu vejo que nós temos aqui o dobro do que precisamos. Então imagino que eu vou ser capaz de ter umas pequenas férias, enquanto eles cuidam de tudo.
Halt e Will bufaram com desprezo e ele sorriu para eles.
― Eu ficarei feliz em sentar e assistir vocês fazerem todo o trabalho ― acrescentou.
― Em outras palavras, vai ser como de costume? ― Will perguntou.
Horace parecia um pouco magoado. Ele havia permitido isso, ele percebeu. Então, ficou mais sério.
― Halt, eu estava pensando... ― Ele parou, olhando com expectativa para os dois arqueiros. ― Você não vai dizer sempre uma coisa perigosa? ― ele perguntou.
Halt e Will trocaram um olhar, então balançaram a cabeça.
― Não. Você estava esperando por isso. Não tem graça se você já espera por isso ― Will disse.
Horace encolheu os ombros, desapontado. Ele tinha uma resposta mal-humorada pronta para eles. Agora teria que guardá-la para outra hora.
― Oh, bem, de qualquer maneira, ocorreu-me que você deseja desacreditar Tennyson, e não apenas levá-lo preso para o Castelo Araluen?
Halt assentiu.
― Isso é importante. Temos de destruir o seu mito. O que você tem em mente?
― Bem, eu pensei que poderia ajudar se ele fosse confrontado pela sombra do rei
Ferris.
Halt considerou a ideia. Tennyson jamais havia percebido que na primeira ocasião quando “Ferris” o provocou e desafiou, ele estava, na verdade, diante de Halt, disfarçado como seu irmão gêmeo. E em outras ocasiões, quando ele viu o arqueiro, suas feições haviam sido obscurecidas pelo capuz que usava.
― Não é má ideia, Horace ― disse. ― Tennyson lida com feitiçaria e truques. Se nós usarmos um pouco disso, podemos deixá-lo desestabilizado. E ele pode acabar se surpreendendo a ponto de fazer uma admissão condenando a si mesmo.
Ele coçou sua barba, que havia crescido na semana que passou desde que Horace a raspara para que se assemelhasse ao seu irmão gêmeo.
― Pena ― disse ele. ― Eu já estava ficando acostumado a ter minha barba de volta à sua forma original.
― Desalinhada ― Will disse antes que pudesse parar.
Halt virou um olhar fulminante para ele.
― Eu prefiro pensar “luxuriante” ― respondeu com considerável dignidade.
Will apressou-se em concordar.
― Claro que sim. Essa foi à palavra que eu estava procurando. Eu não sei por que eu disse desalinhada.
E ele conseguiu dizê-lo com uma cara séria que Halt não podia deixar de saber que, no interior, Will estava segurando o riso.

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