29 de dezembro de 2016

Capítulo 45

Eles esperaram até o final da tarde. Will sabia que nessa hora a luminosidade era incerta e enganosa. Então, deixaram Puxão e Kicker no bosque entre as árvores e foram em frente.
Horace estava vestindo a capa de camuflagem, mas isso não era hora para brincadeiras e ele ouviu atentamente as instruções de última hora que Will estava lhe passando.
― Coloque o capuz e mantenha seu rosto nas sombras ― recomendou. ― Quando pararmos, mantenha-se perfeitamente imóvel, deixando a capa cobri-lo totalmente. Halt tinha um velho ditado, confie na capa. Ela vai escondê-lo.
― E minhas pernas? ― Horace perguntou.
Como ele era bem mais alto que Halt, uma boa parte de suas pernas estavam expostas abaixo do manto. Will balançou a cabeça num gesto de desprezo.
― Não se preocupe com isso. A capa vai esconder o seu corpo e as pessoas não esperam ver pernas sem um corpo andando por aí. Elas veem o que esperam ver, o que é comum.
Horace sorriu.
― Essa é mais uma das frases de Halt?
Will sorriu de volta, balançando a cabeça.
― Outra coisa ― Will lembrou.
Era algo que o guerreiro já tinha ouvido, mas Will sempre repetia.
― Se estivermos nos movendo e alguém aparecer, simplesmente congele. Fique perfeitamente imóvel. É o movimento...
― Que atrai a atenção e o deixa visível ― Horace repetiu. ― Eu sei.
― Ótimo que você sabe. A tentação de se esconder é quase irresistível nessa situação.
Eles seguiram caminho, Will assumia a liderança e deslizava silenciosamente e quase invisível sob a luz incerta da tarde. Ele abaixou atrás de um afloramento de rochas, a cerca de trinta metros de distância das árvores e sinalizou para Horace o seguir. Ele viu o guerreiro há alguns metros atrás, depois voltou sua atenção para as colinas à frente.
Não parecia que Tennyson tinha algum guarda vigiando o local. Mas isso não significa que eles pudessem estar escondidos em algum lugar. Em uma parte de sua mente, ficou impressionado com o progresso que Horace estava fazendo em se mover silenciosamente. Ele ainda fazia algum barulho, é claro. Eram necessários anos de treinamento para alcançar o nível de silêncio com que os arqueiros conseguiam se mover. Mas estava surpreendentemente calmo e Will duvidava que qualquer ouvinte casual na vizinhança, teria percebido que alguém estava se movendo pela grama.
Horace abaixou-se devagar ao lado dele no esconderijo. Will olhou para o rosto dentro das dobras do capuz. Ele podia sentir a tensão no corpo de Horace. O jovem guerreiro estava ferozmente concentrado em se mover com um mínimo de ruído e manter-se calmo e invisível. Concentrado demais na verdade.
― Relaxe um pouco. Há um risco maior de fazermos barulho se estivermos tensos ― Will disse-lhe em voz baixa. ― Você está indo bem. Está definitivamente pegando o jeito.
Ele viu um lampejo dos dentes de Horace e descobriu que era um sorriso de prazer.
― Acha que eu poderia ser um arqueiro? ― ele perguntou.
Will bufou de escárnio.
― Não se precipite ― afirmou.
Então fez um gesto em direção às colinas à frente.
― Vamos.
Movendo-se cuidadosamente, em pequenos intervalos, eles levaram mais de meia hora para chegar à base das colinas. Lá, eles encontraram um amontoado de pedras – principalmente de arenito – que haviam caído de uma encosta mais acima. Havia muita cobertura, assim se instalaram em uma fenda entre duas pedras. Olharam ao redor para detectar a entrada de uma das cavernas.
― Vê alguma coisa? ― Will perguntou.
Horace balançou a cabeça.
― Não. Mas eu ainda sinto cheiro de fumaça.
Ambos olharam para o local onde tinham visto fumaça saindo de uma fenda na rocha. Até agora, eles não tinham achado nada. Mas Horace estava certo. O cheiro de fumaça de madeira queimando ainda era forte no ar da noite.
Will olhou as rochas e a terra rachada em torno deles. Não havia nenhum sinal de qualquer habitação humana. Finalmente, ele inclinou-se para Horace e sussurrou:
― Você fica aqui e fique de olho abertos. Vou ver se consigo encontrar um caminho para dentro.
Horace assentiu. Ele acomodou-se entre duas grandes pedras, dessa forma tinha um bom campo de visão e ao mesmo tempo permanecia escondido. Sua mão pousou em cima de sua espada, que estava ao seu lado, mas a deixou na bainha. Se precisasse, estaria pronto em um piscar de olhos. No entanto, se ele agora retirasse sua espada, a lâmina brilhante poderia refletir a luz e denunciar sua posição.
Will moveu-se como um fantasma até chegar à base do penhasco. Achatando-se contra a rocha, ele foi se movendo lateralmente. Chegou a um grande pedaço de arenito que sobressaía-se para fora, deslizou em volta e desapareceu durante alguns segundos. Em seguida ele reapareceu sinalizando para Horace, apontando para a face da rocha do outro lado do afloramento. O significado era claro. Ele havia encontrado uma abertura.
E estava entrando.
Horace acenou em entendimento. Will desapareceu novamente, andando a passos silenciosos em torno do afloramento de arenito.
A entrada estava bem escondida, quase invisível, só se notava quando estava bem em cima dela. Não era mais que uma fenda na rocha, mal se passava um corpo pela sua abertura. Porém analisando mais de perto, Will percebeu que era bem profunda.
Ele virou-se de lado e escorregou pela fenda. Sua aljava, que estava nas costas, momentaneamente enroscou na rocha rugosa e ele teve que se esquivar para conseguir passar. Então continuou.
Horace teria adorado isso, pensou. Estava escuro como breu, a passagem era estreita e o caminho serpenteava para dentro, parecendo que as paredes estavam coladas nele. Ele lutou por alguns momentos para não entrar em pânico e compreendeu pela primeira vez como um lugar daquele poderia enervar tanto seu amigo. Ele avançou para frente, começando a temer que esta fosse uma pista falsa e a estreita abertura não iria levar a nenhum lugar. Então, contornando uma curva muito fechada, o túnel se abriu para um grande espaço aberto, mais ou menos do tamanho de um quarto de dormir.
O teto da caverna era elevado, e a luz vinha através de diversas fissuras. Era a última luz do dia e estava fraca, mas após a escuridão total da passagem que ele havia acabado de cruzar, foi uma mudança bem vinda.
Ele hesitou na entrada, girando a cabeça para ver se podia para enxergar algo. Não havia sinal de ninguém aqui, e a luz era muito fraca para que ele pudesse observar se haviam pegadas no piso arenoso. Passou por sua cabeça a ideia de acender uma tocha, mas deixou de lado. A escuridão era sua proteção, sua amiga e aliada. Nessas condições infernais, o pequeno brilho de um pedra raspando sobre o aço poderia ser visto a centenas de metros.
Ele saiu para o espaço aberto. Seus olhos eram de pouca utilidade nessa penumbra. Percebeu que teria que usar os seus outros sentidos: a audição, o olfato e o sexto sentido adquirido em seu treinamento, com uma consciência instintiva do espaço ao redor dele e da possível presença de outras pessoas ali. Este sentido que o tinha alertado do perigo em potencial por tantas vezes.
O ar era surpreendentemente fresco. Ele esperava que fosse carregado e cheirasse a terra úmida. Entretanto, as fendas por onde a luz passava, garantia que a caverna fosse naturalmente bem ventilada. Ele virou-se lentamente, descrevendo um círculo completo.
Seus olhos estavam fechados enquanto ele tentava se concentrar em seus outros sentidos. Finalmente conseguiu.
Ele ouviu vozes.
Muitas vozes em um padrão que subia e descia, só podia significar uma coisa. Pessoas cantando. Vinham do outro lado da caverna. Atravessou o espaço aberto grudado na parede, até que seus dedos descobriram outra fenda. Esta era menor, apenas um metro e meio de altura. Ele se inclinou e deslizou por ela, mais uma vez entrando na escuridão.
Seguiu em frente em um sobe e desce que, por fim, o deixou quase agachado. Gradualmente o teto foi ficando mais alto e ele pôde ficar em pé – ele havia estendido as mãos para cima e tocou apenas o vazio.
Este túnel era relativamente fácil de passar, sem as inúmeras voltas do primeiro. E após os primeiros metros, ele saiu num lugar mais amplo e confortável.
Pelo menos achava que sim. Ficou encostado na parede de pedra e estendeu a mão para a escuridão em busca de uma parede mais distante. Não encontrou nada.
O som abafado da cantoria, que não parou enquanto ele progredia através das trevas, tornou-se gradualmente mais forte e mais alto, então parou de repente. Instintivamente, ele parou também. E se tivesse feito algum barulho? Se tivesse alertado os cantores? Será que de repente perceberam que ele estava aqui?
Então uma única voz começou a falar. Ele não conseguia distinguir as palavras, que estavam abafadas e distorcidas pelas rochas. Mas podia ouvir o timbre, o tom e a cadência da voz. Era a voz de um locutor treinado, um orador acostumado a impor a seus ouvintes o seu ponto de vista.
Ele ouvira esta voz antes. Era Tennyson.
Will suspirou de alívio.
― Então você está aqui depois de tudo ― murmurou baixinho na escuridão.
Avançou para frente novamente e a voz tornou-se mais distinta. Agora ele era capaz de ouvir algumas palavras com mais clareza. Uma em particular, ouviu-a repetidas vezes: Alseiass.
Alseiass, o falso deus de ouro dos forasteiros. Agora Tennyson parecia estar fazendo perguntas para a multidão. Sua voz se levantara num tom interrogativo e então fazia uma pausa – em seguida, ouviu um rugido de entendimento da multidão. E enquanto Tennyson questionava coisas que Will ainda não decifrava, o rugido da multidão respondia definitivamente em afirmação.
― Alseiass! ― Gritavam em resposta às suas perguntas.
O túnel seguinte desviou ligeiramente para a direita, depois mais a frente virou em um ângulo agudo e foi quando Will viu algo.
Um lampejo de luz.
Ele avançou mais rapidamente, as botas macias não fazendo nenhum ruído sobre o chão arenoso. Dez metros à frente, a luz foi ficando mais forte a cada passo que dava. Então chegou a uma abertura. Cinquenta tochas ou mais iluminavam o ambiente à frente, então viu o homem que tinha perseguido ao longo do último mês. Vestido de branco, corpulento e com cabelos longos e cinza, ele estava em uma plataforma de rocha natural na enorme caverna que se abria do estreito túnel.
Em torno dele, se agrupavam cerca de vinte seguidores, também vestidos de branco. E além deles, por perto estavam uma centena de pessoas – homens, mulheres e crianças, quase todas vestidas de roupas rústicas e feitas em casa, certamente locais.
A multidão ouvia atentamente todas as palavras que saiam da boca do profeta. E enquanto Will observava, ele pôde ouvir e compreender a pergunta que o falso profeta falava para seus novos seguidores.
― Quem nos libertará da escuridão? Quem vai nos levar a uma nova era de ouro, de amizade e prosperidade? Digam-me o nome dele!
E a resposta veio de mais de uma centena de vozes jovens e velhas.
― Alseiass!
Will balançou a cabeça tristemente. A ladainha de sempre. A mesma velha bobagem. Mas as pessoas aqui estavam dispostas a comprar essa conversa, como havia sido em Hibernia. As pessoas eram ingênuas, Will pensou, particularmente quando eram levadas a acreditar que poderiam comprar seu caminho para a felicidade.
― Vocês sabem, meus amigos, que os tempos eram ruins, antes que Alseiass estivesse no nosso meio.
Houve um murmúrio de concordância entre a multidão.
― O seu gado morreu ou desapareceu. Suas propriedades foram queimadas e destruídas. Não é verdade?
A multidão gritou em concordância à suas palavras. Will pensou que os forasteiros já deveriam ter agido nesta área – sem dúvida muito antes da chegada de Tennyson.
― Mas desde que vocês aceitaram Alseiass como seu deus, esses ataques pararam?
― Sim! ― gritou a multidão.
Algumas pessoas ilustravam as palavras do profeta com “Abençoado Alseiass!” e “Louvado seja o deus de ouro!”
― E é nesse momento que devemos dar graças a Alseiass? É nessa hora que iremos construir um altar de ouro e joias, um altar que servirá de adoração para todas as gerações vindouras?
― Sim! ― gritou a multidão.
Desta vez com menos entusiasmo, diante da possibilidade de doação de ouro e outros objetos de valor. Mas os seguidores de vestes brancas que estavam ao redor de Tennyson juntaram suas vozes ao clamor.
Exceto, Will pensou, que o altar vai ser coberto com uma fina camada de ouro e quando você for embora, a maior parte será levada.
Mas a congregação de Tennyson não parecia estar ciente desse fato. Estimulados pelos vestes brancas e Tennyson, continuaram a levantar suas vozes até a caverna explodiu em gritos de louvor a Alseiass e seu sacerdote, Tennyson.
Hora de ir embora, Will pensou. Ele já havia visto tudo isso antes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)