18 de dezembro de 2016

Capítulo 44

O carrasco gigantesco se equilibrava facilmente sobre o escudo, suportado pelos ombros de quatro guerreiros tualaghis enquanto faziam seu caminho através da praça do mercado lotada para o local da execução. Enquanto ele passava pela multidão, mãos eram levantadas e armas eram brandidas para saudar o corpulento homem.
Os quatro que o levavam pararam ao lado da plataforma de execução e Hassaun pisou levemente nela. Quando fez isso, outra onda de vivas se levantou. Agora que podia vê-lo mais de perto, Halt percebeu que o carrasco era realmente um gigante. Tinha bem mais de dois metros de altura e os ombros e o corpo eram construídos na mesma proporção em massa. Hassaun agitou a enorme espada com as duas mãos até que ela foi levantada na vertical acima da cabeça e desfilou ao longo da frente da plataforma, ignorando a fila de prisioneiros e brandindo a espada à multidão reunida. Mais uma vez, os gritos do seu nome ecoaram.
— Hassaun! Hassaun! Hassaun!
Ele marchou ao longo da plataforma, bebendo a adulação da multidão. Então, quando estava no centro, Hassaun levantou a espada em toda a extensão de seus braços, girou-a com um movimento rápido dos punhos poderosos e atirou-a com força. A arma caiu com a ponta na madeira, oscilando lentamente.
O carrasco recuou um passo e, em seguida, estendeu as mãos para os cordões que prendiam a túnica que usava e rapidamente puxou-a para longe de seu corpo, deixando-a cair num monte atrás dele.
Agora Hassaun vestia apenas em um par de calças largas ondulantes, o kheffiyeh preto e o véu azul escuro dos tualaghis. Seu peito nu brilhava levemente com óleo e os enormes braços musculosos, tórax e abdômen podiam ser vistos claramente.
Ele avançou e, sem qualquer esforço aparente, deixou a espada livre da madeira e girou-a em torno de seu corpo em uma série desconcertante de arcos e círculos. Ele segurava a grande espada como se fosse um brinquedo, mas qualquer um que conhecesse armas e podia ficar impressionado com a exibição dos reflexos com uma espada tão pesada, que falava muito sobre a força e a coordenação dos braços, corpo e os músculos do pulso. A lâmina preta altamente polida refletia os raios do sol da manhã e brilhava muito, movendo-se tão rapidamente que, às vezes, mais parecia um disco preto sólido que uma lâmina estreita.
— Hassaun! Hassaun! Hassaun!
Os gritos subiram novamente e desta vez mais arridis juntaram-se a eles, hipnotizados pela força, poder e carisma do gigante tualaghi. Afinal, seis dos sete presos em pé sobre a plataforma eram estrangeiros e os arridis não tinham nenhum motivo para lamentar a sua execução. Quanto ao sétimo, corriam entre o público comentários sobre a posição de Selethen, mas as pessoas de cidades remotas, como Maashava, tinham poucos motivos para amar os emrikirs e wakirs que governavam Arrida. Como Halt tinha observado alguns dias antes, a maioria dos funcionários em Arrida eram corruptos e propensos a olhar para subornos quando tratados com as pessoas debaixo deles. Selethen era uma exceção à regra geral, mas o povo de Maashava não devia saber disso. Ele governava uma província distante, portanto as pessoas não tinham informações concretas sobre ele.
Além disso, o contato normal entre os indivíduos e governantes ocorria no tempo de pagamento de impostos, quando pessoas da cidade como as de Maashava eram obrigadas a entregar uma percentagem de tudo o que tinham ganho ou cultivado durante o ano. Nessas ocasiões, o governo mostrava pouca simpatia por uma cidade que tinha sido invadida e saqueada por invasores tualaghis.
“Temos fome, enquanto eles engordam em Mararoc” um velho estava dizendo e as pessoas de Maashava sentiam que havia um monte de verdade básica nisso. Portanto, se um funcionário do governo bem-pago e bem alimentado fosse perder a cabeça, haveria poucos aqui para chorar sobre o fato. Com o fatalismo típico dos agricultores, eles fundamentavam que sempre haveria outro ansioso para tomar o seu lugar.
Então, agora, confrontados com a perspectiva selvagem de uma execução em massa realizada por um “artista” talentoso como Hassaun, eles começaram a aplaudir e incentivar as proezas do grande homem.
Hassaun estava satisfeito em atendê-los. Ele começou a dançar de um lado para outro, oferecendo cortes laterais e profundas estocadas com a espada, deixando-a girar e dar voltas como a língua de uma serpente. Ele ia para frente e para trás, da esquerda para a direita, em seguida voltando à esquerda novamente.
Então, pulou alto no ar e fez um enorme arco de corte para baixo com a espada, imitando a decapitação de uma vítima ajoelhada. A ponta bateu com estrondo nas pranchas de madeira e outra vez ele lançou e pulou para trás, deixando a espada tremendo da força do golpe.
Tão rapidamente, ele aproveitou o aperto de duas mãos e empurrou-a livre de novo, começou a andar ajoelhado de lado a lado, todo o tempo mantendo a espada girando, piscando e cortando. O canto de seu nome se intensificou, a cadência acompanhando o ritmo dos seus movimentos.
De sua posição de joelhos, ele pulou alto no ar, girando quando chegou até a linha de frente das vítimas, fazendo um X invisível no ar com dois golpes diagonais da espada. Então ele girou mais uma vez para enfrentar a multidão. Pelo seu tamanho e força, seus movimentos eram incrivelmente leves.
Ele fez sinal a um dos homens que o levaram para a plataforma e o guerreiro chegou a uma tenda nas proximidades do mercado e pegou um melão. Ele o jogou alto no ar acima do gigante. A espada brilhou em dois cortes diagonais opostos. O primeiro dividiu o melão em duas partes. O segundo cortou a maior das duas antes delas caírem na plataforma com um baque úmido.
Espontaneamente, o soldado já jogava outro melão e desta vez Hassaun cortou a metade com uma varredura horizontal, seguido imediatamente por um corte vertical.
A plateia urrou em deleite.
Hassaun respondeu passando a espada girando, de uma mão para a outra, mantendo o ritmo enquanto passava a arma da direita para a esquerda e depois novamente, segurando-a pelo punho longo, perto da lâmina, controlando-a com a força da suas mãos e pulsos. Ele a atirou rodando alto no ar. Em seguida, pulando alto, girou cento e oitenta graus no ar e trouxe a espada para baixo em um selvagem golpe violento perto do preso que estava de frente para ele.
Por acaso, era Horace.
A multidão calou de repente, silenciosa quando a figura enorme pulou, girou e bateu. Eles esperavam ver o estrangeiro dividido da cabeça aos ombros, pelo menos. Mas no último momento, com uma exposição surpreendente de força e controle, Hassaun interrompeu o curso descendente de modo que a lâmina maciça apenas tocou os cabelos de Horace.
A multidão engoliu o grito que estava por vir quando percebeu que o jovem estrangeiro não havia se movido, não tinha se retraído. Ele não tentou levantar as suas mãos atadas em uma tentativa inútil de evitar o golpe terrível. Ele se limitou a ficar de pé, parado como rocha, observando o carrasco com um olhar de desdém no rosto.
O coração de Horace estava batendo rápido e adrenalina estava surgindo em seu sistema. Mas ele não mostrou nenhum sinal disso. Tinha percebido o que estava por vir quando o enorme homem tinha saltado e girou antes dele. A coordenação do golpe para trás com o giro havia alertado Horace. Percebendo o que estava para vir, ele havia decidido que não iria mover um músculo quando o golpe chegasse. Levou uma enorme força de vontade, mas ele conseguiu. Agora, sorriu.
“Se empine e pule quanto quiser, meu amigo”, ele pensou, “eu vou lhe mostrar do que um cavaleiro de Araluen é feito.”
Hassaun pausou. Ele franziu a testa enquanto olhava para o homem sorridente diante dele. Em tempos passados, o movimento teria invariavelmente resultado na vítima cair no chão, mãos acima da cabeça, gritando por misericórdia. Este jovem estava sorrindo educadamente para ele. Incrivelmente, ele estendeu as suas mãos atadas, com as palmas mais altas.
— Isso foi realmente muito bom — disse ele. Será que eu podia tentar?
Era como se ele realmente esperasse que Hassaun fosse passar-lhe a espada. O carrasco deu um passo para trás, confuso. Ele sentia que a situação estava se movendo para fora de seu controle. Em seguida, tornou-se pior quando os dois bandidos barbudos escandinavos juntaram-se.
— Bom trabalho, Horace — Erak disse, rindo alegremente.
Svengal ecoou o sentimento.
— Muito bem, garoto! Deixou o Horrível Hassaun sem jeito.
Com um grito de raiva, Hassaun virou para os dois risonhos escandinavos. A espada girou sobre sua cabeça, então ele a virou na horizontal em um arco na direção do pescoço de Erak. Tal como aconteceu com Horace, ele parou o golpe a apenas um milímetro do escandinavo. Mas, como Horace, Erak não mostrou nenhum sinal de recuar.
Em vez disso, ele voltou para o seu grupo e disse em tom de aprovação:
— Belo controle, Svengal. O homem tem bons pulsos. Eu gostaria de vê-lo com uma machadinha de batalha nas mãos.
Svengal franziu a testa, não concordando totalmente.
— Já eu gostaria de vê-lo com uma machadinha de batalha em sua cabeça, chefe — disse ele, e ambos gargalharam de novo, totalmente à vontade, totalmente sem medo.
Agora Hassaun sentiu uma impaciência e perplexidade crescente no meio da multidão. O canto de seu nome tinha morrido no momento em que mostraram o seu respeito pela coragem desses estrangeiros. Arrida era uma terra dura, e a morte violenta era uma ocorrência diária. Tanto os arridis e quanto os tualaghis admiravam aqueles que podiam enfrentá-la com tal altivez. Era vital, Hassaun sabia, que ele reconquistasse o respeito da multidão. Ele passeou ao longo da linha de capturados, procurando o elo mais fraco.
E viu a menina.
Ela não seria capaz de resistir à ameaça da espada enorme, ele argumentou. Ele poderia reduzi-la a uma sombra chorando lágrimas dentro de segundos. E então, ele sentiu, os outros cativos teriam de perder a sua atitude desinteressada e indiferente a ele quando tentassem consolá-la.
Ele deixou a ira crescer dentro dele como a água de uma represa. Lançou um grito prolongado de ódio quando pulou na direção de Evanlyn, a espada levantada. A lâmina girava e cortava à frente dela em todas as direções, fazendo o piso da plataforma estremecer com a força de seus golpes. Ele cortou o ar sobre ela, a espada quase encostando no corpo da princesa. Foi uma terrível exibição de raiva e força.
A moça não se mexeu.
Evanlyn ficou imóvel, sabendo que não deveria se mexer, não deveria se encolher, recuar ou piscar quando a arma aterrorizante sibilava passando a apenas um fio de cabelo do rosto e do corpo. Qualquer um desses golpes a cortaria pela metade, ela percebeu. No entanto, se forçou a não demonstrar nenhum medo. Seu coração pulava no peito e a pulsação corria acelerada, porém ela escondeu as reações bem no fundo dela. Perguntava-se vagamente como Horace tinha feito o que fez sem medo e, em seguida, ocorreu-lhe. Ele teve medo, mas o tinha controlado, porque essa era sua maneira de ter vingança sobre o homem estúpido que pulava na frente dela.
E determinou que se vingaria da mesma forma. A lógica lhe dizia que essa exibição de Hassaun era completa ostentação. Eles tinham afirmado várias vezes que Halt seria o primeiro a morrer. Portanto tudo isto de cortar e girar era simplesmente para assustá-la. Ao mesmo tempo, percebeu que o menor erro na parte Hassaun seria fatal. Se a raiva ou a frustração o jogasse fora de equilíbrio, de modo que ele errasse por meio centímetro, ela seria morta.
Mas ela ficou de pé, olhos abertos e deliberadamente desfocados na lâmina afiada, de quase um metro e meio de comprimento, assobiando e girando em volta do rosto, do pescoço e do corpo.
E, finalmente, acabou que Hassaun foi derrotado. Ele deu um passo para trás, abaixando a espada. Seu corpo brilhava com a transpiração. Seus olhos acima da máscara mostravam seu absoluto espanto. E a multidão ficou em silêncio.
Então uma voz, de algum lugar no meio, gritou.
— Libertem ela!
E outra se juntou, e mais outros. Até que uma parte crescente da multidão estava ecoando o sentimento. Na maior parte eram arridis. Mas os olhos Yusal se estreitaram de raiva quando viu vários de seus próprios homens, levantando as mãos e pedindo a libertação de Evanlyn.
Furioso, ele adiantou-se, puxando a própria espada para enfatizar as suas palavras.
— Parem com isso! — gritou ele. — Basta!
Os gritos de libertação para Evanlyn morreram quando os olhos negros de Yusal varreram a multidão. Atrás dele, Halt percebeu que este era um momento de máximo perigo para Evanlyn. Yusal poderia escolher fazer um fim rápido dela aqui e agora para acabar com a chance de qualquer protesto mais em seu nome. Ele teria que tirar o foco dela e concentrar a raiva de Yusal sobre ele mesmo. Forçando um tom de tédio e desdém em sua voz, ele se adiantou, pedindo em voz alta para o líder tualaghi:
— Yusal, isso está ficando muito chato. Podemos acabar com isso, por favor?
Yusal girou para cima dele, Evanlyn já esquecida. Este era o homem que seus soldados odiavam, ele sabia. Era a maneira de recuperar o controle da situação. Ninguém chamaria a liberação de Halt. Ele apontou sua espada agora na figura de barbas grisalhas.
— Mate ele! — ordenou Hassaun. — Mate-o agora!
Dois dos seus homens arrastaram Halt até a borda da plataforma, enquanto um terceiro trouxe o bloco de execução para frente. Este era um bloco de madeira afilado a cerca de um metro de altura, projetado para que uma vítima ajoelhada poderia ser forçada a encostar a parte superior do corpo contra a borda, ficando inclinado, proporcionando resistência ao golpe da espada do carrasco. Ele colocou o objeto em posição enquanto Halt foi forçado de joelhos pelos outros dois. Eles o empurraram fortemente contra o bloco, girando os braços amarrados sobre ele para segurá-lo na posição.
Halt olhou em volta e viu a expressão horrorizada de Gilan. Ele sorriu sombriamente.
— Will está muito lento — disse ele. — Vou lhe passar um bom sermão sobre isso.
— Silêncio! — gritava Yusal, a voz embargada em um tom mais alto com a veemência de seu grito. — Force-o a se virar! — ele acrescentou em uma voz mais controlada a um de seus homens.
Um tualaghi agarrou a cabeça de Halt com ambas as mãos e o virou para que ele olhasse para frente. Halt encontrou-se procurando nos rostos diante dele – rostos na multidão. Eles ficaram em silêncio e imóveis agora. Mas não havia piedade evidente lá, apenas o fascínio mórbido das pessoas olhando nos olhos de um homem que estava prestes a morrer.
Então ele parou em um rosto que parecia vagamente familiar. O homem encontrou seu olhar e balançou a cabeça lentamente. Halt pensou bem e percebeu que tinha visto o homem antes, havia sido um dos soldados arridi solto por Yusal para morrer no deserto. Ele tinha certeza disso!
Houve um grande suspiro coletivo da multidão quando Hassaun avançou o pé direito e tirou a espada enorme para cima e para trás, alta sobre o seu ombro direito. Houve uma pausa. Então Halt ouviu um assobio quando algo passou através do ar em grande velocidade. O som vagamente familiar, pensou ele. De uma maneira estranha individual, ele decidiu que devia ser o som da espada fazendo seu caminho para terminar com sua vida.
Ele sempre quis saber como iria acontecer e isso seria. Em menos de um segundo, pensou ele, ele saberia.

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