29 de dezembro de 2016

Capítulo 42

Tennyson olhou ao redor do acampamento e acenou com a cabeça satisfeito. Durante vários dias, convertidos ao culto dos forasteiros tinham vindo ao acampamento. Agora que eles estavam reunidos, estava pronto para entrar e colocá-los em um estado de frenesi religioso a fim de que eles estivessem prontos a entregar o seu ouro e objetos de valor para ele – assim como já haviam feito em Hibernia. Essa foi uma tarefa em que se sobressaiu.
Os números eram menores aqui, é claro. Mas eles eram suficientes para fornecer-lhe espólio suficiente para um novo começo em outro lugar. Hibernia e Araluen estavam se tornando cada vez mais perigosos para ele e ele planejava fugir para um novo local. Não tinha dito a seus seguidores que estava planejando levar os bens que recolhia e que ia fugir com eles. Eles acharam que ele iria começar a reconstruir o culto dos forasteiros aqui no norte de Araluen. E estava contente em deixá-los continuar pensando assim. Ele não sentia nenhuma lealdade para com as pessoas que o seguiam.
Enquanto tinha esse pensamento, franziu a testa, imaginando o que tinha acontecido ao genovês, Bacari. Já havia se passado dias desde que o mercenário havia relatado. Ele sabia que o líder de seus perseguidores tinha sido mortalmente ferido no confronto na floresta alagada. Bacari o tinha visto ser ferido por uma flecha envenenada, e tinha certeza de que não havia como o estranho encapuzado pudesse sobreviver a essa ferida.
Essa foi uma boa notícia. Os outros dois eram pouco mais que meninos e Tennyson estava confiante de que, sem o seu líder, eles logo se tornariam desencorajados, desistiriam da perseguição e voltariam para onde quer que eles tivessem vindo. O fato de não ter tido notícias deles nos últimos dias parecia confirmar a ideia. Ele sabia que eles tinham estado em seus calcanhares por semanas. Agora, tinham simplesmente desaparecido.
Talvez Bacari os tenha matado – e tenha sido morto em um confronto final com eles. Essa era uma possibilidade. Mais provavelmente, ele pensou, o genovês tinha simplesmente pulado fora e deixado o país. Afinal, ele já tinha visto dois dos seus compatriotas mortos e mercenários como ele tinha apenas uma lealdade – com o dinheiro.
Era improvável que ele continuasse a lutar por Tennyson, quando sabia que estava em desvantagem. Mas ele tinha servido ao seu propósito. Havia matado o líder dos perseguidores de Tennyson e de uma forma ou de outra, feito os outros dois abandonarem sua perseguição. E desta forma, não havia necessidade de Tennyson pagar-lhe a parcela final da taxa que tinha prometido.
De modo geral, pensou ele, tinha dado certo. O último dos convertidos locais havia chegado ao acampamento naquela manhã. No dia seguinte, ele iria levantar acampamento e movê-los para o complexo da caverna que fora escolhido. Ele iria instigá-los e excitá-los, como tinha feito com tantos outros simples camponeses antes destes, e convencê-los a contribuir com o seu ouro e joias para construir um outro altar para Alseiass. Então, quando o tempo estivesse certo, iria fugir silenciosamente.


Com o último genovês morto, Halt expressou sua dúvida de que Tennyson iria enviar alguém de volta para espioná-los ou monitorar seu progresso. Na verdade, ele esperava que o pregador assumisse que eles haviam desistido da perseguição.
― Afinal — disse-lhes, enquanto eles estavam se preparando para sair do local do acampamento ― Bacari terá dito que me atingiu com uma flecha envenenada. E desde que Tennyson não sabe nada sobre Malcolm aqui, ele provavelmente acha que estou morto.
― Horace e eu ainda poderíamos estar seguindo — Will ressaltou.
Halt parecia duvidoso.
― Possivelmente. Mas ele sabe que vocês são jovens. E não conhece vocês como eu conheço. Com sorte, ele vai ter me visto como a ameaça real.
― Eu não sei se devo me sentir insultado por isso ou não — Horace afirmou.
Halt sorriu para ele.
― Como eu disse, ele não conhece vocês assim como eu conheço. Ele é um homem arrogante e provavelmente vai pensar que vocês são muito jovens para oferecer qualquer ameaça para ele. Mas apenas no caso — disse ele, olhando para Will ― é melhor você vasculhar a área.
Will assentiu com a cabeça. Nunca foi sensato assumir que não havia perigo. Ele tocou as costelas de Puxão com seus calcanhares e galopou em frente para vasculhar o caminho. Ele freou quando estava cerca de quatrocentos metros à frente e manteve essa distância.
Malcolm, que estava montando em dupla com Horace, assistiu a figura distante enquanto ele vasculhava o terreno à frente deles, olhando para frente e para trás, para se certificar de que não havia ninguém esperando em uma emboscada em nenhum lado da estrada que estavam seguindo. Will lembrava ao curandeiro um cão de caça farejando um cheiro.
― Ele é um jovem notável — falou para Halt e ele viu o pequeno brilho de orgulho nos olhos do arqueiro barbudo enquanto ele se virava na sela para responder.
― O melhor — disse ele brevemente.
― Você o conhece há quanto tempo? — Malcolm perguntou.
― Desde que ele era um menino pequeno. Eu o notei pela primeira vez quando entrou na cozinha do Mestre Chubb para roubar algumas tortas.
― Mestre Chubb? — Malcolm perguntou.
Halt sorriu com a lembrança daquele dia.
― Ele é o chef do Castelo Redmont. Um homem formidável, você não concorda, Horace?
Horace sorriu por sua vez.
― Ele é mortal com sua colher de pau — disse ele. ― Veloz e preciso. E muito doloroso. Uma vez eu sugeri que ele deveria dar aulas de golpes de colher de pau para os alunos da Escola de Guerra.
― Você estava brincando, certo? — Malcolm disse.
Horace olhou pensativo, antes de responder.
― Na verdade, não inteiramente.
― Assim — Malcolm disse, voltando-se para Halt. ― O que você disse para Will quando você o pegou roubando estas tortas – e aparentemente, arriscando a vida para fazer isso?
― Oh, eu não deixei que soubesse que eu estava lá. Nós, arqueiros podemos ser muito discretos quando queremos — disse com modéstia simulada. ― Eu permaneci fora de vista e o observei. Pensei então que ele tinha potencial para ser um arqueiro.
Malcolm assentiu. Mas uma anomalia na sequência da história tinha deixado Horace carrancudo, pensativo.
― Por que? — perguntou ele a Halt.
Halt olhou rapidamente para ele. Algo no tom de Horace acionou um conjunto de alarmes em sua mente. Horace ultimamente estava tendo uma tendência em fazer perguntas embaraçosas, ele pensou. Ele respondeu com cuidado.
― Por que? Porque ele era excelente em se mover de um ponto a outro e ainda permanecer sem ser visto. Chubb entrou na sala três vezes e nunca reparou nele. Então eu pensei, se ele podia fazer isso mesmo sem treinamento, ele daria um bom arqueiro.
― Não — disse Horace deliberadamente ― não foi isso que eu quis dizer. Eu quis dizer, por que você permanece invisível? Por que você estava se escondendo na cozinha, em primeiro lugar?
― Eu lhe disse — Halt respondeu, com um corte em sua voz — eu estava vigiando Will para ver se ele tinha o potencial para ser um arqueiro. Então, eu não queria que ele visse que eu estava vigiando.
― Não foi isso que você disse — Horace respondeu.
Um pequeno sulco tinha se formado entre suas sobrancelhas.
― Sim. Foi.
As respostas de Halt foram se tornando mais e mais curtas. Malcolm se inclinou para trás da forma ampla de Horace para esconder um sorriso. O tom da voz de Halt indicava que não queria mais discutir o assunto. Mas Horace não estava disposto a desistir.
― Não. Você disse, quando Malcolm perguntou, que esta tinha sido a primeira vez que você tinha notado Will. Então você não poderia ter ido para a cozinha para ver o que ele estava indo pegar. Você não tinha notado ele antes daquele dia. Isso foi o que você disse — acrescentou, terminado seu ponto.
― Isso é verdade. Você disse isso ― Malcolm confirmou prestativamente e foi recompensado com um olhar penetrante de Halt.
― Será que isso importa? ― Halt perguntou.
Horace encolheu os ombros.
― Não realmente, eu suponho. Eu só queria saber por que você tinha ido para a cozinha e por que você se deu ao trabalho de permanecer invisível. Estava se escondendo de Mestre Chubb? E Will apenas apareceu por acaso?
― E por que eu estaria me escondendo de Mestre Chubb em sua própria cozinha? ― Halt desafiou.
Novamente, Horace encolheu inocentemente.
― Bem, havia uma bandeja de empadas feitas recentemente sobre o beiral da janela, não havia? E você é completamente apaixonado por tortas, não é Halt?
Halt empertigou-se na sela.
― Você está me acusando, Horace? É isso? Você está me acusando de me esgueirar na cozinha para roubar as tortas para mim?
Sua voz e linguagem corporal simplesmente indicavam que sua dignidade estava ferida.
― Claro que não, Halt! ― Horace apressou-se a assegurar-lhe, e os ombros rígidos de Halt relaxaram um pouco.
― Eu apenas pensei que ia lhe dar a oportunidade para confessar ― Horace acrescentou.
Desta vez, Malcolm não conseguiu esconder sua súbita explosão de riso. Halt deu-lhes um olhar murcho.
― Sabe, Horace ― disse ele, finalmente ― você costumava ser mais agradável quando jovem. O que aconteceu com você?
Horace virou um grande sorriso para ele.
― Eu passei muito tempo perto de você, suponho ― respondeu ele.
E Halt teve que admitir que provavelmente era verdade.


Mais tarde naquele dia, eles chegaram ao local onde Will tinha lutado com Bacari. Will fez um sinal para eles pararem antes que chegassem no final do cume, então ele e Halt rastejaram em frente pesquisando no chão em frente. O acampamento que ele tinha visto anteriormente estava deserto.
― Eles se mudaram ― disse Will, e Halt descansou seu peso nos cotovelos, mastigando um talo de grama, pensativo.
― Sim ― ele concordou. ― Quantos você acha que eram?
Will considerou sua resposta por alguns segundos antes de responder.
― Era um grande acampamento ― disse ele. ― Eu diria até uma centena de pessoas.
Eles se levantaram e caminharam de volta para baixo no declive onde Horace e Malcolm estavam a preparar uma refeição rápida de carnes frias, frutas e pão.
― Há tempo para fazer café? ― Horace perguntou.
Halt assentiu.
― Há sempre tempo para um café.
Sentou-se perto do pequeno fogo que Horace tinha construído e olhou para Malcolm. Ele tinha gostado do curandeiro e sabia que ele tinha uma boa cabeça para analisar as coisas.
― O bando de Tennyson uniu-se a um grupo maior ― ele afirmou. ― O que você diria disso?
Malcolm fez uma pausa, pensativo.
― Pelo o que você me disse sobre seus métodos, eu diria que a maior parte deles são provavelmente convertidos à sua “religião” – pessoas que têm vivido nesta área.
― Isso foi o que pensei. Ele geralmente tem mais ou menos vinte em seu círculo interno – os que sabem que toda a religião é uma farsa. Eles resolvem as coisas para ele. Recolhem o dinheiro. Mas a maior parte de seus seguidores são pessoas ingênuas do país que realmente acreditam nesse tipo de absurdo.
― Mas de onde teriam vindo, Halt? ― Horace perguntou. ― Pensei que você e Crowley tinham destruído o movimento dos forasteiros em Araluen.
Halt balançou a cabeça.
― Nós fizemos o nosso melhor. Nos livramos da hierarquia. Mas você nunca pode reprimir esses cultos inteiramente. Eles vão se mudar para áreas remotas como esta e recrutar os moradores. P provavelmente tinha agentes nesta área nos últimos seis meses ou algo assim, do jeito que ele estava fazendo em Selsey.
― E teria sido uma simples questão de enviar um mensageiro antes e fazer um ponto de encontro no vale ― Will disse.
― Exatamente. E agora ele está reunindo o seu povo para outro empurrão. Eles vão manter o recrutamento, então, quando tiverem um grande numero, eles vão passar para a próxima área – assim como fizeram em Hibernia ― Halt sacudiu a cabeça com raiva. ―Eles são como parasitas! Você os elimina em um lugar e eles se levantam novamente em outro.
Malcolm assentiu.
― É interessante, não é, como as pessoas estão tão prontas a acreditar nestes charlatões? Você percebe que vai ter de fazer mais do que apenas reprimir este grupo, não é?
Halt olhou para ele. Ele teve uma boa ideia do que o pequeno curandeiro careca estava falando.
― Como? ― ele perguntou.
Malcolm apertou os lábios e se inclinou para frente, vagarosamente espetando uma vara nas brasas ardentes do fogo.
― Se as pessoas acreditam nele, se elas aceitaram o monte de besteiras que ele está vendendo, não será suficiente levá-lo prisioneiro e colocá-lo em julgamento. Ou até mesmo matá-lo, se é que você tinha isso em mente.
Halt assentiu, cansado.
― Eu sei ― disse ele. ― Um julgamento público seria dar-lhe o público que ele precisa. E se ele morrer, vai se tornar um mártir. De qualquer forma, outra pessoa vai aparecer e tomar o seu lugar e continuar sobre a dúvida e incerteza que ele levantou na mente das pessoas. Vai ser um longo ciclo de repetição.
― Exatamente ― Malcolm acordado. ― Portanto, há apenas um curso para você seguir. Você tem de desacreditá-lo. Tem que provar a esses seguidores dele que ele é uma fraude, um mentiroso e um ladrão.
― Nós conseguimos fazê-lo em Clonmel ― Horace falou ― o pegamos de surpresa, com a lenda do Guerreiro do Sol Nascente. E nós o enganamos no julgamento de combate. Ele não vai cair nessa de novo. Desta vez, vamos ter que fazer algo novo. Algo que ele não está esperando.
― Como o quê? ― Will perguntou e Halt deu aquele sorriso cansado novamente.
― Quando eu pensar nisso, você vai ser o primeiro a saber.

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