29 de dezembro de 2016

Capítulo 41

O pequeno cervo vermelho inclinou sua cabeça para comer a grama. Então algum instinto o advertiu e levantou a cabeça, suas grandes orelhas mexendo para capturar qualquer pequeno som, o nariz balançando, cheirando sinais de perigo. Seus sentidos lhe disseram que o perigo estava à esquerda, na direção do vento, assim começou a virar a cabeça nesse sentido.
Foi o último movimento que fez. A flecha veio do nada, sibilando pelo ar e enterrou sua ponta afiada no coração do animal. Com um gemido baixo de surpresa, tentou flexionar as patas traseiras para correr. Mas não havia mais força nele e o pequeno animal caiu sobre a grama.
Will apareceu de seu esconderijo, empurrando para trás o capuz de seu manto. Depois de tanto tempo na estrada, seus alimentos estavam escassos. O cervo iria dar-lhes carne fresca e também as tiras defumadas sobre o fogo. Ele se sentiu um pouco arrependido por ter matado o belo animal, contudo sabia que era necessário.
Rapidamente, ele foi até o cervo e o preparou para ser levado. Assobiou e Puxão surgiu detrás de um grupo de árvores a uma centena de metros de distância, trotando na direção dele. Ele olhou para o cervo que haviam perseguido por mais de duas horas.
Não é muito grande. É o melhor que você pode fazer?
― Não faz sentido matar um animal maior do que precisamos — Will disse.
Mas ele podia ver que o pequeno cavalo não estava convencido. Amarrou a carcaça do animal por trás da sela e montou para a viagem de volta ao seu acampamento entre as árvores.
Passara-se dois dias desde seu confronto final com Bacari. Desde aquele dia, Will tinha se surpreendido com a velocidade da recuperação de Halt. O arqueiro de barba grisalha ainda estava fraco, é claro. Isso era resultado dos efeitos colaterais que o veneno deixou em seu corpo e também do fato de que durante vários dias ele havia comido pouco, não mais que algumas colheradas de caldo.
Porém, a febre, a desorientação, bem como a descoloração e o mórbido inchaço em seu braço haviam sumido. Ele voltou a ser o que era e queria pegar a estrada novamente.
Neste ponto, Malcolm era contra.
― Você precisa de descanso. Descanso absoluto, por pelo menos quatro dias. Caso contrário, é provável que você tenha uma recaída — disse a Halt em um tom firme, que não iria tolerar qualquer argumento.
Claro, Will sabia que em qualquer outra situação Halt teria argumentado independente do tom da voz de Malcolm. Mas ele parecia estar adiando esse confronto com Malcolm pelo menos por enquanto.
Havia outro problema que não saía da cabeça de Will. Ele sentia que deveria escoltar Malcolm de volta para Grimsdell. O trabalho do curandeiro terminou aqui e sabia que Malcolm tinha outras responsabilidades na floresta escura que ele chamava de lar. Os caminhos para Macindaw eram incertos, através de território selvagem, potencialmente perigoso, e Will sentia-se obrigado a escoltar Malcolm em segurança para casa. Afinal, ele pensou o pequeno curandeiro não tinha habilidade com armas e tampouco habilidade em campo. Mas isso iria atrasar sua busca por Tennyson ainda mais.
Foi Malcolm que resolveu o problema quando Will timidamente levantou o assunto.
― Eu vou com vocês — falou simplesmente.
Essa possibilidade não havia ocorrido a Will. Ele parou um pouco surpreso. Então viu vários problemas com essa ideia.
― Mas, Malcolm, será muito perigoso...
Os lábios do curandeiro se contorceram.
― Oh querido, meu querido — ele disse numa voz estridente e exagerada. ― Eu estou tão assustado. Talvez eu deva colocar meu avental sobre a minha cabeça e começar a chorar.
Will fez um gesto apaziguador, percebendo que sua observação poderia ter sido tomada como um insulto. De fato, percebeu que tinha mesmo sido tomada como um insulto.
― Não é isso que eu queria dizer — começou ele e Malcolm aproveitou para retrucar.
― Ah? Então você quer dizer que não será perigoso? Então não haverá problema se eu for, não é?
― Não. Eu quis dizer... Eu não estou questionando a sua coragem.
― Fico feliz em ouvir isso — Malcolm disse friamente. ― Exatamente o que você está questionando então?
― Olha, é só... — Will fez uma pausa, ciente de que deveria escolher suas palavras cuidadosamente.
Ele ainda não tinha visto esse lado amargo da natureza de Malcolm. Não queria deixá-lo com raiva de novo. Malcolm gesticulou para ele continuar.
― Quero dizer, nós provavelmente teremos de lutar com eles e você não está...
As sobrancelhas de Malcolm subiram. Will sempre achara que o pequeno homem se parecia com um pássaro. Agora, com aquelas sobrancelhas, cabeça careca e nariz bicudo, definitivamente ele parecia com uma ave de rapina.
― O que precisamente, eu não estou? — ele perguntou.
Will desejava que aquela conversa não tivesse começado, agora era tarde demais para voltar atrás.
― Eu quero dizer... você não é um guerreiro, não é?
Ele era fraco, Will sabia. Mas Malcolm dificilmente poderia aceitar esse argumento.
― Então está preocupado de que eu seja um fardo para você? — Malcolm perguntou. ― De que terá que cuidar de mim quando surgir um combate?
― Não! — Will disse.
Mas falou isso muito rapidamente. Na verdade, era exatamente o que o preocupava. Malcolm não disse nada por alguns segundos, simplesmente levantou uma sobrancelha em descrença. Will se pegou desejando que as pessoas parassem de usar aquela expressão facial. Já estava se tornando chato e exagerado.
― Gostaria de lembrá-lo — Malcolm disse finalmente ― que eu fui conhecido por ter reduzido um grande, valente e famoso arqueiro a um estado de terror e gagueira?
― Bem, isso é um pouco exagerado — Will disse com veemência. ― Eu certamente não gaguejei!
― Mas já estava perto disso — Malcolm cutucou e a mente de Will voltou para aquela noite na floresta Grimsdell, onde havia ouvido vozes de dentro da escuridão, alertando-o e ameaçando. E onde uma figura gigantesca, de repente se elevou sobre a névoa.
Ele tinha que admitir, Malcolm estava certo. Ele não estava longe de começar a gaguejar.
― Olha Will — Malcolm continuou num tom mais conciliador ― eu não sou um guerreiro, isso é verdade. Mas eu sobrevivi em um mundo hostil por vários anos. Tenho meus próprios métodos. E há outro ponto. Halt.
Ele viu que chamou a atenção de Will. O jovem arqueiro aproximou-se dele, com um olhar preocupado, temendo que Malcolm estivesse escondendo alguma coisa sobre a condição de Halt.
― Halt? Que tem ele? Ele está bem agora, não é?
Malcolm levantou a mão para acalmar as preocupações de Will.
― Ele está bem. Sua recuperação está boa. Mas ainda está fraco. E pelo que eu observei, vai querer começar a perseguir esse tal Tennyson muito mais cedo do que deveria. Estou certo?
Will hesitou. Ele não queria ser infiel a Halt, mas sentiu que Malcolm os havia observado.
― Sim. Provavelmente — admitiu.
Malcolm assentiu com a cabeça várias vezes.
― Que seja. Bem, ele é meu paciente. E tenho um senso de responsabilidade sobre ele. Eu simplesmente não vou embora e deixá-lo desfazer todo o meu trabalho. Preciso ir com vocês, assim poderei ficar de olho nele.
Will considerou o que Malcolm estava falando. Quanto mais pensava, mais fazia sentido. Finalmente ele concordou.
― Tudo bem — disse ele. Então sorriu. ― Eu ficarei feliz que vá conosco.
Malcolm sorriu de volta.
― Eu prometo Will, posso cuidar de mim. E quem sabe? Eu poderia até surpreendê-lo e tornar-me útil.
Nos últimos dias, quando não estava cuidando de Halt, Malcolm tinha se afastado do acampamento e feito uma pequena fogueira. Ele ocupou-se em misturar e ferver poções, deixando-as secar ao sol e sobre as rochas quentes, formando um pó acastanhado. Enquanto trabalhava, um cheiro acre emanava dos seus produtos químicos. Sempre que Will lhe perguntava o que estava fazendo, o homenzinho sorria enigmaticamente.
― Estou me fazendo útil, só isso — ele respondia.
De vez em quando, eles ficavam assustados com as pequenas explosões que vinham da fogueira de onde Malcolm trabalhava. A primeira vez que aconteceu, eles correram para ver se estava tudo bem. Malcolm acenou com alegria.
― Não se preocupem — disse a eles. ― Eu só estou trabalhando com um novo composto a base de pó de iodo. É um pouco volátil e eu tenho que acertar na mistura.
Eventualmente, eles foram se acostumando com essas interrupções em seu dia. As explosões ficaram menos frequentes e parecia que Malcolm conseguira refinar sua fórmula.
Andando de volta para o acampamento, Will ouviu um som familiar e sua testa franziu ligeiramente.
Foi um THRUM vindo de um arco longo e poderoso sendo disparado. E não era qualquer arco. Ele seguiu o som, desviando um pouco do caminho do bosque, onde o acampamento estava montado. Novamente ele ouviu o vibrante som, seguido poucos segundos depois por um sólido SMACK!
Havia uma ligeira depressão no solo, ladeada por árvores de amieiro e o som parecia vir daquela direção. Ele caminhou naquela direção e, já quase no topo da depressão, viu Halt. Em suas mãos ele segurava seu enorme arco longo e o observou colocando uma flecha, mirando e lançando quase instantaneamente, mesmo parecendo sem objetivo.
Will seguiu a faixa preta da seta e a viu bater em um pequeno tronco de pinheiro, a cerca de oitenta metros de distância. Havia três outras setas que estavam espetadas na madeira macia, tão próximas uma das outras de forma que cobriam o espaço de uma palma de mão.
― Você está baixando um pouco o arco quando solta a flecha — ele falou.
Embora, certamente, Halt não estava.
Seu mentor olhou ao redor, viu-o e respondeu energicamente:
― Eu acredito que sua avó precisa de lições de como chupar ovos.
Ele voltou para sua prática e soltou mais três flechas em um piscar de olhos, todas batendo naquela pequena seção do pinheiro.
― Nada mal — Will foi forçado a admitir.
Halt levantou uma sobrancelha.
― Nada mal? Você deve fazer melhor é claro.
Ele apontou para o cervo pendurado por trás da sela de Puxão.
― Caçando?
Will assentiu com a cabeça.
― Nós precisamos de carne.
Halt bufou baixinho.
― Você também não se saiu bem. Não foi possível encontrar algo maior? É quase do tamanho de um esquilo grande.
Will franziu a cara e olhou para a carcaça.
― É grande o suficiente — disse ele. ― Por que caçar algo maior?
Halt considerou a questão apoiando-se em seu arco e acenando diversas vezes. Então ele perguntou:
― Você viu alguma coisa maior?
― Bem, não. Eu não vi — Will admitiu. ― Mas há muita carne aqui para quatro pessoas.
Halt sorriu e disse.
― Três pessoas e Horace?
Will pensou e apertou os lábios. Halt tinha razão, ele percebeu.
― Eu não me lembrei disso.
É claro, Puxão escolheu aquele momento para lançar sua cabeça e sacudir a crina.
Eu bem que avisei.
Todo mundo parecia conspirar para diminuir seus esforços, então ele decidiu mudar de assunto. Acenou para o pequeno pinheiro, agora repleto de flechas.
― Qual o motivo de toda essa prática? — ele perguntou.
Halt encolheu os ombros.
― Queria ter certeza de que eu tinha recuperado minha força para começar a atirar com meu arco — disse. ― Aparentemente eu consigo.
O arco de Halt era um dos mais pesados que Will já havia visto. Anos de prática desenvolveram os músculos do braço e das costas do arqueiro barbudo, até que chegou num ponto que podia facilmente atirar com seu arco. No entanto, Will tinha visto homens fortes que sem a técnica correta e desenvolvimento muscular apropriado não eram capazes de puxar nem a metade do que era preciso para disparar uma flecha com aquele tipo de arco. Ao ver a velocidade e precisão com a qual Halt tinha atirado suas flechas no pinheiro, Will percebeu que ele tinha razão. Sua força estava de volta.
― Vamos seguir caminho? — ele perguntou.
Halt assentiu.
― Amanhã à primeira luz. Já é hora de vermos o que Tennyson está fazendo.
― Malcolm acha que você precisa de mais dois dias de descanso — Will disse.
Halt apertou os olhos em pensamento. Ele e Malcolm já haviam conversado sobre este assunto. Na verdade, era a razão pela qual Halt estava se testando. Ele ficou preocupado que talvez Malcolm tivesse razão.
― Malcolm não sabe de tudo — disse ele.
Will não conseguiu deixar de sorrir.
― E você?
― Claro que sei — Halt respondeu rapidamente. ― E isso é um fato bem conhecido.

2 comentários:

  1. Eles vão combater Tennyson só nesses capítulos que faltam?

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  2. "― Eu acredito que sua avó precisa de lições de como chupar ovos." HAHAHAHAHA

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Boa leitura :)