29 de dezembro de 2016

Capítulo 40

Bacari se colocou em movimento pouco antes do amanhecer.
Ele sabia que era o momento em que o espírito das pessoas chegava ao ponto mais baixo – quando uma sentinela ficava sonolenta e desatenta.
Os primeiros sinais de cinza no céu à leste, a primeira luz emergindo da madrugada, sinalizando o fim iminente das horas de escuridão, daria uma falsa sensação de relaxamento e segurança. Quando a luz chegasse, as horas perigosas teriam terminado.
Essa era a maneira como as mentes das pessoas trabalhavam – até mesmo guerreiros treinados, como aquele alto e de ombros largos que o estava observando agora.
O assassino havia escutado atentamente quando Malcolm e Horace tinham discutido os planos para segurança do acampamento à noite.
― Vamos alternar os horários de vigilância — disse Horace. ― Will está esgotado e precisa de uma boa noite de descanso para recuperar suas forças.
O curandeiro concordou imediatamente. Will tinha estado sob imensa pressão – tanto física quanto emocional – e deveria dormir uma noite inteira sem interrupções.
Mesmo desgastado como estava, havia se recusado a ir dormir antes de dar uma olhada em Halt para verificar sua recuperação. A respiração de Halt tornara-se profunda e regular e sua cor havia melhorado, ao contrário da palidez que havia apresentado poucos dias atrás.
E o seu braço, quando Malcolm o inspecionou, estava quase de volta ao normal. Não havia inchaço e nenhuma descoloração ao redor do ferimento. O ferimento em si agora estava quase cicatrizado.
Bacari estava deitado, aparentemente dormindo, olhando através dos olhos semicerrados enquanto a noite terminava. Ele podia sentir sua força retornando, enquanto o antídoto neutralizava o veneno em seu corpo.
Nas primeiras horas da manhã, Malcolm acordou Horace para rendê-lo da última vigília. Bacari esperou por uma hora. O jovem guerreiro estava curvado perto da fogueira do acampamento. De vez em quando, o ouviu conter um bocejo. Horace estava cansado também.
Os últimos dias não tinham sido exatamente dias de descanso para ele. Não havia dormido bem. Agora, em seu segundo período de guarda daquela noite, o cansaço o estava testando. Ele mudou de posição e respirou profundamente. Então piscou apidamente limpando os olhos, forçando-os a ficar bem abertos.
Dentro de alguns minutos, seus ombros começaram a ceder e suas pálpebras começaram a cair novamente. Levantou-se e andou pelo acampamento por alguns minutos, voltou a sentar-se novamente.
Inevitavelmente, começou a cochilar. Ele não estava completamente adormecido, qualquer pequeno ruído iria despertá-lo instantaneamente. Mas Bacari não fez nenhum barulho.
Após Malcolm administrar o antídoto, Will amarrou seus punhos e algemou seus tornozelos. Aos poucos, e com cuidado, Bacari estendeu as mãos atadas atrás das costas para baixo, até que ele estava tocando o calcanhar de sua bota direita. Ele torceu o calcanhar e houve um clique fraco de uma lâmina afiada, disparado de um dos lados.
Gentilmente, começou a passar a tira de couro entre os dois punhos para cima e para baixo ao longo do fio da navalha. A lâmina era curta e precisou repetir várias vezes para cortar o couro. Uma vez ele trincou os dentes quando acidentalmente se cortou. Mas, após meio minuto de trabalho silencioso, a corda de couro rompeu e suas mãos estavam livres.
Ele esperou alguns minutos antes de seu próximo passo, certificando-se que não tinha feito qualquer som ou movimento que alertasse Horace. Mas a figura de ombros largos permaneceu imóvel, cabeça e ombros curvados para frente e com a respiração ritmada.
Bacari trouxe suas mãos para frente e puxou os joelhos para cima, perto do queixo, para que ele pudesse chegar ao tornozelo e às algemas que o prendiam. Não conseguia enxergar, mas conseguiu alcançar o nó de suas amarras e as soltou. Instantaneamente, a pressão sobre seus tornozelos diminuiu com as duas alças alargadas. Ele deslizou os pés pelas alças, então, cuidadosamente, tirou o resto das amarras do pulso.
Agora estava livre.
Ainda assim esperou, permitindo que a circulação retornasse aos seus membros enquanto mentalmente ensaiava a sua próxima sequência de ações.
Ele mataria Horace primeiro. Tinha os meios à sua disposição. Então, pegaria o punhal do guerreiro – Bacari não lutava bem com uma espada – e cortaria os tendões dos dois cavalos menores. Ele montaria no cavalo maior e fugiria.
Mais tarde, em um momento apropriado, retornaria para acabar com os outros dois. Ou não. Bacari era pragmático. Gostaria de se vingar de Will e Malcolm, mas se fosse para ficar em perigo, ele podia renunciar a esse prazer. Afinal, era um profissional, e não haveria lucro simplesmente em matá-los só por causa de uma pequena vingança. Por outro lado, se Tennyson estivesse disposto a oferecer um bônus...
Embora Bacari estivesse pensando em outras coisas, ele já estava preparado para atacar Horace. Sua capa estava apertada no pescoço por um cordão. Cuidadosamente, ele desfez o nó e retirou o cordão por uma das extremidades da costura, de onde estava enfiado. O cordão era na realidade um fio fino e media cerca de cinquenta centímetros de comprimento. Enrolou várias vezes o fio em volta de cada uma de suas mãos, deixando um laço entre eles. Então, como um gato, ele subiu sobre seus pés em um agachamento e furtivamente atravessou o campo para onde Horace estava cochilando.
Horace despertou em pânico quando sentiu o laço passando por sua cabeça e apertando com firmeza seu pescoço, arrastando-o para longe do fogo, estrangulando-o e tirando qualquer tentativa de pedir ajuda. Ele sentiu o joelho de Bacari fazendo uma alavanca em suas costas, puxando para trás o cordão de modo a desequilibrar Horace e tornando-o incapaz de reagir.
Horace percebeu tarde demais o que estava acontecendo e tentou forçar os dedos por entre o cordão e seu pescoço. Mas já estava muito firme e demasiado apertado, não havia nenhuma maneira de aliviar a terrível pressão.
Olhou desesperadamente para as três figuras que dormiam ao redor da fogueira. Will estava exausto, ele sabia. Haveria pouca chance de que ouvisse qualquer som. Malcolm também estava cansado e dormia profundamente. Não podia esperar ajuda de nenhum deles. E Halt, é claro, ainda estava dormindo sob os efeitos do veneno.
Até os cavalos estavam muito longe para perceberem algo errado. Eles pastavam entre as árvores do bosque. Além disso, os cavalos dos arqueiros foram treinados para advertir o perigo e qualquer movimento que viria de fora, não de dentro.
Horace tentou gritar, mas só conseguiu um coaxar baixo e desajeitado. No minuto em que fez isso, a corda apertou mais ainda em seu pescoço. Começou a desmaiar, na medida em que seu corpo e cérebro foram privados de oxigênio. Seus movimentos ineficazes o enfraqueciam ainda mais e quando Bacari sentiu isso, aumentou a pressão.
Agora Horace sentia que estava olhando para um longo túnel. Ele via o acampamento como se estivesse olhando através de um furo, onde as bordas externas eram negras e impenetráveis. Seus pulmões gritavam por ar e ele enfraquecia na débil tentativa de tirar a corda do seu pescoço. Ele pensou que poderia fazer algum ruído com suas pernas, mas já era tarde. Estava fraco demais para fazer qualquer coisa além de débeis movimentos.
Horrorizado, percebeu que estava morrendo. O horror era misturado com uma fúria sem sentido quando percebeu que era Bacari que iria matá-lo. Era irritante pensar que o assassino iria triunfar depois de tudo.
― Will!
O grito veio por entre as árvores. Por um momento, Bacari foi pego de surpresa e relaxou a pressão sobre a traqueia de Horace. Horace engasgou e estremeceu, conseguiu puxar um pouco de ar antes que o laço apertasse novamente.
Quem tinha chamado? Era uma voz familiar. Ele tentou pensar, então, enquanto desmaiava percebeu quem tinha sido.
Fora Halt.
Anos de treinamento e experiência chamara a atenção de Halt. Alguma coisa o tinha alertado. Um pequeno ruído talvez. Ou quem sabe fosse uma coisa menos definível: algum sexto sentido do perigo, desenvolvido ao longo dos anos, que enviou um aviso ao seu cérebro de que alguma coisa estava errada. Ele ergueu-se sobre um cotovelo e viu os dois homens lutando, mesmo distantes do círculo de luz que a fogueira produzia. Ele tentou levantar, percebeu que estava muito fraco e havia usado toda a sua força para enviar uma mensagem para o seu aprendiz. Em seguida, caiu para trás derrotado pelo esforço.
Mesmo exausto, esgotado e mergulhado em um sono muito profundo, o treinamento de Will veio à tona. O chamado penetrou através da névoa do seu sono e, antes que ele estivesse completamente desperto, rolou para fora dos cobertores, saltando sobre seus pés, deslizando sua longa faca de caça de dentro da bainha para seu lado.
Ele também viu as figuras no chão e foi na direção deles. Mas agora Bacari já havia largado o cordão e empurrado o corpo mole de Horace para o lado, abaixado e arrancado o punhal da bainha de Horace.
Com a adaga em sua mão num nível mais baixo, tomou a postura clássica de combate com facas e se virou para Will. Ele avaliou a situação rapidamente. Malcolm não oferecia perigo. Até agora o curandeiro nem sequer havia se mexido. Horace estava morto ou inconsciente, Bacari não tinha certeza. Mas de qualquer forma, ele não atrapalharia nessa luta.
Will estava só, encarando-o com a enorme faca que segurava ao seu lado, enquanto Bacari estava armado com a adaga de lâmina larga de Horace. O genovês sorriu. Ele era um especialista em lutas com faca. A arma de Will podia ser um pouco maior, mas o genovês notou que pela posição que o arqueiro assumiu, não era um especialista na luta com facas e suas habilidades não seriam páreo para as rápidas estocadas, empurrões e golpes reversos que ele podia fazer – técnicas que havia praticado por anos e aperfeiçoado em Taglia Gola, cidade abarrotada de genoveses.
Ele deu um passo à frente, observando os olhos do arqueiro. Havia uma luz de incerteza neles. Despertado de repente do sono, Will ainda estava um pouco confuso e despreparado para o combate. Seu sistema nervoso deveria estar inundado com adrenalina e o pulso acelerado. Foi por isso que Bacari havia esperado para atacar Horace, respirado profundamente várias vezes antes de dar o primeiro movimento. Ele queria ter certeza de que estaria pronto. Que seus nervos estavam calmos e suas reações rápidas e afiadas.
Will, por sua vez, recuou. Ele viu a confiança nos olhos de Bacari e percebeu que estava diante de um especialista. O assassino tinha treinado e praticado com punhais por anos, assim como Will havia treinado com o arco. Ele conhecia suas limitações neste tipo de luta.
O pensamento dele ficou inacabado quando de repente Bacari deslizou para frente com uma velocidade surpreendente. Ele fintou com um golpe alto da adaga e quando Will foi aparar o golpe, ele jogou a faca para a outra mão e cortou por baixo abrindo um rasgo no casaco de Will, pegando de raspão em sua pele, enquanto ele, desesperadamente, saía do alcance do assassino.
Will sentiu o sangue quente escorrendo na altura de suas costelas. Sua reação e velocidade o salvaram a tempo. Passou muito perto.
Aquele golpe trocando a faca de mão quase o pegou. Bacari foi incrivelmente rápido. Era como tentar desviar de uma cobra muito rápida com a sua faca – uma cobra que podia mudar de rumo num piscar de olhos.
Ele poderia tentar um arremesso, é claro. Mas tinha visto a velocidade do genovês e sabia que ele provavelmente seria capaz de evitar uma faca lançada.
Bacari deslizou para frente novamente, desta vez cortando com a faca na mão esquerda e outra vez Will foi obrigado a pular em volta para evitá-lo. O movimento deu tempo para Bacari voltar sua faca para mão direita e atacar mais uma vez, fintando para o lado e em seguida aplicando uma desconcertante série de cortes altos e baixos, muito rápidos e perfeitamente controlados, de um modo que ele nunca ficava exposto a um contra ataque de Will.
Will se lembrou da última vez que tinha enfrentado esse homem, sobre o gramado, sabendo que não podia se dar ao luxo de matá-lo. Então, quando esse pensamento chegou, um sentido estranho de resolução seguiu-o.
Bacari estava atrás dele agora, bem posicionado sobre seus pés, preparado e pronto para atacar novamente. Ele começou uma sucessão estonteante de movimentos, alternando a faca de um lado para outro, jogando e pegando como um malabarista, forçando a atenção de Will mudar constantemente da esquerda para a direita, distraindo-o a partir do momento em que viria o ataque final.
Will mudou sua faca para a mão esquerda. No momento em que fez isso, Bacari jogou o punhal de volta à sua direita. E riu.
― Você não é muito bom nisso — disse ele.
― Eu costumava assistir um homem... — Will começou e, em seguida, sem aviso ou hesitação em seu discurso, ele jogou a faca girando-a na direção do genovês.
Era um velho truque que Halt havia lhe ensinado anos atrás. Quando você estiver encurralado, a distração e o engano são seus melhores amigos. Comece a falar. Diga qualquer coisa. Seu oponente irá esperar que você termine sua declaração, mas aja antes de terminá-la. As possibilidades são de que você o pegue desprevenido.
Mas Bacari sabia desse truque também. Ele mesmo já tinha usado muitas vezes. Nesse momento ele simplesmente deu um passo para um lado e a grande faca de caça passou rodando por ele. Ele riu.
Ainda estava rindo quando a faca de arremesso de Will, que foi lançada logo após a faca de caça, se enterrou em seu coração. Ele olhou para baixo e por uma fração de segundos viu a faca em seu peito, depois sua vista escureceu e desabou sobre suas pernas.
― Eu não preciso mais que você viva — Will disse friamente.

4 comentários:

  1. Poooooooooooooooooooooooooota que pariu, Will.Você é demais mesmo

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  2. Vou me casar com o Will agora! Que massa!
    Ass: Bina.

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  3. Eu já sou casada com Will... Ele apenas não sabe disso.
    Ass: Lua

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Boa leitura :)