18 de dezembro de 2016

Capítulo 40

— Eles vão matá-los... todos eles? — Will perguntou incrédulo.
Ele e Umar estavam de volta ao acampamento bedullin em um cânion escondido ao norte de Maashava.
Sharik, o espião bedullin que passou o dia no interior dos muros de Maashava, balançou a cabeça em confirmação.
— Essa é a palavra entre todos os tualaghi que vi. Estão anunciando para o povo. Fazendo uma coisa muito grande disso, aparentemente.
Omar franziu os lábios, pensativo.
— É o que se esperaria de Yusal — disse ele.
Will virou o olhar horrorizado para o aseikh.
— Mas você disse que ele preferia ter um lucro com eles! — ele disse e Umar encolheu os ombros.
— Normalmente, sim. Mas talvez este homem Toshak tenha lhe oferecido algo em troca.
Sharik também lhes falou sobre a presença de um escandinavo no acampamento tualaghi – um homem que parecia estar em condições de igualdade com Yusal. Will percebeu que deveria ser Toshak. Svengal havia lhes dito semanas atrás, em Araluen que Erak suspeitava que Toshak estivesse por trás da traição. Umar continuou.
— E Yusal se beneficia de toda a oportunidade para mostrar como ele pode ser impiedoso. Isso ajuda a manter suas vítimas moderadas. A múltipla execução aqui será lembrada por anos. A palavra vai se espalhar e tornará sua tarefa mais fácil da próxima vez que ele controlar uma aldeia.
Will estava pensando furiosamente. O que Toshak poderia ter oferecido ao tualaghi para convencê-lo a desistir do dinheiro do resgate? Só podia haver uma resposta lógica, ele percebeu.
— Ele encontrou a ordem de pagamento e selo de Evanlyn — disse ele, quase que para si mesmo.
Umar e Sharik o olharam curiosos.
— A ordem de pagamento? — Umar perguntou e Will explicou rapidamente sobre o pagamento do resgate que eles tinham arranjado para Erak. O líder bedullin assentiu em acordo.
— Poderia ser isso. Um montante como esse seria o suficiente para convencer Yusal.
Will olhou para Sharik novamente.
— Você tem alguma ideia de quando serão as execuções?
— No dia seis — respondeu o espião. — O tempo usual é entre a nona hora e décima, se vai ser uma execução cerimonial.
O dia seis era o sexto dia da semana. Era um dia de folga, anterior ao dia sete, o dia para práticas religiosas. No dia seis, barracas de alimentos e outros produtos eram armadas na praça da cidade e as pessoas relaxavam e se divertiram. Pelo menos, Will pensava, era isso o que faziam quando a cidade não estava invadida por um grupo de incursão nômade.
— Portanto, temos dois dias — disse Will. Então, um pensamento lhe ocorreu. — Será que eles vão cancelar a feira?
Umar sacudiu a cabeça.
— De jeito nenhum. Quanto mais pessoas fora de casa para ver as execuções, melhor para Yusal.
Will massageava o queixo com a mão, seus pensamentos correndo.
— Isso poderia ser bom para nós — falou ele, distraído. — Quanto mais pessoas perto, mais fácil será para infiltrar alguns dos nossos homens.
— Eu disse — Umar interrompeu. — Meus homens serão reconhecidos como estranhos, logo que eles falarem.
— Os seus, talvez — Will respondeu. — Mas você não está esquecendo de que temos 25 soldados arridi com a gente?
Ele viu o entendimento nos olhos de Umar e apressou-se, despejando seus pensamentos enquanto eles se formavam.
— Nós poderíamos fazer pares cada um com um de seus homens. Eles poderiam se misturar com os agricultores trazendo seus produtos para o mercado. Alguns poderiam até ir na noite anterior. Os arridis fazem toda a conversação, assim o povo não reagirá a um sotaque bedullin. Isso nos daria cinquenta  homens dentro da cidade.
— Isso poderia funcionar — Umar concordava. — Bom trabalho, Sharik — disse ele, percebendo que o espião estava cansado e não havia necessidade de mantê-lo longe de sua cama. — Vá e pegue alguma comida e descanse agora.
Então ele olhou para onde Hassan estava sentado perto, ouvindo atentamente a discussão.
— Vá, e encontre o tenente arridi — ele ordenou. — Traga-o aqui.


Quando a ideia foi explicada a Aloom, ele concordou entusiasmado. O tenente tinha prometido a Selethen que ele e seus homens poderiam sobreviver no deserto, e vir atrás dele para salvá-lo. Agora, eles tinham essa oportunidade e ele aceitou imediatamente.
Ele também fazia questão de se encontrar com Yusal novamente – desta vez com uma arma na mão. Mas havia um detalhe que Will e Umar tinham esquecido. Ele apontou para kheffiyeh de Umar.
— Você precisa mudar isso — disse ele. — Seus homens usam kheffiyehs xadrez de amarelo e branco. As pessoas de Maashava vestem branco liso.
Era um bom ponto. Todos os bedullin estavam acostumados com suas kheffiyehs que era fácil negligenciar isso. Umar balançou a cabeça várias vezes, reconhecendo o fato.
— Nós vamos fazer brancos — falou. — Nós podemos usar as capas dos homens que não vão entrar na cidade. Tem bastante pano branco lá.
— Eu acho que você deveria ir na noite anterior — Will disse a Aloom. — Eu vou com você. Preciso olhar a cidade e encontrar um bom lugar para atirar. Se alguém nos questionar, lhes diga para calar a boca.
— Você também pode sugerir que eles podem sentir-se livres para dar uma mão quando se iniciar o combate — Umar disse secamente e Aloom balançou a cabeça em resposta.
— Duvidoso — disse ele. — A população não vai levantar um dedo para defender-se. E oficiais do governo não são populares em cidades como esta. As probabilidades são de que eles estejam ansiosos para a execução.
— Onde você quer que eu vá? — Umar perguntou.
Ele tinha inconscientemente transferido para Will a autoridade nesse assunto. Umar era um guerreiro cuja habilidade consistia em ataques velozes de cavalaria em campo aberto. O negócio de planejar em um campo fechado, o engajamento de rua em rua em uma cidade era novo para ele e ele sentiu que o jovem estrangeiro sabia o que estava falando.
— Você vai levar o resto da força para a cidade quando nós lhe dermos o sinal.
Will rapidamente desenhou um mapa grosseiro no chão com a ponta de sua faca de caça.
— Há uma pequena ravina para o lado norte da cidade que vimos esta manhã.
Ele olhou para Umar e o aseikh assentiu. Ele lembrou-se do local.
— Nós vamos colocar os seus homens ali na noite anterior. Está a apenas setenta metros ou mais da cidade. Nós vamos esperar até que eles trazerem Halt e os outros para fora... — ele fez uma pausa e olhou para Aloom por um conselho. — Como é que eles normalmente fazem isso? Todos juntos ou um de cada vez?
— Todos juntos — disse ele Aloom. — Eles vão levá-los um pouco antes da nona hora.
— A propósito — Will disse, com uma sensação de curiosidade mórbida — como eles planejam executá-los? Será que eles vão ser enforcados?
Umar sacudiu a cabeça.
— Não é o costume aqui. Usamos a espada. Yusal os decapitará.
Um pavor doente agarrou no estômago quando o aseikh falou as palavras. Ele teve uma imagem horrível de Halt, Horace e Evanlyn ajoelhando-se diante da espada do carrasco.
Evanlyn! Seu estômago agitou com o pensamento disso. Sua respiração tornou-se mais rápido e ele fechou os olhos, tentando apagar o horror. E se eu falhar? Ele ouviu a pergunta ecoando em sua mente. E se eu falhar?
Ele sentiu um aperto firme em sua mão e abriu os olhos. Umar tinha se inclinou para mais perto dele e colocou a mão sobre Will.
— Nós não vamos deixar que isso aconteça — disse ele.
Havia uma convicção em sua voz que diminuiu o pânico súbito, horrorizado que tinha agarrado Will. Sua respiração desacelerou e ele se firmou, acenando em sinal de gratidão ao guerreiro do deserto.
Umar viu a confiança regressar aos olhos do rapaz mais uma vez e tirou sua mão.
— Você tem alguma ideia sobre onde vai se posicionar? — Umar perguntou.
Will assentiu com a cabeça.
— Estou pensando em uma das torres de vigia ao longo da muralha norte.
Ele precisaria de uma posição com uma boa vista da Praça do Mercado, onde as execuções aconteceriam. E ele precisaria de uma posição elevada a fim de que tivesse um tiro claro. Yusal provavelmente concentraria os seus homens nas imediações do local da execução para evitar qualquer problema. Ele não estaria esperando nada vindo a uma centena de metros de distância.
— Boa ideia — Umar concordou.
Ele e Aloom consideravam o jovem com interesse. Umar tinha visto a precisão do tiro de Will. Aloom tinha visto Halt e a habilidade de Gilan. “Se o jovem arqueiro tiver metade da perícia de seus companheiros, isso faria uma manhã interessante”, ele pensou.
— Você planeja atirar em Yusal então? — Aloom perguntou.
Ele estava de fato esperando que pudesse ter a oportunidade de lidar com o líder tualaghi, mas percebeu que não ficaria muito desapontado se Yusal acabasse do lado errado de uma flecha. Will mordeu o lábio inferior, pensativo, olhando para o plano da cidade que ele havia esboçado na areia.
— Provavelmente — disse ele. — Minha primeira prioridade será o carrasco. Ele não ficará de maneira nenhuma perto de meus amigos. Eu quero os nossos cinquenta homens, que se misturaram com a multidão, tão perto do local de execução quanto possível. Assim que o carrasco cair, eles podem manter os tualaghi ocupados até que Umar e seus homens cheguem. Eu vou manter Halt e os outros cobertos no caso de alguém decidir tentar a sua sorte como um carrasco. Se Yusal ainda estiver ao redor, eu poderia providenciar para estragar seu dia.
— Eu preciso de um sinal para saber quando for para atacar — Umar apontou.
— Um dos meus homens é o corneteiro do grupo — Aloom respondeu. — Assim que ele vir Will atirar no carrasco, ele pode soar o sinal.
— Isso deve servir — disse Will. — Mas vamos facilitar as coisas. Mantenha o olhar na torre. Depois que você me ver subindo a ela, comece a mover seus homens para fora do cânion. Ninguém vai prestar atenção nessa direção. Eles estarão acompanhando o processo na praça do mercado.
— Certo.
Os três homens perceberam que estavam olhando para o mapa áspero na areia, enquanto suas mentes procuravam mais detalhes. Era um plano relativamente simples, Will pensou, e isso era uma coisa boa. Planos simples tinham menos probabilidade de dar errado.
Umar olhou para cima e estudou o rosto do rapaz.
— Se você estará indo na véspera, talvez seja necessário escurecer um pouco o seu rosto — disse ele.
Ele pegou o rosto de Will entre o indicador e o polegar e virou-o de lado a lado, estudando-o sob o luar. Will estava bronzeado depois de seu tempo em Arrida, mas sua pele estava longe de ser tão escura quanto o normal dos bedullins. Seus cabelos e olhos castanhos escuros passariam, mas não sua aparência.
— Talvez nós possamos usar uma pequena dose de kafay para escurecer a pele — disse ele pensativo, e depois acrescentou com um sorriso: — É uma pena que seu nariz não seja grande.
Will sorriu, lembrando o seu insulto involuntário quando recuperou a consciência no deserto ao encontrar Umar dobrados sobre ele. Em seguida, o aseikh virou-se para Aloom.
— É melhor instruir seus homens, capitão. Vou escolher 25 dos meus melhores guerreiros para ir com eles. Eles podem formar os pares e se conhecer melhor amanhã.
Aloom começou a levantar, depois hesitou.
— Capitão? — disse ele. — Eu sou um tenente.
Umar sacudiu a cabeça.
— Eu acabei de promovê-lo. Talvez você tenha que se impor sobre os habitantes. E ninguém nunca ouve um tenente.
Aloom se permitiu um sorriso para isso.
— Isso é verdade — disse ele com tristeza. — Muita verdade.

4 comentários:

  1. Já pensou se Duncan descobre que Cassandra morre(se ela morresse)...

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  2. Vira essa boca pra lá!
    Ass: Bina.

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  3. Mais 10 capitulos enrolando sobre o resgate. Haja paciencia.
    -Sinead

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  4. Plano simples. O que daria errado? Algo sempre pode dar errado, é a sorte desses personagens, ou a criatividade do autor.

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Boa leitura :)