9 de dezembro de 2016

Capítulo 4

Quando Dan viu a próxima luz do dia, ele ainda estava preso ao assento do jatinho do Pierce. Algo parecia diferente, entretanto...
Não havia nenhum movimento de avião. Eles estavam no chão.
Ele ainda estava zonzo por causa do clorofórmio. Eles já estariam no Camboja? Certamente ele não teria apagado por tanto tempo.
Duas figuras entraram gradualmente em foco – Cara e Galt.
— Ele está acordado — notou Galt. — Vamos continuar o interrogatório. — Ele soou ansioso.
Cara entrou no corredor na frente dele.
— Eu vou apertar as cordas para que ele não possa fugir.
Seu irmão bufou.
— Esse fracote não conseguiria rasgar um saco de papel molhado.
Dan engoliu uma resposta. A última coisa que ele queria fazer era dar a Galt qualquer motivação adicional. O garoto já estava batendo seu punho na palma da mão. Seus nós dos dedos pareciam enormes.
Cara começou a trabalhar na corda ao redor do pulso esquerdo de Dan.
— Você quer ter que dizer ao papai que nós o perdemos? Nós não estamos no ar, Galt. Se ele se soltar, ele poderia fugir...
Desnorteado, Dan se encostou mais uma vez e aceitou a situação. Enquanto Cara Pierce continuava falando para seu irmão sobre a importância de reforçar as cordas, ela estava na verdade afrouxando-as! Na verdade, as cordas estavam tão frouxas, que ele tinha certeza de que poderia escapar deles a qualquer momento que quisesse.
— ... tudo o que ele tem a fazer é abrir a porta principal. E quão difícil é isso? Você remove o painel, puxa a alavanca para baixo...
Dan estava atordoado. Ele estava entendendo corretamente? A própria filha de Pierce estava fornecendo instruções detalhadas sobre como ele poderia fugir. Ou ela era completamente estúpida, ou queria que ele escapasse!
Ele decidiu dar uma chance. Seus lábios formaram a palavra: Quando?
Sua resposta foi quase um sussurro:
— Você saberá.
O copiloto apareceu na escotilha da cabine do piloto. 
— Estamos completamente reabastecidos e prontos para a decolagem. Preciso que todos vão para os seus assentos.
Galt fez uma careta para Dan.
— Você se livrou dessa, Cahill, mas não por muito tempo. Assim que estivermos no ar, eu voltarei para terminar a nossa conversa.
Enquanto os irmãos Pierce prendiam os cintos nos assentos privados na frente, Dan se esforçou para ver por cima do ombro. Os três capangas se sentaram em volta de uma pequena mesa na parte traseira da cabine, mordiscando sanduíches e jogando cartas. Se isso não era você saberá, então você saberá nunca chegaria.
O caminhão de combustível recuou e o jato começou a taxiar até a pista. Dan contorceu seus braços até libertá-los e planejou um curso mental para a porta da aeronave. Ficava entre a cabine – não muito longe de Galt, mas atrás dele. E ele e sua irmã estavam olhando para frente para a decolagem.
O jato executou uma pequena volta e começou a deslizar para frente, ganhando velocidade. Era agora ou nunca. 
  Dan saltou sobre uma fila de assentos e alcançou a porta em um único pulo para o outro lado do corredor. As “instruções” de Cara não o desapontaram – o painel, a alavanca...
Quando o painel de plástico atingiu o convés, um alto “Ei!” soou atrás dele. Dan não ficou por ali para descobrir qual dos três capangas o tinha notado. Ele empurrou com toda a sua força. Uma campainha de alarme soou na cabine.
Quando a escotilha se abriu, uma rajada de ar pesado do tropical quase atirou Dan para o outro lado do corredor. Ele inclinou seu ombro para o vendaval e basicamente se jogou para o lado de fora.  Quando seu corpo tombou para fora do jato em movimento, ele saltou pela mini-escada formada pela porta.
Ele atingiu o asfalto duro e começou a rolar em um esforço para se afastar da aeronave. Saltou de pé e começou a correr mancando em direção ao grande complexo do hangar a cerca de duzentos metros de distância.
Certamente haveria pessoas lá – o pessoal do aeroporto e os seguranças, que não o deixariam ser sequestrados ou pior.
Foi quando ele viu o outro avião.
Estava vindo direto para ele, o trem de pouso baixado, prestes a pousar na pista que o jato Pierce tinha acabado de atravessar. O nariz estava tão perto que ele podia ver o rosto horrorizado do piloto atrás do vidro da cabine.
Não havia nada que Dan podia fazer além de se achatar no chão, abraçar o asfalto, e rezar. O Gulfstream rugiu, seus pneus pesados passando apenas alguns centímetros acima de seu corpo de bruços. Ele sentiu a corrente de ar quente dos motores, acompanhado por uma sucção esmagadora. Então ele estava voando, arrancado de seu lugar no pavimento como um pequeno inseto puxado pela força de um aspirador de pó.
Horrorizado, ele viu a pista de pouso se afastar enquanto ele era atraído cada vez mais alto em um cabo-de-guerra entre o poder do jato e a gravidade.
Bam! Ele bateu contra a pista de pouso com tanta violência que tudo ficou escuro e Dan teve certeza de que estava morto.
O derrapar de borracha no asfalto o trouxe de volta à consciência, e sua visão retornou ao ver as grandes rodas pousando um pouco além dele.
Mente e corpo entorpecidos, agindo por apenas instinto, ele se arrastou para ficar em pé e correu para a cobertura do hangar.

* * *

Longe na pista, o avião de Pierce abortou a decolagem e diminuiu até parar.
O copiloto irrompeu na cabine. 
— Quem abriu essa escotilha? — ele puxou a escada para cima, ativou o sistema hidráulico auxiliar e fechou a porta.
— Não! — rugiu Galt. — Nós temos que pegar aquele garoto Cahill!
— Esqueça! — Cara exclamou. — Pessoas demais viram o que aconteceu. A equipe do aeroporto inteira e seja lá quem esteja no outro avião.
— Pessoas podem ser mantidas em silêncio — Galt cuspiu.
— Você quer correr esse risco? — sua irmã desafiou, deliberadamente enrolando para que Dan pudesse fugir. — Nosso pai está a menos de uma semana de anunciar sua candidatura à presidência. Se nós criarmos um escândalo aqui, isso poderia arruinar tudo.
— Aquele garoto à solta é um risco maior! — Galt atirou de volta em seu rosto. — Eu sou o único que entende o plano do papai! É em mim quem ele confia mais!
— Você está operando com base em informações antigas, irmãozinho — Cara indicou os três capangas. — Basta perguntar a quem eles seguem ordens.
Os contratados olharam de um Pierce para o outro, sem saber qual deveria ser o seu próximo passo.

* * *

Dan correu e não olhou para trás, sabendo que até um segundo de hesitação poderia significar a diferença entre escapar e ser recapturado pelos Pierce.
Ele deixou a pista, lutando através da grama alta. Seu corpo doía – ele provavelmente estava roxo e vermelho de sua partida repentina de uma aeronave em movimento. E seu rosto latejava por causa do asfalto. Não como a agonia de uma queimadura, apenas estava...  quente. Ele tivera sorte – mas apenas considerando o quão perto ele estivera de ser esmagado como um inseto por um avião pousando.
Com os joelhos se movendo para manter a velocidade, ele foi para o vasto hangar que apareceu à frente.


Dan era suficientemente fã da 2ª Guerra Mundial para reconhecer esse nome. Midway era um pequeno atol mais ou menos no meio do Oceano Pacífico.
Era o local de uma das batalhas mais famosas da guerra. NAF era a abreviação de Naval Air Facility – Facilidade Aeronaval. Isso explicava porque um aeroporto enorme parecia tão deprimente e vazio. Uma vez um local de grande importância estratégica, era agora uma pequena estação de reabastecimento de que a maioria dos jatos modernos não precisava. Os dois aviões que quase o mataram eram provavelmente o maior tráfego que este lugar vira em décadas.
De volta no pavimento, Dan correu para a construção, procurando um lugar para entrar. As portas do hangar estavam fechadas, porém havia janelas sem vidro em quantidade suficiente para que ele fosse capaz se espremer através de uma das mais baixas.
Lá dentro estava escuro, empoeirado e opressivamente quente. O espaço era cavernoso e vazio, não exatamente o ideal para bons esconderijos. A única cobertura era uma área no canto de mesas e estantes que poderiam ter sido parte de uma oficina mecânica. Ele foi até lá, pegando um pé de cabra para usar como arma se acontecesse o pior. Galt e os capangas poderiam estar tomando o soro como Gatorade, mas nem isso poderia fazer um cara forte o suficiente para aguentar um pé de cabra na cabeça. Quanto a Cara... pensar nela fez Dan pausar. Ela tinha claramente ajudado-o fugir, mas ninguém poderia ter certeza de qual era o seu verdadeiro motivo.  Até Dan saber com certeza, Cara ainda era a inimiga.
Ele se escondeu atrás da prateleira mais alta, empunhando a ferramenta de ferro como um taco de beisebol.
Ali, ele se agachou, pronto para a ação, ouvindo os passos de um inimigo que se aproximava. O único som além de sua própria respiração irregular era o gorjeio e zumbido dos insetos tropicais. Era algo que ele tinha aprendido há muito tempo durante a busca pelas 39 pistas – não importava aonde você estivesse, você nunca estava muito longe de algo nojento que queria te morder.
Lá fora, ele ouviu um avião decolar, mas apenas um. Não havia como saber se era o jato de Pierce ou aquele que quase o atropelara.
Então ele ouviu os passos. Tentou espreitar pelo canto e acidentalmente derrubou algumas esferas de rolamento de uma prateleira. O barulho do metal contra o concreto parecia soar incrivelmente alto no silêncio.
O intruso chegou mais perto, indo direto para seu esconderijo. Bom, tudo bem, se tivesse que ser uma luta, que assim fosse. Ele ergueu o pé de cabra e viu a sombra de uma cabeça entrar no seu campo de visão. Dan já podia distinguir uma camiseta branca do outro lado da estante.
Apenas mais alguns segundos...
Apostando no elemento surpresa, ele saltou para fora e, como todo bom fã do Red Sox, balançou o pé de cabra como faria para o Green Monster no Fenway Park. Tarde demais para se impedir, ele reconheceu o alvo da sua jogada de home run.
Amy!
A mão dela disparou para frente na velocidade da luz, pegou a barra de ferro, e a tirou de seu aperto como se fosse um canudo.
Ele jogou os braços ao redor dela.
— Eu não queria te acertar! Quero dizer... Eu queria te acertar, mas eu não sabia que era você!
Amy o abraçou de volta. 
— O importante é que temos você de volta.
— Minhas costelas! — ele murmurou, e ela afrouxou seu aperto. — Você está ficando loucamente forte, Amy.
A euforia do reencontro deles desapareceu quando ambos se lembraram do motivo de sua força recém-descoberta. Nesses dias, a felicidade nunca poderia ser mais do que uma impressão fugaz antes da fria realidade retornar.
Amy tentou colocar uma expressão de coragem.
— O soro é incrível. Se não fosse pela parte onde você cai morto.
Emoções conflitantes surgiram através dele: medo pela vida de sua irmã, mortificação por quase ter quebrado a cabeça dela, alívio por ter sido resgatado, alegria em ver Amy. Dan tinha resolvido ir embora dessa loucura Cahill assim que o caso Pierce tivesse acabado, mas esse cálculo nunca funcionou bem quanto à preocupação de sua irmã. Desde a morte de seus pais, o vínculo entre os dois órfãos era quase assustador. Às vezes parecia que eles podiam ler a mente um do outro.
— Como você me achou?
— Nós estávamos seguindo o avião de Pierce. Então quando nosso piloto falou que tinha algum idiota na pista, percebi que provavelmente era você.
Ela o abraçou de volta, engasgando com emoção.
— Como você escapou?
— Essa é a parte estranha. Cara Pierce me salvou. Pelo menos, ela soltou meus braços e falou muito obviamente o que eu tinha que fazer para sair do avião. Você acha que ela quer mudar de lado?
Amy olhou para ele.
— A filha do Pierce? Ela nunca mudaria de lado! Ela nasceu do lado errado.
— Eu sei de tudo isso, Amy — Dan retrucou. — Eu também sei o que vi.
— Ela teria que se voltar contra sua família e contra tudo o que foi ensinada a acreditar desde o dia em que nasceu — Amy insistiu. — Essa não é a Cara Pierce que esteve lutando contra a gente com unhas e dentes desde que tudo isso começou. O que mais aconteceu naquele avião?
Dan abaixou a cabeça.
— Eu estraguei tudo. Galt injetou a droga da verdade em mim e eu cantei como a Lady Gaga. Eu desapontei a todos.
— Você não...
Ele não conseguia encontrar seus olhos.
— Pony sacrificou sua vida por nós, e eu não pude nem manter minha boca grande fechada.
— Você foi drogado — Amy disse com firmeza. — Além disso, não disse a eles nada que Pierce já não soubesse. Ele está com o livro de Olivia e mais do que capacidade intelectual suficiente para decodificá-lo. E se não conseguir descobrir alguma coisa, ele tem a maior hacker do mundo em sua folha de pagamento.
— April May. Eu quase me esqueci dela, ou dele. — A gênia de computador notória representava a si mesma como mulher, mas identidades on-line poderiam ser facilmente fabricadas. — Amy, às vezes eu penso no que estamos enfrentando, e não é justo! Quero dizer, nós poderíamos ter tido alguém para se equiparar a April May quando ainda tínhamos Pony, mas... — as palavras ficaram presas em sua garganta e ele não conseguia dizer mais nada.
— Eu sinto falta dele também — Amy sussurrou, apertando o braço dele. — Agora vamos voltar ao avião. Atticus não parou de tagarelar desde que você foi sequestrado. Ele está realmente assustado.
— Nós todos estamos — Dan disse a ela significativamente. — E com razão.
— Eu não estou mais com medo — sua irmã falou honestamente. — Talvez seja só o soro falando, essa coisa é horrível, mas ele definitivamente limpa sua mente. Nós dois estivemos brigando desde que tudo começou, e isso termina aqui. Parar Pierce é importante demais. Quando nós brigamos, nós nos enfraquecemos e fortalecemos o inimigo. — Ela estendeu a mão. — Trégua?
— Trégua — Dan concordou, e eles balançaram as mãos. Ela quase esmagou todos os seus ossos do pulso.

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