29 de dezembro de 2016

Capítulo 3

Não havia nenhum sentimento de arrogância que o levou a recusar a oferta do estalajadeiro. Andar em um lugar como a taverna da gaivota em companhia de dois rapazes fortes, provavelmente de segunda classe, só mostraria aos durões que frequentavam o bar que ele era fraco e medroso e iria ser desprezado. Seria melhor ficar sozinho e confiar em sua própria habilidade e inteligência para ver o que acontece.
A taberna estava pouco cheia quando ele chegou. Ainda era início da noite e a maioria dos clientes ainda estava para chegar. Mas enquanto Will esperava, começou a ficar movimentado. A temperatura subiu com a quantidade cada vez maior de pessoas, que com certeza não tomavam banho há muito tempo. O cheiro de suor azedo e rançoso invadia o ambiente quente e esfumaçado. O nível de ruído aumentou, pois as pessoas levantaram suas vozes para serem ouvidas sobre o clamor crescente.
A situação lhe convinha. Quanto mais pessoas presentes e mais ruidosas fossem, menor a possibilidade que haveria de ser notado. A cada nova pessoa que chegava, ele olhava para o dono da taverna. Mas toda vez o homem de rosto fino apenas balançava a cabeça.
Foi entre onze horas e meia-noite quando a porta foi aberta e três homens volumosos adentraram a taverna, empurrando por entre a multidão até o bar, onde o dono da taverna começou imediatamente a encher três enormes copos de cerveja sem que uma palavra fosse trocada. Quando encheu a segunda caneca, colocou-a sobre o balcão e olhou para baixo como que fazendo uma pausa, e nesse momento puxou ferozmente sua orelha três vezes. Então ele continuou enchendo a última caneca.
Mesmo sem o sinal, Will saberia que este era o homem que ele procurava. Havia uma grande marca preta de queimadura na parte lateral do rosto, estendendo-se desde logo abaixo do olho esquerdo até o queixo. Ele esperou enquanto O’Malley e seus dois companheiros pegaram seus copos e foram em direção a uma mesa próxima ao fogo de turfa. Havia dois homens que já estavam sentados lá e eles olhavam ansiosamente enquanto o contrabandista chegava.
— Ah, chegou, O’Malley — um deles começou em um tom de lamentação. — Estamos sentados aqui só por...
― Fora.
O’Malley fez um gesto com o polegar e os dois homens sem maior objeção, pegaram suas bebidas e levantaram, deixando a mesa para os três contrabandistas. Eles se instalaram em seus assentos, olharam ao redor da sala e deram saudações para vários conhecidos.
As reações aos recém-chegados, Will observou, foram mais cautelosas do que amigáveis. O’Malley parecia incutir medo nos outros fregueses.
O olhar de O’Malley tocou brevemente a figura encapuzada, sentada sozinha em um canto. Ele estudou Will durante vários segundos, então deixou de lado. Avançou sua cadeira para frente e ele e seus companheiros se inclinaram sobre a mesa, falando em voz baixa com as cabeças próximas.
Will levantou-se de seu assento e moveu-se na direção deles. Passando pelo bar, ele permitiu que sua mão trilhasse ao longo da superfície, deixando a moeda de ouro cortada ao meio para trás. O taverneiro correu para pegá-la. Ele não fez nenhum sinal de reconhecimento ou agradecimento, mas nenhum deles esperava por isso. O taberneiro não estava ansioso para que ninguém soubesse que ele tinha identificado O’Malley a este estranho.
O’Malley tornou-se consciente da presença de Will quando ele se aproximou da mesa. O traficante havia estado murmurando algo em tom baixo a seus dois companheiros e parou no momento, os olhos girando para o lado, considerando o corpo esguio de pé a menos de um metro de distância. Houve uma longa pausa.
― Capitão O’Malley? — Will finalmente perguntou.
O homem era de musculoso, embora não excessivamente alto. Ele deveria ser alguns centímetros mais alto que Will,entretanto, a maioria das pessoas era. Seus ombros eram bem musculosos e suas mãos calejadas. Esses sinais mostravam uma vida de trabalho árduo, transportando e puxando cordas para levar cargas a bordo, cuidando do leme de algum barco em vendavais. Sua barriga dava sinais de uma vida de bebedeiras. Ele estava com sobrepeso, mas ainda era um homem poderoso e um adversário a ser respeitado. Seus cabelos negros caíam em cachos irregulares em seu pescoço e ele tinha deixado crescer a barba, possivelmente em uma tentativa frustrada de disfarçar a marca desfigurante na face esquerda. Seu nariz tinha sido quebrado tantas vezes que agora não possuía forma definida. Era um pedaço de cartilagem e ossos esmagados. Will imaginava que O’Malley tinha dificuldade para respirar através daquele nariz.
Seus dois companheiros eram espécimes menos interessantes. Barriga grande, ombros largos e compleição forte, eles eram maiores e mais altos do que o seu líder. Mas O’Malley tinha o ar inconfundível de autoridade sobre eles.
― Capitão O’Malley? — Will repetiu.
Ele sorriu com facilidade. O’Malley franziu a testa em troca.
— Eu acho que não — disse brevemente e se voltou para seus dois companheiros.
— Eu acho que sim — Will disse ainda sorrindo.
O’Malley sentou para trás, olhou em volta por um segundo ou dois, então virou-se para encarar Will com um olhar ameaçador. Havia um brilho perigoso ali.
― Filho — disse sem esforço e com um tom desdenhoso e insultuoso ― por que você não corre agora?
A sala ao redor deles havia ficado silenciosa quando os fregueses se viraram para assistir a este confronto inusitado. O estranho jovem estava armado com um arco poderoso, todos podiam ver. Mas, no espaço confinado da taverna, não era a arma mais adequada.
— Eu estou à procura de informações — Will disse. — E estou disposto a pagar por elas.
Ele tocou a bolsa em seu cinto e um som leve e musical foi ouvido. Os olhos de
O’Malley se estreitaram. Isso poderia ser interessante.
— Informação, não é? Bem, depois de tudo talvez possamos conversar. Carew! — Ele virou-se para um homem sentado na mesa ao lado. — Dê ao menino aqui seu banco.
O homem chamado Carew não fez nenhuma menção de argumentar quanto ao pedido. Ele rapidamente se levantou e empurrou o banquinho para Will. Seu olhar de ressentimento, ele reservou para o jovem arqueiro. Mas assegurou que O’Malley não o viu fazendo aquilo.
Will acenou com gratidão, recebeu em troca uma carranca, em seguida puxou o banco até a mesa de O’Malley.
— Então, informações não é? — O contrabandista começou. — E o que você poderia estar querendo saber?
— Você transportou um homem chamado Tennyson há poucos dias — Will disse. — Ele e cerca de vinte dos seus seguidores.
— Eu transportei?
As sobrancelhas desgrenhadas de O’Malley se reuniram em uma carranca escura de raiva.
— Você já parece ter um monte de informações, não é? E quem lhe disse isso?
— Ninguém nesta sala — Will disse.
Então, antes de O’Malley continuar o interrompendo, falou rapidamente:
— Eu preciso saber onde você o levou.
As sobrancelhas do contrabandista subiram novamente, mas agora em uma simulada surpresa.
― Oh, você precisa saber não é? E se eu não precisar te dizer? Supondo que eu levei essas pessoas a algum lugar. O que eu não fiz.
Will deixou escapar um lampejo de desespero, então percebeu que isso foi um erro. Ele recompôs suas feições, mas sabia que O’Malley tinha notado.
— Eu disse, estou disposto a pagar pela informação — falou tentando manter seu nível de voz.
— E você estaria disposto a pagar com outra moeda de ouro, como a que eu vi você deixar para Ryan quando passou pelo bar?
Ele olhou furiosamente para o taberneiro, que até o momento observava com interesse a conversa deles e agora se encolhia um pouco.
— Falaremos mais tarde sobre isso, Ryan — ele adicionou.
Will apertou os lábios surpreso. Ele poderia apostar que a atenção de O’Malley estava direcionada para outro lugar quando tinha colocado a metade da moeda no bar.
— Você não perde nada, não é? — Ele permitiu escapar um tom de admiração. Não haveria nenhum mal em um pouco de bajulação. Mas O’Malley não era uma pessoa tão simples assim.
— Eu não perco nada, rapaz. — Sua raiva era agora direcionada para Will. ― Não tente me amaciar com palavras suaves — disse.
Will mudou de posição em seu banco. Ele estava perdendo o controle da conversa, pensou. Em seguida, teve certeza. Ele nunca teve o controle da conversa. Desde a primeira palavra, O’Malley estava conduzido à conversa. Tudo que Will fez até agora foi reagir a ele. Então tentou novamente.
— Está certo. Mesmo assim eu estaria disposto a pagar com ouro pela informação.
— Eu já fui pago — disse O’Malley.
Pelo menos agora, não havia nenhuma pretensão de que ele não transportara Tennyson e seus seguidores.
— Então você será pago duas vezes. Isso soa como um bom negócio para mim — disse Will sendo razoável.
— Soa, não é? Bem, deixe-me contar um pouco sobre o meu negócio. Para começar, eu ficaria muito feliz em cortar sua garganta por essa bolsa que carrega. E eu não tenho nenhuma simpatia por esse seu tal de Tennyson que você fala. Se eu tivesse a chance, eu o teria matado e jogado para fora do barco e ninguém nunca saberia. Mas os amigos dele de manto de púrpura me observavam como falcões o tempo todo. Digo isso para salientar, que a confiança não significa nada para mim. Nada mesmo.
— Então... — Will começou, mas o traficante o parou com um gesto ríspido.
— Mas aqui está o meu negócio, rapaz. Peguei o dinheiro do homem para tirá-lo de Clonmel. Esse é o tipo de negócio que eu faço. Agora, se eu pegar o seu dinheiro para dizer onde o levei ainda mais na frente de todos por aqui, quanto tempo você acha que o meu negócio vai durar? As pessoas vêm a mim por um motivo. Eu sei como manter minha boca fechada.
Ele fez uma pausa. Will ficou sem jeito. Não havia resposta razoável que ele poderia pensar.
— Eu não acredito em honestidade — O’Malley continuou. — Ou confiança. Ou lealdade. Eu acredito no lucro, isso é tudo. E o lucro significa que sei manter minha boca fechada quando é necessário.
Sem aviso, ele olhou ao redor da taverna. Os olhos que estavam observando a conversa com interesse se viraram rapidamente para longe.
— E todo mundo nesta sala sabe muito bem disso — disse ele erguendo a voz.
Will estendeu as mãos num gesto de derrota. Ele não podia ver nenhuma maneira de inverter esta situação. De repente, se viu desejando que Halt estivesse aqui. Halt saberia o que fazer, ele pensou. E com esse pensamento, se sentiu completamente inadequado para o trabalho.
— Bem, então seguirei meu caminho.
Ele começou a levantar.
— Só um minuto! — A mão de O’Malley bateu em cima da mesa entre eles. ―Você não me pagou.
Will deu um suspiro com um riso incrédulo.
— Pagar você? Você não respondeu minha pergunta.
— Sim, eu respondi. Simplesmente não era a resposta que você estava procurando. Agora me pague.
Will olhou ao redor da sala. Todos os presentes estavam assistindo o embate e a maioria deles estava sorrindo.
O’Malley podia ser temido e indesejado por aqui, mas ele era um estranho e eles estavam felizes em vê-lo subjugado. Ele percebeu que o contrabandista tinha criado este confronto com a finalidade de aumentar a sua própria reputação. Não foi tanto pelo dinheiro que estava interessado, foi apenas para mostrar a toda essa gente quem mandava por aqui. Tentando esconder sua fúria, ele enfiou a mão na bolsa e tirou outra moeda de ouro. Isso estava ficando caro, pensou, e não descobriu nada que valesse o esforço. Ele deslizou a peça sobre a mesa. O’Malley a pegou, testou com os dentes e sorriu maliciosamente.
— É bom fazer negócios com você, garoto. Agora dê o fora daqui.
Will sabia que seu rosto estava queimando em uma fúria reprimida em seu interior. Ele levantou-se abruptamente, derrubando o banquinho atrás de si. De algum lugar da sala, havia uma risada baixa. Então ele se virou e fez seu caminho através da multidão até a porta.
Conforme bateu a porta por detrás dele, O’Malley se inclinou para frente a seus dois discípulos e disse baixinho:
— Dennis, Nialls. Traga-me aquela bolsa.
Os dois brutamontes levantaram e seguiram Will em direção à porta. Com uma ideia astuta do que iam fazer, os clientes da taverna abriram caminho para os dois. Alguns fizeram com certa relutância. Eles mesmos tinham planejado ir atrás do jovem.
Dennis e Nialls saíram para a noite clara e fria, olhando para cima e para baixo pela rua estreita, para ver o caminho que o estranho havia tomado. Eles hesitaram. Havia vários becos que davam naquela rua. O jovem podia estar escondido em um deles.
― Vamos tentar...
Nialls não continuou a falar. O ar entre os dois homens foi dividido por um silvo quando algo passou perto do nariz de Nialls e foi parar no batente da porta. Os dois homens empurraram um ao outro em surpresa, então olharam incrédulos para a flecha cinza enterrada e ainda tremendo na madeira.
De algum lugar acima da rua, uma voz chegou até eles.
— Um passo a mais e a próxima flecha irá para seu coração.
Houve uma ligeira pausa, depois a voz continuou com certo veneno.
— E eu estou com raiva o suficiente para fazê-lo.
— Onde ele está? — Dennis cochichou com o canto da boca.
— Deve estar em um dos becos — Nialls respondeu.
A ameaça da flecha era inconfundível. Mas ambos sabiam do perigo envolvido em voltar de mãos vazias até O’Malley. Sem aviso, houve outro silvo entre eles. Só que desta vez, a mão de Niall voou para o seu ouvido direito, onde a flecha havia a cortado em seu caminho. O sangue quente corria pelo seu rosto. De repente, enfrentar O’Malley parecia ser a melhor alternativa.
— Vamos sair daqui! — ele disse e se acotovelavam para voltar pela porta, batendo-a por trás deles.
De um beco mais acima na rua, uma figura escura surgiu. Will imaginou que teria só alguns minutos antes que alguém saísse. Ele correu rapidamente de volta para a taberna, recuperou suas flechas, em seguida pegou Puxão no estábulo. Pulou sobre a sela e partiu a galope. Os cascos do pequeno cavalo ecoavam nos prédios laterais enquanto tocavam o calçamento da rua.
Ao todo, havia sido um encontro muito insatisfatório.

7 comentários:

  1. Um pequeno erro.
    "O’Nalley(O’Malley) sentou para trás, olhou em volta por um segundo ou dois, então virou-se para encarar Will com um olhar ameaçador. Havia um brilho perigoso ali."

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  2. Pensei que Will iria brigar com O’Malley. O.O

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    1. Eu pensei a mesma coisa kkkkkk

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    2. Will não enfrentou ele porque precisa de informações gente!

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    3. Por isso mesmo pensei nisso , qual é o melhor jeito de tirar informação de um pessoa como o O’Malley?

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    4. É, mas pelo menos um soquinho poderia ter dado hahahahah

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  3. Eu espera uma briguinha para animar o capitulo!
    Ass: Bina.

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Boa leitura :)