18 de dezembro de 2016

Capítulo 3

Halt corria os dedos pelo cabelo desgrenhado conforme estudava a lista de nomes.
— Pela barba de Gorlog! — Ele disse, usando um impropério escandinavo que ele passara a gostar muito. — Quantas pessoas estão aqui?
Lady Pauline o assistia com serenidade.
— Duzentas e três — disse ela calmamente.
Ele olhou para a lista, horrorizado.
— Duzentas e três? — repetiu, e ela concordou.
Ele balançou a cabeça e deixou cair a folha de pergaminho em sua mesa.
— Bem, vamos ter que reduzir esses números — disse ele.
Pauline franziu um pouco a testa de concentração e considerou a declaração.
— Poderíamos nos livrar dos três — disse ela. — Eu não tenho certeza de que realmente preciso do embaixador ibérico e suas duas filhas idiotas no meu casamento.
Ela pegou uma pena e riscou os últimos três nomes na lista, então olhou para ele e sorriu brilhantemente.
— Pronto. Tudo feito. Não foi fácil?
Halt balançou a cabeça distraidamente, pegando a lista novamente lendo-a.
— Mas... duzentas pessoas? Será que realmente precisamos de duzentas pessoas para nos casar?
— Não são elas que vão nos casar, querido. Somos nós — disse ela, deliberadamente mal entendendo-o.
Ele fez uma careta para ela. Normalmente, a carranca de Halt era uma coisa assustadora. Mas ela não aterrorizava Lady Pauline. Ela levantou uma sobrancelha para ele e o arqueiro achou melhor mudar sua expressão. Ele voltou à lista, espetando o dedo indicador em uma seção.
— Quero dizer... Suponho que o rei tem que vir — ele começou.
— Claro que tem. Você é um de seus conselheiros mais antigos — ressaltou.
— E Evanlyn... bem, Cassandra. Ela é uma amiga. Mas quem são esses outros? Deve haver quinze pessoas no grupo do Rei!
— Dezessete — Lady Pauline disse. — Afinal, o rei não pode viajar sem a sua comitiva. Ele e Cassandra não podem apenas montar em seus cavalos e chegar no dia dizendo: “Estamos aqui para o casamento. Onde é que vamos sentar?” Há uma certa quantidade de protocolo envolvido.
— Protocolo! — Halt bufou escárnio. — Que monte de lixo!
— Halt — disse a diplomata elegante — quando você me pediu para casar com você, pensou que poderia apenas deslocar-se para uma clareira na mata com alguns amigos próximos e se casar?
Halt hesitou.
— Bem, não... Claro que não.
Por uma questão de fato, isso era exatamente o que ele pensava. Uma cerimônia simples, alguns amigos, boa comida e bebida e, em seguida, ele e Pauline seriam um casal. Mas ele sentiu que não seria sensato admitir isso agora.
O noivado do arqueiro grisalho e da bela Lady Pauline tinha sido a conversa do feudo Redmont por algumas semanas. As pessoas ficaram espantadas e encantadas que esses dois, aparentemente incompatíveis, mas muito respeitados, estavam a tornar-se marido e mulher. Era algo a se perguntar sobre, a fazer fofocas. Pouco, além disso, havia sido discutido no refeitório de Redmont por semana.
Havia aqueles que fingiam não estar surpreendidos. O barão Arald de Redmont era um deles.
— Sempre soube! — ele dizia para quem quisesse ouvir. — Sempre soube que havia alguma coisa acontecendo com esses dois! Vi isso chegando anos atrás! Sabia disso antes deles, provavelmente.
E, de fato, tinha havido rumores ocasionais vagos ao longo dos anos que Halt e Pauline tinham sido algo mais do que amigos no passado. Mas a maioria das pessoas tinha rejeitado essa conversa. E nem Halt nem Pauline nunca disseram nada sobre o assunto. Quando era para manter segredos, poucas pessoas poderiam ser mais inarticuladas que arqueiros e os membros do serviço diplomático.
Mas chegou um dia em que Halt percebeu que o tempo estava passando com velocidade crescente. Will, seu aprendiz, estava em seu último ano de formação. Em poucos meses ele estaria pronto para a formatura e promoção à Folha de Carvalho de Prata – a insígnia de um arqueiro de pleno direito. E isso significava que Will estaria se afastando de Redmont. Ele seria atribuído um feudo e Halt percebeu que seu dia-a-dia, tão cheio de energia e diversão com Will voltaria a ser assustadoramente vazio. Conforme essa realização tinha crescido, tinha inconscientemente, procurado a companhia de Lady Pauline com frequência crescente.
Ela, por sua vez, tinha visto a sua crescente necessidade de companhia e carinho. A vida de um arqueiro tende a ser solitária – e uma vida que se pode discutir com poucas pessoas. Como uma mensageira, a par de muitos dos segredos do feudo e do reino ambos servidos, Pauline era uma dessas poucas pessoas. Halt poderia relaxar na companhia dela. Eles poderiam discutir o trabalho e dar conselhos um ao outro. E havia, de fato, certa história entre eles – um entendimento, alguns poderão chamar-lhe – que voltou para um momento em que ambos eram jovens.
Para dizer claramente, Lady Pauline tinha amado Halt por muitos anos. Silenciosamente e pacientemente, ela havia esperado, sabendo que um dia ele iria propor. Sabendo também que, quando ele fizesse, esse homem extremamente tímido e se aposentando teria visto a perspectiva de um casamento muito público com horror absoluto.
— Quem é essa? — Perguntou ele, vindo com um nome que ele não reconhecia. — Lady Georgina de Sandalhurst? Porque estamos a convidando? Eu não sei quem é ela. Por que nós estamos convidando pessoas que não conhecemos?
— Eu a conheço — Pauline respondeu. Havia algo duro em sua voz que Halt teria feito bem em reconhecer. — Ela é minha tia. Um pouco velha e chata, realmente, mas eu tenho que convidá-la.
— Você nunca a mencionou antes — Halt desafiou.
— Verdade. Eu não gosto muito dela. Como disse, ela é uma velha chata.
— Então por que estamos convidando-a?
— Nós estamos convidando-a — Lady Pauline explicou — porque a tia Georgina passou os últimos vinte anos, lamentando o fato de que eu estava solteira. “Pobre Pauline!” Ela chorava para quem desejasse ouvir. “Ela vai ser uma velha donzela solitária! Casada com o seu trabalho! Nunca vai encontrar um marido para cuidar dela!” É apenas uma oportunidade boa demais para perder.
As sobrancelhas de Halt se juntaram em uma carranca. Pode haver algumas coisas que lhe incomodavam mais do que alguém criticar a mulher que amava, mas para o momento, ele não conseguia pensar em uma.
— Aprovada — disse ele. — E vamos colocá-la com as pessoas mais entediantes possíveis na festa de casamento.
— Bem pensado — Lady Pauline disse. Ela fez uma nota sobre a outra folha de papel. — Eu vou fazer dela a primeira pessoa na “Mesa dos Chatos.”
— Mesa dos Chatos? — Halt disse. — Eu não tenho certeza de que já ouvi esse termo.
— Todo casamento tem que ter uma Mesa dos Chatos — sua noiva explicou pacientemente. — Você pega todos os entediantes, chatos, as pessoas bombásticas e as coloca juntas. Dessa forma, todos suportam um aos outros e não incomodam as pessoas normais que você convidou.
— Não seria mais simples convidar apenas as pessoas que você gosta? — Halt perguntou. — Exceto a tia Georgina, é claro, há uma boa razão para convidá-la. Mas por que convidar outros chatos?
— É uma coisa de família — Lady Pauline disse, adicionando um segundo e um terceiro nome para a Mesa dos Chatos conforme ela pensava neles. — Você tem que convidar a família e cada família tem a sua quota de chatos irritantes. É apenas parte da organização de um casamento.
Halt se deixou cair em uma poltrona, sentado um pouco de lado, com uma perna enganchada por cima do braço.
— Eu pensei que os casamentos deveriam ser motivo de alegria — ele murmurou.
— Eles são. Contanto que você tenha uma Mesa dos Chatos. — Ela sorriu.
Estava prestes a acrescentar que ele tinha sorte de não ter família para convidar, mas verificou a declaração a tempo. Halt não tinha visto nenhum membro da sua família em mais de vinte anos e ela percebeu que, no fundo, o fato o entristeceria.
— A coisa é — ela continuou, desviando o tema das famílias — agora que o rei está envolvido, a coisa toda toma certa formalidade. Há pessoas que devem ser convidadas – nobres, cavaleiros e suas damas, dignitários locais, conselheiros da aldeia e assim por diante. Eles nunca nos perdoarão se lhes tirarmos a chance de esfregar os ombros com a realeza.
— Eu realmente não dou a mínima se eles não me perdoarem — disse ele. — Ao longo dos anos, a maioria deles saíram do caminho para me evitar.
Lady Pauline inclinou-se e tocou-lhe o braço suavemente.
— Halt, vai ser o ponto alto de sua vida para alguns deles. Afinal, nada mais acontece no país. Será que você realmente quer privá-los de um pouco de cor e glamour em sua existência monótona? Eu sei que eu não iria.
Ele suspirou, percebendo que ela estava certa. Também percebeu que ele poderia ter protestado um pouco demais. Estava começando a perceber que a perspectiva de um grande casamento formal pode não ser tão desagradável para Pauline como era para ele.
Ele não conseguia entender o sentimento, mas se era isso que ela queria, era o que ele lhe daria.
— Não. Você está certa, claro.
— Agora — continuou ela, reconhecendo que Halt tinha cedido e grata pelo fato — Você escolheu um padrinho?
— Will, naturalmente — disse ele prontamente.
— Não é Crowley? Ele é seu amigo mais antigo.
Ela estava consciente, mesmo que ele não estivesse, que a atribuição de papéis oficiais era uma questão perigosa.
Halt franziu a testa.
— Verdade. Mas Will é especial. Ele é mais como um filho para mim, afinal.
— Claro. Mas vamos ter de encontrar um papel para Crowley.
— Ele poderia levar a noiva — Halt sugeriu.
Pauline considerou, mastigando o fim de sua pena.
— Eu penso que o Barão Arald assume que ele vai fazer isso. Hmmm... Complicado.
Ela pensou por alguns instantes, em seguida, chegou a uma decisão.
— Crowley pode levar-me e Arald pode realizar a cerimônia. Está resolvido!
Ela fez mais duas notas em sua lista crescente.
Em Araluen, o casamento era uma cerimônia de Estado, não de religião. Era normal para os oficiais sêniores presentes realizarem o ritual. Halt pigarreou, fazendo um grande esforço para manter a seriedade.
— O protocolo não exige que o rei faça isso? — retrucou, com uma falsa preocupação.
Uma careta transformou as feições elegantes de Pauline quando ela percebeu que ele estava certo. Ele também estava completamente muito satisfeito consigo mesmo. O olhar inocente nos olhos confirmava isso.
— Droga! — disse ela. — Pelos dentes de Gorlog! — ela ajuntou para reforçar e bateu os dedos no topo da mesa em aborrecimento.
— É pela barba — Halt disse suavemente.
— Ele tem os dois, pelo que ouvi — disse ela.
Então uma ideia lhe ocorreu.
— Já sei. Vamos convidar o rei Duncan para ser o promotor-mor do evento. Isso deve resolver!
— O que um promotor-mor faz? — Halt perguntou e ela encolheu os ombros jogando a questão de lado.
— Não tenho certeza. Eu acabei de inventar a posição. Mas Duncan não vai saber. A compreensão dele do protocolo é tão fraca quanto a sua. Vai ser uma espécie de mestre de cerimônias glorificado para a coisa toda. Vai dar um certo... toque real a nossa união. Hmmm, isso é bastante bom — ela murmurou. — Vou escrever isso.
Ela fez isso, fazendo uma nota mental de que teria que dividir o conceito de promotor-mor com o tesoureiro do rei. Mas, lorde Anthony era um velho amigo.
— Agora, quem mais? Nós perdemos alguém?
— Horace? — Halt sugeriu.
Ela concordou imediatamente.
— Vamos fazer dele o indicador de lugares — disse ela, escrevendo furiosamente.
— É alguma outra função que acabou de inventar? — ele perguntou e ela olhou para cima, ofendida.
— Claro que não. É oficial. Você sabe: “amigo da noiva? Amigo do noivo? Sente-se para a esquerda. Sente-se para a direita.” Um indicador de lugares.
Halt franziu a testa.
— Eu continuo achando que está faltando alguém...
Pauline bateu a mão contra a testa.
— Gilan! — disse ela. — Ele vai ficar terrivelmente ferido se não dermos a ele um papel oficial.
Halt bateu os dentes em aborrecimento. Ela estava certa. Gilan era alto, alegre, leal – e o aprendiz anterior de Halt. Eles teriam de encontrar algo para ele.
— Posso ter dois padrinhos? — ele sugeriu.
— Não. Mas você pode ter um amigo do noivo extra. Bom raciocínio! Isso significa que eu vou ter que encontrar uma dama de honra extra. Eu só estava com Alyss.
— Bem — disse Halt, satisfeito de que estava se tornando melhor com a coisa — isso dará a Cassandra alguma coisa para fazer.
Ele ficou surpreso ao ver uma rápida sombra passar pelo rosto de Pauline. Ela tinha uma leve impressão que Alyss, sua assistente, ficaria menos do que excitada para ter a princesa Cassandra na mesa do casamento com ela e Will. Melhor se ela fosse mantida a uma distância para a noite, na mesa real do promotor-mor.
— Não-o-o — disse ela durante um tempo. — Nós não podemos ter isso. Como uma princesa real, ela iria tirar o foco da noiva.
— Bem, nós certamente não podemos ter isso! — Halt concordou.
— Talvez a jovem Jenny, se Chubb puder poupá-la. Afinal, ela, Alyss e Will foram todos criados juntos.
Ela fez outra nota, encontrando uma folha de papel para fazer isso. A lista estava crescendo. Tanta coisa para se organizar. Um pensamento atingiu-a. Sem olhar para cima, ela disse:
— Você vai cortar o cabelo, não vai?
Halt passou a mão pelos cabelos mais uma vez. Estava ficando um pouco longo, pensou.
— Eu vou dar-lhe uma aparada — disse ele, soltando a mão inconscientemente para o cabo da faca de caça.
Desta vez, Pauline olhou por cima de sua escrita.
— Você vai cortar o cabelo — ela disse e Halt percebeu que certas liberdades que ele tinha adquirido ao longo dos anos poderiam não existir mais.
— Eu vou cortar o cabelo — ele concordou.

16 comentários:

  1. AAAAAAAAAAAHAHAHHAHAHHAHAHAHAHAHHAHHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    Isso sim é uma surpresa (sabia que tinha alguma coisa importante nisso).

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  2. Mds kkkkkkkkkk isso com certeza era algo inesperado . Esse autor não pode simplesmente contar a história e depoia voltar 5 anos atrás nela denovo , isso me confunde , qm ele pensa que é ?

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    1. Hã...o autor? Esse tipo de coisa me faz ter vontade de escrever meu próprio livro, só me falta talento.

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  3. Bom, eu acho que ele é o autor e pode fazer tudo. E é incrivel imaginar Halt se casando

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  4. Bom, eu acho que ele é o autor e pode fazer tudo. E é incrivel imaginar Halt se casando

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  5. Só queria que ele fosse mais cauteloso com isso. Halt não pode sair por ai se casando do nada, sim foi do nada, cade a historia deles pra mim poder dar minha benção? >-<
    Nada contra a Pauline ela é um boa personagem u-u, mas a sim uma aversão ao casal!!!
    Não pode, como vou ver isso? ~~ Pra mim ele era o ser da historia que todos amam por ser mais que incrível. Aquele tipo que esperamos que morra solteiro (não é maldade é aquele personagem que você não pensa, mesmo que o ame, se casando aquele tipo que não se shipp.)
    Ainda mais assim se casando do nada!!! \(°^°)/ ???

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  6. Kkkkkkkkkkk. Isso foi inesperado! Eu não sei se riu ou choro! Deussssssss! Tô passada!
    Ass: Bina.

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  7. uma bela surpresa, com certeza....

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  8. Halt? Casando? Yupiii!! u.u Arasou Halt. Ótima escolha... Eu fico imaginando se Will e Alyss chegariam a tanto... Posso sonhar, certo? E Pauline tem toda razão, Lys e Cass na mesma mesa não daria certo. Kkkkk o melhor foi Halt "obedecendi" a Pauline. Haushaushaushaushaushaus esse livro promete!!

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    1. nossa cara a alyss ia ficar morendo de ciume do will kkkkkkkkkkkkkkkkk porque a cass ia ta bem mais top que ela

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  9. AH MEU DEUS, NÃO ESTOU ACREDITANDO. Essa realmente me pegou de surpresa. Já amei os dois juntos ♥♥
    Ass: Lua

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  10. kkkkk to rindo muito do Halt, acho que é a primeira vez que vejo ele ser comandado por alguem kkkkk.
    Ass: Bad

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  11. Eu fico imaginando Will como na capa do arqueiros, com cara redonda de pires de xicara de cha ..! Todo arrumadinho do lado de Alyss, um palmo maior que ele

    kkkkkkkkkk...

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    1. seria melhor cassandra e will <3

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Boa leitura :)