18 de dezembro de 2016

Capítulo 39

A primeira luz do sol batia nas casas pintadas de branco em Maashava quando Will e Umar finalmente chegaram a um local com vista sobre a cidade. Eles haviam subido durante várias horas na escuridão da madrugada, na sequência de estreitas trilhas animais ao lado da cidade, em seguida, voltando, até que surgissem a cinquenta metros acima deles, com uma vista perfeita das idas e vindas do povo.
Agora, eles examinavam a cidade. Um muro baixo cercava três lados. O quarto lado estava protegido por falésias. Havia torres de vigia em intervalos ao longo da muralha, mas não havia nenhum sinal de sentinelas. Will comentou sobre o fato e Umar balançou a cabeça desdenhosamente.
— A população é muito preguiçosa para montar guarda e os tualaghis acreditam que não há nenhum inimigo dentro de centenas de quilômetros.
A fumaça das lareiras de cozinha estava subindo de vários pontos ao redor da cidade. Misturado com a fumaça, havia outro aroma que acendeu a sede de Will. Café fresco estava sendo produzido em cozinhas em toda a cidade. Homens e mulheres estavam começando a fluir para fora da cidade, descendo a estrada sinuosa para a planície, ou para campos em terraços na encosta da montanha em si. Will apontou para eles e ergueu as sobrancelhas.
— Trabalhadores do campo — Umar disse, em resposta à pergunta silenciosa. — Eles cultivam milho e trigo na planície, frutas e alguns vegetais nos terraços.
Não havia falta de água em Maashava. Uma série de rios descia em uma corrente subterrânea que corria através das montanhas. Algumas dessas correntes eram canalizados para terraços, alguns para o caminho abaixo para os campos. Era um sistema de irrigação complexo e de cultivo, e Will nunca tinha visto nada parecido em seu tempo nesse país seco.
— Quem construiu tudo isso? — ele perguntou.
Umar encolheu os ombros.
— Ninguém sabe. Os terraços e aquedutos são de centenas, talvez milhares de anos. Os arridis encontraram e restauraram a cidade.
— Bem, de qualquer forma, eles nos dão uma oportunidade — disse Will.
Umar olhou para ele e o arqueiro continuou.
— Com todos os trabalhadores se deslocando para dentro e fora de cada dia, nós podemos infiltrar alguns de seus homens na cidade. Eu notei que se formos sozinhos ou em pares, poderemos chegar a ter até cinquenta homens lá dentro ao final do dia.
— E então o quê? — Umar perguntou.
— Eles poderiam fazer contato com o povo e se esconder entre eles. Certamente o povo de Maashava vai acolher quem quer se livrar dos tualaghi de uma vez por todas?
Umar parecia duvidoso.
— Não os meus homens — disse ele. — Eles se destacam como estrangeiros. Os moradores não confiam neles. Teria a mesma probabilidade de traí-los para os tualaghis.
— Mas por quê? — a voz de Will levantou-se um pouco na sua frustração com a resposta e Umar fez gestos urgentes para ele manter a sua voz baixa.
O som ia longe nas montanhas.
— Desculpe — Will continuou — mas por que eles trairiam você? Vocês tem todos a mesma nacionalidade, não?
O bedullin sacudiu a cabeça.
— Podemos viver no mesmo país, mas somos de diferentes tribos. Nós somos os bedullins. Eles são os arridis. Nossos sotaques são diferentes, assim como nossos costumes. Em geral, bedullins não confiam em arridis e os arridis são recíprocos. Meus homens seriam reconhecidos como bedullins logo que falassem.
— Isso é ridículo — Will respondeu.
O pensamento de que as pessoas poderiam ser divididas por diferenças tão pequenas era uma afronta para o comportamento inteligente, pensou ele.
Umar encolheu os ombros.
— Ridículo, talvez. Mas um fato.
Will olhou para a cidade abaixo, observando enquanto mais pessoas se moviam para a rua. Ele roeu seu polegar pensativo.
— Mas você enviou um homem lá na noite passada? — disse ele.
Umar assentiu. Um dos batedores bedullin tinha deslizado por cima do muro depois de escurecer. Ele ia sair de novo naquela noite e reportar sobre o que tinha ouvido na cidade.
— Um homem. É fácil para um homem passar despercebido, principalmente porque ele não tem que falar, apenas ouvir. Mas nós nunca conseguiremos por cinquenta homens lá sem alguém perceba o sotaque diferente.
Ele decidiu que era hora de mudar de assunto e apontou para uma das aberturas na face do penhasco, na parte traseira do município. Ao contrário de outros de sua espécie, onde as portas estavam abertas para receber o ar fresco da manhã, aquele manteve-se fechado e impedido, e uma dúzia de guerreiros tualaghis estavam montando guarda em torno dele.
— Esse armazém tem de ser onde estão prendendo seus amigos.
Will ergueu as mãos até os olhos, cobrindo-os para concentrar sua atenção quando olhava para a porta fortemente defendida.
— Eu diria que você está certo. — Ele pensou por alguns minutos. — Pergunto se existe alguma forma que poderíamos os libertar.
Umar sacudiu a cabeça.
— Mesmo se você chegar ao armazém ser detectado, com os homens o suficiente para derrotar os guardas, ainda pode ser visto e ouvido. Então você terá de lutar em seu caminho de volta.
Os olhos de Will foram para cima para os penhascos elevados atrás da cidade.
— E sobre vir de cima? E sair da mesma maneira?
Umar considerou a ideia.
— Pode funcionar. Mas você precisará de cordas. Lotes de cordas. E nós não as temos — ele concluiu.
Will assentiu com a cabeça.
— A melhor maneira é, então, esperar eles retirarem Halt e os outros da prisão — disse ele, quase para si mesmo.
— Há apenas uma razão pela qual eu posso pensar que eles podem fazer isso — disse Umar. — Isto é, se eles estiverem indo executá-los.
Will olhou-o por alguns segundos antes de falar.
— Bem, isso é um grande conforto — disse ele.


Yusal se apropriou da casa maior e mais confortável na cidade para seu próprio uso. Era a casa do chefe da vila e Yusal também forçou o ancião da cidade e sua família servi-lo e ao seus guarda-costas. O homem e sua esposa estavam apavorados com o líder nômade e Yusal apreciou o fato. Ele gostava do medo marcante nos corações de outras pessoas. E ele gostava de menosprezar pessoas como o chefe e sua esposa, destruindo sua dignidade e autoridade, forçando-os a executar tarefas serviçais para ele.
Yusal se jogou à vontade em uma pilha de almofadas grossas na sala principal da
casa. O chefe tinha acabado de se mover pela sala, iluminando lamparinas e velas. Yusal insistia em ter duas ou três vezes o número de cada um que fosse necessário. Óleo e as velas eram caros e difíceis de encontrar em uma cidade como esta. Ele gostava de ver o desânimo na cara do velho enquanto eles eram utilizados de forma extravagante. Em poucas semanas, Yusal usaria o estoque de três meses. Mas isso não era de nenhum interesse para o líder tualaghi. Quando o óleo e as velas e comida acabassem, ele seguiria em frente.
A mulher entrou para servir-lhe café. Como ele ordenou, ela caiu de joelhos para oferecer-lhe a taça. Ele tomou dela, então olhou para ela até que ela baixasse os olhos. Então ele levantou o véu azul que cobria sua boca e provou o café. Usando a sola do pé, ele a empurrou, jogando-lhe no chão de terra.
— Muito fraco — disse ele.
Evitando olhar, a mulher se arrastou apoiada em suas mãos e joelhos pela sala. Ela rapidamente aprendeu a não olhar para o rosto do líder de guerra tualaghi quando ele levantava o véu azul para comer ou beber. A primeira vez que ela tinha sido lenta para evitar os olhos, tinha sido barbaramente chicoteada.
Na verdade, não havia nada de errado com o café. A esposa do chefe era uma excelente cozinheira e todas as mulheres arridi aprendiam a fazer um bom café enquanto crianças. Mas dava-lhe uma desculpa para reafirmar sua autoridade e Yusal gostava disso.
Seu bom humor evaporou quando a porta principal da casa abriu para admitir Toshak. Por direitos, o homem do norte mal-educado deveria esperar até que fosse anunciado e, em seguida, esperar a permissão do aseikh. Yusal olhou para ele agora, rapidamente recolocando o véu sobre a boca e o nariz.
— Você deve esperar — disse ele. — Deve ser anunciado e deve aguardar a permissão para entrar.
Toshak encolheu descuidado.
— Vou me lembrar disso — falou ele em uma maneira descompromissada que dizia a Yusal que ele não se importava nem um pouco. — Diga-me — ele adicionou, curiosamente — você nunca tira esse véu?
Ele tinha visto o movimento rápido quando entrou. Ele perguntou sobre o véu azul que o tualaghi usava. Yusal era o único que nunca parecia retirar o seu.
— Sim — Yusal respondeu categoricamente, num tom que disse a Toshak que não haveria discussão.
Na verdade, não havia nenhuma razão concreta porque Yusal usava o véu todo o tempo. Alguns acreditavam que seu rosto estava horrivelmente desfigurado, outros que não era o rosto de um ser humano. Ele mantinha o véu para manter os rumores e as incertezas vivas. Isso acrescentava a aura de poder e mistério que ajudava a manter as pessoas com medo dele.
Toshak indeferiu o assunto, percebendo que Yusal não ia discutir mais nada. Ele pegou um pequeno objeto de dentro de suas vestes e jogou-o para o aseikh.
— Olha o que eu consegui — disse ele. — Eu deixei alguns homens para trás para procurar no acampamento dos estrangeiros. Eles acabaram de chegar com isso.
Yusal virou o objeto na mão. Era uma pequena caixa contendo o selo perdido que Evanlyn tinha carregado.
— Eu percebi que ela deveria ter tido isso com ela e não estava nem com ela ou em seus pertences. Isso deixou apenas uma possibilidade: ela escondeu antes de se renderam. Era um local bastante árido para que fosse tão difícil de encontrar.
Sob o véu, Yusal sorriu de satisfação profunda. Ele decidiu que poderia perdoar o nortista de seus modos grosseiros.
— Isso é excelente. Bem pensado — disse ele.
— Agora podemos completar a ordem de pagamento — Toshak apontou. — Isso significa sessenta e seis mil moedas de prata.
— Trinta e três mil para cada — sussurrou o tualaghi, saboreando as palavras e a quantidade. Mas para sua surpresa, Toshak sacudiu a cabeça.
— Sessenta e seis mil para você — disse ele. — Eu não quero nada disso. Considere isso uma compensação.
— Compensação? Para quê? O que você quer que eu faça? — Yusal perguntou.
Ele não estava acostumado a ter pessoas entregando tais quantias maciças de dinheiro. Mas Toshak tinha decidido que valia a pena. Ele seria oberjarl e valeria a pena um investimento de trinta e três mil moedas.
— Esqueça os resgates — Toshak disse a ele. — Quero todos os prisioneiros mortos.
Os olhos de Yusal se arregalaram de surpresa.
— Todos eles?
O Escandinavo assentiu confirmando.
Yusal considerou a ideia. Seley el’then valeria muito, pensou ele. Mas nada perto de sessenta e seis mil moedas. E o wakir tinha sido um espinho no pé de Yusal por muitos anos. O mundo seria muito mais agradável sem ele. O substituto poderia não ser tão enérgico em perseguir os tualaghi quando eles invadissem.
Sim, ele pensou, um mundo sem Seley el’then seria um lugar melhor. Quanto aos escandinavos e o jovem araluense, ele não hesitou. Mas seria uma pena matar a menina.
— Porque a menina? — ele perguntou. — Ela teria um imenso valor nos mercados de escravos.
— Eu quero todos mortos porque não quero pontas soltas — Toshak respondeu. — A menina tem amigos influentes em Araluen, e os araluenses são amigos de Erak. Escravos podem escapar ou ser revendidos e, quando for oberjarl, não quero qualquer rumor de que eu estava por trás do desaparecimento de Erak. Se ela estiver morta, não há nenhuma chance disso.
Yusal assentiu com a cabeça, pensativo. Fazia sentido, ele percebeu. A chance de que a menina poderia um dia fugir e encontrar seu caminho de volta para Araluen era mínima. Mas era uma chance. A melhor coisa em situações como esta, era ter certeza. Além disso, ele pensou, uma execução em massa seria uma boa lição para o povo de Maashava. Como o véu azul, isso iria adicionar a própria lenda e mística de Yusal.
— Muito bem — falou ele finalmente. — Mas se vamos matar todos eles, poderíamos também fazer disso uma ocasião.
Toshak encolheu os ombros.
— Faça como quiser — disse ele. — Ocasião ou não, contanto que eles estejam todos mortos, eu estou feliz.

2 comentários:

  1. Eu aqui contando os segundos, e imaginando uma morte ruim o suficiente pra eles...Poderiam ser chicoteados, amarrados em um camelo e arrastados pelo deserto, deixados la sem água, mas ainda é pouco.

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Boa leitura :)