29 de dezembro de 2016

Capítulo 38

O pôr do sol estava por cima das montanhas quando Abelard levantou a cabeça e deu um longo relincho.
Horace e Malcolm olharam surpresos para o pequeno cavalo. Os cavalos dos arqueiros normalmente não faziam barulhos desnecessários. Eram muito bem treinados.
Kicker ergueu os olhos, também curioso, e depois abaixou a cabeça e voltou para o seu pasto.
― O que há de errado com Abelard? ― perguntou Malcolm
Horace deu os ombros.
― Ele deve ter ouvido ou cheirado alguma coisa.
Ele estava sentado perto da fogueira, fitando a brasa e como ela alternadamente produzia calor e entorpecia com o inconstante vento através das árvores. Ele se ergueu, sua espada estava pronta na mão, andou pelo limite do bosque onde estavam acampados.
Quando fez isso, ouviu um relinchar de algum lugar distante. Então, uma figura incerta apareceu no horizonte.
― Aquele é Will! ― anunciou ― e traz um prisioneiro.
O traço do cavalo e do cavaleiro tinha sido confundido pelo fato de que Will estava cavalgando com o genovês, mãos e pés amarrados, barriga virada para baixo do outro lado da sela, na frente dele.
Ele corria devagar com Puxão pelo limite do bosque, balançando a mão como cumprimento quando viu Horace caminhar pelas árvores. Na frente dele, o genovês gemia desconfortavelmente com cada galope de Puxão.
Malcolm tinha deixado o acampamento para se juntar a Horace, abriu e esfregou a mão com expectativas quando ele viu que o jovem guerreiro estava bem. Will tinha um prisioneiro e a capa roxa deixava claro que esse era o genovês.
Will freou perto deles. Ele parecia exausto, Horace notou, embora não estivesse surpreso, considerando o que o jovem arqueiro tinha passado nos últimos dias.
― Como está Halt? ― perguntou Will.
Horace fez um gesto tranquilizador.
― Ele está bem. Mas Malcolm o colocou em um sono profundo com uma poção.
Ele pensou que isso era melhor ser dito assim do que falar Malcolm estava perto de matá-lo com o efeito do veneno.
― Ele ficará bem agora que você está de volta.
O rosto de Will aparentava cansaço e seus olhos estavam vermelhos. Mas agora que sua preocupação sobre o que Halt tinha sido diminuída, existia um claro ar de satisfação nele.
― Sim, eu estou de volta ― repetiu. ― E olha com quem eu cavalguei.
Horace forçou uma risada para ele.
― Espero que tenha corrido severamente com ele.
― O mais severo que pude.
Horace deu passos à frente para erguer o genovês, mas Will o puxou de volta.
― Afaste-se.
Ele agarrou a gola da capa do prisioneiro, levantando-o e fazendo com que Puxão desse um coice na direção oposta. O assassino escorregou do cavalo como um saco da batata. Ele bateu contra o chão, tentou evitar a queda com os pés, mas falhou.
― Cuidado! ― disse Malcolm ― a gente precisa dele, lembre disso!
Will pigarreou com zombaria do genovês, que tentava debilitadamente alcançar os pés.
― Ele está bem. Precisa mais do que isso para matá-lo. E a gente só precisa dele falando, não de pé.
Ao sinal de Malcolm, Horace deu alguns passos à frente e levantou o prisioneiro pelos pés. O prisioneiro resmungou. Alguma coisa nos olhos do guerreiro pareceu encontrar com os do assassino e ele parou com o resmungo.
― Qual seu nome? ― Malcolm perguntou para ele, usando a língua comum.
O genovês olhou para ele e deu os ombros desdenhosamente sem dizer nada. Isso era uma ação ofensiva e também um erro. Horace abriu sua mão e bateu diretamente no lado da cabeça dele, balançando-o de um lado para o outro.
― Não cometa nenhum erro, seu imbecil ― disse Horace ― nós não gostamos de você. Não temos nenhum interesse em deixar você confortável. Na verdade, quanto mais desconfortável você tiver, mais eu irei gostar.
― Seu nome? ― Malcolm repetiu.
Horace sentiu que o ombro do homem estava subindo novamente, no mesmo movimento desprezível. A mão direita dele subiu, e dessa vez foi em forma de soco.
― Horace! ― Malcolm gritou.
Ele precisava do homem consciente para responder as perguntas. Horace continuou com a mãe levantada. Os olhos do genovês estavam fixos na mão dele. Ele sentiu o poder por trás do tapa do homem. Um soco poderia ser muito pior, ele sabia.
― Ele ainda pode falar com o nariz quebrado ― falou Horace.
Mas agora o genovês parecia ter decidido que não havia sentido em ter mais punição para o bem de ocultar seu nome.
― Sono Bacari.
Novamente ele deu os ombros. Essa parecia ser a ação favorita do homem, e ele podia fazer isso com enorme desprezo. Horace imaginou dizendo “Então, meu nome é Bacari, e daí? Só contei porque eu quis”.
A atitude arrogante e a ação desprezível que acompanhou, fez Horace ficar mais nervoso. Ele abaixou o punho, e viu Bacari rindo para si mesmo, de repente chutou a perna do homem por baixo dele, fazendo-o cair no chão. Horace posicionou a sola de seu pé no peito do homem e o imobilizou.
― Fale uma língua que entendo ― ordenou
Horace olhou para Will, que tinha desmontado e estava cansado, encostado ao lado de Puxão, assistindo com um suspeito sorriso no rosto. Como Horace, ele não sentia nenhuma compaixão do genovês. E ele sabia que isso era importante para o homem entender que eles não poupariam nenhuma dor quando quisessem alguma informação.
― Se ele não se comportar, chute a costela dele ― disse Will.
Horace acenou.
― Com prazer.
Ele se inclinou novamente para o homem, que tinha recuperado a respiração.
― Agora vamos tentar de novo. Na língua comum. Seu nome?
Houve um momento de hesitação, o olhar furioso encontrou com os olhos de Horace. Então ele resmungou.
― Meu nome é Bacari.
Horace se ajeitou e olhou para Malcolm.
― Tudo bem, ele é todo seu.
O curandeiro assentiu e gesticulou em direção ao acampamento, e a figura desmaiada ao seu lado.
― Traga-o aqui, sim, Horace?
Ele andou para a fogueira e sentou com as pernas cruzadas. Horace simplesmente estendeu o braço e pegou Bacari pela nuca, arrastou-o pelo chão e o colocou na frente de Malcolm. Ele o posicionou ereto, na posição de sentar e ficou ao lado dele, com os braços cruzados. Bacari estava ciente da presença ameaçadora.
― Apenas nos de um pouco dê espaço, por favor ― Malcolm pediu em um tom suave.
Horace deu alguns passos para trás, ficou em estado de alerta, olhando de maneira penetrante.
― Agora, Bacari. ― O tom de Malcolm era calmo e agradável à conversa. ― Você atirou em nosso amigo aqui com uma de suas flechas.
Ele apontou para Halt, deitado alguns metros dali, seu peito quase não se movendo enquanto ele respirava. Bacari parecia notar a presença do arqueiro pela primeira vez, e seus olhos arregalaram. Depois de tudo, ele os tinha visto enterrar seu companheiro. Ou ele achou que tinha.
― Ainda vivo? ― ele disse surpreso ― Ele deveria ter morrido dois dias atrás!
― Desculpe por desapontar você ― Horace disse cinicamente.
Malcolm deu um olhar de advertência, então continuou.
― Você usou veneno na ponta de sua flecha.
Bacari deu os ombros de novo.
― Talvez eu tenha usado ― falou sem cuidado.
Malcolm sacudiu sua cabeça.
― Obviamente você usou. Você envenenou a ponta de sua flecha com aracoína.
Aquilo definitivamente pegou Bacari de surpresa. Os olhos dele arregalaram-se, e antes que ele pudesse se segurar respondeu:
― Como você pode saber disso?
Ele percebeu que era tarde demais para voltar atrás e ele tinha revelado uma informação vital.
Malcolm sorriu para ele. Mas o sorriso não ultrapassou os lábios.
― Eu sei muitas coisas.
Bacari recuperou-se de sua primeira surpresa e empurrou o lábio inferior em uma audaciosa e descuidada expressão.
― Então você conhece o antídoto ― retrucou, sua forma desdenhosa retornando ― Por que você não dá o antídoto para ele?
Malcolm se inclinou para frente para fazer contato visual.
― Eu sei que existem dois antídotos.
De novo, Bacari deu um involuntário impulso de surpresa, apesar de se recuperar rapidamente. Malcolm percebeu a reação.
― E eu sei que o errado irá matá-lo.
― Che sará, sará ― Bacari replicou.
― O que ele disse? ― Horace exigiu imediatamente, dando um passo à frente.
Mas Malcolm gesticulou para que ele voltasse de novo.
― Ele disse, o que será, será. Ele obviamente é um filósofo.
Então voltou seu olhar para o genovês.
― Fale a língua comum. Último aviso ou meu grande amigo vai fatiar suas orelhas e enfiar na sua garganta para sufocar você.
Foi o tom calmo e agradável no qual as palavras brutais foram entregues que fez com que a ameaça se tornasse ainda mais assustadora – isso e o olhar fixo pregado no assassino. Os olhos de Bacari se desprenderam dele.
― Tudo bem, eu falo ― ele disse suavemente.
Malcolm indicou com a cabeça algumas vezes.
― Bom. Tanto tempo para nos entendermos.
Ele percebeu que o homem ainda tremia por causa das correias. Will tinha assegurado que suas mãos estavam atrás das costas com as algemas nos polegares, e que a aljava que ele possuía estava fora de seu alcance.
Ele não viu nenhuma razão para esperar, desafivelando e descartando.
Malcolm inclinou-se para Bacari, estendendo a mão para a aljava. Inicialmente, Bacari se contraiu, pensando que outra bofetada poderia vir. Então ele relaxou quando Malcolm cuidadosamente tirou uma das flechas para analisar a ponta. A sobrancelha de Malcolm ergueu quando ele viu uma substância pegajosa e descolorida nos primeiros centímetros da ponta de aço.
― Sim.
Ele disse suavemente, o nojo era claro em sua voz.
― Isso é veneno, certo. Agora todos nós queremos saber, que tipo você usou? A flor azul ou branca?
Bacari atingiu a expressão de Malcolm. Ele olhou rapidamente para a figura a alguns metros dali, então permitiu seus olhos vagarem, capturando a ameaçadora forma de Horace e o exausto jovem arqueiro em pé, a certa distância atrás, assistindo em silêncio.
Ele sentiu a expectativa dos dois jovens homens, percebeu tensão enquanto eles esperavam pela resposta. Apesar das ameaças, ele sabia que aqueles três não o matariam a sangue frio. Eles deviam bater nele, e ele podia suportar isso. No calor de uma batalha, ele sabia que os dois jovens homens poderiam matá-lo sem hesitação. Mas ali, com as mãos amarradas nas costas e os pés mancos? Nunca.
Ele riu silenciosamente. Tinha visto os olhos deles e ele era especialista em leitura facial. Se essa situação fosse inversa, ele os mataria sem pensar duas vezes. Ele possuía o sangue frio e cruel necessário para realizar tal ato. E como ele mesmo havia dito, podia ver que aquilo faltava neles. Seguro de si agora olhou de volta para Malcolm e permitiu que um sorriso íntimo quebrasse a superfície.
― Eu esqueci.

6 comentários:

  1. Se eu estivesse interrogando Bacari , eu pegaria a flecha envenenada dele e enfiaria no braço dele , assim ele ficaria envenenado e falaria qual flor ele usou no veneno.
    Se ele não falasse morreria envenenado!

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    1. kkkkkkkkkkkk Eu pensei a mesma coisa. ia até comentar isso aqui.

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    2. Ótima ideia
      Ass: Lua

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  2. Melhor ideia de todas! Parabéns!
    Ass: Bina.

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Boa leitura :)