29 de dezembro de 2016

Capítulo 37

Malcolm estava preocupado. O veneno estava no sistema de Halt por vários dias e a qualquer momento ele poderia ir para os estágios finais. Ele estava tranquilo no momento e sua temperatura estava normal. Mas se ficasse agitado e febril novamente, se sacudindo e se contorcendo e gritando, isso poderia sinalizar que o seu fim seria daqui a algumas horas.
Will estava correndo contra o tempo para trazer de volta o genovês antes que Halt chegasse a esse estágio. Na melhor das hipóteses, o acampamento de Tennyson ficava a aproximadamente quatro horas de distância. Quatro horas para ir e quatro para voltar.
Em uma hora, Halt poderia estar morto.
Ele olhou para o guerreiro jovem e alto, sentado debruçado sobre os joelhos, olhando para o nada. Ele desejava que houvesse algo a fazer para ajudar Horace, algum incentivo que pudesse oferecer. Mas Horace conhecia a situação, assim como ele. Malcolm não tinha o hábito de oferecer falsas esperanças ou palavras tranquilizadoras em um momento como aquele. Ter falsas esperanças era pior do que ter a pouca esperança que eles tinham.
Halt deu um gemido baixo e virou-se para o lado. Instantaneamente, Malcolm ficou alerta, observando-o como um falcão. Ele havia apenas se mexido enquanto dormia ou isso seria o início do estágio final? Por alguns segundos, Halt ficou imóvel e sua ansiedade diminuiu. Então ele murmurou novamente, desta vez mais alto, e começou a agitar-se, tentando jogar fora os cobertores.
Malcolm correu para seu lado, se ajoelhando e colocando a mão na testa do arqueiro barbudo. Sua testa estava quente ao toque – demasiado quente para ser normal. Os olhos de Halt estavam fechados, mas ele continuou gritando. No início, eram apenas sons inarticulados. Então de repente ele gritou um aviso:
― Vai! Não tenha pressa! Não apresse o tiro!
Malcolm ouviu os passos rápidos de Horace como se ele tivesse se mexido para ficar atrás dele.
― Ele está bem? ― Horace perguntou.
Nas circunstâncias, foi uma pergunta ridícula. Halt não estava nada bem. Malcolm respirou fundo para dar resposta. Então ele parou. Foi uma reação natural da parte de Horace.
― Não ― disse ele. ― Ele está em apuros. Horace, me passa o remédio que está na bolsa.
A mochila estava ao alcance de Malcolm, mas ele sabia que seria melhor para Horace pensar que estava ajudando. Horace passou a bolsa de couro para Malcolm, que procurou rapidamente o frasco que precisava. O frasco continha um líquido marrom claro e Malcolm usou os dentes para remover a rolha.
― Mantenha a boca dele aberta ― falou brevemente.
Horace ajoelhou do outro lado de Halt e forçou a boca do arqueiro para ficar aberta. Halt lutou contra ele, tentando sacudir a cabeça de um lado para o outro para evitar o remédio. Mas ele estava enfraquecido pelas provações dos últimos dias e Horace era mais forte.
Malcolm se inclinou para frente e deixou algumas gotas do líquido marrom caírem sobre a língua de Halt. Novamente o arqueiro reagiu, arqueando as costas e tentando se soltar.
― Mantenha a boca dele fechada até que ele engula ―disse Malcolm laconicamente.
Horace apertou suas grandes mãos sobre a boca do arqueiro, fechando-a. Halt se sacudiu e gemeu. Mas depois de algum tempo, eles viram sua garganta se movendo e Malcolm soube que ele havia engolido a bebida.
― Tudo bem. Você pode soltá-lo.
Horace soltou sua mão de ferro da mandíbula de Halt. O arqueiro gaguejou, tossiu e tentou se levantar. Mas agora Horace tinha as mãos em seus ombros, segurando-o para baixo. Após mais ou menos um minuto, seus movimentos começaram gradualmente a enfraquecer. Sua voz se extinguiu a um murmúrio, e ele dormiu desengonçadamente.
Malcolm sinalizou para Horace relaxar. Havia suor na testa do jovem guerreiro e o curandeiro sabia que era mais do que esgotamento. Era transpiração de nervosismo causada pelo seu medo por Halt e sua incerteza. Emoções poderosas, sabia, e capazes de causar danos ao seu corpo.
― Malcolm ―disse Horace. ― O que está acontecendo?
Ele reconheceu que esta era uma nova fase do sofrimento de Halt. Malcolm lhes havia dito que Halt iria passar por várias fases, mas não tinha descrito isso, a fase final, em detalhes. Mas Horace sabia que qualquer mudança no comportamento ou nas condições só poderia ser uma má notícia naquele momento. Halt estava piorando e Horace quis saber o quão ruim a situação era.
Malcolm olhou para cima e encontrou seu olhar preocupado.
― Eu não vou mentir para você, Horace. Ele está mais calmo agora por causa da droga que eu dei a ele. O efeito vai passar em mais ou menos uma hora e ele vai começar a agitar-se novamente. Vai ser cada vez pior. Ele vai conduzir o veneno mais e mais fundo através do seu sistema e então será o fim.
― Por quanto tempo você pode continuar dando-lhe a droga? ― Horace perguntou.
Will poderia estar de volta a qualquer momento.
Malcolm encolheu os ombros.
― Mais duas vezes. Talvez três. Mas ele está fraco, Horace, e é uma droga poderosa. Se eu der a ele muitas vezes, poderia matá-lo tão facilmente como o veneno.
― Não há nada que você possa fazer? ― Horace disse, sentindo lágrimas ardendo nos olhos.
Ele se sentiu... incapaz, tão inútil, parado assistindo Halt afundar mais e mais. Se o arqueiro estivesse em uma batalha, cercado por inimigos, Horace não hesitaria em ir ao seu auxílio. Ele entendia aquele tipo de situação e podia lidar com ela. Mas isso! Era terrível ficar parado, esperando e observando, torcendo as mãos em angústia e incapaz de fazer qualquer coisa. Isso era pior do que qualquer batalha que pudesse imaginar.
Malcolm não disse nada. Não havia nada para dizer. Ele viu raiva nos olhos de Horace, viu o seu rosto ruborizar de raiva.
― Vocês curandeiros! São todos iguais! Têm suas poções e seus feitiços e suas histórias mentirosas e, no final, tudo isso não serve pra nada! Tudo o que você pode dizer é “espere e veja”!
A acusação era injusta. Malcolm não era como a maioria dos curandeiros, muitos dos quais eram mentirosos e charlatões. Malcolm lidava com ervas e medicamentos, com o conhecimento do corpo humano e seus sistemas. Ele foi sem dúvida o mais qualificado e melhor aprendiz curador em Araluen. Mas às vezes, habilidade e conhecimento, simplesmente não eram suficientes. Afinal, se os curandeiros fossem infalíveis, ninguém jamais morreria.
No fundo, Horace sabia disso, e Malcolm, sabendo que ele sabia, não se ofendeu. Ele compreendeu que a ira do guerreiro foi dirigida à situação e ao seu próprio sentimento de absoluto desamparo, e não a Malcolm.
― Sinto muito, Horace ― ele disse simplesmente.
Horace parou seu discurso e soltou um longo suspiro, seus ombros curvados. Ele sabia que suas palavras tinham sido mal interpretadas. E sabia também que Malcolm devia se sentir ainda pior do que ele sentia. Afinal, foi para isso que Malcolm fora treinado e ele não podia fazer nada. Horace fez um pequeno gesto com a mão.
― Não. Não ― ele disse. ― Não tem nada que pedir desculpas. Eu sei que você fez o seu melhor, Malcolm. Ninguém poderia ter feito melhor. É que...
Ele não pôde terminar a frase. Não tinha nem certeza do que estava prestes a dizer. Mas percebeu que suas palavras significavam a sua aceitação ao fato de que Halt iria morrer. Não havia mais nada que pudessem fazer por ele. Se Malcolm não pudesse ajudá-lo, ninguém poderia.
Ele virou-se, a mão aos olhos escondendo as lágrimas, e se afastou. Malcolm começou a ir atrás dele, então decidiu que seria melhor deixá-lo. Ele se voltou para Halt e se ajoelhou ao lado dele mais uma vez. Franziu a testa em concentração, olhando para o arqueiro. Em meia hora, o líquido marrom iria começar a perder efeito e Halt teria outro ataque. Ele poderia facilitar isso, mas seria uma solução temporária. Os ataques continuariam e piorariam. Era um caminho sem volta.
A menos que...
Uma ideia estava se formando em sua mente. Era uma ideia desesperada, mas esta era uma situação desesperadora. Ele respirou profundamente várias vezes, fechando os olhos e se concentrando. Ele forçou sua mente a ignorar as coisas ao redor e concentrar-se no problema principal, examinando a ideia em sua mente, buscando as falhas e os perigos e encontrando muito de ambos.
Então ele considerou a alternativa. Ele poderia manter Halt confortável por mais algumas horas – talvez duas ou três – na esperança de que Will voltasse. Mas ele sabia que era uma chance remota. Mesmo que Will pegasse o genovês antes disso, ele iria viajar mais lentamente no caminho de volta com um prisioneiro. Em quatro horas, Halt provavelmente estaria morto. Não provavelmente, ele corrigiu, com certeza.
Ele tomou uma decisão e levantou-se, caminhando em direção ao jovem guerreiro que estava encostado tristemente contra uma árvore a alguns metros de distância. Ele viu os ombros caídos, a cabeça inclinada, a linguagem corporal que lhe disse que Horace havia desistido. Então ele sentiu uma pontada de dúvida. Será que ele tinha o direito de dar-lhe esta nova esperança – esperança que poderia ser incerta? Se ele melhorasse as expectativas de Horace e Halt ainda assim morresse, como ele poderia se perdoar? Seria melhor simplesmente aceitar a situação, fazer o que ele pudesse por Halt e deixar a natureza seguir seu curso?
Ele balançou a cabeça, formando uma nova resolução na sua mente. Aquele não era seu caminho. Nunca seria. Se houvesse a menor chance de salvar um paciente, então ele iria usá-la. Lutaria até o fim.
― Horace? ― ele disse suavemente.
O rapaz virou-se para ele e Malcolm viu as lágrimas que escorriam por seu rosto.
― Pode haver alguma coisa... ― ele começou.
Ele viu a esperança nos olhos de Horace e ergueu a mão para impedi-lo de se animar.
― Não é uma chance muito boa. E poderia não funcionar. Poderia até mesmo matá-lo ― ele alertou.
Por um momento, ele viu Horace recuar mentalmente, pensando nesse resultado, então o guerreiro se recuperou.
― O que você tem em mente?
― É algo que nunca fiz antes. Mas poderia funcionar. O remédio que eu dei a ele é muito perigoso. Como eu disse, poderia matá-lo, mesmo sem o veneno. Mas se eu desse o suficiente de modo que ele estivesse quase morto, isso poderia salvá-lo.
Horace franziu a testa, sem entender.
― Como você pode salvá-lo se pode quase matá-lo?
E Malcolm teve que admitir que, posto desta forma, parecia um plano louco. Mas ele manteve-se firme.
― Se eu der a ele a dose certa, tudo em seu corpo irá desacelerar. Seu pulso. Sua respiração. Seu sistema inteiro. E os efeitos do veneno vão desacelerar também. Nós vamos dar tempo a ele. Talvez oito horas. Talvez mais.
Ele viu o efeito que essas palavras tiveram sobre Horace. Em oito horas, Will certamente estaria de volta – se ele tivesse conseguido capturar o genovês. De repente, Horace sentiu uma dúvida terrível. E se o genovês tivesse matado Will? Ele empurrou o pensamento de lado. Ele tinha que acreditar em alguma coisa hoje.
Will estaria de volta. E se Halt ainda estivesse vivo, Malcolm poderia curá-lo. De repente, havia uma esperança, onde havia apenas um desespero escuro.
― Como você faz isso? ― perguntou ele lentamente.
Malcolm mordeu o lábio por um segundo ou dois, então decidiu que não havia nenhuma maneira fácil para expressar o que ele tinha em mente.
― Vou dar-lhe uma overdose massiva do remédio. Mas não o suficiente para matá-lo.
― E quanto isso vai ser? Você sabe? Já fez isso antes?
Mais uma vez, Malcolm hesitou. Então ele aceitou o desafio.
― Não ― ele disse ― nunca fiz isso antes. E não conheço ninguém que tenha feito. Quanto à quantidade que devo dar-lhe, francamente, eu vou estimar uma quantidade. Ele já está fraco. Acredito que sei o quanto lhe dar, mas não posso ter certeza.
Houve um longo silêncio entre eles. Então, Malcolm continuou.
― Não é uma decisão que eu quero tomar, Horace. Deve ser feita por um amigo.
Horace encontrou seu olhar e balançou a cabeça lentamente, compreendendo.
― E deve ser feita pelo Will.
Malcolm fez um pequeno gesto de concordância.
― Sim. Mas ele não está aqui. E você é amigo de Halt também. Você pode não ser tão próximo a ele como Will é, mas você o ama e eu estou pedindo a você pra tomar essa decisão. Eu não posso fazer isso por você.
Horace soltou um suspiro profundo e se virou, olhando para fora através das árvores até o horizonte vazio, como se Will pudesse aparecer de repente e tornar isso tudo desnecessário. Ainda olhando, ele disse lentamente:
― Deixe-me perguntar-lhe isto. Se este fosse seu amigo, seu amigo mais próximo, então você faria isso?
Agora foi a vez de Malcolm fazer uma pausa e considerar o que responder.
― Eu acho que sim ― ele disse após alguns segundos. ― Gostaria de ter a coragem. Eu não tenho certeza se eu iria ter, mas gostaria que tivesse.
Horace se virou para ele com o fantasma de um sorriso triste em seu rosto.
― Obrigado por uma resposta honesta. Sinto muito sobre o que eu disse antes. Você merece coisa melhor do que isso.
Malcolm deixou as desculpas de lado.
― Já esqueci ― disse ele. ― Mas qual é a sua decisão?
Ele indicou Halt e, quando fez isso, o arqueiro começou a se mexer novamente, resmungando em voz baixa. A primeira dose do remédio estava começando a perder o efeito. Malcolm percebeu que este era um momento importante, uma janela de oportunidade.
― A droga está perdendo o efeito ― ele continuou. ― Está fora do seu sistema. Isso torna mais fácil para eu trabalhar com a dosagem certa. Eu não tenho que levar em conta a que eu já tinha dado a ele.
Horace olhou de Malcolm para Halt, e chegou a uma decisão.
― Faça ―ele disse.

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