18 de dezembro de 2016

Capítulo 37

Will, Umar e 120 guerreiros bedullins estavam em uma marcha forçada através do deserto. Eles levantaram quatro horas antes do amanhecer, cavalgaram até quatro horas após a primeira luz, em seguida, descansaram do calor do dia. No final da tarde, poucas horas antes do por do sol, eles retomaram o caminho, cavalgando até bem depois do anoitecer antes que eles parassem para descansar novamente. Will estimava que era por volta das nove da noite quando acamparam durante a noite. Mas os dois períodos de descanso, um no meio do dia e outro à noite, lhes dava bastante tempo para dar água e alimentar seus cavalos e recuperar suas forças para a marcha seguinte.
Era um calendário difícil, mas sensato. Eles montavam em um ritmo constante, trotando em vez de um galope leve ou pesado. Mas Will logo percebeu que eles estavam cobrindo grandes distâncias mantendo o ritmo constante, mesmo que estivesse tentado a ir mais rápido. Conforme os quilômetros passavam sob os cascos de Puxão, ele sabia que este seria o melhor curso a longo prazo.
Umar tinha decidido agir segundo a suposição de Jamil que os tualaghi estavam controlando uma das cidades do Maciço do Norte. Como resultado, eles foram capazes de planejar um curso em linha reta para interceptar os atacantes, ao invés de retornar ao local da batalha e seguir suas trilhas. Isto, combinado com as distâncias prodigiosas que eles eram capazes de cobrir a cada dia, significava que estavam bem no caminho para ultrapassar os inimigos.
Will tinha pedido a Umar e Jamil para lhe mostrar o local do maciço em seu mapa. Era mais ao norte do que a área abrangida pelo mapa de Selethen. Eles estudaram o documento com algum interesse, rapidamente vendo sua importância, embora os bedullins nunca utilizassem mapas. Sua navegação era baseada em tradições tribais e conhecimentos transmitidos ao longo de centenas de anos. Enquanto apontavam para marcas desenhadas por Selethen, eles referiam-se aos lugares por nomes como “rio das pedras brilhantes” ou “Montanha de Ali” ou “O Vale da Cobra”. Embora alguns dos nomes fossem auto-explicativos, a origem de outros estava escondida na antiguidade.
Ninguém, por exemplo, tinha a menor lembrança de quem Ali poderia ter sido, e as pedras brilhantes que marcavam o rio tinham desaparecido há muito tempo – assim como o próprio rio.
Este era um grupo da guerra, então as mulheres Khoresh Bedullin e os filhos tinham ficado no acampamento no oásis, com setenta dos guerreiros de Umar para mantê-los seguros. O aseikh estava relutante em reduzir tanto sua força de ataque, mas o deserto era um lugar incerto e setenta era o número mínimo de homens que ele estava disposto a deixar para a proteção do seu povo.
— Nós vamos estar em menor número — ele comentou com Will.
— Eles não vão estar nos esperando — o jovem arqueiro respondeu e o aseikh assentiu com certa satisfação sombria.
— Eu estou ansioso por isso.
No terceiro dia de viagem, o problema dos números foi corrigido. Um batedor voltava a galope para informar que tinha encontrado um grupo de trinta homens a pé no deserto.
Umar, Will e Hassan cavalgaram de volta com ele, galopando à frente do grupo principal. Depois de três quilômetros, chegaram ao grupo de homens sentados à sombra escassa oferecido por um vale e partilhando o último cantil de água que o batedor tinha deixado com eles.
— Guerreiros arridi — Umar disse, reconhecendo os restos dos uniformes que eles usavam.
Will percebeu que nenhum dos homens usava botas, apesar de terem rasgado o pano de suas vestes e as camisas para embrulhar em torno de seus pés para protegê-los. Havia pouco mais que um gole de água para cada um e a distribuição de água estava sendo cuidadosamente supervisionada por um jovem homem que usava uma insígnia de tenente. O grupo podia estar áspero e próximo à exaustão, mas era óbvio que eles tinham mantido a sua disciplina. Will não estava certo, mas o oficial parecia vagamente familiar. Ele pensou que poderia ter sido um dos homens de Selethen.
Os três cavaleiros haviam trazido garrafas de água extra com eles e foram rapidamente distribuídos. O tenente moveu-se para Umar e fez o gesto tradicional de saudação.


— Obrigado, aseikh — ele começou.
Ele reconheceu a medalha de classificação de Umar, um cordão de crina de cavalo que prendia seu kheffiyeh.
— Eu sou o tenente Aloom da...
Umar o parou com um gesto e passou-lhe a sua própria garrafa de água. A voz do moço estava seca e coaxando.
— Beba em primeiro lugar, tenente — disse ele. — A conversa vai ser mais fácil depois disso.
Agradecido, o oficial levou o cantil até a boca e bebeu. Will percebeu que, apesar de estar com sede, ele bebeu apenas pequenas quantidades de água, bebendo lentamente de modo a não sobrecarregar o corpo com uma inundação repentina de umidade. O povo de Arrida mantinha uma disciplina de água excelente, ele percebeu, lembrando o quão desesperadamente tentou engolir a água que lhe foi dada quando Umar o encontrou.
Era perto da décima hora da manhã, o momento que Umar normalmente chamada uma parada para o primeiro período de descanso. Ele fez sinal aos outros para desmontarem e saiu de sua sela.
— Nós vamos acampar aqui — disse ele. — Os arridis podem usar o período de descanso para se recuperarem.
Tenente Aloom tinha saciado a sua sede agora e disse-lhes da emboscada tualaghi e a batalha que se seguiu, como Halt e os outros foram feitos prisioneiros, enquanto ele e seus homens tinham sido deslocados para o deserto por Yusal, sem botas e com um mínimo da água. Isso tinha sido há dois dias.
— Você manteve trinta homens vivos e marchando com apenas dois cantis de água? — Umar consultou. Havia uma nota de respeito em sua voz.
O tenente encolheu os ombros.
— Eles são bons soldados — disse ele. — Entenderam a necessidade de disciplina.
— Eles têm um bom oficial — disse Will.
Ele estava tentado a interromper o tenente imediatamente e pedir notícias de seus amigos. Mas viu que o homem que estava perto da exaustão e achou melhor deixá-lo dizer sua história em seu próprio tempo. O tenente olhou para ele por um momento antes de reconhecê-lo. Quando o grupo de guerra havia se saído do oásis, Will tinha adotado as roupas bedullins – calças largas, camisa longa esvoaçante, a capa e, naturalmente, um kheffiyeh para cobrir a cabeça e rosto. Mas o arco e a aljava pendurada sobre suas costas eram inconfundíveis.
— Você é o que eles chamam de Will! — Aloom disse. — Nós pensamos que você estava morto por agora!
Will sorriu.
— Fico feliz que tenham tanta fé em mim — disse ele. Então, o sorriso desapareceu. — Halt e os outros estão bem? Evanlyn está segura?
Aloom assentiu.
— Eles estavam seguros quando saímos. Yusal falou sobre o resgate, eu acho. A menina será examinada depois. As chances são de que ele vai querer vendê-la como uma escrava, e ninguém quer comprar uma escrava desfigurada. Os homens não serão tão afortunados. É de se esperar que eles irão apanhar.
— Eu concordo — disse Umar. Ele se virou para Will. — Eles vão estar desconfortáveis, mas não vai ser tão ruim. Há uma praticidade dura para tudo. Yusal não vai permitir que estejam gravemente feridos. Iria diminuir a velocidade deles. O tenente está certo sobre a menina, também. Se há uma coisa que os tualaghi são bons, é em cuidar de seus investimentos.
— Aseikh, posso perguntar quais são seus planos? — perguntou o tenente.
Ele olhou para longe, onde podia ver o grupo principal dos bedullins se aproximando. Seus olhos ansiosos pegaram o fato de que o grupo era formado por guerreiros apenas, nada de mulheres ou crianças.
— Nós estamos indo atrás dos tualaghi — Will disse. — Aseikh Umar e seu povo decidiram ajudar-me a resgatar meus amigos.
— E o wakir Seley el’then? — perguntou o tenente.
Umar assentiu confirmação.
— O wakir é um velho companheiro. Eu não pretendo deixá-lo nas mãos sujas de Yusal.
Eles tinham-se sentado no pequeno remendo de sombra lançada pelo banco do vale. Aloom ficou de pé agora, com uma nova luz de energia em seus olhos.
— Então nos deixe ir com você! — disse ele. — Os meus homens e eu temos contas a acertar com os malditos tualaghi! E prometi ao meu senhor que voltaria!
Omar franziu a testa.
— Seus homens estão esgotados e quase mortos de sede — disse ele em dúvida. Mas Aloorn sacudia a cabeça antes de ele terminar.
— Eles estão aptos e em bom estado. Deixe-os descansar durante a noite com alimentos e água em abundância. Estarão prontos para viajar amanhã de manhã, eu juro.
— Você está desarmado — Will ressaltou.
Aloom encolheu os ombros.
— Certamente seus homens podem se poupar de algumas adagas? A maioria dos bedullins transportam mais de uma. E uma vez que a batalha comece, cada tualaghi que matarmos fornecerá armas para meus soldados.
Will e Umar trocaram um olhar.
— Seria útil ter trinta homens treinados extras — Will ressaltou. Depois, ele franziu a testa. — Mas como eles vão se manter com a gente? Eles estão com os pés descalços de caminhar.
Umar indeferiu o problema com uma breve agitação de sua cabeça.
— Eles podem cavalgar em duplas com os meus homens — disse ele. — Há apenas trinta deles. Nós podemos revezá-los entre o grupo de modo nenhum cavalo tenha que carregar o dobro por muito tempo.
Aloom tinha seguido a discussão entre eles ansiosamente, com os olhos balançando de um para outro, conforme eles falavam. Agora, ele levantou a mão e falou timidamente.
— Uma coisa — disse ele. — Quatro dos meus homens ficaram feridos. Temos carregado eles. Eles não estão aptos para a viagem ou uma batalha.
Umar pesou o problema momentaneamente. Ele gostou da ideia de ter mais combates homens sob seu comando e sabia que as tropas arridi dariam uma boa conta de si mesmos. Para ele, a resposta era óbvia.
— Nós vamos deixar dois dos meus homens para cuidar deles — disse ele, pensando em voz alta. — Podemos deixar um pouco de água com eles, mas vamos precisar de mais do que temos. Há um pequeno poço há meio dia ao leste. Ele deverá fornecer água suficiente para meia dúzia de homens. Um dos meus homens pode buscar água enquanto o outro fica aqui com eles. Se formos bem sucedidos, nós os buscamos na viagem de volta.
Ele considerou sua própria declaração por um ou dois segundos, em seguida, assentiu. Eles perderiam o período de viagem à noite, cerca de cinco horas. E enfraqueceria sua força por dois homens. Mas em troca, ganharia vinte e seis soldados treinados. Melhor ainda, eram soldados que tinham contas a acertar com os tualaghi. “É uma boa troca”, pensou.
— Nós vamos acampar aqui até o resto do dia e de noite — disse ele. — Seus homens terão toda a comida e água que precisarem. Diga-lhes para estarem pronto para viajar quatro horas antes do amanhecer.
Aloom sorriu sombriamente.
— Eles estarão prontos — ele disse.

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