29 de dezembro de 2016

Capítulo 36

Apesar das longas distâncias que eles viajaram nos dias passados, Puxão estava surpreendentemente descansado. Will cavalgou com ele lentamente até o lugar onde o genovês alojou-se, observando o acampamento.
Quando se aproximou, ele desmontou e avançou agachado. Perto do ponto mais alto, ele se deitou de bruços e rastejou a frente para ver sobre o cume, expondo somente alguns centímetros da sua cabeça enquanto fazia isso.
Não havia nenhum sinal do genovês, embora ele tivesse descoberto o lugar muito facilmente. A grama estava esmagada num grande círculo, como o ninho de algum animal grande. Will podia ver claras pegadas na grama levando para fora do cume, onde o genovês partira a cada anoitecer. Ele seguira o mesmo caminho cada vez e sua trilha estava evidente aos olhos treinados de Will. Ele havia se dirigido para o sudeste – a mesma direção que o grupo dos forasteiros estava seguindo. Não parecia haver nenhuma razão agora para pensar que eles possam ter alterado o curso.
Will considerou a situação rapidamente. O genovês estava obviamente satisfeito que eles haviam partido depois de enterrar Halt. Então não havia motivo para ele estar colocando uma trilha falsa e não havia motivo para que pudesse suspeitar que ainda estivesse sendo seguido. Mas ele não era nenhum tolo, mesmo que suas habilidades de campo deixassem muito a desejar. Ele iria provavelmente checar a trilha atrás dele de tempos em tempos, pelo menos nas primeiras horas, e se Will fosse pegá-lo vivo, ele teria que apanhá-lo com a guarda baixa.
Consequentemente, Will conduziu Puxão num longo arco por dois quilômetros ao oeste. Então ele virou para ficar paralelo ao curso para o sudeste do assassino e passou os passos de Puxão para rápidos meio-galopes. Era um passo eficiente. Eles progrediram rapidamente, ainda mais que os cascos desferrados de Puxão faziam muito menos barulho no chão macio do que eles teriam num galope completo.
Eles cavalgaram em direção ao sudeste. Conforme atravessavam cada linha de montanhas, Will tomou as mesmas precauções para não ser visto, mas não havia nenhum sinal do genovês.
Depois de uma hora e meia, ele desviou-se para cruzar a trilha do genovês. Ele a encontrou depois de alguns minutos, satisfazendo-se ao ver que o homem continuava no mesmo curso. Ele cavalgou para o oeste dessa vez, então virou de forma que ele estivesse mais uma vez paralelo ao curso.
Foi no meio da tarde quando ele viu o genovês. Ele estava em passo lento adiante, seu cavalo mourejando, cabeça baixa, em marcha. Will sorriu. O cavalo era um que eles deviam ter roubado de uma fazenda local e parecia em pobre condição. Nada comparado à força e velocidade de Puxão. E agora que estava tão perto, sabia que o último quilômetro aproximadamente iria provavelmente tornar-se uma corrida.
Will impeliu Puxão para frente, liderando para interceptar o outro cavaleiro. O homem estava jogado na sela. Obviamente, estava quase tão cansado quanto seu cavalo. Agora, ele estaria confiante que não havia nenhuma perseguição.
Quando foi mais perto, Will pôde ver que a besta do homem agora estava pendurada no seu ombro. Seus pensamentos estariam focados no acampamento em algum lugar à frente dele, na comida quente e bebidas que o esperavam ali.
― Gentilmente, garoto ― Will sussurrou para Puxão enquanto ele inclinava-se, sobre seu pescoço, impulsionando-o para mais velocidade.
O pequeno cavalo respondeu. As batidas do casco estrondaram pesadamente no chão, mas elas foram silenciadas pela grama e a terra úmida abaixo e Will esperou que pudessem chegar mais perto antes do genovês ouvisse eles e percebesse que estava em perigo.
Era uma equação perfeitamente balanceada. Se eles fossem rápidos, ele poderia fechar a área mais rapidamente. Mas eles também iriam fazer um grande barulho e aumentar o risco de descoberta. Will resistiu ao desejo de deixar Puxão correr ao máximo. O tempo para aquilo viria.
Enquanto cavalgava, ele jogou o arco de madeira no ombro e, deixando as rédeas sobre o pescoço de Puxão, enfiou a mão no casaco para pegar seus dois strikers.
No início, o movimento de Puxão tornava difícil para ele fixar os dois pedaços de latão juntos. Ele começaria a inserir uma dentro da outra e uma súbita guinada iria separá-las antes de ter os pedaços de fio presos nas strikers. Ele parou e concentrou-se em igualar os movimentos do corpo exatamente ao ritmo de Puxão. Então, permanecendo relaxado e fluido nos seus movimentos, tentou novamente e sentiu os fios prenderem.
Depois das primeiras voltas cuidadosas, ele girou mais rápido, colocando os dois strikers juntos como uma longa peça. Ele suspendeu-a na sua mão direita, sentindo o equilíbrio familiar.
Os strikers estavam designadas a ter as mesmas características de lançamento da sua faca. Mas para usá-las, ele teria que se aproximar uns vinte metros – e aquilo
poderia provar ser difícil.
Ele viu que o genovês estava quase em outro cume. Um sexto sentido alertou Will e ele percebeu que seria apenas natural para o homem lançar um último olhar para trás quando alcançasse o topo. Ele fez com que Puxão desse uma parada deslizante, saiu da sela e puxou de lado nas rédeas enquanto ele descia ao chão.
Puxão, treinando para responder a uma grande variedade de sinais de quem o monta, reagiu instantaneamente. Ele foi aos joelhos, depois rolou de lado na grama, deitando imóvel enquanto Will colocava um braço sobre seu pescoço.
Eles ficaram deitados inertes, escondidos em parte pela grama e em parte pela própria falta de movimento deles. De uma distância, o cavalo cinza e seu cavaleiro encapuzado iriam parecer nada mais ameaçadores que uma grande pedra rodeada por arbustos. De baixo do seu capuz, Will viu o genovês refrear no topo do cume. Ele ofegou um suspiro de alívio por ter previsto esse momento.
O cavaleiro virou, suavizando os músculos tensos pra fora da sela, e lançou um rápido olhar sobre o terreno atrás dele. Mas só foi um olhar apressado. Ele fizera a mesma coisa de tempos em tempos nas passadas quatro horas. Não viu nenhum sinal de perseguição antes e não esperava ver algum sinal agora.
Assim, ele inspecionou o gramado atrás dele sem nenhum grande cuidado. Na verdade, o movimento era mais designado para suavizar os músculos tensos de trás do que para procurar por perseguidores. Como Halt havia falado tanto para Will durante seu treino, noventa por cento do tempo, as pessoas só vêm o que elas esperam ver. O genovês esperava ver um gramado vazio atrás dele, e foi isso o que ele viu. O monte irregular de cores verde e cinza indeterminados longe ao oeste não incitava nenhum interesse.
Depois de um minuto ou dois, ele regressou para o sudeste e desceu do cume. Will esperou. O truque mais velho era parecer partir, então subitamente retornar para olhar mais uma vez. Mas o genovês parecia satisfeito que a terra atrás dele estava livre de qualquer ameaça e ele não reapareceu.
Will deu um tapinha em Puxão no ombro e, enquanto o cavalo girava e levantava em suas patas, ele deu um passo, montando-o de forma que eles levantaram juntos. Com o som dos cascos de Puxão agora escondidos pelo cume entre ele e o genovês, ele tomou a oportunidade para impulsionar o cavalo num galope. Quando eles chegaram ao topo, esperavam estar somente algumas centenas de metros do outro cavaleiro.
Dessa vez, ele não parou no topo. Era hora de confiar. Eles estiveram viajando por quase quatro horas e a lógica o dizia que eles deviam estar perto do objetivo do genovês. Eles alcançaram o cume a todo galope e Will deu um pequeno grito de surpresa.
As orelhas de Puxão subiram com o som, mas Will apressadamente tranquilizou.
― Continue andando! ― ele disse.
As orelhas do pequeno cavalo abaixaram novamente e ele manteve o galope, nunca perdendo o ritmo.
À frente deles, a paisagem havia mudado. A série de cumes ondulados agora deu lugar a um longo e gradual declive conduzindo para baixo até abrir-se num vale amplo e comprido.
O acampamento de Tennyson era visível, uns três quilômetros de distância.
Os números haviam crescido das vinte ou quinze pessoas que estiveram com ele originalmente. Agora, ele estimou, devia ter cem pessoas reunidas ali. Mas o problema mais imediato de Will era o genovês, agora menos que duzentos metros adiante. Ele não podia acreditar na sorte. O assassino não ouviu as batidas dos cascos de Puxão na grama. Ele continuou num passo lento, seu cavalo mourejando pesadamente.
Então Will viu a cabeça do homem estremecer e virar na direção dele enquanto, inevitavelmente, ele os ouvia. Will estava perto o bastante para ouvir seu súbito grito de surpresa e viu-o colocar os calcanhares nas costelas do cavalo, instigando-o a um meio-galope pesado, então num galope cansado.
Era um erro tático, Will pensou. O choque de vê-lo havia alarmado o homem num erro. Armado com uma besta, ele teria feito melhor em desmontar e atirar em seu perseguidor assaltante.
Mas aí, ele não estava ciente que Will precisava pegá-lo vivo. Talvez ele não estivesse pronto para ficar frente a frente com a fenomenal precisão e velocidade do arqueiro mais uma vez. Ele devia estar ciente que só a sorte havia salvado ele no encontro passado deles.
Will viu o oval rosto pálido do genovês enquanto ele olhava sobre o ombro. Puxão estava fechando a área rapidamente agora e o homem estava chutando desesperadamente com os calcanhares para acelerar seu próprio cavalo. Mas o cansado cavalo de fazenda nunca teria uma chance de escapar do ligeiro cavalo dos arqueiros e Puxão estava ganhando velocidade a cada passo largo.
O genovês lutava agora para desamarrar a sua besta. No momento em que viu o que o homem estava fazendo, Will empurrou os strikers unidos através do cinto e desamarrou o próprio arco.
A mão do genovês foi à aljava, escolhendo uma flecha e colocando-a no encaixe da besta. A garganta de Will contraiu-se e sua boca secou assim que percebeu que estava prestes a encarar uma das flechas envenenadas fatais do homem. Sob circunstâncias normais, ele teria atirado primeiro. Todas as vantagens estavam do seu lado. O outro homem tinha que se torcer na sela para escapar de um tiro, enquanto Will podia atirar direto sobre as orelhas de Puxão. Nessa distância, ele poderia acertá-lo facilmente.
Mas ele precisava do homem vivo.
O genovês havia finalmente conseguido colocar a flecha. Ele virou desajeitadamente, lutando contra os passos com solavancos e irregulares do seu cavalo, virando a besta para atirar. Ele estava torcendo-se na sua direita, então Will guiou Puxão com os joelhos, virando-o para a esquerda, forçando o genovês a torcer-se mais, ficando mais difícil para ele acertar o alvo.
O genovês percebeu o que estava fazendo e girou subitamente para o outro lado, torcendo-se a sua esquerda para um tiro mais claro. Mas assim que ele fez isso, Will ziguezagueou novamente, levando Puxão de volta para a direita. A manobra estava bem sucedida.
O genovês descobriu que seu alvo estava novamente fora do seu campo de visão. E Puxão fechou a área por outros vinte metros no processo.
O genovês torceu-se para a direita novamente. Dessa vez, Will continuou galopando firmemente, sem ziguezaguear. Mas agora ele tinha uma flecha encaixada e cavalgava com as rédeas enroladas no pescoço de Puxão, guiando o cavalo com seus joelhos. Ele não podia arriscar matar o genovês, mas sua caça não sabia disso. O assassino conseguiria uma chance para um tiro. Não haveria tempo para ele recarregar, mesmo se pudesse administrar a tarefa nas costas do cavalo.
Quando ele foi atirar, Will planejou estragar seu alvo. Ele estava confiante que poderia disparar várias flechas em rápida sucessão, colocando-as perto o bastante à cabeça do genovês para fazê-lo recuar. Ele lembrou o duelo com o compatriota do homem. Esses homens eram principalmente assassinos, acostumados a atirar de coberturas num alvo impotente, alguém que não estava ciente da presença deles. Eles não estavam acostumados a combate aberto, fitando um inimigo que atira de volta – e que atira com pontaria mortal.
Ele estava mais perto agora. O passo de Puxão estava regular e controlado, ao contrário do cavalo de fazenda, que estava desajeitado e cansado e tinha o genovês pulando desigualmente na sela.
Aqui vai! A besta apontou e ele viu a mão do genovês começar a esticar-se sobre o gatilho. As mãos de Will mexeram-se numa falta de clareza, puxando, soltando e jogando uma nova flecha para fora da aljava e para a corda do arco em tal rápida sucessão que ele tinha três flechas no ar nos segundos antes do genovês soltar.
Enquanto sua mão esticava-se no gatilho da besta, o assassino de repente tornou-se ciente do perigo. Algo sibilou ferozmente passando sua cabeça, aparentemente só alguns centímetros de diferença. E ele ficou ciente que mais dois tiros estavam a caminho, uma fração de segundo atrás do primeiro. Isso teria pego mais nervos confiantes do que ele possuía para parar um alvo frio e cauteloso – mesmo que ele não estivesse sendo sacudido e agitado pelo cavalo galopante. Ele abaixou-se, gritando uma maldição involuntária, e sua mão espalmou-se, empurrando dificilmente o gatilho e mandando a flecha em linha curva alto no ar, de forma que caiu inofensivamente na longa grama quase a cem metros distante.
O perigo passou. Will jogou o seu arco de lado. Não tinha tempo para amarrá-lo e podia retomá-lo mais tarde. Ele tirou os strikers do cinto e acelerou Puxão para um último estouro de velocidade. O assassino, vendo-o a somente quarenta metros de distância, batia freneticamente com os calcanhares nas costelas do cavalo. O animal exausto havia diminuído a um trote enquanto seu cavaleiro estivera preocupado e agora ele precisava de velocidade novamente. O cavalo respondeu tanto quanto pôde, mas Puxão estava diminuindo a distância entre eles agora.
Atrasado demais, o assassino começou a pegar uma das várias adagas que carregava. Mas o braço direito de Will subiu e então foi para frente num lance direto e poderoso. Os strikers reluziram na luz do sol enquanto viajavam no ar. Por um segundo, o assassino não os viu, não registrou o perigo. Então viu o metal voador e abaixou-se sobre o pescoço do cavalo.
O homem tinha reflexos como um gato, Will pensou. Os strikers voaram sem perigo sobre sua cabeça e desapareceram na longa grama. Will praguejou. Ele nunca as encontraria novamente. Ele puxou a faca de caça da sua bainha.
― Vá pegá-lo, Puxão ― ele disse e sentiu a reação do seu cavalo quando ele acelerou mais uma vez, agora se movendo tão rápido quanto Will nunca havia sentido ele mover.
Ele viu um brilho de aço na mão do genovês, reconheceu como uma das adagas de lâmina extensa que os assassinos carregavam. Ele segurou a faca de caça pronta e dirigiu Puxão para frente.
O genovês começou a virar o cavalo para encontrar o perseguidor, mas ele estava muito atrasado. Ele lançou uma vez, mirando Puxão, mas Will inclinou-se para frente sobre o pescoço do seu cavalo e desviou a fina lâmina com sua faca.
Então o ombro de Puxão atirou-se em total velocidade contra o exausto e desequilibrado cavalo de fazenda e mandou-o espatifando-se, de forma que ele chocou-se contra o chão no seu lado e deslizou por vários metros ao longo da superfície lisa de grama. O violento movimento prendeu a perna direita do genovês sob o corpo do cavalo. Os cascos do cavalo agitaram-se fracamente no ar, mas não fez nenhuma tentativa de se levantar. Estava acabado.
Instantaneamente, Will estava fora da sela. Ele correu para o assassino preso. O genovês perdera sua adaga na colisão e estava lutando freneticamente sob sua capa roxa para puxar outra.
Sem um segundo de hesitação, Will interviu e empurrou o pesado punho de metal da sua faca de caça no lado da cabeça do homem. Então, sem esperar para ver se o primeiro golpe foi bem sucedido, ele repetiu a ação, um pouco mais duro.
Os olhos do homem rolaram na sua cabeça. Ele soltou um fraco gemido e caiu para trás, sua perna direita ainda presa sob o cavalo caído. Will recuou para recuperar o fôlego. O segundo golpe provavelmente foi desnecessário, ele percebeu. Mas ele se divertiu.
― Isso foi por você ― ele disse para a figura quieta. ― E pelo cavalo em que você passeava.

Um comentário:

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