18 de dezembro de 2016

Capítulo 36

Os soldados arridi foram desarmados e levados a sentar no chão, cercados por mais de uma centena de guerreiros tualaghi. Selethen, os quatro araluenses e Svengal foram levados para um lado. Suas mãos estavam amarradas na frente deles e eles assistiram enquanto Yusal e dois de seus oficiais andavam entre os soldados sentados arridi.
— Eu poderia matar todos vocês agora — disse a eles. — Vocês sabem disso. Mas ao invés disso eu vou ser misericordioso.
Halt observava com ceticismo.
— E ele sabe que se começasse a matá-los, eles lutariam em resposta — disse ele em um lado para Evanlyn. — Mesmo que desarmados, ele iria perder alguns de seus próprios homens.
Os homens que estavam certos que iam morrer iriam lutar desesperadamente no final, ele sabia. Mas se houvesse uma réstia de esperança, não importa quão fraca, eles a pegariam.
— Vou manter os seus cavalos — Yusal continuou — e nós vamos tomar as suas botas. Então vocês podem ir.
Selethen começou a avançar com raiva, mas uma sentinela tualaghi o conteve.
— Ir? Ir para onde? — gritou ele.
O alto líder de guerra se virou para ele, os olhos acima da máscara azul desprovidos de qualquer sinal de misericórdia. Ele deu de ombros.
— Isso não é minha preocupação — disse ele asperamente. — Eu não pedi a esses homens para me acompanhar. Você fez. Se eu deixá-los agora no deserto, isso está em sua consciência, não minha. Pelo menos eu estou dando a eles uma chance.
— Que chance eles vão ter no deserto sem água? — Selethen desafiou e Yusal estendeu as mãos num gesto sarcástico.
— Eu disse que ficariam sem água? — ele perguntou. — Eu disse que iria pegar suas botas e seus cavalos. Eu não os quero nos seguindo. Mas a Palavra da Lei diz que nunca devemos deixar um viajante no deserto sem água. É claro que eles terão água. — Ele apontou para um dos seus homens. — Deem-lhes dois cantis de água — disse ele.
— Para mais de trinta homens? E alguns deles feridos? Isso não é o que a Lei significa e você sabe disso, seu assassino!
Yusal encolheu os ombros.
— Ao contrário de você, eu não pretendo conhecer a vontade de Deus, Seley el’then. A Palavra da Lei diz que a um estrangeiro deve ser dada a água. Não me lembro de uma quantia ser mencionada.
Selethen sacudiu a cabeça com amargura.
— Não admira que você seja o Esquecido de Deus, Yusal — disse ele.
O tualaghi vacilou no insulto, como se tivesse sido chicoteado. Ele se virou e deu uma ordem brusca a seus homens e houve um som de toque de aço, cem espadas foram retiradas e apontadas para as tropas arridi indefesas.
— Sua escolha, então, Seley el’then. Dê a palavra e meus homens vão matar os prisioneiros agora. Ou você preferiria que eles tivessem a minha misericórdia?
Sua mão foi levantada para dar o comando. Os músculos do queixo Selethen davam um nó enquanto tentava controlar a sua raiva e frustração. Um de seus soldados, um tenente, olhou para cima e chamou o wakir.
— Vossa Excelência, não se preocupe com a gente! Nós vamos estar bem! Nós vamos encontrar ajuda e vir atrás de você!
Yusal então riu.
— Que valentes! Talvez eu devesse matar este. Eu não gostaria de pensar que esse guerreiro feroz estaria seguindo meus passos.
Ele se aproximou do jovem oficial e puxou a sua própria espada. O arridi olhou para ele desafiadoramente.
— Sua escolha, Seley el’then — Yusal repetiu.
Selethen fez um pequeno gesto de derrota.
— Deixe-os vivos — disse ele calmamente e Yusal riu de novo.
— Eu achei que você poderia mudar seu pensamento.
Ele deu outro gesto para seus homens e suas armas foram recolhidas. Então se inclinou para o arridi jovem que havia falado. Seus olhos, escuros e cruéis como as de uma ave de rapina, miravam o soldado.
— Você é corajoso o suficiente agora, garoto — disse ele numa voz calma e amarga. — Mas espere até que sua língua esteja seca e inchada, tão grande que encha sua garganta para que você mal possa respirar. Espere até que seus pés estejam rasgados e cheios de bolhas pelo calor e as pedras. Seus olhos estarão cegos pelo brilho do sol e você desejará que seu líder tenha permitido te matar aqui e agora. Acredite em mim, ele não lhe fez nenhum favor hoje.
O jovem homem caiu ao olhar desafiador Yusal. O líder de guerra tualaghi bufou com desprezo.
— Solte-os no deserto!
Então, para os guardas que estavam reunidos em torno de Halt, Selethen e os outros, ele ordenou:
— Traga estes para o acampamento!
Ele virou-se, caminhou até seu cavalo, montou e partiu em direção ao cume sem olhar para trás.
Os guardas se moveram para o pequeno grupo de reféns. Quatro deles rodearam Svengal e mais dois postaram-se atrás dele. Obviamente, sua relação com Erak lhes havia ensinado o que esperar dos selvagens lobos do mar. Antes que Svengal pudesse resistir, um dos homens atrás dele deu um golpe na parte de trás do joelho com o cabo de sua lança. As pernas do escandinavo desmoronaram sob o golpe inesperado e ele caiu no chão. Imediatamente, os quatro soldados foram em cima dele, amarrando suas pernas com tiras de couro para que ele pudesse andar só de pés juntos, tomando meio-passos. Então, levantaram o grande homem novamente. Ele olhou para eles, a raiva fervendo dentro dele. Mas a visão dos punhais que o cercava foi suficiente para acalmá-lo.
Não havia nenhum ponto para o suicídio, ele percebeu.
Outro guarda aproximou-se e arrastou Evanlyn para fora do grupo. Horace foi para interceptá-lo, mas a cabeça de uma lança bateu em seu estômago parando seus passos. Ele caiu de joelhos, ofegante.
— A menina é uma refém valiosa— Halt advertiu o soldado. — Yusal não vai agradecer se ela for prejudicada.
O homem hesitou. Na verdade, ele só tinha se interessado pelo colar que Evanlyn usava. Ele o agarrou agora e arrastou-a sem equilíbrio conforme ele o examinava. Mas as pedras arredondadas redondas em um cordão de mármore eram sem valor.
— Fique com ele! — ele rosnou. — Eles não valem nada!
Ele empurrou-a para trás com os outros, em seguida, deu uma ordem rápida. Os guardas montaram e conduziram seus reféns a pé para o acampamento, as mãos amarradas firmemente diante deles com tiras de couro. Impelidos pelas pontas de lanças e maldições, eles tropeçavam no piso irregular.
Um dos guardas andava perto de Gilan. Ele tinha perdido três amigos para as flechas do arqueiro durante o ataque da manhã e tirava todas as oportunidades agora para bater o eixo da lança dolorosamente sobre os ombros e costas do arqueiro. A quarta vez que fazia isso, Gilan virou e olhou para ele com um sorriso peculiar.
— O que você está olhando, estrangeiro? — o guarda exigiu bruscamente.
O sorriso era um pouco inquietante. Um prisioneiro não deveria sorrir para seus captores assim, ele pensava.
— Estou apenas tendo certeza de que poderei lembrar-me de você — Gilan disse a ele. — Nunca se sabe quando isso pode ser útil.
A lança bateu em seus ombros. Ele recuou, em seguida, acenou de forma significativa ao cavaleiro tualaghi antes que ele começasse a arrastar-se até o morro mais uma vez.


Erak olhou para cima enquanto os reféns foram jogados para o chão sem a menor cerimônia ao lado dele.
Conforme Gilan tinha observado algumas noites antes, ele estava sentado no chão, acorrentado entre dois camelos ruidosos. Seu rosto estava machucado e seu cabelo emaranhado com sangue seco. Um olho estava quase fechado e havia marcas de chicote nos braços e nas costas.
— Ora, olha só o que os bons ventos trazem — disse ele alegremente. — O que o traz aqui, Halt?
— Viemos resgatá-lo — Halt disse a ele e o oberjarl olhou intrigado com as travas de couro que prendiam os seus amigos.
— Você escolheu uma estranha forma de fazer isso — disse ele.
Então, quando reconheceu Selethen, as sobrancelhas contraíram em uma careta hostil.
— Bom trabalho, wakir — disse ele.
Havia um tom de amargura na voz dele quando ele erguia as próprias mãos algemadas.
Selethen sacudiu a cabeça. Sua própria amargura correspondia a de Erak.
— Isso não era o que eu pretendia. Eu perdi vários bons homens — ele disse ao escandinavo.
Erak considerou a declaração por um momento, então sua expressão suavizou e ele concordou. Ele olhou para Svengal.
— Svengal, meu amigo — disse ele — quando eu lhe disse para ir buscar os araluenses, isso não é exatamente o que eu tinha em mente.
Svengal encolheu os ombros.
— Não se preocupe, chefe. Nós temos estes tualaghi cercados – a partir do interior.
— Exatamente — Erak respondeu secamente. Então ele apontou para o chão pedregoso. — Por que não se senta?
Enquanto os outros sentavam, Evanlyn ajoelhou ao lado do oberjarl. Gentilmente, ela examinou os ferimentos em seu couro cabeludo e o hematoma enorme em torno de seu olho.
— Você está bem, Erak? — perguntou ela.
Ele deu de ombros.
— Ah, eu estou bem. Eles nunca te ferem tanto que você não possa andar. E eles estão me tratando como um convidado de honra, um punhado de tâmaras mofadas, alguns pães roubados e um gole de água, em seguida, uma caminhada agradável no sol. Quem poderia pedir mais?
— Qualquer palavra de Toshak até agora? — Halt perguntou.
A expressão de Erak escureceu.
— Não pelo nome. Mas esse suíno Yusal insinuou que eu encontraria um conterrâneo em breve, e eu não acho que ele quis dizer você, Svengal. Eu não posso esperar. Se eu conseguir uma chance de colocar minhas mãos na garganta de Toshak, ele vai querer nunca ter nascido.
Ele olhou para Halt então.
— Raro de você ser pego de surpresa, Halt. Você está perdendo sua habilidade?
Halt levantou uma sobrancelha para ele.
— Pelo que eu tenho ouvido, você não foi bem também em Al Shabah — ele ressaltou e Erak encolheu os ombros tristemente.
— Eu acho que estamos todos ficando descuidados — disse ele.
— Você sabe para onde esse pessoal está indo, chefe? — Svengal perguntou.
— Eles não exatamente me consultaram. Eu só vou atrás da Matilda aqui — ele apontou um dedo a um dos dois camelos mais próximos. — Nós estamos completamente apaixonados um pelo outro — acrescentou, olhando malignamente a besta reclamante.
— As probabilidades são de que estamos indo para o Maciço do Norte — Selethen disse e Erak olhou para ele com interesse.
— Acredito que ouvi essas palavras sendo mencionadas — disse ele. — Bem, é melhor você descansar um pouco enquanto pode. É um longo dia quando se está andando.
Horace coçou a orelha, o movimento o fez infeliz pelo fato de que suas mãos estavam amarradas juntas.
— Que horas que eles nos alimentam? — ele perguntou.
Erak olhou para ele por um segundo, depois sorriu.
— Não mude jamais, Horace — ele disse.

2 comentários:

  1. O mundo está desabando e o Horace só pensa em comida!
    Ass: Bina.

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  2. Horace só não come quando ta lutando. Erak e seu bom humor. Kkkkkk. Já são reféns, não vai melhorar nada ficar de mau humor, só dar satisfação aos captores. Além disso, uma coisa é se lascar, outra menos ruim, é quando os amigos se lascam também.

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Boa leitura :)