29 de dezembro de 2016

Capítulo 35

O sol nasceu a mais de uma hora atrás. Seria um belo dia, mas o grupo ficou ao redor do baixo monte de terra recém-virada com suas cabeças abaixadas em aflição. Eles não tinham olhos para o tempo bom ou a promessa de um dia claro que seria.
Cabeça inclinada, Will colocou um marcador de madeira para a terra recentemente escavada na cabeça da rasa sepultura, depois se afastou para dar espaço para Horace colocar as últimas pás de terra no lugar. Horace afastou-se também, apoiando-se na pá.
― Alguém quer falar algumas palavras? ― ele perguntou como tentativa.
Malcolm olhou para Will por uma resposta, porém o jovem arqueiro balançou sua cabeça.
― Não sei se estou pronto para isso.
― Talvez seja apropriado se nós só ficarmos aqui parados por uns instantes? ― Malcolm sugeriu.
Os outros dois trocaram olhares de assentimento concordando.
― Eu acho que seria o melhor ― Will disse.
Horace se ajeitou numa posição de atenção e os três olharam de cabeças abaixadas para a sepultura. Finalmente, Will quebrou o silêncio.
― Muito bem. Vamos lá.
Eles pegaram as roupas, carregando nos cavalos. Horace chutou sujeira no fogo para apagá-lo e eles montaram. Will olhou por um momento para a terra fresca que formava um baixo monte sobre a sepultura. Então virou a cabeça de Puxão e partiu sem olhar para trás. Os outros o seguiram.
Eles cavalgavam lentamente indo para o norte, longe da trilha que estiveram seguindo por dias. Eles deixaram a sepultura e Tennyson e seus seguidores para trás.
Ninguém falou quando alcançaram a primeira montanha. Então, enquanto saíam de vista de qualquer um que estivesse vigiando, Will fez um breve sinal com a mão.
― Vamos lá ― ele disse e os três impeliram os cavalos num meio-galope.
Uns cem metros de distância onde o terreno tornava-se horizontal, e antes de erguer-se para ainda outra linha de montanhas, havia um pequeno bosque de árvores. Ele foi em direção ao bosque, virando levemente para a direita, os outros seguindo de perto por trás dele.
Conforme alcançavam o bosque, ele olhou para trás sobre o ombro para ver se havia alguém a vista atrás deles ainda. Mas a linha do horizonte estava vazia.
― Depressa! ― ele gritou.
Eles tinham de estar sob cobertura na hora que o espião genovês alcançasse aquele cume.
Ele puxou as rédeas de Puxão para pará-lo na beira das árvores e conduziu os outros dois atrás dele. Eles cavalgaram para o abrigo do bosque por uns metros, então desmontaram. Will, checando mais uma vez se ainda não havia sinal de um perseguidor, os seguiu. Ele desmontou também.
― Deixe os cavalos bem embaixo das sombras ― ele disse.
Horace deixou Kicker mais distante nas árvores. Num gesto de Will, Abelard e Puxão seguiram o cavalo maior.
― Eu vou dar uma olhada em Halt ― Malcolm disse.
O arqueiro descansava, ainda dormindo, no seu saco de dormir no centro do bosque. Eles o trouxeram aqui depois do anoitecer, numa cama pendurada entre Abelard e Puxão, e o deixaram confortável. Malcolm ficou com ele durante a noite. Antes do amanhecer, eles se arrastaram de volta ao acampamento para estar presente no “funeral”, durante o qual ele ficou de pé, fingindo um comportamento desolado, enquanto Will e Horace enterravam um pedaço de madeira enrolado num cobertor.
― Sem mudanças ― Malcolm falou suavemente agora para Will, depois de examinar Halt.
Will assentiu, satisfeito. Ficou preocupado sabendo que Halt foi deixado aqui desacompanhado por algumas horas, enquanto eles pretendiam acordar, encontrar o “corpo” e enterrá-lo com todos os sinais externos de tristeza que pudessem reunir.
Mas Malcolm tinha que voltar para o acampamento antes do espião retornar logo após o amanhecer, e decidiram que isso era um risco necessário. Ele esperava agora, quase dentro das árvores, mas atrás o suficiente de forma que estava numa profunda sombra e estaria invisível para qualquer um vigiando à distância. Ele examinou o horizonte ao sul zelosamente.
― Algum sinal? ― Horace disse baixinho, enquanto ele e Malcolm andavam para juntarem-se a Will.
Horace vestia a capa que Halt dera a ele, e Malcolm estava vestindo a capa do próprio Halt. Cada pedaço de esconderijo ajudara, e Will os instruíra a manterem o capuz na cabeça e continuarem à frente.
― Não! E pelo amor de Deus, pare de berrar!
Horace não podia ajudar sorrindo para a resposta irritada de Will. Mal fora um berro, Horace sabia. Mas ele perdoou o amigo pelo exagero. Will estava tenso de excitação. Esse seu truque tinha que funcionar para que Halt tivesse uma chance de sobreviver.
― O que é exatamente que você tem em mente? ― Malcolm disse, tomando cuidado para manter a voz baixa.
Will e Horace discutiram o plano de Will na noite passada, mas como Malcolm gastara o tempo mantendo o olhar sobre Halt, ele não estava certo dos detalhes.
― Estou esperando que ele venha checar se realmente partimos ― Will disse.
― E então você vai sair precipitadamente e capturá-lo? ― Malcolm perguntou.
Ele soou duvidoso sobre a ciência daquele plano casual e a firme resposta de Will confirmou suas dúvidas.
― Eu certamente não vou! Não tenho desejo de me matar. Os genoveses são atiradores experientes. Se me jogar contra ele, ele terá tempo o suficiente para colocar uma flecha em mim.
― Você atira melhor do que ele ― Malcolm disse.
Mas ele estava esquecendo um detalhe vital.
― Talvez. Mas eu quero pegá-lo vivo. Ele só irá me querer morto.
― Você não poderia atirar para feri-lo? ― Malcolm sugeriu.
Will estava sacudindo a cabeça antes que ele terminasse de falar.
― Muitos riscos. Eu estaria galopando muito rápido em Puxão. Um tropeço, um passo em falso e eu poderia perder o alvo. Se eu errar por alguns centímetros, poderia matar o genovês. E, além disso, mesmo se eu conseguisse feri-lo, ele ainda poderia me matar.
― Então... o que você vai fazer? ― Malcolm perguntou.
― Eu tenho que esperar até que ele não esteja esperando problemas. Quando ele vier nos procurar, estará completamente alerta ― Will explicou. ― Ele estará olhando para ter certeza que realmente partimos. Suponho que ele vá cavalgar para a próxima montanha. Aí, se ele não conseguir ver nenhum sinal de nós, estou esperando que ele vá rumar para o acampamento de Tennyson.
― Isso soa lógico ― Malcolm disse.
Mas Will pôde sentir que ele ainda estava confuso pela situação então ele explicou mais.
― Quando ele rumar para casa, provavelmente irá olhar para trás pelas próximas horas aproximadamente. Então relaxará um pouco quando se convencer de que realmente partimos. Quanto mais distante ele estiver, mais relaxará. Isso significa que eu terei a chance de pegá-lo de surpresa. Vou deixa-lo escolher o caminho primeiro, depois correr e ficar paralelo ao seu curso até apanhá-lo. Então vou para a frente dele e chegar o mais próximo possível antes dele me ver.
― Você ainda tem que capturá-lo.
Will assentiu.
― Sim. Mas ele estará cansado e não estará me esperando. Terei chances muito melhores de pegá-lo vivo se eu esperar algumas horas.
Malcolm assentiu, entendendo. Mas havia uma expressão preocupada no seu rosto.
― Halt pode não ter algumas horas, Will ― ele disse discretamente e o jovem arqueiro suspirou.
― Eu sei disso, Malcolm. Mas não vai fazer nenhum bem se eu me matar aqui, vai?
De repente, ele levantou uma mão para cortar qualquer resposta possível. Puxão soltou um baixo som de alerta, mal audível, e ele sabia que o pequeno cavalo ouvira alguma coisa.
Will assentiu para ele.
― Bom garoto ― ele sussurrou. ― Eu ouvi isso também.
Era o som de cascos de um cavalo tamborilando o chão liso. O som cresceu e Will agachou-se, gesticulando para os outros fazerem o mesmo.
― Lembrem-se ― ele advertiu ― se ele olhar nessa direção, não mexam um músculo.
Por vários segundos, não havia nada, então a batida dos cascos diminuiu e Will viu movimento no horizonte. Lentamente, um cavalo e cavaleiro elevaram-se na linha do horizonte. Os lábios de Will franziram em desprezo. O genovês poderia ser um inimigo perigoso nos becos e ruas de trás de uma cidade ou metrópole, ele pensou. Mas suas habilidades de campo eram miseravelmente deficientes. Se você fosse se mostrar na linha do horizonte daquele jeito, não havia nada a ser ganho por fazer isso lentamente.
O genovês estava fazendo isso e ele o reconheceu facilmente, notando o roxo pesado na capa e a besta nas mãos, carregada e pronta, atravessando a sela. O homem fincou os pés nos seus estribos, defendendo os olhos com uma das mãos, e examinou o chão abaixo dele, procurando algum sinal dos três cavaleiros. O terreno continuava por quilômetros numa série de pequenos cumes ondulados.
Para o genovês, parecia que Horace, Will e Malcolm já haviam partido juntos para o norte e estavam fora de vista. Aquilo fazia sentido, enquanto ele estava alguns minutos antes de partir atrás deles, no caso de estarem atrasados.
O genovês agora impulsionou o cavalo para frente, subindo o cume e atropelando a rasa inclinação diante dele. Ele não era nenhum rastreador, Will podia ver os sinais pesados que o genovês deixava através da floresta o que dizia que ele sabia pouco sobre habilidades de perseguição verdadeiras.
Ele observava enquanto o assassino passava trotando, aproximadamente a cento e cinquenta metros de onde eles se agachavam em segredo, depois subiu para o próximo cume. Novamente, ele repetiu a manobra inútil de reduzir a velocidade antes de alcançar o cume, aí expondo a si mesmo e ao seu cavalo completamente para olhar mais longe.
Obviamente, ele também não viu nenhum sinal dos três cavaleiros daquele ponto de observação. Ele hesitou por alguns minutos, então deu meia-volta com o cavalo para o sul e cavalgou de volta para o caminho que viera, passando pelo bosque de árvores mais uma vez.
Assim como antes, ele não deu atenção ao lugar onde os três estavam se escondendo. Ele cavalgou para a montanha sem pausar e eles ouviram o seu galope enfraquecendo lentamente. Will esperou alguns minutos, aí olhou para Puxão, afastado entre as árvores.
― Alguma coisa? ― ele perguntou.
O cavalo relinchou suavemente e sacudiu a cabeça. Suas orelhas levantaram, depois baixou de novo, não havia nenhum som para ele ouvir.
Pela primeira vez em aproximadamente trinta minutos, Will relaxou os músculos tensos. Ele podia sentir o efeito da tensão através dos ombros.
― Você acha que ele caiu nessa? ― Horace perguntou.
Will hesitou um segundo, então assentiu.
― Eu acho que sim. A menos que esteja nos enganando. Mas duvido que seja o caso. Ele não é muito bom em campo aberto. Provavelmente até você poderia enganá-lo, Horace ― acrescentou com um riso.
― Bem, muito obrigado ― Horace disse, levantando uma sobrancelha para ele.
Ele estava começando a divertir-se com aquela expressão.
― Você devia fazer isso sem mexer a outra sobrancelha ― Will falou para ele. ― Caso contrário, você só vai parecer tonto e surpreso.
Horace fungou em orgulhosa descrença. Ele estava convencido que atuara muito bem agora e os arqueiros estavam simplesmente com inveja que ele dominava um das suas expressões de estimação.
― Então o que vem depois? ― Malcolm interrompeu.
Ele conhecia esses dois e sentia que essa discussão poderia continuar em outra hora.
Will virou para ele, sua mente de volta a situação atual.
― Eu vou esperar por meia hora mais ou menos ― ele disse.  ― Quero que ele fique completamente convencido de que partimos. Depois vou fazer uma grande curva, correr para encontrar sua trilha e alcançá-lo antes dele chegar no acampamento de Tennyson.
― E aí você vai capturá-lo ― Horace disse.
Will assentiu para ele.
― Com alguma sorte, sim.
Malcolm sacudiu a cabeça em admiração.
― Assim, simplesmente ― ele disse. Tudo parecia muito simples.
Will olhou para ele, uma expressão séria no rosto.
― Assim simplesmente.
Então, percebendo que poderia ter soado um pouco orgulhoso, ele explicou melhor.
― Eu não tenho escolha, Malcolm, tenho? Você precisa saber qual veneno foi usado na flecha e ele é o único cara que pode nos dizer.
― Então agora esperamos? ― perguntou disse e Will assentiu.
― Agora esperamos.

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