18 de dezembro de 2016

Capítulo 35

Will estava checando os arreios e cordões que acompanhavam o seu equipamento para selar Puxão quando ouviu passos esmagando a areia atrás dele. Ele se virou para ver Umar se aproximando, um olhar preocupado sobre o seu rosto.
— Há algo que você deveria saber antes de sair — disse ele.
Haviam-se passado quatro dias depois da corrida – uma corrida que já estava prestes a se tornar parte da história oral dos bedullins. Nesse tempo, Will e Puxão tinham sido homenageados pela tribo, e tinham uma preocupação exagerada de Cielema. O estrangeiro alegre e sorridente e seu cavalo incrível com corpo de barril tornaram-se figuras populares no acampamento. Hassan e Will tinham se tornado bons amigos também, o jovem não tinha qualquer ressentimento por ter sido derrotado na corrida e perder o seu direito à Puxão. Os bedullins eram jogadores inveterados, como Will havia notado, mas aceitavam suas perdas sem reclamar.
A amizade foi ajudada pelo fato de que Umar, satisfeito com o resultado da corrida, presenteou Hassan com um cavalo do seu próprio rebanho – um parente de sangue do Tempestade de Areia. Hassan ficou muito feliz e se ofereceu para guiar Will em seu caminho para Mararoc.
O mistério do vacilante buscador do Norte tinha sido finalmente resolvido. Perguntado sobre como ele havia planejado para navegar no deserto sem trilhas, Will mostrou-lhes o buscador do Norte e explicou o segredo de suas propriedades magnéticas. Para demonstrar, ele tinha trazido a lâmina de sua faca de caça perto da agulha e mostrou como ela vacilava fora de campo magnético da Terra. Levou apenas alguns segundos para Umar para ver a conexão.
— Você andou pelas Montanhas Vermelhas? — ele perguntou e Will confirmou o fato. — Mas elas são quase ferro puro, enormes depósitos de ferro. Certamente isso serviria para tornar o seu instrumento não confiável.
Quando Will percebeu a verdade da afirmação, ele sentiu um pequeno alívio. No fundo de sua mente, ele ainda abrigava uma vaga suspeita de que Selethen lhe tinha dado um mapa falso. Por causa disso, sentiu uma culpa irracional que ele tinha falhado com a crença de Halt nele. Agora que podia ver uma razão para o erro – e percebeu que não poderia ter previsto – poderia colocar esses medos para descansar.
Enquanto estava preparando Puxão para a partida, um cavaleiro veio do deserto – empoeirado e desgrenhado, montando um cavalo cansado. Ele imediatamente fora à tenda de Umar para informá-lo. Will tinha visto isso sem nenhum interesse particular. Sem dúvida, era algum negócio que dizia respeito apenas ao bedullin. Agora, porém, ele não tinha tanta certeza.
Ele seguiu Umar para a larga e baixa tenda que ele ocupava com Cielema. Inclinando-se, ele entrou e fez o gesto de lábios, testa, lábios de saudação. Nos últimos dias, ele tornou-se familiarizado com isso.
A tenda estava coberta com um tapete grosso, com almofadas espalhadas por ele. Ele escolheu uma e sentou com as pernas cruzadas sobre ela na maneira da tribo. Um bedullin que ele não tinha visto antes estava sentado em outra, comendo e bebendo avidamente conforme Cielema o alimentava com frutas e água. Ele olhou para Will, depois olhou com curiosidade para Umar.
— Este é Jamil, um dos nossos batedores — explicou Umar, e o bedullin assentiu com a cabeça em saudação.
Ele estava na casa dos trinta anos, Will estimava, embora fosse difícil dizer com os homens bedullin, cuja pele era geralmente morena e fortemente marcada pelo sol.
— Este é o estrangeiro que lhe falei. Seu nome é Will.
Novamente, Will fez o gesto de saudação, pois pareceu-lhe adequado. Jamil pareceu um pouco surpreso de que um estrangeiro tivesse compreensão da etiqueta bedullin e respondeu apressadamente. Will olhou para Umar, uma pergunta em seu rosto. O aseikh apontou para Jamil para prosseguir.
— Diga a Will o que você nos contou.
Jamil terminou de chupar uma laranja, lambeu o último sumo de seus dedos e limpou a boca com um pano.
— Você estava viajando com um grupo de soldados arridi? — ele perguntou.
Era tanto uma afirmação como uma pergunta. Will assentiu com a cabeça em confirmação, franzindo a testa. Ele sentia, pela maneira séria do homem, que algo tinha dado errado.
— Correto — ele disse.
— E havia outros estrangeiros, bem... dois deles vestidos como você.
Ele indicou a capa marrom que Will estava vestindo. Mais uma vez, Will assentiu com a cabeça. O batedor bedullin balançou a cabeça em desagrado com o fato e a premonição de Will de más notícias iminente aprofundou.
— O que aconteceu com eles? — ele perguntou.
O bedullin olhou para ele um momento, então, felizmente, foi direto ao ponto, sem qualquer tentativa inútil de amenizar a notícia.
— Eles foram capturados pelos tualaghi — disse ele.
Will olhou rapidamente para Umar.
— Os tualaghi? — perguntou ele.
A expressão do aseikh era um desgosto intenso.
— Saqueadores. Bandidos. Os Esquecidos de Deus. Eles são nômades como nós, mas atacam outros viajantes e aldeias indefesas. Eles cercaram os seus amigos e os capturaram. Agora estão levando-os para o maciço do Norte, juntamente com wakir Seley El'then e seus homens sobreviventes. Houve uma batalha — ele acrescentou na explicação e Will sentiu uma pontada de medo.
— Uma batalha? Algum dos estrangeiros está ferido?
Jamil sacudiu a cabeça.
— Não. Eles foram levados acorrentados e com o outro estrangeiro. Eles estão presos como ele. Parece que...
Isso estava movendo rápido demais para Will. Ele ergueu a mão para parar a história do bedullin.
— Só um momento! O outro estrangeiro? Que outro estrangeiro que você está falando?
Jamil acenou pedindo desculpas, percebendo que era necessário mais explicações.
— Os tualaghi tinham capturado outro estrangeiro. Um dos homens selvagens vindos do norte. Havia um deles com o seu grupo também — acrescentou.
A cabeça de Will estava girando. Só poderia haver uma pessoa que ele estava falando. Mas Erak estava nas mãos dos arridi na última vez que ele havia ouvido.
— Isso é loucura — disse ele. — Você deve estar falando de Erak. Mas ele estava sendo levado para Mararoc com uma caravana arridi. Como é que de repente ele apareceu com esses tualaghi?
Jamil encolheu os ombros. Umar esfregou seu grande nariz.
— Talvez os tualaghi tenham atacado a caravana e capturaram o homem do Norte? — ele sugeriu.
Will assentiu para si mesmo, pensando furiosamente. Se fosse esse o caso, Gilan e Halt teriam sido capazes de ler os sinais do ataque. Em seguida, teriam ido atrás deles para uma emboscada, com Selethen e os seus homens em companhia. Ele balançou a cabeça para limpar seus pensamentos. Não importa como isso tinha acontecido, ele percebeu. O simples fato era que tinha acontecido.
Ele foi surpreendido, no entanto, que Halt e Gilan tivessem sido tão descuidados a ponto de permitir aos bandidos tualaghi conseguir rastrearem eles.
— Vocês têm alguma ideia de como os tualaghi perceberam que meus amigos estavam a segui-los? — ele perguntou.
Desta vez, os olhos do bedullin deslizaram fora de vergonha. Ele hesitou um instante antes de responder.
— Temo que eu os tenha levado para o acampamento dos seus amigos — disse ele.
E quando Will começou a levantar com raiva de sua posição sentada, Jamil rapidamente estendeu a mão.
— Não! Por favor! Não foi intencional! Eu não tinha ideia de que seus amigos estavam lá. Eu vi o grupo tualaghi ao longe e me aproximei para descobrir mais sobre eles. Eles eram um grupo muito maior do que o habitual, pelo menos duas centenas, talvez mais. Depois de escurecer, rastejei para perto do acampamento deles para ver com mais clareza. Foi quando vi o homem do norte, tinham-no prendido na clareira. Eu saí de madrugada e me dirigi para cá. Devo ter passado perto do acampamento de seus amigos sem querer. Mas um batedor retaguarda dos tualaghi encontrou minhas trilhas e as seguiu mais tarde naquela manhã, e elas o levaram para seus amigos. Eles estavam viajando paralelamente aos Velados, há vários quilômetros de distância. Se eu não tivesse inadvertidamente, cruzado suas trilhas, os tualaghi nunca teriam sabido que eles estavam lá.
— Como você sabe tudo isso? — Will perguntou.
O batedor respondeu infeliz.
— Eu voltei no dia seguinte para uma verificação adicional. Eu não tinha ideia até então que minhas trilhas haviam sido descobertas. Mas vi onde os tualaghi tinham me seguido, vi onde cruzaram o caminho dos seus amigos e viraram-se para segui-los. Eles devem ter pensado que eu fazia parte desse grupo. Sinto muito, Will. Eu não tinha ideia de que estava trazendo perigo para os seus amigos.
Will colocou as desculpas de lado. Não tinha sido culpa Jamil, ele percebeu. Tinha sido apenas má sorte condenável – Jamil foi o acaso, o elemento inesperado, que levou Halt e os outros a serem capturados. Como Halt tinha lhe dito tantas vezes, se alguma coisa pode dar errado, ela vai dar.
— Você não poderia ter sabido — disse ele. — Têm alguma ideia de onde eles poderiam estar os levando? — Ele abordou a questão para ambos.
— Eu diria que eles estavam indo para o maciço — disse Jamil.
Will olhou para Umar, que explicou.
— É uma enorme cadeia de penhascos, colinas e montanhas a noroeste. Há aldeias arridi espalhadas por todas as colinas e os tualaghi muitas vezes andam e se impõem sobre os aldeões, roubando suas colheitas e matando o gado. Um grupo de duzentos não teria nenhuma dificuldade em dominar uma vila ou mesmo uma pequena cidade. Provavelmente eles têm uma em mente e irão usá-la como sede por um mês ou dois. Então, quando o gado e abastecimento de alimentos se esgotaram, vão seguir em frente.
Will procurou em sua camisa e abriu o mapa que Selethen lhe tinha dado.
— Eu tenho que ir atrás deles! Mostre-me o lugar — ele exigiu.
Mas Umar colocou suas mãos sobre o jovem para acalmá-lo.
— Calma, amigo Will — disse ele. — Não vai adiantar nada apressar-se para o deserto sem um plano. Os tualaghi são inimigos perigosos. Eu preciso falar com o meu conselho e depois veremos o que pode ser feito.
Will foi argumentar, mas a pressão do aperto Umar aumentou.
— Confie em mim, Will. Dê-me uma hora.
Relutantemente, Will relaxou, dobrando o mapa e guardando-o ao seu esconderijo dentro da camisa.
— Muito bem — disse ele. — Uma hora. Mas então eu vou embora.


Will voltou para onde Puxão esperava pacientemente e afrouxou a barrigueira da sela para que o cavalo pudesse ficar mais confortável. Então ele se sentou de costas encostado ao tronco de uma palmeira, de olhos fechados, enquanto tentava fazer sentido da situação.
De alguma forma, ele teria que resgatar seus amigos. Ele sabia disso. Mas como? Estava sozinho e não era familiarizado com o território. Contra isso, seus amigos estavam sendo presos por duas centenas de bandidos armados, cruéis e sem piedade que iriam cortar suas gargantas sem hesitação. Ele era um estrangeiro. Se destacaria entre os aldeões arridi, mesmo que conseguisse encontrar a vila correta em primeiro lugar. Ele percebeu que nem sequer sabia onde pegar a trilha deixada pelos tualaghi. E se suas tentativas recentes de navegação fossem julgar por tudo, ele provavelmente nunca iria encontrá-los.
Ele deve ter cochilado, afetado pelo calor do dia. Foi despertado pelo som de Umar abaixando-se na areia ao lado dele com um grunhido fraco do esforço.
— Nós conversamos — ele disse simplesmente.
Will olhou para ele. Não havia nenhum indício do que ele e seus conselheiros decidiram em sua expressão branda.
— Você vai deixar Hassan me guiar para onde os tualaghi capturaram meus amigos? — ele disse.
Umar levantou a mão, palma para fora, para detê-lo.
— Deixe-me explicar. Aqui estão os fatos que eu coloquei para meu conselho. Os tualaghi não são nossos amigos. Um grande grupo de guerra como esse não significa nada de bom e eles poderiam atacar outros grupos bedullin menores do que este. Depois há a questão de Seley el'then. Eu não gosto do fato de que ele é seu prisioneiro.
— Você conhece Selethen? — Will perguntou.
O aseikh assentiu.
— Nós lutamos juntos contra os tualaghi. Ele é um homem bom. Um lutador corajoso. O mais importante, é um homem honesto, um homem que eu confio. Essas são boas qualidades em um wakir. Há sempre a possibilidade de que outro homem possa não ser tão honesto. E um monte de arridi tem ressentimentos de nós. Veem-nos como intrusos em seu país. Wakir Seley el'then sempre nos tratou bem. Pode não nos servir tê-lo substituído por alguém que não é tão honesto e imparcial.
Uma pequena chama de esperança estava começando a queimar no peito de Will conforme o aseikh continuava a analisar a situação.
— Você está dizendo que vai...? — ele começou, mas mais uma vez, Umar fez aquele gesto de palma para fora, para silenciá-lo.
— E há mais dois pontos a considerar. Um: você se tornou um amigo dos bedullins. Você salvou a vida do meu neto, e se comportou bem na questão da corrida. Meu pessoal gosta de você, Will. E nós levamos a sério a amizade.
— Você disse dois pontos — Will interpôs.
Umar sacudiu a cabeça, sua expressão muito séria.
— Como lhe disse Jamil, foi culpa dele que os seus amigos foram capturados. Se ele não tivesse sido tão desajeitado, os tualaghi nunca teriam sabido que eles estavam lá. Sua culpa, sua falha, torna-se a falha da tribo como um todo. Isso pesa muito na mente de Jamil... e na minha própria.
Will dificilmente se atrevia a ter esperança de que o que ele estava começando a pensar poderia ser verdade. Timidamente, como se por ser muito positivo isso poderia fazer a ideia se dissolver e se espalhar pelo vento, ele falou:
— Então você está dizendo que...
Ele não conseguia terminar a declaração. Umar fez por ele.
— Estou dizendo que estamos todos de acordo. Nós estamos indo para resgatar Seley el'then e seus amigos dos Velados.
Ele sorriu para o jovem homem exaltado ao lado dele.
— Claro, você está convidado a vir conosco se quiser.

2 comentários:

  1. Vcs acreditam que agora que foi cair a ficha que eles eram o grupo nômade de que o wakir tinha falado? Kkkkk ><

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Boa leitura :)