29 de dezembro de 2016

Capítulo 34

Os dois cavaleiros, conduzindo um terceiro e grande cavalo atrás deles, apareceram no horizonte ao norte.
Horace sentiu uma sensação esmagadora de alívio enquanto eles se aproximavam, podia distingui-los mais claramente a esta distância. Havia uma pequena probabilidade de que outros dois cavaleiros pudessem se aproximar, naturalmente, mas o tempo todo que ele estivera sozinho, se preocupara com a possibilidade de que Will chegasse à clareira do curandeiro para descobrir que Malcolm havia sido afastado para outra parte do feudo, ou estava incapacitado de algum jeito. Ou tivesse simplesmente se negado a vir.
― Eu deveria ter pensado melhor — falou para si, quando começou a sair do acampamento para recebê-los.
Eles o viram chegando e passaram os cavalos de um lento trote para um meio galope. Os cavalos, como seus cavaleiros, estavam sujos da viagem e cansados. Mas Puxão ainda tinha energia para levantar a cabeça e mandar um relincho de saudação para Horace. Era como se ele estivesse fazendo Kicker se lembrar de suas responsabilidades, e quando o grande cavalo de batalha ergueu os olhos para o som e reconheceu seu mestre, ele relinchou brevemente.
Eles diminuíram o passo até pararem ao lado de Horace, que ergueu sua mão em cumprimento e envolveu a mão magra do curandeiro, que lhe lembrava um pássaro, na sua própria.
― É bom vê-lo — ele disse. ― Obrigado por vir, Malcolm.
Malcolm recuperou sua mão, recuando levemente da pressão do aperto de Horace.
― Como eu poderia recusar? Você sempre tenta esmagar a mão dos seus amigos nessas suas patas pesadas?
― Desculpe. É só alívio por ver vocês, eu suponho — Horace sorriu.
― Como está Halt? — Will perguntou ansiosamente.
Era a pergunta que estivera atormentando-o o tempo todo que esteve fora. Os modos de Horace eram tranquilizadores. Will sabia que ele não estaria tão alegre se Halt estivesse pior. Mas ele precisava ouvir isso.
― Na verdade, acho que ele está melhorando — Horace disse para eles.
Ele viu os ombros de Will levantarem-se em alívio. Mas ele estava surpreendido pela reação de Malcolm. O curandeiro franzira a testa levemente.
― Melhorando? — ele perguntou rapidamente. ― De que jeito?
― Bem, dois dias atrás ele estava falando coisas sem sentido e delirando. Não tinha ideia de onde estava e do que estava acontecendo. Ele pensou que era algum tempo há vinte anos atrás. E pensou que eu era outra pessoa também.
Malcolm assentiu.
― Entendo. E o que lhe faz pensar que ele está melhorando?
Horace fez um gesto vago com suas mãos.
― Bem, ontem, ele saiu dessa. Ele acordou e estava totalmente ciente de onde estava, do que acontecera e de quem eu era.
Ele sorriu para Will.
― Ele estava irritado por você ir buscar um curandeiro. Disse que você devia ter continuado atrás de Tennyson e deixá-lo.
Will bufou.
― Tenho certeza de que é exatamente o que ele faria se eu estivesse envenenado.
Horace riu.
― Eu disse quase a mesma coisa para ele. Ele enrolou um pouco, mas admitiu que eu estava certo. Depois ele se queixou sobre meus métodos culinários.
― Soa como se ele estivesse se recuperando — Will concordou.
Eles alcançaram o acampamento e Malcolm desmontou de Abelard. Ele não era um cavaleiro habilidoso e completou o feito balançando um pé sobre o estribo e deslizando pelo lado errado.
Horace segurou-o quando ele tropeçou, suas pernas duras cedendo atrás dele.
― Obrigado — disse o curandeiro. ― Seria melhor dar uma olhada nele imediatamente. Ele está dormindo há muito tempo?
Horace pensou antes de responder.
― Várias horas. Ele acordou nessa manhã. Aí voltou a dormir. Depois acordou de novo à tarde. Está dormindo muito mais calmo — ele adicionou.
Ele queria saber por que havia uma vaga expressão de preocupação no rosto de Malcolm. Talvez estivesse chateado porque viajara de tão longe e tão rápido só para descobrir que ele não era necessário afinal de contas, ele pensou. Ele descartou a questão e virou para Will.
― Por que você não descansa um pouco? — ele disse. ― Eu vou cuidar dos cavalos.
Mas Will fora treinado numa escola rígida. Ele sempre se sentia vagamente culpado em concordar que alguém mais cuidasse do seu cavalo.
― Eu vou cuidar de Puxão — ele disse. ― Você pode cuidar dos outros.
Eles deixaram os cavalos um pouco distantes da fogueira e deram a eles água do balde que Horace enchera só uns minutos atrás. Depois tiraram as selas dos cavalos e começaram a lavá-los.
Kicker parecia excessivamente satisfeito por ver seu dono. Na verdade, ele tivera o trabalho mais fácil de todos os três cavalos na viagem. Malcolm olhara para ele com horror quando o viu pela primeira vez.
― Você espera que eu monte isso? — ele havia perguntado. ― Ele é do tamanho de uma casa!
Consequentemente, ele passou a maior parte da viagem montado em Abelard. O pequeno cavalo mal notou seu peso. Malcolm era pequeno e magro, a ponto de ser esquelético, portanto, não muito pesado.
― Alguma coisa aconteceu enquanto eu estava fora? — Will perguntou. ― Além da melhora de Halt?
― Na verdade, sim — Horace disse para ele.
Ele percorreu os olhos para onde Malcolm estava curvado ao lado de Halt, inclinando-se sobre ele e atendendo-o. Decidiu que o curandeiro não estava ao alcance da voz, embora não entendesse totalmente o porquê daquilo importar. Em voz baixa, ele rapidamente falou para Will sobre o observador nas montanhas ao sul.
Will, experiente em tais assuntos, não cometeu o erro de principiante de olhar para a cadeia de montanhas. Ele permaneceu com os olhos abaixados.
― Você tem certeza que é o genovês?
Horace hesitou.
― Não. Eu não tenho certeza. Eu acho que é ele. Estou certo que é alguém. Encontrei o lugar onde ele estava se escondendo.
― E você diz que ele partiu ao anoitecer? — Will continuou.
Isso estava ficando mais e mais difícil de entender.
― Isso mesmo. E voltou essa manhã — Horace falou para ele.
Will enrugou os lábios, acabou de enxugar Puxão e deu uns tapinhas distraidamente no seu pescoço várias vezes.
― Mostre-me onde — ele disse.
Horace também não era principiante. O alto guerreiro andou para pegar uma roupa seca, então, virou-se para Will, de costas para a linha de montanhas ao sul.
― Deve ser exatamente acima do meu ombro — ele disse.
E Will, fingindo olhar para ele enquanto conversavam, deixou os olhos escanearem sobre o ombro de Horace, sondando o horizonte. Horace, observando seu rosto, viu seus olhos pararem de se mexer e a pele ao redor deles apertando-se subitamente.
― Eu o vejo — Will disse. ― Só a cabeça e os ombros. Agora ele está de cabeça abaixada. Se não tivesse feito isso, eu não poderia localizá-lo.
― Ele está ficando convencido — Horace disse para ele. ― Não está tentando se esconder muito. E ele se mexe muito, também.
― Hum — Will disse. ― Que diabo ele está tramando? Por que ele não partiu simplesmente?
― Estive pensando sobre isso — Horace disse. ― Talvez Tennyson esteja atrasado, e nosso amigo aqui esteja se certificando de que nós não o estamos seguindo rapidamente.
― Atrasado pelo quê? — Will perguntou e Horace encolheu os ombros.
― Pode ser que ele esteja doente ou ferido. Talvez ele esteja esperando alguém. Eu não sei. Mas deve estar escondido em algum lugar por perto, porque o espião dele ali em cima desloca-se à noite e depois volta aqui na luz do dia.
― Ele está esperando para ver o que faremos — Will disse, conforme se tornava claro para ele. ― Ele sabe que Halt está envenenado. Ouviu-o gritar quando a flecha acertou-o. Então assume que Halt morrerá. Ele não sabe quem Malcolm é ou como ele é hábil.
Engraçado como ele simplesmente assumiu que Malcolm conseguiria salvar Halt.
Horace estava confirmando com a cabeça.
― Poderia ser isso. Se eles tivessem de parar, só faz sentido que eles deveriam continuar vigiando a gente. Ele pode muito bem assumir que se Halt morrer, nós vamos desistir e voltar para casa. E, obviamente, ele não tem jeito de saber que Halt está ficando melhor.
― Não seja tão rápido com essa suposição — Malcolm disse atrás deles.
Eles viraram para encará-lo e sua expressão era grave.
― Mas ele parecia estar! — Horace protestou. ― Eu pude ver isso com meus próprios olhos e certamente não sou um curandeiro. Ele estava muito melhor essa manhã e ontem à tarde. Totalmente lúcido.
Mas Malcolm estava balançando sua cabeça e Horace parou seu protesto.
― Acho que sei qual é o veneno. Mas se eu estiver certo, esses são os sintomas.
― Do quê? — Will perguntou.
Sua boca estava numa linha apertada.
Malcolm olhou para ele desculpando-se. Como um curandeiro ele odiava situações como essa, quando tudo que ele tinha para oferecer eram más notícias.
― Começa com delírio e febre. Um minuto ele está no presente, depois no passado. Então ele está totalmente no passado e alucinando. Esse é o segundo estágio. Quando você disse que ele lhe confundiu com alguém. Então há o estágio final: clareza e conhecimento mais uma vez e uma aparente recuperação.
― Uma aparente recuperação? — Will repetiu.
Ele não gostava do som daquela frase.
Malcolm deu de ombros.
― Também tenho medo. Ele já está em um estágio avançado. Não sei quanto tempo pode ter lhe restado.
― Mas... você pode cuidar dele? — Horace perguntou. ― Tem um antídoto para esse veneno, não tem? Você disse que sabe qual é.
― Eu acho que sei qual é — Malcolm disse. ― E tem um antídoto.
― Então eu não vejo o problema — Horace disse.
Malcolm tomou um profundo fôlego.
— O veneno deriva dois possíveis tipos, ambos do gênero aracoina — ele disse ― um é derivado da planta aracoina que possui flores azuis. A outra vem da espécie de flores brancas. As duas causam virtualmente os mesmos sintomas, os que eu acabei de descrever aqui.
― Então... — Will começou, mas Malcolm parou-o.
― Há dois antídotos. Eles são muito comuns. Tem eficácia quase que imediata e eu tenho os ingredientes para os dois. Mas se eu tratá-lo com aracoina branca e ele estiver envenenado com a espécie azul, isso irá, quase certamente, matá-lo. E vice-versa.
Horace e Will ficaram num silêncio surpreso enquanto Malcolm falava. Aí ele continuou.
― É por isso que porcos assassinos como esses genoveses preferem veneno de aracoina. Mesmo que um curandeiro possa preparar um antídoto, ainda há uma chance paralela que a vítima morra.
― E se nós não sabemos qual foi usado? — Will perguntou.
Malcolm sabia que a pergunta estava vindo e agora ele tinha que mostrar para esse jovem que ele estava admirando um dilema sinceramente terrível.
― Se não o tratarmos, ele certamente morrerá. Se nos rebaixarmos a isso, prepararei ambos os remédios, então vamos tirar cara ou coroa e decidir qual usar.
Will levantou os ombros caídos e fitou Malcolm nos olhos.
― Não — ele disse. ― Não haverá nenhum cara ou coroa. Se uma decisão tem que ser tomada, eu irei tomá-la. Não terei a vida de Halt decidida em um lance de sorte assim. Eu nunca poderia voltar e contar para Lady Pauline como que fizemos isso. Eu quero isso feito por alguém que ama ele. E esse sou eu.
Malcolm assentiu com o reconhecimento do estado.
― Eu esperava ter uma coragem como a sua em um momento como esse — ele disse.
Mais uma vez, como ele fizera há vários meses, ele observou o arqueiro diante dele e admirou-se com a força e a profundidade de caráter de alguém tão jovem. Horace foi para mais perto do amigo e colocou sua mão gigante no ombro de Will. Malcolm viu as articulações dele brancas com a pressão do agarramento enquanto ele apertava, deixando Will saber que não estava sozinho.
Com um triste e pequeno sorriso, Will colocou sua mão sobre a dele e cobriu a mão do amigo. Eles não precisavam falar nesse momento.
E naquela noite, por volta da meia-noite, depois de horas gastas fitando sem palavras as brasas lânguidas do fogo, Will tomou sua decisão.

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