18 de dezembro de 2016

Capítulo 34

Halt e Horace voltaram para o pátio, onde Kicker e Abelard esperavam pacientemente. Halt estava omisso quando eles montaram e cavalgaram para fora do castelo. Não era surpresa para Horace.
Halt, na maior parte das vezes, falava pouco, e hoje tinha muita coisa para ocupar sua mente. Horace tentou imaginar o que deveria ter sido para o seu mentor não oficial – porque ele também tinha aprendido muito com Halt e continuava a fazê-lo – enfrentar seu irmão traiçoeiro após sua longa ausência. Um sorriso irônico tocou sua boca, quando ele considerava o outro lado da moeda. Presumivelmente, ela tinha sido uma experiência perturbadora para Halt. Mas deveria ter sido dez vezes pior para Ferris, ele pensou, e o comportamento do rei tinha assumido isso. Pensar no rei trouxe uma pergunta para os lábios e ele perguntou abruptamente, sem qualquer preâmbulo.
— Você confia nele, Halt?
O arqueiro olhou para ele e sua resposta disse a Horace o que ele estava pensando no mesmo sentido.
— Ferris? Não tanto quanto eu poderia chutá-lo. E eu gostaria de ver o quão longe ele iria  ele acrescentou, com uma pitada de amargura em sua voz. — Mas eu confio em Sean. Ele vai manter Ferris na linha. E vai ter certeza que ele mantém a sua palavra.
— Ele é um homem bom  Horace concordou. — Mas ele pode realmente fazer isso? Afinal, Ferris é o rei. Certamente ele pode fazer o que ele quiser.
Mas Halt sacudiu a cabeça.
— Não é fácil, mesmo para um rei. Especialmente para este — ele adicionou. — Ferris sabe que precisa de Sean. Ele confia nele. Você não notou que nenhum desses guardas do castelo liga para o que Ferris quer? Não percebeu que, quando Ferris mandou-lhes sair, nenhum deles se mexeu até Sean lhe deu consentimento? Se Ferris tentar nos enganar ou trair, ele vai perder Sean. E agora ele precisa dele.
— Eu suponho que sim  Horace concordou.
Halt invariavelmente sabia mais sobre esse tipo de coisa do que ele. Horace, como a maioria dos soldados, odiava a política, e a evitava tanto quanto podia. Arqueiros, como ele tinha notado em mais de uma ocasião, pareciam estar em casa com as negociações em segredo, intrigas e subterfúgios que pareciam ir com a decisão de um país. Se Halt ficou satisfeito, Horace pensou, isso era suficientemente bom para ele. Ele tinha assuntos mais urgentes a exercer a sua atenção. Como o almoço.
— O que nós faremos agora?  ele perguntou depois de mais alguns minutos de silêncio.
Halt olhou para cima, saindo de seu devaneio com a pergunta.
— Acho que encontramos uma pousada confortável  ele disse.
Horace assentiu, então um pensamento lhe ocorreu.
— E Will? Como ele vai saber onde nos encontrar?
— Ele vai saber  Halt respondeu confiante. Então ele esticou as costas rígidas e os músculos dos ombros. — Vamos encontrar essa pousada. Eu não sei sobre você, mas eu poderia ter algumas horas de sono.
Horace assentiu em acordo.
— Sim, uma boa refeição e depois de algumas horas em uma cama macia faria maravilhas.
— Acho que vou pular a refeição  disse Halt.
Horace olhou para ele, horrorizado. Como alguém poderia pensar tal coisa estava além dele.
Eles encontraram uma pousada adequada na base da colina que levava até Dun Kilty. A pousada era um edifício de dois andares, como a maioria das pousadas eram, mas essa era maior do que a maioria. A sala de cerveja e bar era grande e as paredes um pouco maior do que o normal, evitando o sentimento apertado que Horace tinha experimentado nas pousadas de Mountshannon e Craikennis. Ele podia andar ereto sob vigas do teto neste edifício, e deu um pequeno suspiro de alívio quando percebeu o fato. Mais de uma vez enquanto tinham viajado em Hibernia, ele conseguido bater a cabeça no teto baixo de vigas.
Os quartos eram no segundo andar. Eram grandes e arejados, com janelas envidraçadas que se abriam para deixar a brisa entrar, e permitiam uma visão da rua em qualquer direção. Se você se esticasse para fora, como Horace fez, poderia até mesmo ter um vislumbre do castelo, no alto da colina acima deles.
Os lençóis nas camas estavam limpos e os cobertores tinham sido trocados. Demasiadas vezes em sua longa carreira, Halt havia sido forçado a permanecer nos estabelecimentos onde eles davam amplas provas de quem tinha estado ali antes dele. Ele olhou ao redor da sala com a aprovação, testou o colchão com as mãos e a aprovação cresceu.
— Nós vamos ficar  ele disse a proprietária que lhes mostrou o quarto.
Ela assentiu com a cabeça. Não esperava outra resposta.
— Quantas noites?  ela perguntou.
Halt considerou a questão.
— Esta noite e amanhã — disse ele. — Podemos ficar mais tempo, mas isso é o que planejamos no momento.
Ele enfiou a mão na carteira pendurada em seu cinto e pagou-lhe antecipadamente para duas noites. A proprietária fez uma reverência com graça surpreendente pela circunferência grande que tinha e guardou o dinheiro em um bolso do avental.
— Obrigado, sua honra  ela disse e Halt assentiu.
Ela ficou na expectativa.
— Haverá mais alguma coisa?
— Não. Nós ficaremos bem — disse Halt.
Mas Horace o interrompeu.
— Vocês ainda estão servindo comida na sala de cerveja?  perguntou ele e o rosto dela estava envolto em um sorriso enorme.
— Pelo amor de Deus, mas é claro que estamos, meu jovem! E esse olhar me diz que você poderia comer um cavalo!
Halt nunca deixou de ficar fascinado pela maneira como as mulheres, jovens ou velhas, grandes ou pequenas, nunca podiam resistir à tentação de alimentar Horace.
— Eu prefiro um bife  o jovem guerreiro disse, sorrindo.
A dona da pousada deu uma risadinha, seu queixo balançou com o esforço.
— E você terá isso, jovem senhor! Eu vou dizer Eva para colocar em um para você.
— Eu poderia estar um pouco com fome também  Halt disse irritado.
Ele não estava. Simplesmente falou para ver o que iria acontecer. Como ele adivinhou, seu comentário foi completamente ignorado. A dona da casa continuou a sorrir para Horace.
— Venha para baixo quando estiver pronto, jovem senhor  ela disse a Horace efusivamente.
Halt encolheu os ombros e desistiu. Ele caiu de volta na cama, as mãos atrás da cabeça e soltou um suspiro de satisfação. A dona o considerou gelada.
— Botas e capa fora da cama!  ela disse maliciosamente e Halt a obedeceu rapidamente.
Ela cheirou e foi se afastando enquanto ele murmurava:
— Aposto que você não teria dito isso a Horace.
Ela balançou de volta imediatamente, a suspeita escrita grande em seu rosto.
— O que foi?
Em sua vida, Halt enfrentou Wargals, o terrível kalkara, escandinavos loucos por sangue e hordas temujai sem tremer. Mas uma senhora mal-humorada era um assunto completamente diferente.
— Nada  ele disse a ela mansamente.


Quando Horace voltou uma hora depois, o seu cinto apertado satisfatoriamente em torno de sua cintura, Halt se estendeu sobre uma das camas. Horace bloqueou e trancou a porta, então sorriu quando viu que as botas do arqueiro estavam juntas ao lado da cama e a capa tinha sido afastada.
Halt estava roncando baixinho, um fato que interessava Horace. Ele nunca ouvido Halt roncar quando eles estavam acampados em um território hostil. O arqueiro sempre dormia tão leve quanto um gato, acordado pelo menor ruído. Talvez quando eles estavam em tais situações, Halt nunca chegava ao reino do sono profundo que levava ao som suave roncando ele que ouvia agora.
Horace bocejou. A visão do arqueiro esticado e relaxado o fez perceber o quão cansado ele próprio estava. Tinham sido dias agitados e a única noite boa que eles haviam desfrutado tinha sido em Mountshannon, na hospedaria deserta. Desde então, houve muita cavalgada difícil.
Ele sentou-se na outra cama, tirou suas botas e deitou-se. O travesseiro era suave e o colchão, depois de semanas dormindo na fria e inflexível terra, estava celestial. Ele ainda estava maravilhado com a forma como se sentia confortável quando ele adormeceu.
Alguém tossiu.
Instantaneamente, Horace se atirou de pé da cama, confuso e desorientado, perguntando onde estava por alguns segundos antes de se lembrar. A luz de fora da janela estava morrendo conforme o crepúsculo se apoderava de Dun Kilty. Ele olhou para Halt. O arqueiro ainda estava esticado na cama, as mãos atrás da cabeça. À luz de escurecimento, Horace pôde ver que os olhos do Halt estavam fechados, mas o arqueiro falou sem abri-los.
— É uma tosse horrível que você tem aí  falou.
— Eu pensei que tivesse tropeçado na Bela Adormecida e sua irmã feia  disse outra voz — esperando o beijo do amor verdadeiro para acordá-los de seu sono. Perdoem-me se eu não fizer isso.
Horace girou na voz. Uma figura encapuzada com capa estava sentada no canto mais escuro do quarto – Will, ele percebeu.
A voz de Halt era de desprezo quando ele respondeu.
— Dormindo? Eu estive acordado desde que você tropeçou pelas escadas e bateu a porta como uma bailarina de uma perna só. Quem poderia dormir com esse barulho?
Eu poderia, obviamente, Horace pensou. Então ele se lembrou que tinha trancado a porta atrás dele e se perguntou como Will tinha conseguido ultrapassar esse pequeno problema. Ele deu de ombros. Will era um arqueiro. Eles podiam fazer essas coisas.
Seu amigo riu quando ele respondeu à declaração de Halt.
— É um barulho estranho que você faz quando está acordado  disse ele, o sorriso evidente em sua voz. — O que como é que eles chamam? Ah, sim, ronco. Muito talento. A maioria das pessoas só pode fazê-lo quando estão dormindo.
Halt sentou-se agora, balançou as pernas para fora da cama, esticou os braços acima da cabeça e apertou-se.
— Bem, obviamente eu continuei com a pretensão de ronco  disse ele. — Eu queria ver quanto tempo você continuaria a se sentar aí.
— E quanto tempo eu fiquei?  Will desafiou.
Halt sacudiu a cabeça tristemente e voltou-se para Horace.
— Horace, quando ficar mais velho, tente evitar ser confrontado com um aprendiz. Não só eles são um maldito incômodo, mas aparentemente sentem constantemente a necessidade de tirar o melhor de seus mestres. Eles são ruins o suficiente quando estão aprendendo. Mas quando se formam, se tornam insuportáveis.
— Eu vou ter isso em mente  disse Horace gravemente.
Mas ele percebeu que Halt tinha inventado isso para evitar responder a pergunta de Will. O arqueiro mais jovem tinha percebido isso também, mas decidiu deixar seu mentor se safar dessa.
Halt ocupou-se em iluminar o pequeno lampião na mesa entre as duas camas. Quando a chama se acendeu espalhou sua luz suave nos cantos da sala, ele virou-se para Will, curioso.
— Eu não te esperava tão cedo  disse ele. — Alguma coisa de errado?
Will deu de ombros.
— Não na verdade. Tennyson decidiu que menestréis não eram bem-vindos em seu acampamento e queriam confiscar minha bandola, assim...
— Sua o quê?  Halt perguntou, franzindo o cenho.
Will suspirou de frustração.
— Meu alaúde.
Halt assentiu, entendendo agora.
— Ah. Certo. Siga em frente.
Will ergueu as sobrancelhas para Horace e o guerreiro sorriu com simpatia.
— Assim  Will continuou  decidi sair. Eles estão levantando acampamento de qualquer maneira e estão se dirigindo diretamente para cá.
Halt esfregou a barba, pensativo.
— Eu não esperava por isso — disse ele. — Pensei que ele iria gastar mais uns dias para reunir seus apoiadores.
— Ele não precisa. Deve ter quatrocentos com ele agora. Além disso, acho que a notícia de Craikennis chegou a ele. Um mensageiro chegou outro dia e suas notícias tinham deixado Tennyson muito chateado mesmo. Acho que ele matou o mensageiro, na verdade.
— Faz sentido  Horace acrescentou — ele não iria querer a notícia da vitória do Guerreiro do Sol Nascente se espalhando.
— Não. Ele não iria  disse Halt. — E você diz que ele tem quatro centenas de pessoas com ele agora?
— Pelo menos  Will disse. — Naturalmente, a maior parte deles são camponeses, e não combatentes treinados. Mas ele tem um círculo de apoiadores, incluindo os dois pugilistas gigantes, Killeen e Gerard.
— Ainda assim, uma força de quatrocentos não é para ser desprezar. Duvido que Ferris possa levantar mais de cem, talvez cento e cinquenta soldados. Isto é, se eles escolherem obedecê-lo.
— Como é que foi com Ferris?  Will perguntou. — Ele estava contente em vê-lo depois deste tempo todo?
— Dificilmente  Halt disse secamente. — Ele já tinha estado em contato com Tennyson. Estava pensando se vender.
— Estava?  Will solicitou.
— Eu acho que Halt o persuadiu do contrário  Horace disse, com um sorriso. — Voltaremos para tomar sua resposta amanhã.
Will balançou a cabeça em dúvida.
— Você está cortando-o bem, então. Os forasteiros poderão estar aqui até amanhã.
— Isso pode tornar as coisas difíceis  disse Halt. — Mas não há nada que possamos fazer sobre isso. Se eu tentar apressá-lo e vê-lo hoje à noite, ele vai colocar perceber. Especialmente se ele achar que estamos em pânico.
Ele considerou o assunto em silêncio por alguns segundos, depois continuou.
— Não. Nós vamos manter o cronograma original. Will, no momento, nós vamos mantê-lo fora da vista. Você fica aqui.
Will deu de ombros.
— Se você disser que sim. Alguma razão especial? Você não tem vergonha de mim, tem?  ele acrescentou em tom brincalhão.
Um leve sorriso tocou o rosto Halt, o equivalente a uma gargalhada em qualquer um.
— Não mais do que normalmente  disse ele. — Não. Mas Ferris está acostumado com nós dois. Se voltarmos com uma pessoa extra, isso vai torná-lo medroso.
Ele suspirou.
— Tudo faz aquele o homem ficar com medo. E, além disso, pode ser útil se nós o mantivermos na reserva. Nunca fere ter um craque em potencial na sua manga.
— Então eu sou um craque? — Will sorriu. — Estou lisonjeado, Halt, lisonjeado. Eu não tinha ideia que você me olhava tão alto.
Halt deu-lhe um olhar de longo sofrimento.
— Eu poderia ter sido mais exato ao dizer palhaço.
— Tudo o que você diz.  Um pensamento atingiu Will. — Ah, eu queria dizer: Tennyson tem três novos recrutas. Estrangeiros, vestidos de couro, com capas roxas e enormes chapéus emplumados. Eles carregam balestras e toda uma coleção de punhais – e parecem saber usá-los.
A expressão de Halt se tornou séria enquanto ele ouvia a descrição. Ao falar das armas, ele balançou a cabeça.
— Genoveses — ele murmurou.
Horace franziu a testa com a palavra.
— Geno quem?  ele perguntou.
Ele nunca tinha ouvido essa palavra antes.
Halt sacudiu a cabeça.
— Vocês guerreiros não tem muito de geografia na Escola de Guerra, não é?
Horace encolheu os ombros.
— Nós não somos bons nesse tipo de coisa. Esperamos que o nosso líder aponte para um inimigo e diga: “Vá bater nele”. Deixamos geografia e tal para arqueiros. Gostamos de deixar vocês se sentirem superiores.
— Vá bater nele, certo  Halt disse. — Deve ser confortante levar uma vida tão descomplicada. Eles são da cidade de Gênova, na Toscana. São mercenários e assassinos profissionais – que é praticamente a principal atividade da cidade. Além de suas armas, eles geralmente conhecem uma dúzia de maneiras de envenenar suas vítimas. Se Tennyson contratou três deles, está investindo pesado. Eles não são baratos e são problema.
Will estava concordando em conhecimento.
— Genoveses. Eu pensei nisso  disse ele.
Horace lançou um olhar triste em sua direção.
— Você não tinha ideia  disse ele, e Will não conseguia manter uma expressão séria.
— Talvez não. Mas eu sabia que eles eram problema  disse ele.
Seu sorriso se desvaneceu quando Halt respondeu.
— Oh, eles são o problema, sim. Eles são um grande problema. Tenha muito cuidado se se depararem com eles, vocês dois.

4 comentários:

  1. "— Oh, eles são o problema, sim. Eles são um grande problema. Tenha muito cuidado se se( não seria só um se?) depararem com eles, vocês dois."

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    1. Não, um "se" é de condição, outro é reflexivo. Tipo, "Tenha muito cuidado se vocês se depararem com eles"

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    2. Até Halt tem o conhecimento do poder de uma senhora mal-humorada

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  2. kkkkk. Vou convidar Horace para se meu guarda costa é só eu dizer "Vá bater nele!" que ele vai. kkkkkkkkkk.

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Boa leitura :)