29 de dezembro de 2016

Capítulo 33

Alguém estava observando-os.
Horace não tinha certeza de como sabia. Ele simplesmente sabia. Algum sexto sentido, o mesmo sentido extra que tinha mantido ele vivo numa dúzia de combates, dizia que alguém estava observando. Ele pensou que sentiu uma presença no dia anterior, quando Will havia partido. Hoje, ele tinha certeza.
Ele continuou a circular o acampamento, preocupando-se com as tarefas que precisavam de sua atenção. Ele limpou os utensílios do café da manhã e a frigideira que usara, escovando-os com areia e depois os lavando em um balde de água do lago.
Halt ainda estava dormindo e ele parecia estar descansando facilmente. Horace pensou que preferia Halt daquele jeito, comparado ao jeito que ele estivera – confundindo Horace com Crowley e falando sobre uma batalha antiga com bandidos. Havia decididamente algo preocupante naquilo. Isso forçou a admitir que Halt estava seriamente doente, até perto de morrer.
A visão dele descansando pacificamente era mais encorajadora. Ele podia acreditar – ou pelo menos esperar – que o arqueiro estava realmente recuperando-se dos efeitos do veneno. Logicamente, ele sabia que era só uma questão de tempo antes de Halt acordar novamente e voltar nos eventos passados. Mas esperança nem sempre segue a lógica e ele se apegara a isso desesperadamente.
Além disso, havia a pequena questão de alguém estar observando-os. Aquilo precisaria ser confirmado antes que fosse tarde. Ele avaliou a situação. Sabia que seria um erro deixar o observador saber que havia sido detectado. Mas aqui ao ar livre, não havia jeito de examinar os arredores do campo para procurar algum sinal do observador sem alertá-lo.
As possibilidades eram que o observador incógnito estava em algum lugar na cadeia de montanhas do sudeste – a direção que Tennyson e seu grupo estivera viajando. Essa, afinal de contas, era a direção de maior perigo. É claro, poderia ser alguém que não tinha conexões com a presente situação deles – um viajante qualquer que havia cruzado o caminho deles. Ou talvez um ladrão, esperando sua chance de roubar o acampamento, avaliando suas chances contra os desconhecidos, medindo suas forças e fraquezas.
Mas a maior chance era que eles estavam sendo observados por um dos seguidores de Tennyson. E se realmente estivessem, provavelmente seria o genovês sobrevivente.
Por um momento, seu corpo atingiu o pensamento de um besteiro escondido em algum lugar ali fora. Então ele relaxou. A menor cadeia de montanhas estava a mais de trezentos metros de distância e Will havia informado que os genoveses estavam armados com bestas relativamente fracas. A pontaria exata máxima não podia ser mais que cento e cinquenta metros.
O pensamento que ele estava sendo observado irritava. Era como uma coceira que ele não podia alcançar para coçar. Ele espiou casualmente para o terreno envolvente.
A cobertura mais próxima onde ele podia examinar o horizonte sem ser visto era pelo lago, uns cinquenta metros distante. Era numa depressão e haviam várias árvores e arbustos crescendo ao lado da água. Dali, ele poderia facilmente encontrar um ponto de observação escondido. O único problema era que ele já tinha trazido água fresca para o acampamento. Foi a sua primeira tarefa na manhã, antes de ficar ciente dos olhos sobre ele. O observador não poderia ter estado ali naquela hora. Mas se estivesse, ele iria querer saber por que Horace estava trazendo água tão brevemente. E se ele começasse a querer saber, ele poderia criar suspeitas.
Então ele partiria ou os atacaria, e Horace não estava preparado para nenhuma dessas alternativas. Ele queria saber quem estava ali fora. E por quê. Ele queria que Will voltasse. Porém o mais cedo que ele podia esperá-lo seria no próximo dia – assumindo que ele conseguiria manter o ritmo que havia planejado.
Uma ideia acertou-o. Ele andou até o fogo e selecionou alguns ramos de tamanho médio da pilha de lenha. Colocando-os no fogo, ele virou-se e chutou o balde cheio d‘água. O balde inclinou-se para o lado e ele abaixou-se rapidamente, como se tentasse evitar que virasse. Na realidade, ele terminou o serviço, empurrando o balde no seu lado, derramando a água.
Parte da água caiu no recente fogo alto, criando uma nuvem de vapor e fumaça que seria facilmente visível ao observador. Só para ter certeza que ele veria tudo, Horace acertou um chute no balde, mandando girando, e disse em voz alta:
― Droga!
Ele estava particularmente orgulhoso daquela pequena cena. Ele recordou-se de uma conversa no Castelo Araluen alguns meses antes, com um membro de uma companhia de turismo e atuação. O ator aconselhara Horace a pegar uma vaga um pouco abaixo no corredor para seu desempenho, nada certo para frente.
― Nós temos que representar para o fundo da casa ― ele explicara ― então nossas expressões e gestos são um pouco maiores que a vida. Acomode-se muito e isso se torna irreal.
Na hora, Horace pensou que ele estava simplesmente criando uma desculpa para o que parecia ser excessiva atuação. Mas agora ele viu o sentido disso. Eu certamente representei para o fundo da casa então, ele pensou com satisfação rígida.
Halt havia se mexido e murmurado brevemente quando Horace xingou e chutou o balde. Horace checou-o agora, assegurando-se que o arqueiro havia tranquilizado. Ele retrocedeu enquanto andava. Seus dedos do pé estavam machucados por causa do sólido contato com o balde e ele sabia que isso iria doer por um dia ou dois. Ele deu de ombros filosoficamente. Às vezes, um ator tinha que sofrer por sua arte.
Ele foi levantar o balde e depois, andando pelo acampamento, curvou-se rapidamente para sua sacola e pegou sua espada e bainha, segurando-as próximo ao seu lado, fora de vista. Com sorte, o observador distante não veria o que ele pegou.
Tentando parecer casual, ele passeou pela grama até o lago. Ele desceu a rasa inclinação até a borda, caindo sob o nível do chão enquanto fazia isso. Assim que o horizonte estava oculto do seu olhar – e, por sinal, ele estava oculto de alguém vigiando dali – ele agachou-se e pôs o balde no chão.
Agachado, ele andou rapidamente para a sombra das árvores e arbustos, onde caiu de barriga no chão. Prosseguindo sobre os cotovelos e joelhos, ele contorceu-se cuidadosamente nos pequenos arbustos até que pudesse ver as distantes montanhas.
Ele começou a examiná-la com cuidado, dividindo-a em setores e procurando metodicamente de um lado ao outro, mantendo os olhos em movimento para que não ficassem fixos em um só foco. Durou vários segundos, mas finalmente ele viu um rápido movimento. Ele captou-o com sua visão periférica, depois movimentou os olhos e focou-se naquilo. O observador havia avançado. Talvez, depois de Horace sumir de vista, ele estivesse tentando encontrar um melhor ponto de vantagem para avistar o jovem guerreiro novamente.
Agora sua cabeça e ombros estavam visíveis acima da linha de montanhas. Se ele não tivesse visto aquele pequeno movimento, as chances eram que Horace nunca teria notado. Mas agora ele podia ver a figura claramente. E imaginou ver também uma cor indefinida de roxo pesado.
― Então você voltou, hein? ― ele murmurou.
Ele olhou em torno dele, examinando o campo envolvente, procurando um jeito que pudesse aproximar o observador sem ser visto.
― Eu preciso de um barranco pequeno ou uma extensão de terra morta em algum lugar ― ele disse para si.
Não podia ver nada parecido no campo entre ele e as montanhas. Lamentavelmente, ele decidiu que se ele fosse um arqueiro, teria a habilidade de avançar invisível e inaudível através do grande gramado. Mas, embora Halt desse uma roupa de camuflagem, ele sabia que a tarefa estava fora de seu alcance. E pensar em se aproximar de um besteiro experiente atravessando campo aberto não era algo convidativo.
Além disso, demoraria muito. O genovês estaria esperando ele aparecer nos próximos poucos minutos, visando o acampamento com um balde de água cheio. Se ele se tornasse suspeito, quem saberia qual poderia ser sua próxima ação? Não, Horace decidiu, desde ele não chegasse perto do homem, o melhor era fingir que ele não havia reconhecido-o. Seria uma noite sem sono hoje, ele pensou.
Ele pegou o balde e, no último minuto, lembrou-se de reenchê-lo. Sua mente estava tão preocupada com o problema do observador genovês que ele chegou perto de esquecer aquele pequeno detalhe. Se tivesse que fazer uma viagem de volta, aquilo realmente teria levantado as suspeitas do observador, ele pensou.
Quando chegou ao acampamento, o problema do observador escondido foi empurrado de sua mente por alguns minutos. Ele estava encantado e surpreso de encontrar Halt acordado e lúcido.
Conforme conversavam, tornou-se aparente que Halt sabia onde eles estavam e o que acontecera. Ele não mais confundiu Horace com Crowley e sua mente estava completamente de volta ao presente.
Sua garganta estava seca, de qualquer jeito, e Horace lhe trouxe um copo de café. Ele podia ver a cor voltando ao rosto de Halt enquanto ele bebia a bebida revitalizante. Após alguns goles apreciativos, Halt olhou para o limpo acampamento.
― Onde está Will? Eu assumo que ele continua atrás de Tennyson?
Horace balançou a cabeça.
― Ele partiu para trazer Malcolm ― respondeu e, quando Halt momentaneamente embaralhou o nome, ele adicionou ― o curandeiro.
Aquilo trouxe uma expressão de desaprovação para o rosto de Halt e ele balançou a cabeça.
― Ele não deveria ter feito isso. Deveria ter me deixado com meus próprios planos e seguido os forasteiros. Eles estarão a quilômetros de distância agora! Por quanto tempo você disse que eu estive inconsciente?
― Amanhã será o terceiro dia ― Horace disse e a expressão de desaprovação de Halt aprofundou-se.
― É uma diferença muito grande para dar a eles. Eles podem escorregar de vocês. Ele não deveria ter perdido tempo indo atrás de Malcolm.
Horace notou a frase eles podem escorregar de vocês. Obviamente, Halt havia se excluído de mais ação contra os forasteiros. Ele hesitou, pensando em como contar para ele sobre o genovês que estava mantendo-os em vigilância. Se o genovês estava mandando relatórios para Tennyson, os forasteiros não podiam estar tão longe assim, ele pensou. Mas decidiu, em equilíbrio, que seria melhor não perturbar Halt com a notícia de que estavam sendo vigiados. Em vez disso, ele respondeu:
― Você teria feito isso no lugar dele? Você o deixaria ter ido embora?
― É claro que eu iria! ― Halt respondeu imediatamente.
Mas algo na sua voz soou errado e Horace olhou para ele, levantando uma sobrancelha. Ele esperara um longo tempo por uma oportunidade de usar aquela expressão de descrença com Halt.
Depois de uma pausa, a raiva do arqueiro afundou.
― Tudo bem. Talvez eu não fosse ― ele admitiu. Então olhou para Horace. ― E pare de levantar essa sobrancelha para mim. Você nem consegue fazer isso corretamente. Sua outra sobrancelha mexe com ela!
― Sim, Halt ― disse Horace, num tom de brincadeira.
Ele sentiu uma maré indescritível de alívio envolvendo-o agora que Halt parecia estar voltando ao normal. Talvez eles não precisassem de Malcolm afinal, ele pensou.
Ele preparou para Halt uma refeição leve de sopa de carne e abafador. Primeiramente, ele tentou alimentar o arqueiro de barba cinza. A recusa indignada de Halt elevou seu estado de espírito ainda mais.
― Eu não sou um inválido! Dê-me essa maldita colher! ― o arqueiro disse e Horace virou-se para esconder seu sorriso.
Aquilo era mais parecido com o amável Halt das antigas, ele pensou.
À tarde, com Halt dormindo calmamente, ele ficou ciente de uma estranha sensação. Ou, mais corretamente, uma falta de sensação. Desde a manhã, ele sentira o olhar constante dos olhos do genovês. Agora, subitamente, a sensação se foi.
Com aparente casualidade, ele examinou o horizonte ao redor do acampamento. Ele sabia onde o genovês escondia-se durante o dia. Várias vezes, sem aparecer para olhar, ele havia visto um brilho breve de movimento das montanhas enquanto o homem mudava de posição ou relaxava seus músculos com cãibras.
― Você nunca daria um arqueiro ― ele murmurou.
Novamente ele havia visto a estranha habilidade de Halt e Will de manterem-se numa posição sem se moverem por horas sucessivamente.
― Então novamente ― ele continuara, sorrindo ― nem eu conseguiria.
Ele sabia que não tinha a paciência ou a autodisciplina que os arqueiros pareciam possuir em grandes quantias.
Enquanto as sombras começavam a alongar e o sol descia inexoravelmente em direção ao horizonte, ele chegou a uma decisão. Seria lógico para ele fazer uma rápida patrulha da área antes de escurecer. Tal movimento não iria crescer as suspeitas do genovês, se ele ainda estivesse ali.
Consequentemente, vestiu sua camisa de viagem e capacete, afivelou a espada, pegou seu escudo e saiu do acampamento. Ele começou num ponto nas montanhas uns duzentos metros à esquerda da última posição do genovês. Dali, ele patrulharia em curvas pela cadeia de montanhas, checando a terra até o sul.
Ele se sentiu um pouco mais seguro agora que tinha o escudo no seu braço esquerdo. Aquilo pararia uma flecha facilmente e ele tinha confiança nas suas próprias reações. Se o genovês ainda estivesse em posição, e se levantasse para atirar, Horace teria tempo amplo para defender a flecha com o escudo. E então, com a besta descarregada, ele poderia simplesmente acertar no comprimento da espada no assassino traiçoeiro. Ele iria realmente gostar daquilo.
Marchou duramente à linha da cadeia, fez uma análise na terra da sua esquerda, então virou para a esquerda e começou a trabalhar no seu caminho ao longo da cadeia de montanhas. Ele alcançou o lugar em que havia visto movimento e olhou cuidadosamente ao redor. A grama estava rebaixada pela forma de alguma coisa, ou alguém, estando ali abaixado por um período estendido. Era um ponto de observação ideal. O cume aqui era um pouco maior e dava uma vasta visão do campo diante dele.
Ele olhou de volta para o acampamento, vendo a mancha de fumaça do fogo, soprando para os lados e silenciosa perto do chão na brisa refrescante da noite, e a figura quieta, enrolada em cobertores, dormindo do lado dele.
Num impulso, ele desceu para o lado mais longe da montanha e examinou a esquerda e a direita. Só demorou alguns minutos para encontrar o que ele estivera procurando. Havia uma pilha de fezes frescas de cavalo na grama, e evidência de onde uma estaca fora posta no chão, então removida.
O genovês amarrara seu cavalo aqui – atrás do cume e escondido do acampamento, mas perto o bastante se ele precisasse fazer uma escapada precipitada.
― Ele certamente estava aqui ― ele disse. ― E agora partiu. A questão é, ele irá voltar? E se voltar, quando?
Ele desceu duramente de volta ao acampamento, colocando o problema de lado em sua mente. Enquanto a escuridão caía, ele preparava uma refeição. Sacudiu Halt gentilmente e ficou surpreso e aliviado quando os olhos do arqueiro abriram quase imediatamente.
― Jantar ― Horace falou para ele.
Halt deu um pequeno bufo.
― Demorou. Serviço por aqui é muito lento.
Mas ele aceitou o prato de comida impacientemente e comeu rapidamente. Após satisfazer sua fome imediata, ele pegou um pedaço do abafador que Horace cozinhara nas brasas.
― Você fez isso? ― ele perguntou.
Horace, com algum prazer na sua nova habilidade, assegurou que foi ele que fez. Não demorou muito para Halt reclamar.
― O que é isso? ― ele perguntou.
Horace olhou para ele por um longo segundo.
― Acho que preferia você quando estava doente.
Mais tarde, quando Halt estava dormindo novamente, Horace atiçou o fogo, então lentamente retirou-se do círculo tremeluzente e irregular de luz que atirou. Havia uma árvore caída uns quinze metros de distância e ele sentou-se com as costas apoiadas nela, uma coberta enrolada nos ombros e sua espada puxada descansando pronta nos joelhos.
Ele gastou uma noite sem sono, esperando um inimigo que nunca apareceu. Na manhã o genovês estaria de volta.

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Boa leitura :)