18 de dezembro de 2016

Capítulo 33

Will estava sentado sob uma árvore, as costas confortavelmente contra o tronco, reparando uma parte do chicote de Puxão. Ele trabalhava tentando fazer um pequeno furo através de uma cinta de couro duro, estremecendo quando a ponta batia em seu polegar.
— Eu vou ter que parar de fazer isso  disse ele a si mesmo.
Talvez a chave para fazê-lo fosse manter os olhos sobre o trabalho na mão. Mas a alça quebrada era apenas um ardil para ocupá-lo enquanto ele estudava o campo imenso de seguidores de Tennyson.
Ele se juntou ao grupo duas noites antes, andando no escuro e depois de ser desafiado por uma sentinela a partir da linha de piquete jogada ao redor do acampamento. Ele se identificou como um menestrel viajante e disse que estava ansioso para se juntar aos seguidores de Alseiass. A sentinela resmungou, parecendo estar satisfeito, e acenou-lhe para dentro do campo.
Havia cerca de quatro centenas de pessoas reunidas sob a bandeira de Tennyson. A maioria delas eram pessoas de vilas ao longo do caminho que se juntaram depois de ouvir o testemunho entusiástico dos moradores de Mountshannon. Alguns tinham sido convocados a partir de outras vilas mais ao sul, onde Tennyson já tinha expulsado grupos de bandidos. O profeta havia deixado alguns de seus capangas em cada uma destas aldeias e, uma vez que a marcha para Dun Kilty começou, eles tinham sido convocados, juntamente com os seus convertidos, para se juntar ao grupo.
Mas também havia um núcleo sólido de acólitos de Tennyson, reconhecidos por suas vestes brancas. Os mais óbvios de todos eram os dois guarda-costas enormes que sempre estava perto do líder. Eram brutos ranzinzas, Will pensou. O Deus do Ouro Alseiass não tinha os imbuído com seu amor tão professado por seus companheiros.
Conforme os números cresciam, Tennyson continuava a pregar, salientando a falta de decisão e ação do rei, e colocando a culpa pela situação conturbada de Clonmel sob seus ombros. E em cada uma destas sessões, os seus subordinados se moviam entre a multidão, coletando ouro e joias em homenagem a Alseiass.
Como um forasteiro, Will sorriu para o uso inadvertido da palavra – ele podia ver a nítida divisão no acampamento. Havia os fervorosos, esperançosos novos convertidos, a grande massa de pessoas que tinham optado por seguir Tennyson e que olhavam para ele e seu Deus como a nova esperança de paz e prosperidade. Esse grupo crescia mais a cada dia quando os novos convertidos se reuniram no acampamento.
E lá estava o núcleo sólido de seguidores pré-existentes, que recolhiam o ouro, protegia Tennyson e, Will estava certo, se entendia com aqueles que falassem contra o profeta de Alseiass.
No dia anterior, o último grupo foi reforçado por três novos notáveis. Vestidos em couro preto apertado, eles usavam mantos púrpura opaca e chapéus de abas largas, com uma pena da mesma cor. Eles eram obviamente estrangeiros com cabelos escuros e pele clara. E não eram simples peregrinos vinham se juntar a multidão. Eles levavam balestras em suas costas e, a partir da observação cuidadosa, cada um deles tinha pelo menos três punhais consigo – em bainhas no cinto, em suas botas e sob o braço esquerdo. Eles eram homens perigosos. Andavam com um ar de certeza que diziam ter confiança em suas habilidades de arma.
Will queria saber quem eram e de onde tinham vindo. Ele estava menos curioso quanto à sua finalidade. Eram assassinos contratados por Tennyson. Anteriormente, Will tinha estado cantando junto ao pavilhão branco e viu que um deles seguiu um homem mal vestido fora do campo e na floresta. Quinze minutos depois, o estrangeiro voltou sozinho, indo direto para o pavilhão de Tennyson reportar.
Will, que seguiu discretamente uma parte do caminho, esperou pela borda da floresta até o anoitecer. Mas não havia sinal de outro homem voltar.
Ele ouviu uma voz levantar a alguns metros e olhou para cima. Uma das pessoas do grupo de roupas brancas estava andando a esmo entre as tendas e abrigos campais, emitindo ordens para as pessoas de lá. Will se levantou e se aproximou para ouvir o que estava sendo dito.
— Desmontem seu acampamento hoje à noite após as orações. Coloquem suas mercadorias em suas carroças e cavalos, e estejam prontos para sair do acampamento amanhã. Tennyson quer todos prontos para sair às dez horas! Portanto, ocupem-se! Não deixe para amanhã! Faça isso hoje à noite e durma ao relento!
Um dos peregrinos se adiantou e se dirigiu para a figura vestida de branco com deferência.
— Onde estamos indo, sua honra?  disse ele e meia dúzia de vozes ecoou a pergunta.
Por um momento, o mensageiro olhou como se ele não fosse responder, por simples contrariedade. Então ele encolheu os ombros. Não havia necessidade de mantê-lo em segredo.
— Nós estamos marchando diretamente para Dun Kilty. É hora de rei Ferris saber que sua hora chegou!  ele disse, e havia um zumbido inchaço da aprovação daqueles que o ouviam.
Interessante, Will pensou. Ele fez seu caminho através das barracas à beira do assentamento, onde a sua própria tenda pequena estava montada e Puxão estava pastando por perto. Ele abaixou rapidamente a barraca e a embalou. Puxão olhou com curiosidade enquanto fazia isso.
— Estamos saindo amanhã  Will disse.
Ele verificou que tudo estava bem enrolado e protegido. Estaria contente em dormir na noite aberta. Ele olhou para o céu. Havia nuvens deslizando em cima, obscurecendo as estrelas ao longo do tempo. Poderia chover, mas a capa era impermeável e ele se sentiria confortável o suficiente.
— Você.
A voz o assustou. Era áspera e alta, e quando ele se virou, sentiu uma pontada de desconforto quando viu quem tinha falado. Era um dos gigantes que atendiam a Tennyson – Gerard ou Killeen. Ele não tinha ideia de qual era e não parecia haver maneira de distingui-los.
O homem grande apontou um dedo para ele.
— Você é o cantor, não é mesmo?  disse ele, num tom desafiante em sua voz.
Will assentiu com a cabeça hesitante.
— Eu sou um bardo, isso é verdade  disse ele, querendo saber onde isso estava levando.
A palavra pareceu estranha ao homem e Will explicou.
— Eu sou um menestrel. Um músico e cantor.
O rosto do homem limpou quando ele ouviu a descrição que entendia.
— Não mais, você não é  ele disse. — Tennyson baniu todos os cantos – exceto cânticos a Alseiass. Você conhece algum deles?
Will balançou a cabeça.
— Infelizmente não.
O grande homem sorriu maldosamente para ele.
— Triste para você, porque você está fora do negócio. Tennyson diz que você deve levar o seu alaúde para ele após a sessão de oração da noite.
Will contemplou se havia algum ponto em dizer a este idiota que ele tocava uma bandola, e não um alaúde. Ele decidiu que não.
— Tennyson quer o meu... instrumento?
O homem fez uma careta para ele.
— Não foi isso o que eu disse? Não há mais música e leve seu alaúde! Está claro?
Will hesitou, pensando no fim e que isso significava, e o homem falou, desta vez ainda mais alto e mais abruptamente.
— Está claro?
— Sim, claro. Não há mais música. Levar meu... alaúde. Eu entendo.
Gerard ou Killeen assentiu com a cabeça de uma forma dura.
— Bom. Certifique-se de que você o faça.
Ele virou as costas e andou para longe, seu corpo enorme visível sobre as tendas por alguma distância. Will sentou-se em sua barraca enrolada e olhou para a bandola em seu estojo de couro. Era um belo instrumento, feito pelo mestre luthier de Araluen, Gilet, e dado a ele como presente de agradecimento por Orman, senhor do Castelo Macindaw. Se ele entregasse para Tennyson, não tinha dúvida de que nunca iria vê-la novamente.
Além disso, pensou, ele havia aprendido tanto quanto podia sobre os planos de Tennyson. O profeta estava indo diretamente para Dun Kilty, esquecendo seu esquema original de reunir um número crescente de seguidores em uma progressão triunfal através do campo. Não que ele precisasse de mais. Já havia centenas deles.
Depois houve a questão da chegada dos três novos estrangeiros. Talvez fosse oportuno para Halt ouvir falar deles. Will estava certo de que seu antigo mentor saberia quem eram eles – ou pelo menos, de onde vieram e qual a sua finalidade.
Portanto, Will decidiu, era hora de ele deixar os seguidores de Alseiass.
Ele estalou a língua e Puxão trotou para ele, parando de pastar. Rapidamente, Will selou o cavalo, prendeu as cintas de sua mochila, o estojo da bandola e o equipamento de camping. Então pegou um longo pacote que permanecia no chão e o abriu para revelar seu arco e aljava. Ele armou o arco, colocou a fita da aljava por cima do ombro e montou em Puxão.
Ele andava rapidamente pelos arredores do acampamento, não fazendo qualquer tentativa de dissimulação. Isso só iria atrair suspeita, ele sabia. Conforme as linhas de tenda começaram a diminuir, ele aumentou o ritmo para um trote, parando brevemente quando um anel externo de lanças entrou em seu caminho, sua mão levantada.
— Só um momento! Onde você acha que você está indo?
— Eu estou saindo  disse Will.
O homem estava de pé ao seu lado direito e Will deslizou sua bota direita para fora do estribo.
— Ninguém sai  disse a sentinela. — Volte para o acampamento agora.
O guarda tinha uma lança. Até agora, a manteve na terra, mas começou a levantá-la, de forma a criar uma barreira para Will.
— Não. Eu tenho que ir  Will disse em um tom agradável. — Você vê, minha pobre tia do lado da minha mãe me mandou uma carta e disse...
Um pouco de pressão a partir de seu joelho esquerdo havia dito a Puxão para chegar mais próximo do homem. Ele podia se lembrar de ensino de Halt: se você pretende surpreender alguém, continue a falar com ele sem parar até entrar em ação.
Ele podia ver a irritação no rosto da sentinela enquanto ele divagava sobre a sua tia do lado de sua mãe. O homem estava tomando fôlego para arrancá-lo e condená-lo de volta ao acampamento quando Will atirou o pé direito à frente, endireitando o joelho e batendo a sola da bota dura no rosto do homem. No mesmo instante o homem tropeçou e caiu, e Will impeliu Puxão em um galope. Até o momento que a sentinela abatida tivesse se recuperado, levantado e encontrado a lança que tinha saído girando de sua mão, Will e Puxão teriam sido engolidos pela escuridão da noite adiantada. Havia apenas o som de cascos batendo rapidamente para marcar o fato de que eles estiveram lá.

2 comentários:

  1. "Ele trabalhava tentando fazer um pequeno furo através de uma cinta de couro duro, estremecendo quando a ponta batia en seu polegar."
    corrige o "en"
    kkkkk
    o Will enrolando o povo :P

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Boa leitura :)