29 de dezembro de 2016

Capítulo 32

Do alto de uma colina, Bacari vigiava o pequeno campo abaixo.
Ele se perguntava por que o jovem arqueiro tinha ido embora. Talvez tenha desistido da perseguição? Ele sacudiu a cabeça. Isso não parece se encaixar, com o que tinha observado desses três até agora. O mais provável é que ele tivesse saído em busca de algum remédio ou um curandeiro local.
O barbudo estaria em mau estado agora, ele sabia. Bacari ouviu-o gritar e ouviu também quando deixou seu arco cair. Significava que sua flecha, havia pelo menos ferido o inimigo.
E uma simples ferida na carne, era tão eficiente quanto um tiro mortal, visto o veneno que tinha usado na flecha. Ficou surpreso que o estranho barbudo havia sobrevivido por tanto tempo. Ele devia estar em excelente condição física, para resistir aos efeitos do veneno por tanto tempo. O genovês sorriu amargamente para si mesmo. A busca do jovem por um curandeiro seria em vão. Nenhum herbolário do país teria a menor ideia de como neutralizar o veneno. Na verdade, pensou ele, a maioria dos curandeiros das grandes cidades também não saberia.
Está tudo certo então, pensou. O local do acampamento que Tennyson tinha arranjado para se reunir com seus seguidores era a cerca de quatro horas de distância dali. Se os seus perseguidores continuassem a segui-los, perderiam meio dia de marcha. E com a morte de Marisi na floresta afogada, as chances estavam se inclinando para seus perseguidores.
Bacari não gostava da ideia de um confronto aberto com os dois estranhos, mesmo que o mais velho estivesse em mau estado. Por alguns segundos, ele considerou chegar mais perto, ao alcance de sua besta e acertar o jovem guerreiro. Mas logo abandonou a ideia. Ele estaria cruzando terreno aberto, onde poderia facilmente ser visto. Se ele errasse o tiro, teria que enfrentar o espadachim e ele vira sua grande habilidade em Hibernia. Além disso, não havia nenhuma maneira de saber quando o jovem arqueiro iria retornar.
Não, ele decidiu. Deixe estar. Eles não representavam nenhum perigo imediato e suas próprias prioridades haviam mudado.
Era hora de apresentar um relatório ao Tennyson, pensou. Ele já havia decidido que o seu tempo com o autoproclamado profeta poderia estar chegando ao fim. Mas antes de ir, queria descobrir onde Tennyson mantinha o ouro e as pedras preciosas que tinha trazido de Hibernia. Então, por enquanto, manteria o papel de guarda costa fiel.
No momento em que ele chegou ao longo acampamento, percebeu que o número de pessoas havia crescido. Devia ter chegado pelo menos mais cinquenta pessoas. Ele andava lentamente pelo meio do acampamento, até a tenda de Tennyson. Sorriu quando viu que a simples barraca de lona foi substituída por uma enorme tenda. Os convertidos recém-chegados, obviamente tinham trazido material adicional com eles.
Um dos homens, que usava uma veste branca montava guarda fora da tenda. Quando Bacari desmontou e caminhou em direção à entrada, o guarda foi para cima dele, como se estivesse indo para barrar seu caminho. Bacari sorriu para ele, mas havia algo naquele sorriso que disse ao homem que ele não era uma pessoa para confrontar.
Rapidamente, o guarda deu um passo para trás e acenou-lhe para entrar.
Tennyson estava sentado em frente a uma mesa dobrável, escrevendo em um pedaço de pergaminho. Ele olhou para cima aborrecido quando Bacari entrou sem aviso prévio.
― Você nunca bate? ― Tennyson perguntou acidamente.
O genovês, ironicamente olhou para os lados, procurando algum lugar na tenda de lona para bater. De má vontade, Tennyson indicou uma cadeira de lona em frente dele, no lado oposto da mesa.
― Então, o que você tem a informar? ― o profeta disse, terminando as últimas palavras no pergaminho.
― Eles pararam ― disse Bacari.
Isso deveria chamar a atenção de Tennyson, pensou ele. O homem corpulento largou a pena e olhou para cima.
― Parados? Onde?
― Cerca de quatro, talvez cinco horas de viagem de distância. O mais velho está doente. Ele vai morrer logo.
― Você tem certeza disso? ― Tennyson retrucou.
― Sim. O veneno tomou seu corpo. Ele está enrolado em seus cobertores por quase dois dias. Eu não o vi se mover. Não há como sobreviver. Ninguém poderia.
Tennyson assentiu com a cabeça várias vezes. Um sorriso cruel formou-se em seus lábios.
― Bom ― disse ele. ― Espero que ele morra com muita dor.
― E vai ― Bacari assegurou.
― E os outros? Os dois jovens?
Bacari franziu a testa enquanto respondia.
― Um já se foi. O outro ficou com o velho de barba grisalha.
― O que você quer dizer com “se foi”? ― Tennyson perguntou, franzindo a testa.
― Se foi, significa se foi ― disse insolentemente Bacari. ― Ele foi embora. O outro ficou para trás. Ele parece estar cuidando do barbudo.
Tennyson se levantou e começou a andar pela tenda, a sua mente assimilando a estranha reviravolta dos acontecimentos. Ele se voltou para o genovês.
― Ele levou alguma coisa com ele?
Bacari fez um pequeno gesto com as mãos – parecia indicar que a informação não era importante.
― Não que eu pudesse ver. Além dos dois outros cavalos.
Ele notou que a face de Tennyson estava começando a expressar raiva quando ouviu esta notícia.
― Ele levou todos os cavalos?
Bacari deu de ombros e concordou. Mas não disse nada.
― Será que lhe ocorreu ― disse Tennyson, com a voz carregada de sarcasmo, ― que obviamente ele planeja trazer alguém de volta com ele? É por isso que ele levou os cavalos.
― Ele pode estar planejando trazer um curandeiro de volta com ele. Eu pensei nisso. Mas e daí se ele trouxer? Será inútil. O barbudo não tem chance. Além disso, o maior povoado próximo que poderia esperar encontrar um curandeiro é Vale Collings, e isso é mais do que um dia de viagem. Isso significa que eles não se moverão por pelo menos três dias, mais ainda, se eles esperarem que seu amigo seja curado.
Tennyson refletiu sobre isso, sua raiva lentamente passando. Mas o jeito arrogante do genovês, ainda era um espinho no seu lado.
― É verdade. Tem certeza que não há cura para seu veneno?
― Há uma cura. Mas eles não vão encontrá-la. No entanto, quanto mais tempo o barbudo sobreviver, melhor para nós.
― Por que você acha isso? ― Tennyson perguntou.
A carranca pensativa voltando a seu rosto.
― Eles não vão viajar para muito longe enquanto ele estiver doente. Assim, mesmo se encontrarem um curandeiro e adiar o inevitável, isso será uma vantagem. Pelo menos para nós ― acrescentou com um sorriso cruel. ― Adiar as coisas não vai fazer nada bem ao barbudo.
Tennyson pensou sobre o que o genovês havia dito e acenava com a cabeça várias vezes. Finalmente ele tomou uma decisão.
― Eu acho que você está certo ― disse ele. ― Mas quero que você volte lá e fique de olho nas coisas, só para conferir.
O assassino reprimiu com raiva.
― Para quê? ― perguntou. ― Eu viajei por quatro horas. Eu falei, eles não vão a lugar nenhum. E eu vou passar mais uma noite fora, na grama molhada, só porque você está com medo de sombras! Se quiser vigiá-los hoje à noite, vá você mesmo.
Tennyson olhou para ele. Cedo ou tarde, ele sabia que chegaria a essa situação com os genoveses. Eles estavam muito orgulhosos, arrogantes e muito seguros de si.
― Ponha um pouco de respeito nessa boca enquanto fala comigo, Signor Bacari ― advertiu.
O genovês soltou um grunhido curto com um sorriso de desprezo.
― Ou o quê? Eu não tenho medo de você, seu gordo. Não tenho medo nenhum de seus homens ou do seu falso deus. A única pessoa neste campo que é para ser temida sou eu. Entendeu?
Tennyson segurou a raiva que estava brotando dentro dele.
O genovês estava certo, ele percebeu. Mas isso não significava que, logo que a oportunidade surgisse, Tennyson ia matá-lo. Porém, no momento iria manter a aparência que concordava com ele.
― Você está certo ― disse. ― Deve estar cansado e com frio. Precisa de um pouco de comida e descanso.
Bacari balançou a cabeça, convencido de que seu objetivo havia sido alcançado. Agora, ele podia dar-se o luxo de manter o compromisso com Tennyson, para manter boas relações – até descobrir onde ele tinha escondido o ouro.
― Eu vou dormir esta noite ― disse apressadamente. ― Amanhã, antes do amanhecer, eu voltarei para vigiá-los.
― É claro ― Tennyson disse em tom de seda.
Ele questionou se Bacari sabia o quanto o odiava naquele momento, mas tomou cuidado para não deixar transparecer qualquer sinal físico ou no tom de sua voz.
― Está certo então. Afinal, neste momento eles não irão a lugar nenhum, como você disse.
Bacari assentiu satisfeito. Mas ele não poderia resistir a uma última alfinetada.
― Isso mesmo. É como eu falei.
Ele virou-se e saiu rapidamente para fora da tenda com seu manto púrpura girando em volta dele. Tennyson olhou por detrás dele por alguns minutos, os punhos abrindo e fechando em fúria.
― Um dia, meu amigo ― disse ele num sussurro ― a sua vez vai chegar. E vai ser longa, lenta e dolorosa. Eu prometo-lhe isso.

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