29 de dezembro de 2016

Capítulo 31

Exausto, Will tombou na sela e puxou o arreio de Abelard para parar. A viagem pela noite, desde que havia deixado os túmulos, era como um borrão em sua mente: Uma sequência constante de duas horas de galope, em seguida desmontando e andando por quinze minutos, depois trocando de cavalo e galopando outra vez. Ele parou duas vezes para um rápido descanso, sem nenhuma interrupção para dormir. Os descansos o haviam reanimado um pouco. Mas também serviu para lembrar-lhe das dores e da rigidez nos músculos. A cada vez que reiniciava sua marcha, ele sofria alguns minutos de agonia até que seus sentidos se acostumassem com o desconforto.
Agora estava quase no final da sua jornada. Ou pelo menos da primeira parte dela. À sua esquerda, ele podia ver a maior parte do sólido Castelo de Macindaw. À sua direita, estava a massa escura que delineava o início da floresta Grimsdell.
Por um momento, foi tentado a ir em direção ao castelo. Seria bem-vindo lá, ele sabia. Lá encontraria comida quente, banho quente e uma cama macia. Ele olhou para Abelard. O pequeno cavalo estava de cabeça baixa e cansado. Puxão, que não tinha carregado o peso de Will nas últimas duas horas, parecia um pouco melhor, mesmo assim parecia cansado. Até Kicker, que viajou sem carga até agora, deveria estar com as pernas cansadas. Se ele fosse para o castelo os cavalos seriam tratados, alimentados e alojados com conforto.
Ele poderia enviar um mensageiro até Malcolm quando recuperasse a sua força. Certamente, Orman o senhor do castelo, deve ter alguma maneira de entrar em contato com o velho excêntrico curandeiro, pensou. Apenas algumas horas. Não faria nenhum mal, faria?
A tentação o balançou – literalmente. Ele percebeu que estava realmente balançando na sela, com os olhos impossíveis de se manterem abertos. A qualquer momento ele cairia no chão e ficaria deitado na grama, e sabia que se isso acontecesse, não teria força física ou mental para subir na sela novamente.
Ele se sacudiu, balançando sua cabeça violentamente, piscando os olhos rapidamente para rebater a sonolência que ameaçava engoli-lo.
― Não! ― disse de repente, Abelard levantou a cabeça e subiu as orelhas ao som repentino da sua voz.
O cavalo não estava tão cansado quanto parecia, Will percebeu. Ele estava simplesmente conservando sua força para uma necessidade adicional.
Will sabia no fundo de seu coração, que se fosse para Macindaw, ele seria atrasado e por muito mais do que algumas horas. Ele teria que explicar a situação, responder a uma centena de perguntas e convencer Orman a enviar um mensageiro para a floresta.
Supondo, é claro, que tal mensageiro pudesse encontrar a casa de Malcolm – Will conhecia o caminho e ele apenas supunha que o senhor do castelo devia ter alguma maneira de entrar em contato com o curandeiro – e ele ainda teria que convencer Malcolm da urgência da situação. E essa urgência perderia o sentido se não fosse o próprio Will que explicasse a situação.
Atrasos em cima de atrasos, daí estaria escuro e muito tarde para partir. Isso pode custar-lhe horas e ele sabia que Halt não poderia esperar. Halt morreria simplesmente porque seu antigo aprendiz havia decidido que tirar uma soneca em um colchão de penas era mais importante que a vida de seu melhor amigo.
Seria mais rápido se ele mesmo fosse até Malcolm e explicasse a situação. E se o curandeiro mostrasse alguma relutância ou hesitação em segui-lo, viajar por dois dias para ajudar alguém que não conhecia – Will simplesmente poderia agarrá-lo pelo pescoço e trazê-lo a força.
A decisão estava tomada, ele sentou um pouco mais reto na sela e virou a cabeça de Abelard em direção a floresta Grimsdell.
Fazia algum tempo desde que estivera ali, mas aos poucos ele começou a reconhecer os marcos.
Este foi o local onde havia se encontrado com Alyss, quando pela primeira vez decidiu achar a casa de Malcolm. Ou a toca de Malkallam, como havia pensado na época.
Dentro da linha das árvores, havia uma pequena clareira onde tinha ficado de tocaia e depois atirado em John Buttle, ferindo o assassino na coxa, mas sem grandes danos.
― Deveria ter atirado um pouco mais para cima ― ele murmurou para si mesmo.
As orelhas de Abelard se contraíram. O que aconteceu?
Parece que, na ausência de Halt, o cavalo tinha decidido que deveria compartilhar seus pensamentos com Will. Ou talvez Will simplesmente o estivesse conhecendo melhor e podia adivinhar seus pensamentos com mais clareza.
― Nada ― Will respondeu. ― Apenas me ignore.
Ele desmontou duramente, gemendo da dor que o movimento lhe causou. Ele afrouxou as correias de Abelard e afagou-lhe o pescoço.
― Bom rapaz ― disse ele. ― Você fez muito bem.
Havia muita grama na clareira. Ele amarrou Kicker em uma pequena árvore. A rédea daria espaço para o grande cavalo circular e pastar, se ele quisesse. Abelard é claro, não precisava ser amarrado. Will simplesmente levantou a palma da mão, em seguida apontou para o chão.
― Fique aqui ― disse ele calmamente.
O cavalo empinou a cabeça em confirmação.
Ele decidiu montar em Puxão, naquele absurdo emaranhado de vegetação da floresta de Grimsdell. Ele não estava completamente certo de que seria capaz de encontrar o caminho para a casa da floresta de Malcolm. A trilha que ele conhecia poderia estar coberta agora. Novas trilhas poderiam ter se formado. Ele achava que sabia o caminho, mas Puxão também o iria ajudar com seus sentidos. Brevemente pensou na cadela, Sombra, amargamente desejando que estivesse com ele. Com certeza iria encontrar a cabana sem hesitação.
Apertou as cintas de Puxão e montou na sela, gemendo novamente quando os músculos rígidos foram esticados e exigidos pelo movimento. Ele hesitou, olhando para a parede de árvores ao redor dele. Então achou que poderia seguir aquela trilha quase apagada.
Pareceu-lhe vagamente familiar. Tinha certeza que era por ali que ele e Alyss tinham seguido da última vez.
― Vamos ― ele falou para Puxão e seguiram para dentro da floresta de Grimsdell.
O caminho era obviamente algum rastro deixado por pequenos animais, que ficavam mais próximos do solo que Puxão. Consequentemente, cerca de um metro e meio do chão, a trilha era obstruída por galhos pendurados, videiras e trepadeiras, tudo conspirando para atrasar Will, obrigando-o a abaixar na sela ou até cortá-los fora. Por várias vezes teve que desviar de uma espécie de vinha cheia de espinhos que estava por todo o lugar.
As copas das árvores se tocavam de um jeito que bloqueava a luz do sol, apenas alguns feixes de luz conseguiam penetrar na floresta. Ele andava no escuro, em um mundo de sombras, não sabia de que lado estava o sol, perdendo rapidamente todo o senso de direção. Ele pensou amargamente no seu buscador do norte, que deixou no acampamento há quilômetros de distância, empacotado junto com suas outras coisas. Na pressa de encontrar ajuda para Halt, tinha esquecido o quanto a floresta de Grimsdell era traiçoeira e ficou cego em confiança que acharia o caminho mais uma vez.
Ele sentiu que Puxão também estava confuso, sem dúvida devido ao fato de que ele não podia ver o sol e não tinha nenhuma maneira de se orientar. A trilha que seguia, se dobrava, virava e torcia de novo, de modo que, após alguns minutos, não havia nenhuma maneira de saber para onde, exatamente, estavam indo. Tudo o que podiam fazer era seguir em frente.
― Pelo menos desta vez, não temos de lidar com os bichos-papões de Malcolm ― disse a Puxão.
A primeira vez que ele entrou nessa floreta, Malcolm a tinha marcado com sinais assustadores, sons e luzes que apareciam e depois desapareciam. Não havia nenhuma evidência delas agora. Esse pensamento o afetou, ele percebeu que possivelmente Malcolm se sentia mais seguro no bosque nestes dias. E talvez isso significasse que sua rede de observadores já não estava mais ativa entre as árvores. Era uma desvantagem.
Se alguém contasse ao curandeiro que o arqueiro havia retornado, ele sem dúvida mandaria alguém para guiá-lo até a clareira, onde ficava a casa de Malcolm. Mas se não houvesse observadores, ele poderia vagar sem rumo o dia inteiro e ninguém seria avisado.
Gentilmente, freou Puxão quando chegaram a uma parte ligeiramente mais ampla da trilha. Ficou parado por um momento considerando sua posição. Após alguns segundos, foi forçado a aceitar a verdade. Eles estavam perdidos. Pelo menos ele estava.
― Você tem alguma ideia de onde estamos? ― perguntou a Puxão.
O cavalo sacudiu a cabeça e relinchou fortemente. Era um som incerto. Pela primeira vez, os sentidos quase sobrenaturais de Puxão foram derrotados.
― Não podemos estar muito longe ― disse Will esperançoso.
Embora, na verdade eles poderiam ter caminhado na direção errada durante a última hora. Nada era familiar para ele. Fez uma pausa, observando cuidadosamente as árvores que cresciam ao redor.
Empurrou o capuz para trás e escutou, ficou alerta para qualquer som que pudesse lhe dar uma ideia de sua posição.
Então ouviu sapos. Vários sapos, coaxando.
― Ouça! ― disse ele com urgência para Puxão e apontando na direção de onde tinha ouvido o insistente som.
As orelhas de Puxão se levantaram e ele virou sua cabeça para seguir o som. Ele ouviu também.
― Encontre-os ― Will ordenou.
Com uma tarefa definida em mente, Puxão partiu em direção as árvores, afastando diversas mudas, forçando seu caminho através de alguns arbustos baixos, até que surgiu outra trilha. Caminharam apenas dez metros de onde estavam e parecia que tinham feito uma longa viagem. Após mais alguns metros, Puxão virou em direção de onde vinha o som dos sapos.
Com a crescente certeza ele avançou, em seguida, sem aviso, as árvores se abriram e eles saíram na borda de um grande espaço, um grande lago de águas negras.
― O lago Grimsdell ― Will disse triunfante.
A partir daqui, ele sabia que eram apenas dez minutos de distância até a clareira do curandeiro. Mas, dez minutos em que direção? O lago negro era familiar, porém, o lado do lago que eles saíram não era. Uma vez que perdessem o lago de vista, quando começassem a se embrenhar na mata, após alguns minutos eles estariam perdidos novamente.
Puxão virou a cabeça olhando para ele. Há sapos aqui. Eu fiz a minha parte.
Will deu um tapinha no pescoço dele em gratidão.
― Muito bem. Agora é hora de eu fazer alguma coisa.
Uma ideia veio a ele, colocou dois dedos em sua boca e soltou um estridente e agudo assobio. Puxão reagiu ao som inesperado.
― Desculpe ― Will disse. ― Aqui vai outra vez.
Novamente ele assobiou longo, alto e estridente. O som parecia ser engolido pela massa escura da floresta ao redor deles. Esperou, contando os segundos até um minuto se passar, então assobiou mais uma vez.
Ele repetiu a ação mais quatro vezes, permitindo que um minuto se passasse entre cada assobio. E a cada vez, ele observava as árvores ao redor, esperando que sua ideia funcionasse.
Ele estava posicionando os dedos para o sétimo assobio, quando ouviu por perto um farfalhar no mato. Puxão retumbou em um aviso, que logo se transformou em um som de saudação. Em seguida, um vulto branco e negro surgiu, o corpo rente ao chão, pesado, com a ponta branca da cauda balançando lentamente de um lado para outro, dando boas vindas.
Will desmontou dolorosamente e abaixou para cumprimentá-la, acariciar seu pelo macio da cabeça, coçando debaixo do queixo onde os cães adoram. Ela levantou a cabeça ao seu toque, um de seus olhos era marrom e o outro surpreendentemente azul, e estavam meio fechados de prazer.
― Olá Sombra ― ele saudou. ― Você não têm ideia de como estou encantado em vê-la.

4 comentários:

  1. Sombra! Sombra! Sombra! Graças a Deus uma notícia boa !

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    1. Quanto tempo se passou desde que ele esteve aí

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  2. Estava com saudades de Sombra.
    Ass: Lua

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Boa leitura :)