18 de dezembro de 2016

Capítulo 31

Will sentiu o sangue correndo em seu rosto.
— Seu cavalo? — ele disse, sua voz um pouco mais estridente do que pretendia. — Do que você está falando? Você sabe que ele é meu.
Cielema estava franzindo a testa para o marido. Mas o aseikh fez um gesto impotente com as duas mãos. Ele não estava feliz com a situação, mas não havia nada que pudesse fazer sobre isso.
— Ele era seu — admitiu. — Mas agora é nosso. Essa é a forma como fazemos as coisas.
— Você rouba cavalos? — Will o acusou, e viu a vergonha na face do outro homem face mudar para ira com as palavras.
— Eu vou ignorar esse insulto, porque você é ignorante da forma como fazemos as coisas no deserto — disse ele. — Não cometa o erro de repeti-lo.
Cielema foi para frente do o marido.
— Certamente, Umar, você poderia fazer uma exceção... — ela começou, mas Umar a parou com uma mão erguida. Ele voltou-se para Will, vendo a raiva acumulada em cada centímetro do corpo do jovem franzino.
— Não cabe a mim fazer essa exceção. — Ele se virou para Will e continuou. — É preciso compreender nossos costumes. Você era dono daquele cavalo originalmente. Ninguém contesta isso.
— Como você poderia? — Will disse. — Havia uma aljava de flecha na sela, carregando flechas idênticas a àquela.
Ele apontou para a flecha que havia paralisado a cobra de areia, ainda deitada no chão a seus pés. Foi um movimento calculado. Ele queria lembrar Umar que Will tinha acabado de salvar a vida de seu neto.
— Sim. Nós concordamos. E era óbvio quando nós descobrimos que o cavalo te conhecia. Mas isso não vem ao caso. Você deve ter lhe permitido escapar.
Will foi surpreendido pela declaração. Ele ainda culpava a si mesmo por largar as rédeas de Puxão durante a tempestade.
— Bem, sim... de certa forma, eu suponho. Mas havia uma tempestade, e eu não podia...
Ele não continuou quando Umar aproveitou a vantagem.
— E em nossa legislação, se você soltar um cavalo e ele fugir, já não é mais seu cavalo. Quem achar que o possuirá. E Hassan Ib’n Talouk o encontrou. Ele estava vagueando, quase morto de sede. Ele salvou-o e cuidou dele e agora ele é seu cavalo.
Will balançou a cabeça. Sua voz era amarga.
— Eu não acredito nisso. Eu quase me matei procurando Puxão e você me diz isso... que Hassan Ib’n Talouk... o possui agora porque achou ele?
— Isso é exatamente o que estou lhe dizendo — Umar disse.
— Umar, nós devemos a este jovem — Cielema disse, com uma nota articulada em sua voz. — Certamente há algo que você pode fazer?
Umar sacudiu a cabeça.
— Sim, nós devemos a ele. E ele nos deve a sua vida, se você lembrar. Estamos quites a esse respeito. Ele mesmo disse isso.
Infeliz como poderia estar com a situação, Umar sentiu-se obrigado a respeitar a sua própria lei tribal.
— Olha, se eu tivesse encontrado o cavalo, ficaria feliz em devolvê-lo para você. Mas não é meu. Hassan tomou simpatia por ele. Ele está fascinado por ele e quer mantê-lo.
— Ele nunca será capaz de montá-lo! — Will gritou.
Os cavalos de arqueiros eram treinados para que eles nunca pudessem ser roubados por outro cavaleiro. Antes de montar pela primeira vez, um cavaleiro tinha que falar uma frase em código secreto para o cavalo.
— Sim. Percebemos isso. Há obviamente, algum segredo para montar esse cavalo. Infelizmente, isso tem intrigado Hassan ainda mais. Duvido que ele vá desistir dele.
— Então eu vou comprá-lo! — Will disse.
Umar levantou uma sobrancelha.
— Com o quê? Você não tinha o dinheiro quando te encontrei. Você obteve algum nas últimas horas?
— Eu devo isso a você. Você tem a minha palavra. Eu vou pagar. Diga o preço!
Ele sabia que poderia ter Evanlyn por trás de sua promessa. Mas, novamente, Umar estava sacudindo a cabeça.
— Como você vai nos pagar? Como vai encontrar-nos outra vez? Nós somos nômades, Will. Não lidamos nas promessas de futuro. Nós negociamos em ouro e prata, e tratamos do agora, quando comercializamos. Você tem ouro ou prata? Não, você não tem. — Ele respondeu à sua própria pergunta com um ar de finalidade. Em seguida, suavizou o tom um pouco. — Olha, as nossas leis dizem que quando encontramos um homem morrendo de sede no deserto, devemos fazer tudo ao nosso alcance para salvá-lo. Nós poderíamos ter apenas continuado e deixado você morrer. Mas a nossa lei diz o contrário. Da mesma forma, outra lei diz que um cavalo encontrado vagando torna-se propriedade de quem o encontrá-lo. Você não pode tirar vantagem de uma lei e negar a outra.
— Isso é ridículo e constrangedor, Umar — Cielema disse com raiva. — Você vai falar com Hassan. Você vai dizer que ele deve devolver o cavalo à Will. Você é o aseikh. Pode fazer isso.
Os lábios de Umar definiam em uma linha apertada.
— Você não entende, mulher, é precisamente porque sou o aseikh que eu não posso fazer isso! Eu não posso ordenar Hassan a ignorar nossas leis! Se eu fizer isso, como posso disciplinar alguém no futuro para fazer a mesma coisa? Para roubar? Ou para ferir o outro? “Oh, me desculpe, aseikh”, as pessoas vão dizer, “nós pensamos que estava tudo certo em ignorar nossas leis, como você disse a Hassan para fazê-lo.”
— Então você vai pedir para ele fazer isso — ela pediu, mas ele sacudiu a cabeça novamente.
— Eu não vou. Não vou constranger Hassan – ou a mim mesmo. Eu sei que ele quer manter este cavalo. Tem todo o direito de fazê-lo. Eu não vou tentar fazê-lo se sentir culpado por fazer algo que ele tem o direito de fazer.
Cielema desviou o olhar com raiva, e sua postura tensa e braços cruzados falavam muito sobre a fúria dentro dela. Will sentiu uma crescente sensação de desesperança.
— Eu poderia falar com Hassan? — perguntou ele, controlando a raiva em sua própria voz, obrigando-se a falar com calma.
Umar considerou a sugestão por alguns segundos, depois encolheu os ombros.
— Não há nenhuma razão porque não — disse ele. — Mas eu devo adverti-lo, isso não vai adiantar nada.

                  
Hassan era um homem jovem. Ele não poderia ter muito mais que vinte anos. Tinha um rosto agradável e uma barba rala que estava obviamente, tentando deixar crescer. Seus olhos eram escuros e bem-humorados e em outras circunstâncias, Will provavelmente teria gostado dele.
Agora, odiava-o com cada fibra do seu corpo.
O jovem bedullin estava acariciando Puxão quando eles o encontraram no cercado dos cavalos. Umar e Cielema haviam escoltado Will, e conforme eles passaram pelo acampamento, a palavra se espalhou com o que estava acontecendo. Agora, uma pequena multidão de curiosos seguia atrás deles. Notou-se que Will estava agora totalmente armado, com sua faca de caça e a de arremesso e o arco enorme pendurada no ombro, mais uma vez.
Ele ouviu um comentário de sussurros nas pessoas seguindo atrás dele quando caminhou por todo o acampamento.
— Eu ouvi que o estrangeiro quer lutar com Hassan pelo o cavalo! — alguém disse.
E quanto mais pensava sobre isso, mais Will descobria que não iria se opor à ideia.
Puxão relinchou feliz quando ouviu Will se aproximando. Ele reconheceu o som de passo de seu mestre. Hassan olhou para cima de seu trabalho e sorriu em boas-vindas. Ele fez o gesto de saudação arridi para Umar.
— Bom dia, aseikh Umar. — Ele olhou para Will, viu a raiva no rosto do rapaz e perguntou o que estava incomodando. — Eu vejo o estranho se recuperou. Isso é bom.
Puxão tentou mover em direção ao seu mestre, mas Hassan o impediu com uma mão firme em suas rédeas. O cavalinho relinchou e olhou intrigado. Ele relinchou bem estridente. O som rasgou o coração de Will.
— Hassan — Umar estava dizendo — este é Will. Will, conheça Hassan Ib'n Talouk.
Hassan fez o gesto de saudação polida novamente. Will respondeu com uma pequena curvatura dura. Mais uma vez, Hassan viu a raiva e franziu a testa, imaginando o que causava isso.
— Você parece ter se recuperado, Will — disse ele. — Eu estou contente de vê-lo.
Ele questionou o que o estrangeiro estava fazendo aqui. Hassan, afinal, não tinha sido responsável por encontrá-lo no deserto. Ele só tinha andado ao longo porque o pequeno cavalo desgrenhado que tinha encontrado alguns dias antes tinha disparado atrás do aseikh quando ele tinha saído montando para investigar os abutres.
O cavalo deve ter apanhado algum cheiro de seu antigo proprietário, Hassan pensou. Era óbvio que o pequeno cavalo tinha pertencido ao jovem que eles encontraram à beira da morte no deserto. Mas Hassan não tinha nenhum pesar em ficar com Puxão. Claro, ele não tinha ideia que esse era o nome do cavalo. Ele tinha batizado-o Última Luz do Dia, em memória a hora do dia quando tinha encontrado o animal. “Quem encontrar é o proprietário” era a lei do deserto e Hassan e todos os bedullin tinham muitas vezes a exercido no passado. Ele não tinha nenhuma razão para pensar que Will iria contestar o fato.
Ele esperava pacientemente agora, enquanto o estrangeiro trabalhava para conseguir o controle de sua raiva. Por fim, Will disse em uma voz calma:
— Hassan, gostaria de ter o meu cavalo de volta, por favor.
Hassan franziu a testa. Ele olhou para Umar por orientação, mas o aseikh evitava seu olhar. Ele sorriu agradavelmente ao estrangeiro.
— Mas ele não é mais seu cavalo. Ele é meu.
Ele olhou para Umar novamente.
— Você não explicou a lei, aseikh?
Umar deslocou-se desconfortável.
— Eu expliquei. Mas o estranho é um estrangeiro. Em sua terra, a lei é diferente.
Hassan considerou esta informação, então encolheu os ombros.
— Então estou contente que não estamos na sua terra. Porque eu gosto deste pequeno cavalo.
Ele hesitou, vendo a expressão triste no rosto de Umar. Cielema estava ao lado dele, ele percebeu. Ela estava muito rígida e com olhar irritado também.
— Aseikh Umar — ele disse — você quer que eu devolva o meu cavalo para o estrangeiro?
Umar hesitou por um longo momento. Ele sabia que o rapaz o tinha no maior respeito. Ele o idolatrava, na verdade. Se Umar dissesse que queria que o jovem devolvesse o cavalo, Hassan ia fazer isso por respeito a seu aseikh. E foi o que impediu Umar a lhe pedir para fazê-lo. Ele sabia que estaria usando sua influência de forma injusta. O cavalo era de Hassan, e Hassan não era de uma família rica. Poderia se passar anos antes que ele pudesse ter outro cavalo.
— Eu não vou pedir-lhe para fazer isso — disse ele, finalmente, cruzando os braços sobre o peito.
Cielema olhou zangada para ele, mas não disse nada.
Hassan olhou para trás para Will.
— Sinto muito — falou Hassan. Ele virou-se para continuar com seu trabalho.
— Eu vou pagar por ele! — Will disse abruptamente.
Hassan parou de alisar e olhou para ele.
— Você tem ouro? — ele perguntou.
Will balançou a cabeça.
— Eu vou buscá-lo. Te dou minha palavra.
Hassan sorriu novamente. Ele era um jovem educado e não queria ser indelicado, mas o estranho simplesmente não entendia como as coisas eram feitas.
— Eu não posso comprar qualquer coisa com palavras — disse ele.
Ele desejava que o estranho parasse de ser tão agressivo. Mas agora que estava aqui, Hassan pensou que ele poderia muito bem descobrir algo que tinha o incomodado sobre o Última Luz do Dia.
— Esse cavalo pode ser montado? — ele perguntou curiosamente.
Toda vez que ele tentava ganhar a sela, o pequeno cinzento tinha o jogado fora. Ele estava repleto de contusões.
Will assentiu com a cabeça.
— Eu posso montá-lo.
Hassan conduziu Puxão para frente e entregou as rédeas à Will. Ele queria ver se isso era possível.
— Me mostre — ele disse.
Ele observou enquanto Will colocava um pé no estribo e subia com facilidade para a sela. Hassan esperou alguns segundos. Normalmente, o pequeno cavalo já teria começado a saltar, torcendo como o diabo, resistindo. Mas ele permaneceu calmo, orelhas em pé.
Montado em Puxão, Will teve um impulso momentâneo para colocá-lo a um galope e simplesmente fugir. Como se sentisse isso, os homens da tribo bedullin apertaram o círculo em torno dele e o momento estava perdido. Além disso, ele pensou, não tinha ideia de onde iria, sem mapa e sem seu buscador do Norte que estava na tenda de Umar. Umar fez um gesto inconfundível com o polegar e Will relutantemente desmontou. Ele colocou a rédea de volta a mão de Hassan que estava esperando-o.
— Portanto, há um segredo para ele andar — disse Hassan. — Você terá que me dizer.
Ele sorriu, desejando que o estranho simplesmente aceitasse o inevitável. Mas ele viu a recusa na expressão de raiva do jovem.
— Você nunca vai montá-lo — disse Will.
Hassan deu de ombros. Ele olhou interrogativamente para Umar, desejando que ele fosse intervir e acabar com esse desconforto.
— Eu vou encontrar um caminho — disse confiante.
Ele era um excelente cavaleiro e tratador de cavalo, afinal. Percebeu que Will tinha chegado a uma decisão.
— Se você não vai me deixar pagar pelo cavalo, vou lutar por ele — Will disse laconicamente.
Hassan realmente pisou um passo para trás, horrorizado com a falta de cortesia e boas maneiras básicas. Desta vez, Umar se fez entrar em cena, enquanto um burburinho corria em volta da multidão assistindo.
— Não haverá nenhuma luta! — ele gritou. Ele olhou para Will. — O que você tem em mente, ficar a cinquenta passos longe e matá-lo com seu arco antes que ele chegasse perto? Isso não é luta. Isso é crime!
Will baixou os olhos. Umar estava certo. Mas ele estava rasgado com a ansiedade sobre a perda de seu cavalo. Encontrá-lo novamente e depois perdê-lo assim era insuportável.
Algo que Cielema tinha dito estava se movendo em volta de sua mente, fora do alcance do pensamento consciente. Havia uma maneira, ele pensou, se ele só pudesse...
— Além disso, se eu não conseguir montá-lo, vou usá-lo como um pônei de carga. Ele é resistente o suficiente — Hassan estava dizendo.
Essa foi a gota d'água. A ideia de que Puxão, seu inteligente, carinhoso, maravilhoso Puxão passaria os seus dias como uma besta de carga foi demais para Will suportar. Então a declaração anterior de Cielema entrou em foco claro e ele soube que havia uma maneira desesperada para isso.
— Eu correrei por ele — desafiou. — Eu vou correr com Puxão contra o melhor cavalo e cavaleiro que tiver no acampamento.
Agora havia um zumbido definitivo de interesse entre a multidão. A cabeça de Umar batia pelo desafio. Como sua esposa havia dito, nenhum homem bedullin poderia resistir a uma aposta. E, além isso iria resolver a situação desagradável que tinha acontecido.
— Quais termos? — Umar perguntou.
Will pensou rapidamente, então respirou fundo e se comprometeu.
— Se eu ganhar, fico com Puxão. Se o homem ganhar, vou dizer Hassan o segredo para montar o cavalo. E eu vou desistir de toda a reivindicação por ele.
Umar olhou ao redor do círculo de rostos olhando. Ele podia ver a luz do interesse e expectativa em cada olho. Este era o tipo de desafio que os bedullin chamavam de corrida de sangue. Já haviam apostas sendo negociadas entre os espectadores. Ele olhou para Will, viu o olhar provocador sobre o rosto do jovem enquanto ele apostava tudo em um lance de dados.
— Hassan? — ele perguntou e o jovem bedullin assentiu com ansiedade.
— Se eu for o cavaleiro — disse ele. — E você me deixar montar o seu cavalo Tempestade de Areia.
Umar assentiu. Hassan era um cavaleiro brilhante e o garanhão de Umar Tempestade de Areia era, de longe, o melhor cavalo da tribo.
— Fechado — disse ele.

3 comentários:

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Will já ganhou :3
    coisa chata essa lei ><

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    1. concordo, a lei devia ser "quem encontrar é proprietário, desde que o verdadeiro proprietário apareça com uma prova"

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Boa leitura :)