29 de dezembro de 2016

Capítulo 30

De volta ao acampamento, as horas demoraram a passar para Horace. Na maioria do tempo, Halt ficava calmo. De tempos em tempos ele iria despertar para mexer-se e virar, murmurando poucas palavras, nenhuma delas fazendo muito sentido.
De vez em quanto, Horace ouvira o nome de Will mencionado e, uma vez, o seu próprio. Mas na maioria do tempo, a mente de Halt parecia estar num lugar muito longe e muito tempo atrás. Ele mencionou nomes e lugares que Horace nunca havia ouvido antes.
Toda a hora que Halt começava esse ataque de murmúrios, Horace se apressava a ajoelhar-se ao lado dele. Ele mantinha um estoque de tecidos molhadas num balde de água gelada, pois notou que os movimentos de Halt quase sempre coincidiam com um aumento na sua temperatura. Nunca esteve tão seco e queimando do que no primeiro dia, mas ele obviamente estava desconfortável e Horace secaria seu rosto e a testa com os tecidos frios e molhados, sussurrando uma canção de palavras de conforto enquanto fazia isso. Parecia acalmar o arqueiro e depois de uns minutos dessas administrações, ele cairia num sono profundo e tranquilo mais uma vez.
Sem muita frequência, ele levantava e ficava lúcido. Geralmente, ele sabia quem era e onde estava e o que aconteceu a ele. Numa dessas ocasiões, Horace aproveitou a oportunidade para persuadi-lo a comer um pouco. Ele fez mais do caldo de carne, usando um pouco do bife esfumaçado, fervendo-o. Parecia bem gostoso e ele esperou que tivesse algum nutriente ali. Halt precisava de nutrientes, ele sentiu. Estava parecendo mais fraco todas as vezes que acordava. Sua voz não era nada mais do que um pequeno sussurro.
Uma vez, ele ficou acordado e consciente por mais de uma hora e as esperanças de Horace aumentaram. Ele usou o tempo para induzir Halt a dar-lhe instruções de como fazer o pão da fogueira que ele chamava de abafador. Era simples demais: farinha, água e sal, moldados numa forma e então deixar-se enterrar nas brasas por aproximadamente uma hora. Infelizmente, na hora que estava pronto para comer, Halt havia adormecido novamente. Horace, desconsolado, ficou com o pão queimado para ele mesmo. Estava pastoso e grosso, mas ele falou para si mesmo que estava delicioso.
Ele limpou sua armadura e afiou suas facas. Elas já estavam afiadas como navalhas, mas ele sabia que ferrugem podia rapidamente formar-se nelas se ele não desse a devida atenção. E ele praticou com a faca também, trabalhando por várias horas até sua camisa estar encharcada de suor. Por todo o tempo, seus ouvidos estiveram em alerta pelo som mais leve do arqueiro abatido, apenas alguns metros de distância.
Ele queria saber onde Will estava, e quanto tinha percorrido. Ele sabia que os cavalos de arqueiros eram capazes de viajar extraordinárias distâncias num dia. Mas Will tinha que considerar a viagem de volta também e seria um tempo precioso para dar descanso aos cavalos no meio do caminho. Ele não poderia gastar suas reservas de energia numa viagem de mão única.
Ele olhou para o mapa e tentou projetar o caminho de Will e progredir nele. Mas era um esforço em vão. Havia muitas incertezas. Trilhas poderiam estar bloqueadas ou apagadas. Margens poderiam ser cobertas ou rios poderiam inundar devido à chuva de quilômetros de distância. Uma dúzia de diferentes coisas poderiam forçar um viajante a dar uma volta em área desconhecida. Will disse que voltaria em três dias. Significava que ele planejava chegar a Macindaw, e na floresta Grimsdell, onde ficava a casa de Malcolm, em apenas um dia.
A viagem de volta iria demorar mais. Malcolm não poderia esperar cavalgar sem paradas sem nenhum descanso adequado como Will podia.
Will permitiu viagem sólida de dois dias, com uma noite inteira de descanso no meio. Seria rígido para o curandeiro idoso, mas suportável.
Horace percebeu que o seu estoque de lenha estava diminuindo. Pelo menos, enchê-lo novamente daria algo para ele fazer. Ele verificou Halt, observando o arqueiro dormir por alguns minutos até decidir que ele não iria mexer-se. Então pegou o machado e foi em direção a um bosque de árvores duzentos ou trezentos metros de distância. Estava cheio de árvores mortas que iria supri-lo, pronto para fazer a fogueira.
Ele recolheu gravetos suficientes, então procurou pedaços pesados, cortando-os em comprimento manuseável com rápidos golpes do machado. Quase sempre, ele iria parar e virar para ver o acampamento. Ele podia perceber a figura inclinada dormindo perto do fogo ardente. As chances eram, é claro, que se Halt gritasse, ele não conseguiria ouvi-lo dessa distância. Já era difícil ouvi-lo através da fogueira.
Satisfeito que já tinha pedaços pequenos o bastante para cozinhar e um estoque de lenhas pesadas e que demorariam acesas para as próximas horas escuras, ele desceu a madeira no carregador de lenha e empurrou os cabos de vez, segurando os galhos e a lenha cortada juntos dentro do saco de lona. Com o machado no ombro e a lenha no outro lado, andou com dificuldade para o acampamento.
Halt ainda estava dormindo e, até aonde Horace podia dizer, ele não tinha se movido na meia hora que o alto guerreiro estivera ausente. No fundo da sua mente, Horace mantinha uma vaga esperança que ele voltaria e encontraria Halt totalmente desperto e recuperado – ou pelo menos, no caminho para recuperar-se. A visão da forma imóvel e quieta encheu-o de tristeza.
De mau humor, ele sentou-se sobre os pés e jogou alguns dos pequenos ramos nas brasas, soprando-os de modo que finas labaredas começaram a subir do carvão que finalmente chegaram à madeira.
O bule estava de cabeça para baixo onde ele havia deixado, depois de jogar fora a sujeira do último café que havia feito mais cedo no dia. Ele encheu o bule e colocou-o para ferver, depois selecionou o estoque de café do pacote de comida.
Ele pesou o pequeno saco de algodão de forma experimental. Estava quase vazio e ele não tinha ideia onde conseguiriam mais nessa floresta.
― Melhor ir devagar ― ele disse em voz alta.
Ele se pegava falando sozinho desde que Will havia partido. Afinal de contas, não tinha ninguém por perto para ouvi-lo.
― Você não pode deixar Will voltar e não haver café para dar a ele.
Quando a água começou a borbulhar e vaporizar, ele mediu um pouco menos que a quantidade normal de café na palma da mão e jogou cuidadosamente na água fervendo. Então afastou o bule das chamas um pouco, o que fez a água estabilizar-se enquanto o café começava a impregnar. O aroma delicioso e inconfundível subiu do bule, apesar da tampa fortemente fechada.
Mais tarde, ele quis saber se foi o cheiro familiar que despertou Halt. Certamente deve ter sido, julgando pelas suas primeiras palavras.
― Eu quero um copo desse quando estiver pronto.
Horace balançou assustado pelo som da voz de Halt. Halt soava mais forte e mais positivo do que na última vez que ele tinha falado. Horace foi para mais perto dele, segurando sua mão direita.
― Halt! Você está acordado! Como está se sentindo?
Halt não respondeu imediatamente. Ele olhou para a figura inclinada perto dele e tentou levantar a cabeça um pouco, mas depois a deixou cair, derrotado.
― Quem é esse? ― ele disse. ― Não posso ver muito claramente por algum motivo. Devo ter batido a cabeça, não foi?
― Sou eu, Halt. E não, você estava...
Antes que Horace pudesse continuar a explicar o que aconteceu, Halt começou a falar novamente e o coração do jovem guerreiro afundou quando ele percebeu que, apesar da aparente força na voz de Halt, ele estava pior agora de um jeito que nunca esteve antes.
― Aquilo destruiu Thorgan, não é? Ele e sua clava. Eu não o vi chegando até que estivesse em mim.
Horace na verdade recuou um pouco em choque. Thorgan? Ele já tinha ouvido o nome. Ouviu quando era um garotinho no castelo em Redmont. Era uma famosa história de coragem e lealdade por toda Araluen e que havia ajudado a fortificar a extraordinária lenda do Corpo de Arqueiros.
Thorgan, o Esmagador, tinha sido um bandido infame que aterrorizou a região norte oriental de Araluen vários anos atrás. Sua equipe de assassinos roubou e mutilou viajantes e até invadiu pequenas aldeias, queimando, roubando e aterrorizando todos os lugares em que ia. O próprio Thorgan carregava uma imensa clava de guerra, de onde ele derivou seu apelido.
Halt e Crowley tendo revitalizado e reformado o Corpo dos Arqueiros haviam jurado derrubar o bando de Thorgan, e trazer Thorgan para frente do tribunal de justiça do rei Duncan. Mas numa corrida fugitiva numa floresta, Crowley havia sido emboscado por três dos homens de Thorgan e estava lutando desesperadamente pela sua vida. Halt foi à sua ajuda, atirando em dois dos bandidos e cortando o terceiro com sua faca de caça. Mas salvando Crowley, ele falhou em ver Thorgan escondido nas árvores até que fosse tarde demais. O grande bandido balançou um terrível golpe com a sua dura clava
 Halt trabalhou para evadir toda a sua força dela, escorregando como um gato para um lado no último momento. Porém, um golpe indireto pegou-o na cabeça e só conseguiu administrar a faca a perfurar profundamente o corpo de Thorgan antes de cair inconsciente acima de Crowley. Até mesmo naquele movimento, ele estava tentando proteger o amigo.
Os dois amigos foram encontrados algumas horas depois por uma patrulha da cavalaria de Duncan. Eles foram encontrados inconscientes. Perto dali, o corpo de Thorgan estava encostado na raiz de uma árvore com uma cara surpresa no rosto, e o punho da faca de Halt projetando-se das suas costelas.
Esse foi o evento, de tanto tempo atrás, que agora estava à frente na mente itinerante de Halt. Suas palavras seguintes confirmaram a suspeita de Horace.
― Você está bem, Crowley? Pensei que fosse tarde demais alcançando você, velho amigo. Espero que você não pense que eu deixaria você caído.
Crowley? Horace entendeu, com uma sensação enjoada na boca do estômago, que Halt havia confundindo-o com o comandante arqueiro. Parecia não haver jeito tentando convencê-lo do contrário. Ele tampouco perceberia seu erro ou não. Horace apertou sua mão.
― Você nunca me deixaria no chão, Halt. Eu sei que não.
Halt sorriu e fechou os olhos brevemente. Então ele abriu-os mais uma vez e havia uma estranha calma neles.
― Não sei se vou conseguir dessa vez, Crowley ― ele disse, numa voz trivial.
Horace sentiu o coração recuar de tristeza – mais no tom de aceitação do que nas próprias palavras.
― Você vai conseguir, Halt. É claro que você vai conseguir! Precisamos de você. Eu preciso de você.
Mas Halt sorriu novamente, um pequeno e triste sorriso que dizia que ele não acreditava nas palavras que estava ouvindo.
― Foi uma longa estrada, não é? Você tem sido um bom amigo.
― Halt... ― Horace começou, mas Halt levantou uma mão para pará-lo.
― Não. Não pode ter sido muito tempo, Crowley. Cheguei a dizer algumas coisas...
Ele pausou, respirando profundamente, reunindo sua força. Por um terrível momento, Horace pensou que ele tinha sido levado. Mas depois ele reanimou-se.
― O garoto, Crowley. Você irá tomar conta dele, não vai?
Instintivamente, Horace soube que ele estava falando de Will. O sentido de tempo e eventos de Halt pareciam misturados. Mas ele estava procurando o rosto de Horace agora, obviamente vendo somente um borrão e esperando por resposta.
― Crowley? Você ainda está aí?
― Estou aqui, Halt ― Horace disse.
Ele engoliu a saliva, desesperadamente forçando as lágrimas quentes e picantes a voltarem quando elas ameaçavam forçarem-se para fora dos seus olhos.
― Estou aqui. E vou cuidar dele, não tenha medo.
Ele viu uma dor aguda de culpa e decepção no rosto de Halt, mas considerou que não era nada. Halt havia ficado preocupado quando pensou que “Crowley” não havia ouvido seu pedido. Ele relaxou um pouco quando Horace respondeu-o.
― Pensei que talvez você tivesse partido ― Halt disse, então, com um pouco do seu riso mordaz, adicionou ― pensei que talvez eu tivesse partido.
Então o riso perdeu força quando ele se lembrou do que estava dizendo.
― Ele poderá ser o maior de todos nós, você sabe.
Horace abaixou a cabeça, mas sabia que tinha que responder. Ele tinha que manter Halt falando. Se ele estava falando, estava vivo. Era tudo o que Horace sabia.
― Ele teve um grande professor, Halt ― Horace disse a voz falhando.
Halt acenou uma fraca mão em recusa.
― Não precisei ensiná-lo. Só precisava apontar o caminho.
Foi uma longa pausa, então ele continuou.
― Horace também. Um dos bons ali. Observe-o. Ele e Will juntos... eles podem ser o futuro desse reino.
Dessa vez Horace não podia falar. Ele sentiu uma entorpecente onda de tristeza, mas ao mesmo tempo, um calor de orgulho estava no seu coração – orgulho que Halt falara sobre ele em alguns termos.
Incapaz de falar, ele apertou a mão do arqueiro mais uma vez. Halt fez outro esforço para levantar a cabeça e conseguir mantê-la alguns centímetros do travesseiro.
― Mais uma coisa... fale para Pauline... ― Ele hesitou e Horace estava prestes a estimulá-lo quando ele conseguiu continuar. ― Ah... não importa. Ela sabe que nunca teve mais ninguém para mim.
Aquele último esforço pareceu exaustá-lo e seus olhos lentamente se fecharam. Horace abriu a boca para soltar seu grito de pesares, mas percebeu que o tórax do arqueiro ainda estava subindo e descendo. O movimento era lento. Mas ele ainda estava respirando. Ainda vivo.
E Horace abaixou a cabeça e chorou. Talvez de medo. Talvez de angústia. Talvez de alívio pelo amigo continuar a vivo.
Talvez por todos os três.

3 comentários:

  1. Que porcaria. Halt não poe morrrer!
    Ass:Lua

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  2. Nossa, eu achei que ele ia falar que era pai do Will. Dai, eu ia chora mais do que to agora.
    -Sinead

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Boa leitura :)