18 de dezembro de 2016

Capítulo 30

Agora que eles tinham decidido tomar o caminho mais direto para os Poços Khor-Abash, não havia sentido em ter Gilan, Halt e Selethen cavalgando na frente.
Antes do amanhecer do dia seguinte, todo o grupo levantou acampamento e partiu junto. Inicialmente, Selethen os levou em uma longa curva a oeste, antes de retornar a um curso noroeste – o curso base que os tualaghi tinham seguido. Isto lhes deu bastante folga para que pudessem evitar cruzar com o grupo de guerra tualaghi em um de seus ziguezagues.
Sem a necessidade de seguir mais as trilhas tualaghi, eles foram capazes de reverter para o padrão original de viagem, viajando nas horas mais frias da escuridão antes do amanhecer. Além disso, eles continuaram a se mover para noroeste depois de o sol se pôr, tendo uma hora extra ou duas a cada dia de viagem. Desta forma, foram capazes de ganhar terreno considerável sobre o inimigo. Conforme acampavam na escuridão, no segundo dia de viagem direta, um dos batedores de Selethen que andava em campo relatou a seu wakir. Selethen ouviu, em seguida, se aproximou do local onde o grupo araluense estava sentado, com um sorriso satisfeito no rosto.
— Nós estávamos certos — disse ele. — Meu batedor diz que a força tualaghi está seguindo um curso paralelo ao nosso. Eles estão acampados para a noite, cerca de dez quilômetros ao nordeste.
Ele olhou significativamente à pequena fogueira feita para cozinhar semiescondida que era tudo o que tinha sido permitido para seu grupo. Sua luz, ele sabia, seria apenas visível a uma distância de menos de dois quilômetros.
— Aparentemente, eles estão convencidos de que perdemos sua trilha. Não se preocuparam em esconder suas fogueiras.
Halt coçou o queixo, pensativo.
— É claro que, em circunstâncias normais, você teria desistido e voltado há muito tempo, não é?
O líder arridi assentiu.
— Exatamente. Parece que os nossos amigos estão a se tornar excessivamente confiantes na sua capacidade de nos perder.
— E o excesso de confiança — acrescentou Halt — pode ser uma coisa perigosa.
Ele virou-se para o arqueiro mais jovem, que estava relaxando apoiado na sela, o café sempre presente em suas mãos.
— Gil — disse ele — você acha que pode dar uma olhada em seu acampamento hoje à noite?
Gilan sorriu e terminou seu café.
— Pensei que você nunca pediria — disse ele. Ele olhou para a lua, agora baixa no céu ocidental. — A lua irá sair em meia hora ou assim. Poderia muito bem ir agora.
— De acordo com o homem de Selethen, você deve ser capaz de ver suas fogueiras a cerca de quatro quilômetros de distância. Deixe Blaze lá e vá à frente de pé. Certifique-se de cobrir seus rastros e... — Halt pausou, consciente de que Gilan estava assistindo ele com um sorriso paciente no rosto. — Desculpe — disse ele.
Se alguém sabia como fazer um trabalho de vigilância como este, era Gilan.
— Você sabe de tudo isso, certo? — ele acrescentou, com um sorriso triste no rosto.
— Certo — disse Gilan. — Mas nunca é demais ser lembrado. Alguma coisa em particular que você quer que eu procure?
Halt pensou, então encolheu os ombros.
— O óbvio. Veja se é possível detectar Erak. Veja como eles o tem guardado. Se há uma chance de tirá-lo de seu acampamento em segredo, eu prefiro fazer isso a lutar uma batalha campal. Os números também, é claro. Vamos descobrir quantos deles realmente existem. Qualquer outra coisa que você achar que possa ser interesse.
— Considere feito.
Gilan tinham hasteado a sela sobre um ombro e se dirigia para o local onde os cavalos foram alojados durante a noite. Horace levantou-se apressadamente, tirando a areia dos joelhos.
— Espera aí, Gilan. Quer alguma companhia? — ele perguntou.
Gilan hesitou. Ele não queria ofender o jovem guerreiro.
— Poderia ser melhor se ele saísse sozinho, Horace — Halt advertiu. — Ele é treinado para mover-se silenciosamente, e você não.
Horace acenou com a compreensão.
— Eu sei disso. Mas eu posso esperar onde ele deixar Blaze, manter um olho nas coisas. Mesmo eu não posso ser ouvido a mais de quatro quilômetros de distância.
— Isso é discutível — disse Halt, perfeitamente sereno. Então ele olhou para Gilan. — Mas ele tem um ponto. Pode ser uma boa ideia ter algum apoio por perto.
— Tudo bem por mim — Gilan disse, aliviado agora que sabia que não havia necessidade de ofender Horace. — Eu vou ficar feliz com a companhia. Vamos pôr a sela.
Horace estendeu a mão e agarrou sua própria sela e em conjunto, os dois caminharam na direção de seus cavalos.


— Acho que é melhor você ficar aqui — Gilan recomendou a Horace.
O jovem assentiu e ambos saltaram até o chão. Horace amarrou as rédeas de Kicker a um espinheiro. Gilan, à maneira dos arqueiros, simplesmente deixou as rédeas no chão.
— Fique — disse ele a Blaze.
O baio, ambos sabiam, iria limitar os seus movimentos em um raio de cerca de vinte metros até seu mestre voltar. Gilan e Horace examinaram o horizonte para o noroeste.
— Eles estão ficando arrogantes, não estão? — Horace perguntou.
Mesmo a esta distância, o brilho do fogo do acampamento tualaghi era claramente visível no céu acima do horizonte.
— Eles estão, de fato — disse Gilan. — Deixe que seja uma lição para você. Nunca assuma que você se livrou de alguém até que esteja absolutamente certo disso.
Ele libertou seu arco e aljava e colocou-os no chão. Não iria precisar deles nesta missão e só iam atrapalhar. Da mesma forma, tirou a espada embainhada em seu cinto. Isso o deixava com sua faca de caça e a de arremesso, que eram armas suficientes.
— Quer que eu solte a sela de Blaze? — Horace perguntou e Gilan respondeu sem hesitação.
— Não. Deixe como está. Kicker também. Podemos querer sair daqui com pressa, se alguma coisa der errado.
Horace o considerou com algum interesse. Ele conhecia a reputação do jovem arqueiro como um dos melhores em movimento invisível no Corpo de Arqueiros, talvez o melhor. Foi-lhe dito que Gilan poderia ficar a poucos metros de uma sentinela concentrada, roubar seu cinto e sapatos, e deixar o homem perguntando por que suas calças estavam caindo, e seus pés estavam frios. Horace sabia que era um exagero – mas não por muito.
— Você está esperando alguma coisa dar errado? — ele perguntou.
Gilan olhou para ele sério e colocou uma mão em seu ombro.
— Sempre espere que algo dê errado — disse ele. — Acredite, se você estiver errado, não ficará decepcionado. Se estiver certo, estará pronto para isso.
Às vezes, ele sentia estranho dar esse tipo de conselho para era um cavaleiro reconhecido como um excelente espadachim. Mas Gilan teve que fazer-se lembrar que Horace era jovem, não importa quanto ele possa ter realizado.
— Vejo você em algumas horas — disse ele, e derreteu-se na escuridão.


Gilan moveu-se rápida e silenciosamente sobre o terreno acidentado. Quando chegou à crista do primeiro cume entre ele e o acampamento tualaghi, olhou para trás uma vez ao local onde a figura alta e os dois cavalos estavam esperando. Então caiu no chão e rolou em silêncio sobre o cume e na área escura por baixo, evitando se mostrar para qualquer observador possível. A única coisa que essa pessoa poderia ter visto teria sido uma sombra indeterminada que brevemente quebrou a linha do horizonte antes de desaparecer.
Depois que estava seguramente abaixo do cume propriamente dito, Gilan retomou os seus pés e se dirigiu para as fogueiras.
O fato de ter essas clareiras era um perigo potencial, ele sabia. Seria muito fácil simplesmente continuar em direção à luz das fogueiras, agora cada vez mais visíveis no horizonte, sem cuidar que ele mesmo não fosse observado. Excesso de confiança, como todos tinham observado, era uma coisa perigosa. Assim, ele prosseguiu como se houvesse uma contagem de sentinelas apenas fora da vista, todos alertas e todos avisados de que alguém pudesse estar tentando passar despercebido deles.
Levou mais tempo para fazê-lo dessa maneira. Mas ele sabia que poderia salvar a vida dele no final.

Gilan chegou ao acampamento tualaghi uma hora depois. Como antes, caiu no chão antes do cume final, e avançou para frente, o capuz de sua capa puxado para cobrir seu rosto
Enquanto seus olhos cresceram acima da linha do cume, ele assobiava silenciosamente para si mesmo. O acampamento era muito maior do que era esperado. Eles vinham acompanhando um grupo de cerca de oitenta homens. Devia haver mais de duzentos neste campo, e duas vezes mais fogueiras do que ele poderia ter esperado – outra razão pela qual a luz do fogo estava tão evidente. Ou eles já voltaram ao grupo principal, pensou ele, ou se encontraram com outro.
Realmente não importa qual a resposta correta, percebeu. O fato era que havia quase quatro vezes mais homens do que eles tinham. Isso significava um ataque direto estava praticamente fora de questão.
Enquanto digeria este fato, seus olhos procuraram no acampamento por algum sinal de Erak. Não demorou muito para encontrá-lo. A figura corpulenta do oberjarl se destacava entre os nômades franzinos do deserto. Como seria de esperar, ele estava praticamente no centro do acampamento, onde seria mais difícil um potencial salvador alcançar. Os tualaghis tinham deixado o prisioneiro ao ar livre enquanto passavam a noite em pequenas tendas baixas, semelhantes às que as tropas arridi de Selethen usavam. Erak tentava tornar-se o mais confortável possível no ar frio da noite, com apenas um cobertor para se aquecer. Enquanto Gilan via, o grande escandinavo se mexia no chão de pedra, e as algemas de segurança nele se tornaram mais evidentes. Gilan franziu a testa, tentando ver ao que Erak estava anexado, em seguida, percebeu que ele estava acorrentado em não um, mas dois camelos que estavam deitados nas proximidades. Ele balançou a cabeça em frustração. Mesmo depois de um breve período em Arrida, tinha aprendido o quão teimosos os animais corcundas poderiam ser. Acorrentar Erak entre dois deles tornaria praticamente impossível para ele escapar. E os animais mal-humorados proveriam uma advertência barulhenta se alguém tentasse mexer com suas correntes.
“Portanto, sem ataque direto e não há maneira de entrar e soltá-lo”, Gilan pensou. Isso estava ficando mais complicado a cada minuto.
Ele não tinha ideia do que o alertou para o leve movimento. Ele sentiu mais do que viu um movimento na periferia de sua visão. Algo, ou alguém, tinha se movido no cume que ele ocupava. Mas quem ou o que poderia estar quatro ou cinco centenas de metros à esquerda da sua posição, onde o cume curvava para trás, à direita. Ele olhou diretamente para o local e não viu nada na luz da noite incerta. Então, olhou para outra posição para permitir à sua visão periférica uma chance para ver se a figura estava mesmo lá. Este era um velho truque para ver o movimento no escuro. A visão periférica é mais confiável.
Agora ele tinha certeza. Algo se moveu. O movimento era abruto e foi isso que o alertou. A forma pequena tinha deslizado para trás abaixo do nível do cume. Ele olhou diretamente para o local novamente, mas não havia nada para ser visto. Uma sentinela? Não, não havia nenhuma razão para que uma sentinela se comportasse de forma clandestina. E não havia nenhum sinal de quaisquer outras sentinelas tão longe do perímetro. Essa tinha sido a primeira coisa que Gilan tinha verificado quando fez sua abordagem. Não fazia sentido para uma sentinela estar colocado onde ele tinha visto o movimento. Talvez tivesse sido um pequeno animal noturno? Era possível, mas duvidava disso. arqueiros foram treinados para ouvir os seus instintos.
Os instintos de Gilan lhe disseram que alguém mais estava observando o acampamento tualaghi.

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Boa leitura :)