18 de dezembro de 2016

Capítulo 2

— Certo  Will disse aos três rapazes — vamos vê-los disparar. Dez flechas em cada um desses alvos.
Ele apontou três grandes alvos padrões estabelecidos a 75 metros do alcance. Os três se apresentaram para a linha de fogo. Um pouco mais longe, dois altos arqueiros estavam praticando, disparando contra alvos do tamanho de um prato de jantar grande a uma distância de 150 metros. Por alguns momentos, os três aprendizes do primeiro ano assistiram com admiração enquanto os dois atiradores acertavam flecha atrás de flecha no alvo quase invisível.
— Qualquer hora antes do pôr do sol seria ótimo  Will pressionou.
Ele não tinha ideia de que estava imitando o tom seco, cansado e zombeteiro que Halt havia usado com ele quando ele próprio estava começando a aprender as habilidades de um arqueiro.
— Sim, senhor. Desculpe senhor  disse o mais próximo dos três rapazes.
Todos olharam para ele, olhos arregalados. Ele suspirou.
— Stuart?  ele disse ao rapaz que tinha falado.
— Sim, senhor?
— Você não me chama de senhor. Nós dois somos arqueiros.
— Mas...  Começou um dos outros meninos.
Ele era forte e tinha um emaranhado de cabelos vermelhos que caíam sobre a testa. Will revistou sua memória procurando pelo nome do garoto: Liam, ele lembrou.
— Sim Liam?
O menino se confundiu desajeitadamente.
— Mas nós somos aprendizes e você...  Ele parou. Não tinha certeza do que ia dizer. Provavelmente seria algo ridículo como, “Mas nós somos aprendizes e você é você”.
Porque embora Will não soubesse, ele era um objeto de admiração por esses meninos. Ele era o lendário Will Tratado, o arqueiro que tinha salvado a filha do rei do exército de Wargals de Morgarath e a protegido quando foram sequestrados por invasores escandinavos. Então, ele tinha treinado e levado um grupo de arqueiros na batalha contra os cavaleiros temujai. E no ano anterior, havia repelido a invasão scotti na fronteira norte do reino.
Estes três respeitariam qualquer arqueiro graduado. Mas Will Tratado era apenas alguns anos mais velho que eles, e por isso era um assunto para o culto do herói no mais alto grau. Como resultado, ficaram um pouco surpresos quando o conheceram. Eles esperavam uma figura maior que a vida – um herói em termos clássicos. Em vez disso, foram apresentados a um jovem com rosto liso, um sorriso pronto e um corpo esguio, que era um pouco menor que a altura média. Se Will tivesse percebido isso, teria se divertido e ficaria um pouco envergonhado. Esse era exatamente o tipo de reação que ele estava acostumado a ver nas pessoas que encontravam Halt pela primeira vez. Desconhecido para ele, sua reputação estava começando a rivalizar com a de seu antigo professor.
Will pode não ter compreendido o culto do herói que esses meninos sentiam por ele pessoalmente. Mas entendia o abismo existente que eles sentiam entre um arqueiro e um aprendiz. Ele se sentia da mesma forma, lembrou.
— Vocês são aprendizes de arqueiro  falou. — E a palavra mais importante é “arqueiros”. — Ele bateu no amuleto de Folha de Carvalho de Prata que estava pendurado ao pescoço. — Como sendo detentor da Folha de Carvalho de Prata, eu poderia esperar obediência e algum nível de respeito de vocês. Mas não espero que me chamem de senhor. Meu nome é Will e assim vocês me chamarão. Poderiam chamar o meu amigo de Gilan e meu ex-mestre de Halt, se ele estivesse aqui. Essa é a maneira dos arqueiros.
Foi um pequeno ponto, ele sabia, mas um importante. Os arqueiros eram uma classe única e em certas ocasiões precisavam afirmar sua autoridade sobre as pessoas que seriam nominalmente muito superiores a eles em ordem. Era importante que estes meninos soubessem que um dia eles poderiam precisar recorrer à força e confiança que o rei conferia a seus arqueiros. Todos eles – os aprendizes e graduados também. A autoconfiança que eles precisariam seria construída inicialmente por seu senso de igualdade com seus colegas do Corpo de arqueiros.
Os três aprendizes se entreolharam enquanto recebiam o que Will tinha dito. Ele viu os seus ombros endireitarem um pouco, seus queixos levantarem levemente.
— Sim... Will  disse Liam.
Ele assentiu para si mesmo, como se tentando colocar a palavra para fora e gostou do que ouviu. Os outros ecoaram o sentimento, balançando a cabeça a sua volta. Will deu-lhes alguns momentos para saborear a sensação de confiança, então olhou significativamente para o sol.
— Bem, está chegando cada vez mais perto do pôr do sol — disse ele para si mesmo.
Ele escondeu um sorriso quando três flechas deslizaram para fora de suas aljavas. Poucos segundos depois, três arcos vibraram e ele ouviu o familiar raspar, quando os disparos estavam em seu caminho ao alvo.
— Dez tiros  disse ele. — Então vamos ver como vocês estão indo.
Ele caminhou até uma árvore próxima e sentou-se debaixo dela, as costas confortavelmente apoiadas contra o tronco. Com seu capuz puxado para cima e seu rosto na sombra, ele parecia estar cochilando. Mas os seus olhos se moviam incessantemente, não perdendo nada enquanto estudava todos os aspectos da técnica dos três rapazes atirando.
Nos próximos dois dias, Will avaliaria suas habilidades com o arco, corrigindo pequenas falhas na técnica conforme ele as via. Liam tinha desenvolvido um hábito de medir a sua pressão total tocando o polegar direito no canto da boca.
— Toque sua boca com o dedo indicador, e não com o polegar — Will disse. — Se você usar o polegar, a mão tende a torcer para a direita, e isso irá lançar a flecha longe da trajetória quando você soltar.
Liam assentiu com a cabeça e fez o ligeiro ajustamento. Imediatamente, sua precisão aumentou, em especial sobre os tiros mais longos, onde a ligeira mudança no ângulo tinha um efeito maior.
Nick, o mais quieto dos três, estava apertando o seu arco com muita força. Ele era um jovem forte e ansioso para ter sucesso. Will percebeu que era daí que o aperto exagerado vinha. Nick estava permitindo que sua determinação afetasse a aderência relaxada que o arco necessitava. Um controle apertado muitas vezes significava o arco inclinando para a esquerda no momento do lançamento, resultando em um tiro selvagem e impreciso. Mais uma vez, Will corrigiu a falha e mandou o jovem para praticar.
A técnica de Stuart era boa, sem falhas de menor importância nesse estágio. Mas como os outros, suas habilidades só iriam atingir o nível exigido de um arqueiro com horas de prática.
— Prática e mais prática  Will lhes disse. — Lembre-se do velho ditado que diz: “Um arqueiro comum pratica até acertar. Um Arqueiro pratica...?”  Ele deixou a frase pairar no ar, esperando para que os aprendizes a terminassem.
— “Até nunca errar”  eles responderam em coro.
Ele assentiu, sorrindo em aprovação.
— Lembrem-se disso  ele disse.
No terceiro dia, porém, houve uma pausa nas horas de praticar com o arco. Na noite anterior, os meninos receberam o esboço escrito do exercício tático que tinha sido estabelecido para eles. Eles passaram as horas entre o jantar e a hora de ir dormir passando por cima do problema e formando suas primeiras ideias para uma solução.


Will tinha recebido os detalhes do exercício ao mesmo tempo. Ele balançou a cabeça quando leu.
— Crowley e seu senso de humor  disse ele, fechando a pasta na exasperação leve.
Gilan olhou para cima de onde estava costurando uma renda em sua capa. Ele tinha escolhido para demonstrar o movimento invisível através de um espinheiro naquela tarde, resultando em danos menores ao seu vestuário.
— O que ele fez?  ele perguntou.
Will bateu a pasta com as costas da mão.
— Essa missão tática. Aquela que ele disse que iria me divertir. Os meninos têm que inventar uma forma de cercar e capturar um castelo guarnecido por invasores e fixado em um feudo ao norte. Tem de recrutar uma força de ataque adequada e tomar o castelo. Soa familiar?
Gilan sorriu.
— Já ouvi falar de alguém que teve um problema semelhante  ele admitiu.
Era quase idêntica à situação que Will tinha enfrentado no inverno anterior, no Castelo Macindaw.
— Parece que minha vida se tornou um exercício tático  Will resmungou.
Ele estava mais perto da verdade do que pensava. Crowley tinha feito um relatório detalhado do cerco e entregado ao Corpo inteiro. Os arqueiros companheiros de Will tinham estudado suas táticas e estavam muito impressionados com elas. Aqueles com aprendizes tinham começado a usar o cerco como um exemplo de iniciativa e imaginação para lidar com o problema de ter uma força muito menor do que a sabedoria da tática comum considerava adequada.
Gilan sabia de tudo isso, mas não acreditava que seria uma boa ideia dizer isso a Will. Ele percebeu que seu amigo poderia ficar envergonhado com o pensamento de tanta notoriedade. Naturalmente, Will tinha sido o único arqueiro no corpo que não tinha recebido o resumo de Crowley.
— Quais os recursos que eles têm disponíveis?  Gilan perguntou.
Will franziu a testa enquanto abria a pasta novamente, voltando-se para a lista de recursos. Tendo sido definido o problema, os meninos receberam alguns recursos a que poderiam recorrer para ajudá-los a planejar uma solução.
— Um viajante bardo  ele leu.
Esse tinha sido o seu próprio disfarce em Macindaw.
— Muito engraçado. Ele não vai ser uma grande ajuda. Um cavaleiro montado... Olá, Horace. A antiga guarnição do castelo, quarenta deles, espalhados por todo o campo, é claro. Um grupo de saltimbancos, acrobatas e jogadores... hmmm, eles poderiam ser úteis. E o povo da aldeia local.
— Sem náufragos escandinavos ou feiticeiros?  Gilan provocou-lhe suavemente.
Will bufou em escárnio.
— Não. Ao menos ele poupou-me disso.
Ele parou de falar, mastigando uma unha enquanto refletia sobre o problema. Acrobatas. Eles poderiam ser úteis para chegar ao topo do muro. Ele passou algumas páginas para encontrar o diagrama do castelo. A altura da parede estava entre três e quatro metros. Uma enorme barreira para um homem normal. Mas um acrobata treinado poderia...
Ele agarrou-se fora disso, batendo as páginas e fechando-as. Não era problema dele. Os três meninos tinham que encontrar uma maneira de resolver isso. Tudo o que ele tinha a fazer era avaliar o quão prática era a solução deles.
— Parece divertido  murmurou Gilan.
Will balançou a cabeça.
— Eu não posso esperar para ver o que eles vão inventar.

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