29 de dezembro de 2016

Capítulo 2

 O’Malley, não é? E por que você está procurando por ele?  Perguntou o taberneiro.
Aqueles olhos escuros e entediados foram ao encontro dele novamente. A mensagem em si foi clara. A mão do estranho moveu-se para cobrir a moeda de ouro. Mas naquele momento, ele não fez nenhum movimento para apanhá-la e removê-la do bar.
— Bem — o estrangeiro disse calmamente — eu estava imaginando, por que esse ouro está aqui? Por acaso foi você que o colocou?
Antes que o taberneiro pudesse responder, ele continuou.
― Não. Não me lembro de que isso tenha acontecido. Pelo que me lembro, eu o coloquei aqui, em troca de informações. Não foi assim que você entendeu?
O taberneiro pigarreou nervosamente. A voz do jovem era calma e mantinha-se num tom baixo, mas de fato, não menos ameaçadora.
— Sim. Foi isso mesmo — respondeu ele.
O estrangeiro assentiu com a cabeça várias vezes, como se considerando sua resposta.
— E me corrija se eu estiver errado, geralmente aquele que está pagando é quem dá o tom. Ou neste caso, faz as perguntas. Você vê dessa forma também?
Por um segundo, Will se perguntava se não estava exagerando no tom silencioso de ameaça. Depois descartou a ideia. Com uma pessoa como esta, cuja vida provavelmente era centrada em torno de informação e negociatas, ele precisava impor certo nível de autoridade. E a única forma de autoridade disponível que esse bajulador podia entender, era baseada no medo. A menos que Will conseguisse dominá-lo, o taberneiro seria encorajado a lhe contar toda uma sorte de mentiras que lhe viesse à mente.
— Sim, senhor. É assim que eu vejo.
O “senhor” era um bom começo, Will pensou. Respeitoso, sem ser muito insinuante. Ele sorriu de novo.
— Portanto, a menos que você queira empatar minha moeda por uma das suas novamente, vamos continuar, comigo perguntando e você respondendo.
Sua mão deslizou para longe da moeda de ouro mais uma vez, deixando-a reluzir sobre a superfície áspera do bar.
— Black O’Malley. Ele está aqui esta noite? — O estranho perguntou.
O cara de rato permitiu-se deslizar o olhar pela taverna, apesar de que ele já sabia a resposta. Pigarreou novamente. Era estranho como a presença deste jovem parecia deixá-lo sem ação.
— Não senhor. Ainda não. Ele geralmente chega um pouco mais tarde.
― Então eu vou esperar — disse Will.
Ele olhou ao redor e escolheu uma pequena mesa afastada dos outros fregueses. Estava em um canto, um local devidamente discreto e ele estaria fora da linha de visão de quem entrasse na taberna.
— Vou esperar lá. Quando O’Malley chegar, você não vai dizer nada para ele sobre mim. E também não vai olhar para mim. Mas vai dar um puxão em sua orelha por três vezes, para deixar-me saber que ele chegou. Está claro?
— Sim, senhor. Está.
―Bom. Agora...
Ele pegou a moeda e com a outra mão a faca de caça, e por um instante o dono da taverna pensou que ia ficar com o dinheiro. Mas Will a segurou pela borda e passou o fio de sua faca bem no meio da moeda, cortando-a em dois semicírculos. Dois pensamentos ocorreram ao dono da taverna. O ouro deveria ser muito puro para cortar tão facilmente. E a faca deveria ser assustadoramente afiada, para atravessá-la com tão pouco esforço.
Will deslizou metade da peça de ouro ao longo do bar.
— Aqui está uma metade, entenda como um gesto de boa-fé. Terá a outra metade quando você fizer o que eu pedi.
O taberneiro hesitou por um segundo. Então, engolindo nervoso, pegou a metade mutilada do ouro.
― Vai querer alguma coisa para comer enquanto espera, senhor? — Ele perguntou.
Will recolocou a outra metade da moeda de ouro em sua bolsa presa ao cinto, em seguida, esfregou os dedos e o polegar juntos. Eles estavam levemente cobertos com graxa por causa do breve contato com a parte superior do bar. Ele olhou mais uma vez o pano sujo sobre o ombro do taberneiro e balançou a cabeça.
— Eu acho que não.
Will sentou-se, ficou cuidando de seu café enquanto esperava o homem que entraria no bar.
Quando Will chegou pela primeira vez em Porto Cael, tinha encontrado um quarto em uma pousada a alguma distância da beira-mar, numa das áreas mais bem guardadas da cidade. O estalajadeiro era um homem taciturno, não dado para o tipo de boatos que sua espécie normalmente gostava. Fofocar era uma forma de vida para os estalajadeiros, Will pensou. Mas este parecia decididamente atípico. Melhor parte da cidade ou não, ele percebeu que esta ainda era uma cidade que dependia em grande parte do contrabando e outras formas de comércio ilegal. As pessoas tenderiam a ter suas bocas-fechadas com estranhos.
A menos que esse estranho oferecesse ouro, assim como Will fez. Ele disse ao estalajadeiro que estava procurando por um amigo. Um grande homem de cabelos longos e grisalhos, vestido com uma túnica branca e com um grupo de cerca de vinte seguidores. Haveria dois entre eles que usavam mantos púrpuros e chapéus de abas largas da mesma cor. Possivelmente carregando bestas.
Enquanto descrevia Tennyson e os assassinos, os olhos do estalajadeiro deixaram escapar a verdade. Tennyson tinha estado ali, então tudo certo. Seu pulso subiu um pouco ao pensar que talvez ele ainda estivesse aqui. Mas as palavras do estalajadeiro acabaram com essa esperança.
— Eles estavam aqui sim — disse ele. — Mas já se foram.
Aparentemente, o homem havia decidido que se Tennyson já tinha saído de Porto Cael, não haveria nenhum mal em dizer ao jovem que perguntava por ele. Will apertou os lábios com a notícia, permitindo que a moeda de ouro caísse sobre a extremidade final entre os dedos da mão direita – um truque que ele passava horas aperfeiçoando para matar o tempo, em torno de incontáveis fogueiras. O metal refletia a luz e brilhava convidativo, a moeda ia de uma extremidade dos dedos de Will para a outra, atraindo os olhos do estalajadeiro.
― Foram aonde?
O estalajadeiro voltou os olhos para ele. Então sacudiu a cabeça na direção do porto.
― Foram para o mar. Aonde não sei.
— Alguma ideia de quem poderia saber?
O estalajadeiro encolheu os ombros.
— Sua melhor aposta seria perguntar ao Black O’Malley. Ele poderia saber. Quando há pessoas querendo sair com certa pressa, ele seria a pessoa indicada para o serviço.
― Um nome muito estranho. Como ele o conseguiu?
— Houve uma luta no mar há alguns anos. Seu navio foi atacado. Por... — o homem hesitou momentaneamente, em seguida continuou — por piratas. Houve uma briga e um deles bateu-lhe na cara com uma tocha flamejante. A tocha agarrou à sua pele e a queimou, deixando uma marca negra no lado esquerdo de seu rosto.
Will estava balançado a cabeça pensativo. Se tivesse havido qualquer pirata envolvido nessa luta, ele apostaria que eles estavam velejando em companhia de O’Malley. Mas isso era irrelevante.
— E como encontro este O’Malley? — ele perguntou.
— Na maioria das noites, você vai encontrá-lo na taberna de Heron, nas docas.
O estalajadeiro havia pegado a moeda e quando Will se virou, ele acrescentou:
― É um lugar perigoso. Não é uma boa ideia você ir sozinho, ainda mais sendo um estranho como é. Eu tenho uma dupla de grandes rapazes que fazem algum trabalho para mim de vez em quando. Pode ser que eles estariam dispostos a ir com você. Por uma pequena taxa.
O jovem olhou para trás, considerou a sugestão e balançou a cabeça sorrindo lentamente.
— Acho que posso cuidar de mim — disse.

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