29 de dezembro de 2016

Capítulo 29

Will cavalgou em Puxão por várias horas e agora que havia atravessado o rio, parecia uma boa hora para trocar de cavalo. Ele afrouxou a correia da sela de Puxão. O pequeno cavalo parecia um pouco insultado.
Você sabe que posso continuar.
― Eu sei que você aguenta muito mais ― Will disse gentilmente. ― Mas quero contar com você mais tarde, quando o resto de nós estiver cansado até os ossos.
Puxão sacudiu a crina. Ele concordou. Mas não tinha que gostar. Mesmo Abelard sendo seu amigo, ele preferia levar Will. Sabia que mesmo que Will não conseguisse, ele poderia cavalgar dia após dia, hora após hora, sem se desgastar.
Will apertou a correia em volta de Abelard. Não houve necessidade de olhar se ele ia fazer algum truque. Ao contrário de outras raças, os cavalos arqueiros, nunca encheriam os pulmões para expandir seus corpos enquanto a correia estivesse sendo apertada e depois soltariam o ar deixando a correia frouxa novamente. Will testou a sela e começou a levantar o pé esquerdo para o estribo, quando percebeu que Abelard virou sua cabeça para olhá-lo ansiosamente.
― É claro ― ele disse suavemente. ― Desculpe minha falta de educação.
Ele olhou firmemente para o cavalo e disse às palavras que Halt o havia ensinado há tantos anos atrás, na casa de Bob no meio da floresta.
― Permettez moi? ― Ele esperava que a pronúncia estivesse correta.
Seu galês não era dos melhores. Abelard sacudiu a cabeça algumas vezes de modo encorajador e Will colocou o pé no estribo e subiu montando no cavalo de Halt. Por um segundo ele esperou, perguntando-se se tinha dito corretamente a senha, em dúvida se Abelard estava simplesmente à espera dele relaxar para depois jogá-lo no ar, desabando sobre a grama. Estranhamente, em todos os anos que ele e Halt estiveram juntos, nunca teve a oportunidade de montar Abelard antes. Era certo que o cavalo o conhecia há anos e sabia que ele era um amigo de Halt e duvidava que fosse jogá-lo longe. Mas treinamento é treinamento.
Após alguns segundos, ele percebeu que não haveria nenhuma explosão violenta do cavalo rodopiando sobre ele. Abelard estava esperando pacientemente o sinal para avançar. Will puxou a rédea de Kicker para chamar sua atenção, em seguida, bateu os calcanhares ao lado do corpo de tambor de Abelard e afastou-se evoluindo para um galope familiar.
Atravessaram com facilidade a planície fértil que delimitava o rio. As árvores começaram a rarear, de modo que chegaram a ser, apenas agrupamentos ocasionais de pequenos brotos sobre a grama. Seguiam por uma trilha quase invisível, por vezes difícil de enxergar, mas havia poucos obstáculos e os cavalos mantinham um passo firme, até mesmo Kicker.
Eles viajaram por um bom tempo, enquanto o sol chegava mais perto do horizonte ocidental, incendiando por detrás das nuvens baixas com um brilho alaranjado e arroxeado. De tempos em tempos, enquanto subia para a crista da colina, ele podia ver de relance o dramático cinza, composto pela grande extensão da floresta afogada ao leste que ia desaparecendo à medida que faziam progresso.
Quando a noite caiu, novamente ofereceu pouca água aos cavalos, deixando-lhes beber com moderação a partir de um pequeno balde de couro, que trazia dobrado para este propósito. Ele tomou um grande gole de café, agora quase sem vestígios de calor. Mas o gosto e a doçura do perfumado líquido o reanimou. A lua deveria levantar-se em mais ou menos uma hora e decidiu esperar por ela. Ele estava viajando em terreno desconhecido e com o passo firme que estavam mantendo, não quis arriscar que um dos cavalos tropeçasse e caísse.
Ele montou novamente em Puxão. De qualquer maneira, já era hora de trocar. Puxão e Abelard eram semelhantes, a marcha de Abelard era só um pouco diferente – mais dura e mais abrupta. Ele sabia que com o tempo iria se acostumar. Mas como iria viajar a noite, preferiu liderar o caminho com Puxão.
Depois de um tempo, a lua subiu ao leste, enorme, silenciosa e vigilante. Enquanto se afastava do horizonte, cada vez mais alto no céu noturno, dava a impressão que recuava e se encolhia. Ele colocou um braço em volta do pescoço de Abelard, deixando o cavalo encostar o nariz nele.
― Obrigado, Abelard ― disse, então, num impulso ― Merci bien, mon ami. Você fez bem.
O pequeno cavalo grunhiu em reconhecimento e bateu contra ele várias vezes. Kicker, pastando por perto, ficou olhando Will pegar sua rédea que estava amarrada na árvore e montar em Puxão.
Mais uma vez estava em sua familiar sela – mesmo a de Halt era um pouco diferente da dele – e olhou para os outros dois cavalos que estavam esperando pacientemente pelo seu comando.
― Tudo bem rapazes ― disse ele. ― Vamos embora.
Ele estava cansado. Muito cansado. Centenas de diferentes músculos doíam em seu corpo. Mais tarde mudou de novo para Abelard, depois de novo para Puxão e até mesmo sua sela que lhe era familiar, torturava suas pernas e seu traseiro. Ele estimou que já houvesse passado da meia noite, mesmo com algumas breves paradas, estava montado há bem mais do que 12 horas. Enquanto viajava, mantinha uma feroz concentração. Concentrava-se no curso que estavam seguindo, se orientando pelas estrelas. Observava atentamente o solo à frente deles, alerta para quaisquer obstáculos ou perigos.
O esforço mental ao qual estava sendo exposto era quase tão cansativo quanto o físico. A lua tinha desaparecido horas atrás, mas ele continuou com a luz das estrelas. As árvores estavam se tornando raras, enquanto ele ia subindo gradualmente um platô. O terreno era agora uma série de colinas nuas, cobertas apenas por capim e expostas ao vento. Logo, ele resolveu que teria que parar para um breve descanso.
Mais uma vez, teria que escolher a melhor de duas indesejáveis alternativas. Se continuasse andando por muito tempo, a fadiga e a falta de atenção poderiam induzi-lo a um erro – tomar a direção errada ou escolher mal seu caminho. No fundo de sua mente alimentava o temor de que um dos cavalos poderia se machucar ao tropeçar e cair, por causa de algum erro que ele cometesse – um erro que não cometeria se estivesse em juízo perfeito.
Ele também havia se assustado com um grande animal que estava na trilha que ele seguia. Houve um grunhido de surpresa e o animal correu, desaparecendo antes que pudesse dar uma boa olhada nele. Os cavalos estavam nervosos. Kicker relinchou de alarme e puxou a rédea que Will segurava, quase tirando o jovem e esgotado arqueiro de sua sela. Will não tinha ideia de qual animal poderia ter sido. Um lobo talvez, ou um felino grande caçando. Ele tinha ouvido dizer que havia uma espécie de lince nesta parte do país que poderia crescer tão grande quanto um urso pequeno. Ou até poderia ter sido um urso.
Fosse o que fosse, se eles se encontrassem com outro, precisava ter seu juízo perfeito. Ele percebeu, com um sentimento de culpa, que havia cochilado na sela quando deixou passar esse erro estúpido. Certamente, Puxão e Abelard teriam dado o aviso. Mas ele estava demasiado exausto para ter notado.
Puxou as rédeas de Puxão, era hora de parar e tirar um bom descanso. Precisava fechar os olhos e dormir, mesmo que fosse por apenas meia hora, seu corpo iria se recuperar. A ideia de uma boa meia hora de sono, se esticar no chão, enrolar-se em seu manto quente e deixar os olhos fechar foi demais para ele resistir.
Ele olhou ao redor da paisagem circundante. O terreno vinha subindo há algum tempo e agora eles estavam perto do topo de uma colina grande e nua. À distância, ele viu várias formas turvas e irregulares à luz das estrelas e por um momento franziu a testa, perguntando-se o que eram.
Então percebeu. Eram túmulos. Os antigos túmulos de guerreiros mortos há muito tempo.
Ele lembrou a leviana observação que havia feito para Horace: Algumas pessoas pensam que são mal-assombrados. Ele tinha falado aquilo tão facilmente durante o dia, a dezenas de quilômetros de distância. Agora, aqui nesta colina nua, apenas com a luz tênue das estrelas, a ideia parecia bem mais ameaçadora e os túmulos pareciam ameaçadores.
― Ótimo lugar que você escolheu para descansar ― murmurou para si mesmo.
Gemendo com o esforço, desceu da sela de Puxão. Seus joelhos doeram um pouco quando tocou o solo e acabou cambaleando um passo ou dois. Em seguida, amarrou a rédea de Kicker na sela de Puxão, afrouxou a correia da barriga do pequeno cavalo e procurou um espaço liso na grama. Com fantasmas ou não, tinha que dormir.
O chão era duro e frio e o pressionou através de sua capa. Mas no momento em que deu a primeira esticada, gemeu baixinho de prazer, parecia tão macio quanto o mais macio dos colchões de penas de ganso. Ele fechou os olhos. Iria acordar dentro de meia hora, ele sabia. Se por acaso não fizesse, Puxão iria acordá-lo. Mas tinha meia hora pela frente.
Por enquanto, ele poderia dormir.


Acordou.
Instintivamente, ele sabia que não tinha dormido durante todos os trinta minutos que havia programado para si. Algo o havia despertado. Algo estranho. Algo hostil.
Não havia nenhum barulho, se conscientizou que outra coisa alertara sua mente. Nenhum som havia penetrado em sua consciência para despertá-lo. Era outra coisa. Algo que ele poderia sentir ao invés de ver ou ouvir. Uma presença. Algo, ou alguém estava por perto.
Não havia nenhum sinal físico de que ele estava acordado. Seus olhos estavam entreabertos para que ele pudesse ver, sem que qualquer observador percebesse que eles estavam abertos. Sua respiração mantinha o mesmo ritmo constante, do mesmo jeito que estava há alguns segundos atrás, quando deitou.
Ele avaliou sua situação, lembrando-se de tudo que estava ao seu redor. O cabo da faca de caça do seu lado direito, onde tinha ficado dentro da bainha dupla quando deitou para dormir. Os dedos da mão esquerda tocaram a superfície lisa do seu arco, envolvido com ele dentro da capa para protegê-lo da umidade do ar da noite.
Se havia alguém por perto, a grande faca de caça seria a melhor escolha, ele pensou. Ele poderia pular sobre seus pés e estar preparado em questão de segundos. O arco seria mais complicado. Ele concentrou nos seus sentidos, tentando determinar uma direção.
Alguma coisa o havia perturbado. Ele tinha certeza disso. Agora, tentava sentir de onde. Entregou-se ao puro instinto.
Onde ele está? De qual lado?
Concentrou-se com toda força que podia, esvaziando sua mente, removendo todas as distrações exteriores, da mesma forma como fazia instantes antes de lançar uma flecha.
Seus sentidos lhe disseram esquerda. Ele moveu seus olhos para o lado, sem mexer a cabeça. Ele respirava pausadamente, fingindo dormir, mas ainda não conseguia ver nada.
Não daquele ângulo. Ele se jogou e murmurou, como se ainda estivesse dormindo, e conseguiu virar a cabeça para a esquerda. Em seguida, começou a respiração do mesmo jeito pausado, como se estivesse num sono profundo.
Algo estava lá. Ele não podia vê-lo claramente, mas estava lá. Uma forma enorme, indistinta. Talvez um homem. Mas maior do que qualquer homem que ele já tinha visto.
Ele tinha uma vaga impressão de armadura. Antiga armadura, com altos protetores de ombro e um capacete decorado com enormes asas angulares. De alguma forma, parecia familiar. Ele tentou se lembrar onde o tinha visto antes, mas sua memória fugia à medida que se esforçava na tentativa. Concentrou-se em continuar a respirar profunda e uniformemente. A tentação era de parar de respirar daquele jeito forçado, enquanto analisava a situação.
Ele se preparou, forçando o oxigênio a percorrer seus membros, assegurando-se que sua mente estivesse sóbria e focada no que estava prestes a fazer. Ensaiou os movimentos em sua mente. A mão direita estaria sobre a grande faca de caça. Puxaria sua faca da bainha enquanto dava o impulso para ficar de pé, usaria a mão esquerda para se apoiar e ajudar no impulso necessário. Gingaria para o lado, para evitar qualquer ataque que a estranha figura tivesse desferido. O movimento lateral forçaria o inimigo a reconsiderar o curso de seu primeiro golpe e daria a ele segundos vitais de sobrevivência.
Ele preparou seus músculos. Sua mão se fechou silenciosamente ao redor do cabo de sua grande faca.
E então pulou para cima. Em um movimento suave e fluído, sem qualquer aviso ou preparação visível, ele estava sob seus pés, deslocou-se para sua direita evitando um possível golpe da espada ou machado do inimigo. A faca de caça brilhava em sua mão, enquanto ele a retirava com velocidade da bainha. Ficou em posição de combate, a faca estendida para frente com a ponta ligeiramente levantada, seus joelhos flexionados e prontos para saltar, músculos relaxados para responder ao movimento que precisasse, fosse ataque ou defesa.
Puxão e Abelard bufaram em alarme ao movimento brusco de Will. Kicker também se assustou um pouco mais atrás deles, levantando sua cabeça e puxando as amarras.
Não havia nada. Nenhum guerreiro gigante, nenhuma armadura antiga. Nenhum inimigo pronto para atacar.
Havia apenas a noite estrelada e o suave sussurro do vento balançando a grama alta. Devagar ele relaxou, levantando-se da posição de combate e deixando cair sua mão e a faca ao lado de sua coxa.
Lembrou-se então porque a forma parecia-lhe familiar. O guerreiro noturno, a terrível ilusão que Malcolm havia criado na floresta de Grimsdell, tinha a mesma aparência.
Tomando consciência da situação, Will permitiu-se deixar a tensão fluir fora de seu corpo. Deixou cair sua faca de ponta no solo mole e desabou de cansado.
Será que ele havia sonhado? Teria sua imaginação sido alimentada pelos sombrios túmulos e as lendas antigas de fantasmas, simplesmente criando essa situação? Ele franziu a testa pensando. Tinha certeza de que ele estava completamente acordado pouco antes de ficar de pé. Será mesmo? Ou teria sido enganado por estar neste estado de meio acordado e meio dormindo, que às vezes tomava conta de uma mente e umcorpo exausto? Teria sido uma lembrança antiga se agitando dentro dele?
Ele balançou a cabeça. Não sabia. Ele não sabia dizer quando havia despertado totalmente. Dirigiu-se para os cavalos. Eles definitivamente pareciam alarmados. Percebeu que era normal. Afinal, ele tinha acabado dar um pulo de forma inesperada, balançando uma enorme faca como se fosse um louco. Aproximou-se de Puxão e Abelard. Ambos estavam tensos, com as orelhas levantadas, alertas e nervosos. Puxão deslocava seu peso de um pé para outro. Kicker havia relaxado novamente, mas não estava treinado para estar sempre alerta como os cavalos arqueiros.
Puxão fazia aquele barulho familiar, ruidoso e grave vindo de seu peito. Muitas vezes isso era um sinal de perigo. Ou estava simplesmente confuso. Will acariciou seu nariz, falando gentilmente com ele.
― O que é isso rapaz? Você está sentindo alguma coisa?
Sem dúvida, o pequeno cavalo sentia. Mas se era alguma presença por perto, ou se ele simplesmente reagiu ao alarme de Will, ele não poderia dizer. Gradualmente, Puxão se acalmou e parou de mexer seus olhos de um lado a outro em direção à escuridão que os circundava, Will decidiu então pela última alternativa. Puxão e Abelard ficaram nervosos e alertas simplesmente porque reagiram ao sentimento de alarme dele. Afinal, eles não deram nenhum aviso quando estava deitado e fingindo estar dormindo.
Gradualmente a pulsação de Will voltou ao normal e aceitou que não havia nada de mais. Tudo havia sido fruto de sua imaginação, alimentada pela exaustão. O fato de que o intruso se parecia com o guerreiro noturno, finalmente convenceu-o que tinha imaginado tudo e se sentiu um pouco tolo.
Ele pegou a sua faca de caça, colocou-a na bainha e a afivelou em volta de sua cintura. Então vestiu seu manto, antes, balançou-o um pouco para tirar a umidade, colocou sua aljava no ombro e pegou seu arco.
― Imaginação ou não ― ele disse baixinho ― eu não vou ficar aqui nem mais um segundo.
Apertou a correia da sela de Abelard e montou. Então, segurando a rédea de Kicker e com Puxão trotando ao seu lado, se afastou rapidamente do lugar em que havia temporariamente descansado. Os cabelos da nuca se eriçaram um pouco, mas não olhou de volta.
Atrás dele, na escuridão, as presenças invisíveis dos antigos habitantes do morro voltaram silenciosamente para seu local de descanso, satisfeitos de que mais um intruso havia seguido em frente.

2 comentários:

  1. Achei que não havia essa parada de fantasma nessa série.

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    1. Tem algumas coisas sobrenaturais no livro as vzs, como por exemplo os Walgar(n se escreve assim, mas eu n me lembro como é q é), os Kalkaras e o Horace q tem um intestino infinito pra comer kkkkkk

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Boa leitura :)