18 de dezembro de 2016

Capítulo 29

Cielema ajudou Will conforme ele se livrava do cobertor e se levantava da cama que estava sob as árvores.
Ela o apoiou com a mão debaixo do braço. Ele balançou grogue por alguns segundos, em seguida, ergueu a cabeça e ficou em pé com firmeza. Ela assentiu com a cabeça para ele, convencida de que ele estava bem no caminho para a recuperação.
— Um corpo saudável e forte restabelece-se rapidamente com um pouco de descanso — disse ela. — Venha conhecer o poderoso Umar.
Novamente, havia um tom divertido para suas palavras. Will percebeu que seus pés estavam descalços e ele não podia ver as botas. Sua capa tinha sumido também. Ela o viu olhar ao redor.
— Seus pertences estão seguros — disse a ele.
Ela o viu procurando por outra coisa e adivinhou o que poderia ser. O pequeno cavalo tinha ficado ao seu lado durante o dia e noite quando ele dormia.
— O cavalo está com o resto do rebanho. Eles estão bebendo água e sendo alimentados — disse a ele. — Demorou um pouco para convencê-lo a sair de seu lado.
Will sorriu para o pensamento. Ele teve um momento de pânico quando tinha pensado, talvez, que havia sonhado que Puxão estava aqui. Tranquilizado, ele olhou para os pés descalços.
— Minhas botas — disse ele. — Eu preciso de minhas botas.
Mas Cielema apenas sorriu e começou a levá-lo para o centro do campo.
— A areia é macia.
Ela estava certa. Will caminhou ao lado dela com a mulher segurando seu braço levemente no caso de ele tropeçar. A areia, ainda não aquecida pelos raios queimantes do sol, estava fresca e macia sob os pés. Ele tomou conhecimento de uma ligeira sensação de queimadura nos braços e no rosto. Olhou para baixo e viu que a pele vermelha, queimada de seus braços estava brilhando com algum tipo de composto de óleo.
— É um unguento que nosso povo tem usado por anos. Em um dia ou dois suas queimaduras irão curar — ela falou.
Ele balançou a cabeça.
— Obrigado — disse ele.
Ela sorriu mais uma vez para ele. Will sentiu uma sensação de calor para aquele tipo de mulher bem-humorada. “O aseikh Umar é um homem de sorte”, ele pensou.
Enquanto passavam pelo acampamento, ele percebeu que as pessoas pararam para vê-lo – em particular as crianças. Várias vezes ouviu a palavra estrangeiro sendo murmurada por trás dele. Tal curiosidade era natural, ele pensou. Mas também havia sorrisos e gestos de boas-vindas – até agora, o gesto de boca-testa-boca familiar – e ele devolvia os sorrisos e acenava com a cabeça em saudação.
— Seu povo é muito amigável — disse ele.
Cielema franziu a testa, pensativa.
— Nem sempre — disse ele. — Como regra, gostamos de manter nossa vida reservada. Mas todos ficam felizes quando alguém é salvo do selvagem Senhor dos Céus.
Ela apontou para cima e ele percebeu que ela quis dizer sol. Supôs que era um inimigo constante e ameaçava essas pessoas.
Eles estavam perto do centro do acampamento agora e Will podia ver um grupo de meia dúzia de homens sentados em círculo. Todos eles usavam kheffiyehs xadrez amarelo e branco como o que ele tinha notado em seu salvador. Cielema parou com uma ligeira pressão no seu braço.
— Temos de esperar — disse ela. — Eles estão envolvidos em negócios importantes.
Seu tom era grave, quase reverencial. Os dois pararam a cerca de cinco metros do grupo de homens. Todos estavam inclinados para frente, olhando fixamente para uma rocha vertical colocada no meio do círculo. Will pensou que eles deviam estar rezando, embora não houvesse palavras sendo ditas. Então, como um, todos eles caíram de volta com um rugido de decepção.
— Ela voou para longe! — disse uma figura e Will reconheceu a voz. Era o homem que o resgatou. — Chegou quase ao topo e voou longe!
Ele olhou interrogativamente para Cielema e ela revirou os olhos.
— Dá pra acreditar? — disse ela. — Homens crescidos apostando em duas moscas rastejando até uma pedra!
— Apostando? — disse ele. — Eu pensei que eles estivessem orando.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Para eles é a mesma coisa. Os bedullin apostam sobre tudo. É quase uma religião.
Ela se aproximou dele e o círculo começou a romper, e a maioria dos homens se afastou.
— Aseikh Umar! — ela chamou. — Seu visitante acordou.
O marido levantou-se e virou-se para eles com um sorriso largo. Will reconheceu o rosto e o nariz poderoso, grande e torto. Umar parou em frente a ele, ambas as mãos se aproximando de Will para saudá-lo, mas sua esposa assobiou advertência.
— Cuidado, seu trapalhão! Os braços dele estão queimados!
Percebendo seu erro, o aseikh parou ambas as mãos no ar numa espécie de gesto de bênção em seu lugar.
— Claro que sim! Claro que sim! Por favor, venha sentar-se. Diga-me seu nome. Eu sou...
— Ele sabe quem você é. Você é o grande apostador de moscas Umar. O nome dele é Will.
Umar sorriu facilmente a sua esposa. Will tinha a impressão de que este tipo de diálogo se passava entre os dois o tempo todo. Então, ele olhou para Will.
— É bom vê-lo acordado. Você estava quase morto quando o encontrei! Venha sentar-se e me diga o que você estava fazendo.
Ele olhou para Cielema.
— Querida esposa, você pode nos trazer um café?
Cielema levantou uma sobrancelha e olhou interrogativamente para Will.
— Você gostaria de café, Will?
Sua boca salivou ao pensamento, um sinal certo de que ele estava se recuperando rapidamente.
— Eu amo café — disse ele.
Ela fez uma reverência graciosa.
— Nesse caso, vou trazer algum.
Ela saiu com a cabeça erguida. Umar sorriu depois dela. Então ele voltou sua atenção para Will e o levou para o círculo de almofadas.
— Assim, seu nome é Will — disse enquanto se sentou com as pernas cruzadas.
— É sim — Will fez uma pausa, depois acrescentou: — quero lhe agradecer por salvar minha vida, aseikh Umar.
— Foi o cavalo que você estava montando, que salvou sua vida. E ele o fez duas vezes.
— Flecha! — disse Will, recordando.
Ele não tinha visto Flecha desde que ele foi resgatado.
— Onde ele está? O que ele fez?
O sorriso de Umar desapareceu.
— Ele está morto, Will. Um leão o pegou durante a noite. Essa foi a primeira vez que ele te salvou. O leão o pegou, e não a você. Vimos suas trilhas e elas passavam a dois ou três metros de onde você estava. O cavalo estava se movendo e fazendo barulho para que o leão não notasse você.
— Morto — Will disse, triste.
Flecha tinha sido um bom cavalo. Umar assentiu com simpatia. Ele admirava o homem que cuidava de seu cavalo.
— Ele salvou sua vida pela segunda vez na manhã seguinte — disse ele. — Os abutres se reuniram para festejar com ele e nós os vimos. Eu vim para investigar e... lá estava você.
Ele sorriu de volta em um tópico mais alegre.
Will balançou a cabeça com gratidão.
— Mais uma vez, você tem a minha gratidão — disse ele.
Como antes, Umar relevou seus agradecimentos.
— É o que fazemos no deserto. Na verdade, é considerado boa sorte salvar um companheiro de viagem em apuros.
Então seu rosto se iluminou com interesse.
— Nós temos suas armas! — disse ele.
Ele se virou e falou a uma tenda, baixa e larga, espalhada a poucos metros de distância.
— Ahmood! Traga as armas do estrangeiro!
O adolescente saiu da barraca alguns segundos mais tarde. Sorrindo, ele entregou as facas de Will em sua bainha dupla, seu arco e aljava. Também entregou o mapa dobrado e o buscador do Norte em seu estojo de couro. Will levantou-se e prendeu a bainha dupla no cinto. Ela o fazia sentir-se completo. Nenhum arqueiro nunca estaria totalmente confortável sem suas armas. Umar o observava atentamente e, em seguida pegou o arco sem corda.
— Eu nunca vi um como esse antes — disse ele. — Deve ser incrivelmente poderoso.
— E é — Will disse.
Rapidamente, ele se instalou o arco na frente de seu tornozelo esquerdo e atrás de sua panturrilha direita. Usando seus músculos das costas, dobrou o arco e deslizou a corda no entalhe da extremidade. Ele entregou a Umar, que testou a pressão, fez uma pequena careta, depois voltou a arma para Will.
— Mostre-me — disse ele, entregando a Will uma flecha da aljava.
Will colocou a flecha na corda e procurou em torno por um alvo adequado. Ele notou um grupo de meninos a cinquenta metros de distância, jogando com uma pequena bola de couro. Eles usavam os pés, cabeças e corpos para mantê-la no ar, passando entre eles, sem deixá-la tocar o chão. Ele começou a buscar uma área mais segura para demonstrar, em seguida, olhou para trás quando algo chamou sua atenção. O menino menor, não mais de oito anos de idade, perdeu o controle da bola, enviando-a pulando e rolando até que ela terminou debaixo de uma pedra lisa. Rindo, ele correu atrás da bola e caiu de joelhos, procurando-a.
Will puxou, mirou e disparou no espaço de um batimento cardíaco. Sua flecha piscou através do oásis, errando a mão do menino por centímetros, e terminou, tremulando, embaixo da pedra. O garoto recuou, gritando em terror. Seus companheiros ecoavam seus gritos, voltando-se para ver de onde a flecha tinha vindo.
Um punho enorme atingiu a mandíbula de Will. Ele cambaleou e caiu, o arco caindo de suas mãos. O rosto de Umar estava contorcido de raiva.
— Seu idiota irresponsável! Você acha que vai me impressionar arriscando a vida do meu neto? Você poderia tê-lo matado!
A mão de Umar caiu no punho maciço de uma pesada faca em seu cinto. Will, atordoado pelo golpe, tentou ficar de pé, mas um pontapé selvagem de Umar tirou o fôlego dele e o mandou rolando novamente. À distância, Will podia ouvir a criança, ainda chorando de medo, e um emaranhado de vozes gritando – gritando em surpresa, raiva e medo. Então ouviu o som metálico do punhal sendo extraído de sua bainha. E aí veio a voz de Cielema, aguda e urgente, acima das outras.
— Umar, pare! Olhe para isto!
Umar afastou-se da figura caída diante dele. A mulher estava voltando com o café quando passou por seu neto e testemunhou o incidente. Agora estava de joelhos, buscando algo sob a pedra. Com um esforço, ela puxou a flecha de Will. Presa firmemente pela ponta larga, estava o corpo de uma cobra de areia de 1 metro de comprimento que ele tinha acertado. A flecha tinha passado diretamente pela cabeça da cobra, matando-a instantaneamente.
Um segundo antes que ela pudesse picar o menino.
O punhal caiu da mão de Umar quando ele percebeu o que tinha acontecido, o que tinha feito. Espantado, ele inclinou-se para ajudar Will se levantar.
— Perdoe-me! Me desculpe! Eu pensei que...
Will ainda estava ofegante quando Cielema chegou a eles, brandindo a cobra morta espetada na flecha.
— O que você está fazendo, seu idiota? — ela exigiu. — O menino salvou Faisal!
Umar tinha levantado Will e começou a escová-lo febrilmente para baixo, um olhar ferido nos olhos. Ele estivera prestes a matar o jovem que tinha, sem dúvida, salvado a vida de seu neto.
— Perdoe-me! — disse ele freneticamente.
Cielema passou rapidamente por ele, empurrando-o para longe do jovem estrangeiro.
— Vá embora! — ela disse severamente.
Ela largou a cobra morta, pegou o maxilar de Will em suas mãos e delicadamente virou-o de um lado para outro, a cabeça inclinada para ouvir.
— Você está bem? — ela perguntou a ele.
Ele tentou um sorriso fraco, então desejou não ter feito quando isso quando uma dor atingiu seu queixo.
— Pouco inchado — falou com dificuldade. — Ma’ esto’ be’.
Ela moveu-se rapidamente para uma jarra de água que estava fora da grande tenda. Mergulhando o final de seu lenço nele, voltou e apertou o pano molhado frio contra sua mandíbula. Umar tentou mais uma vez acalmá-la.
— Sinto muito! — disse ele. — Eu pensei que...
Ele não continuou. Ela virou para ele selvagemente.
— Você pensou? Quando foi que você pensou? Você estava pronto para matar o garoto! Eu o vi com aquela sua faca!
Will pegou suas mãos e retirou o pano molhado do rosto. Ele trabalhou um pouco o queixo, tendo certeza de que nada estava quebrado.
— Está tudo bem — ele disse a ela. — Nenhum dano feito. Estou um pouco machucado. Foi apenas um mal-entendido.
— Exatamente! — Umar disse a ela. — Um mal-entendido.
Cielema olhou para ele com ferocidade.
— Ele salvou a vida de Faisal — ela repetiu. — E o que você fez?
Umar ia responder, mas percebendo que não havia nada que pudesse dizer que iria aplacar sua esposa furiosa, deixou cair as mãos impotentes. Ele sabia que tinha agido com pressa, que estava errado. Mas o que se poderia esperar? A impressão que se tinha era que o desconhecido atirara perto de seu neto em uma demonstração arrogante e imprudente de sua habilidade como arqueiro. Agora que Umar pensava sobre isso, percebeu que o rapaz era excepcional. Ele nunca tinha visto ninguém atirar assim. Olhou novamente para a esposa, viu a raiva nos olhos e no conjunto de seu corpo e sabia que não havia nada que ele pudesse dizer.
Will entrou no silêncio constrangedor.
— Ele salvou a minha vida, lembra? — ele sorriu um pouco desigual para o aseikh. — Eu diria que isso nos deixa quites.
Will estendeu a mão para o bedullin, que a pegou com gratidão, e segurou-a.
— Você vê? — ele disse a sua esposa. — Não há ressentimentos. Foi um erro!
Vendo a reação de Will, e sua óbvia falta de disposição de guardar rancor, Cielema relaxou um pouco. Ela ainda se permitiu um pequeno sorriso apertado para os dois homens enquanto eles continuaram apertando as mãos.
— Muito bem — disse ela. Então falou para Will — mas precisa nos dizer algo que possamos fazer por você.
Ele deu de ombros.
— Você já fez mais do que suficiente. Apenas me dê um ou dois dias para descansar e recuperar minhas forças, me deem comida, água e meu cavalo. Depois me ensinem o caminho para Mararoc e eu não vou incomodar mais.
Mas o aseikh estava franzindo a testa com suas palavras.
— Seu cavalo? — disse ele. — Seu cavalo morreu. Eu disse a você. Um leão o pegou.
Will balançou a cabeça, sorrindo.
— Não aquele cavalo. Puxão. O pequeno cinza desgrenhado que estava com você quando me encontrou. Ele é o meu cavalo.
Agora foi a vez de o aseikh sacudir a cabeça. Ele estava relutante em causar decepção para o estrangeiro. Mas tinha que encarar os fatos.
— Ele não é o seu cavalo — disse ele. — Ele é nosso.

4 comentários:

  1. Sabia que isso iria acontecer!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
  2. O QUE???
    NÃO, MESMO!

    ResponderExcluir
  3. Serio, se ele tive passado por tudo pra da o cavalo pra outra pessoa, assim como a cachorra, eu vo coloca fogo na tua cabeca!
    -Sinead

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)