29 de dezembro de 2016

Capítulo 28

Horace observava Will enquanto ele se preparava para viagem a Macindaw. Ele tirou todo peso extra dos três cavalos, os equipamentos de acampar, pacotes de provisão e alforjes, depois os colocou em uma pilha bem organizada perto da fogueira.
Abelard e Puxão carregavam flechas reservas para Halt e Will e ele também deixou para trás. Provavelmente não teria necessidade de lutar e as duas aljavas com uma dúzia de flechas cada seria suficiente no caso dele se deparar com problemas inesperados.
Kicker geralmente carregava o escudo de Horace, sua cota de malha pesada, capacete e mais um capuz pesado de malha que ele usava quando ia para a batalha. Deixou-os para trás também. Os cavalos ficaram relativamente aliviados com apenas suas selas e arreios.
Ele montaria Puxão na primeira parte da viagem, assim, afrouxou as selas de Abelard e de Kicker. Eles viajariam mais confortáveis, pensou. Abelard relinchou de gratidão. Kicker, como era o costume de sua raça, aceitou o gesto impassível.
Will selecionou uma mochila pequena de seu kit, esvaziou as roupas sobressalentes e a encheu com provisões para a viagem: um naco de pão achatado que Halt chamava de almofada de sela, agora um pouco velho, mas ainda comestíveis, algumas de frutas secas e várias tiras de carne defumada. Este último item era duro de roer, mas ele sabia por experiência passada que aquela carne fornecia bastante energia quando precisava recuperar as forças. Além disso, permitia-lhe comer na sela sem a necessidade de parar.
― Vou levar os nossos três cantis — disse a Horace enquanto enfiava as rações na mochila. ― Vocês tem a lagoa aqui perto e eu não quero ficar procurando por água quando estiver viajando.
Ciente de que tinha comida suficiente, amarrou a pequena mochila na sela de Puxão, onde ele pudesse alcançá-la facilmente enquanto viajava.
Horace concordou e recolheu os três cantis. Balançou-os experimentando.
― Vou trocar a água para você — disse. ― Assim poderá começar sua viagem com água fresca.
Depois de algumas horas, ambos sabiam muito bem, que a água começaria a pegar o gosto do couro do cantil.
Will sorriu agradecido.
― Obrigado — ele disse. ― Vou comer um pouco enquanto você faz isso. Não será nada mau eu partir com alguma comida debaixo de meu cinto.
Horace olhou para a mochila e fez uma careta. Ele tinha visto o que seu amigo havia colocado lá.
― Esteja à vontade, aproveite mesmo — ele disse.
Dirigiu-se para a lagoa, segurando os três cantis pelas alças que ocasionalmente chocalhavam juntos.
Eles haviam aprontado dois patos assados na noite anterior e um deles ainda estava relativamente inteiro. Will arrancou uma coxa e um pedaço de carne do peito e comeu rapidamente, caminhando para frente e para trás em agitação. Ele pegou um pouco do pão achatado e comeu com a carne. A massa do pão seco e a carne grudavam em sua garganta e boca e ele olhou em volta procurando algo para beber.
O pote de café estava quase cheio e permanecia aquecido nas brasas ao lado do fogo. Encheu uma caneca e bebeu o preparado agradecido, sentindo a energia fluindo através dele. Tentou respirar profundamente e relaxar. Havia um nó apertado na boca de seu estômago e tudo o que queria fazer era saltar para a sela e partir o mais rápido possível.
Ele lamentava o tempo que estava perdendo, comendo e se preparando. Mas sabia que no final do dia, ficaria grato pela energia que o alimento poderia oferecer e alguns poucos minutos perdidos agora, iria poupar-lhe muito tempo depois. Assim, ele lutou contra a impaciência que fervia dentro dele e forçou-se a pensar e planejar com calma. E se ele estivesse esquecido alguma coisa?
Ele checou mentalmente sua lista e assentiu para si mesmo. Tinha tudo que precisava. Os cavalos foram alimentados e a sede saciada com bastante água. Estavam prontos para viajar. O pouco material que havia separado estava fixado firmemente nas selas.
Horace voltou com os três cantis. Prendeu um na sela de Kicker e outro em Abelard, amarrando suas tiras firmemente para que não balançassem com o movimento dos cavalos. Quando estava se afastando, Abelard bateu seu estribo de ferro no terceiro cantil e produziu um som oco.
Will franziu a testa intrigado.
― Isso soa vazio.
Horace sorriu e caminhou até a fogueira.
― No momento sim. Os outros dois são para os cavalos. Este é para você.
Ele pegou o pote de café e cuidadosamente derramou o líquido perfumado na boca estreita do cantil. Com seus olhos ainda fixos em sua tarefa, continuou.
― Seria bom levar um pouco de café. Você não vai parar para acampar, vai?
Will balançou a cabeça.
― Só para alguns minutos de sono quando precisar. Mas eu não vou montar acampamento, apenas me enrolar em minha capa.
― Sendo assim — Horace terminou de preencher o cantil e empurrou a tampa. ― Seria bom você levar bastante café. Ele vai ficar quente por um tempo e mesmo o café frio é melhor do que água com gosto de couro.
Ele sorriu quando disse isso e Will sorriu de volta.
― Bem pensado, Horace.
Horace pareceu satisfeito. Ele desejou ter feito mais pelo seu amigo, mas pensou que com esse pequeno gesto de apoio, já falava muito de sua amizade pelo jovem arqueiro.
― Além disso, ele vai dar-lhe o tipo energia que precisará ao longo do caminho.
Seus sorrisos desapareceram à medida que pensavam sobre a viagem que Will enfrentaria. A terra era selvagem e eles conheciam os tipos de perigos que um viajante podia enfrentar. Em partes isoladas do reino como esta, os moradores tendem a ressentir-se de estranhos e era possível haver bandidos no caminho para Macindaw.
Uma vez que estivesse perto do castelo, é claro, haveria chances de cair em alguma emboscada de grupos scottis, como o que haviam evitado vários dias atrás. E Will iria se concentrar na velocidade e não na invisibilidade.
― Eu queria ir com você — Horace disse calmamente.
A preocupação era evidente em seus olhos. Will bateu em seu ombro e sorriu.
― Você só iria me atrasar, desajeitado como é vindo atrás de mim.
Sem querer, ele usou a expressão que Halt havia falado vários dias atrás. Ambos perceberam e os sorrisos desapareceram uma vez mais, enquanto olhavam para a figura ainda deitado sob o alpendre. Houve silêncio entre eles.
― Estou feliz que você estará aqui para vigiá-lo — Will disse finalmente. ― Sabendo disso, fico mais tranquilo em partir.
Horace acenou várias vezes, não confiando em si mesmo para falar. De repente, Will se virou e caminhou até onde Halt estava caindo de joelhos e segurando a mão direita do arqueiro com suas duas mãos.
― Eu voltarei, Halt. Eu prometo a você. Voltarei em três dias. Se mantenha firme e certifique-se que estará esperando por mim, ouviu?
Halt se agitou e murmurou, então, acalmou-se novamente. Era possível que o som da voz de Will tenha penetrado através da névoa de veneno que mantinha a mente de Halt cativa. Will esperou que sim. Balançou a cabeça tristemente. Apertava seu coração em ver Halt, normalmente tão forte, tão capaz e incansável, reduzido a esse resmungo, uma sombra de si mesmo. Ele tocou a testa do arqueiro. Sua temperatura parecia ter abaixado. Ele estava quente, mas não ardia em febre como antes. Will se levantou e após um último triste olhar, virou-se para Horace.
― Fique de olho na febre. Se ele ficar quente novamente, use panos molhados em água fria e coloque na testa dele. E limpe a ferida a cada quatro horas ou coisa assim. Use o unguento a cada vez.
Ele duvidou que o tratamento da ferida ajudasse a melhorar a condição geral agora. A doença tinha ido para mais além no corpo de Halt. Mas pelo menos Horace iria sentir que estava fazendo algo positivo e Will sabia como isso era importante.
Ele agarrou a mão direita de Horace, em seguida, os dois se aproximaram e se abraçaram.
― Eu vou cuidar dele, Will. Vou guardá-lo com minha vida — disse Horace.
Will assentiu com a cabeça, o rosto enterrado no ombro de seu melhor amigo.
― Eu sei que você vai. E vigie durante a noite. Nunca se sabe, o assassino genovês pode decidir voltar.
Ele afastou-se do abraço. Horace sorriu, mas era um sorriso sem humor.
― Sabe, eu quase espero que ele faça isso — ele disse.
Eles andaram juntos até onde os cavalos esperavam. Abelard estava agitado, nervoso e revirando os olhos, emitindo um ruidoso barulho de seu peito. Will aproximou-se dele, colocou as mãos nos lados de sua boca, como ele tinha visto Halt fazer e soprou delicadamente em suas narinas, para chamar a atenção do cavalo.
― Eu sei que você está preocupado — disse suavemente. ― Mas você tem que vir comigo. Entendeu? Você está vindo para podermos ajudá-lo.
O pequeno cavalo sacudiu a cabeça e a crina subitamente, vibrando de uma forma muito comum aos cavalos arqueiros. Ele parou o ritmo nervoso e os relinchos e ficou pronto.
Horace balançou a cabeça em espanto.
― Sabe, eu poderia jurar que ele entendeu o que você disse — comentou.
Will bateu suavemente no nariz macio de Abelard e sorriu para ele com carinho.
― Ele entendeu — Will respondeu.
Então pulou na sela de Puxão e segurou as rédeas de Kicker quando Horace passou para ele. Abelard é claro, ia os seguir sem a necessidade de ser conduzido.
― Tome cuidado, Will — disse Horace e Will assentiu.
― Três dias. E eu estarei de volta. Mantenha os olhos abertos enquanto eu estiver fora.
Ele tocou seu calcanhar no lado de Puxão e o pequeno cavalo partiu, Kicker seguindo facilmente conduzido pela rédea. Parecia que depois de passar tanto tempo na companhia dos dois cavalos arqueiros, contentou-se em segui-los sem precisar ser encorajado. Abelard olhou mais uma vez para a figura deitada sob os cobertores, jogou a cabeça num gesto de despedida e se virou trotando para chegar junto dos outros cavalos.
Por um longo tempo, Horace ficou observando enquanto eles trotavam para longe, depois aumentaram a velocidade para um galope lento. Finalmente, eles passaram sobre a crista e Horace os perdeu de vista.


A tentação é claro, era de bater os calcanhares ao lado de Puxão e incitá-lo a um galope rápido. Mas Will sabia que a longo prazo, eles fariam um tempo melhor mantendo um ritmo mais lento. Ele segurou o pequeno cavalo a um galope constante, uma marcha que os cavalos arqueiros poderiam manter por horas. Abelard acompanhou o ritmo de Kicker, que estava livre de sua carga normal e mantinha facilmente o ritmo dos outros cavalos com seus passos mais largos. O grande cavalo de batalha quase parecia estar se divertindo, correndo livre e descarregado.
Will chegou ao rio e voltou-se para o leste, seguindo à margem e procurando outro lugar para cruzá-la. Havia uma marca de travessia de cavalo no mapa a leste – demasiado profundo para o tráfego a pé, razão pela qual Tennyson e o seu grupo tinham sido incapazes de usá-la. Mas os cavalos passariam com bastante facilidade. Teria a vantagem de atravessar o rio, em um ponto que o colocava numa parte mais clara da floresta afogada. Não tinha vontade de voltar a entrar naquele deserto cinza novamente, principalmente com pressa.
Três horas em ritmo constante o levou para a passagem. Ele guiou Puxão na frente em direção à água. Abelard seguiu-o prontamente, embora Kicker empacou de primeira, quando viu a água passando por cima dos ombros de Puxão e quase desistiu. Em seguida, o cavalo de batalha pareceu perceber que ele era bem mais alto que seus companheiros e avançou correndo, espirrando água para os lados, mergulhou para frente em uma série de saltos, ameaçando bater em Puxão e Will.
― Acalme-se Kicker! — Will mandou.
Mais uma vez, ele teve a sensação de que Kicker estava se divertindo. Isso era algo que não acontecia com frequência na vida de um cavalo de batalha. Mas Kicker acalmou-se e andou mais facilmente através do rio, até que os três atravessaram a água, saindo do outro lado da margem.
Will parou por alguns minutos. Ele deixou os três cavalos beberem, mas não muito para não ficarem pesados e sobrecarregados quando partissem. Abelard e Puxão naturalmente pararam ao comando de Will. Kicker bebia sofregamente a água fresca do rio e teve de ser afastado do rio. Ele sacudiu a crina e olhou para Will por um segundo ou dois. O jovem arqueiro olhou-o por um momento.
― Kicker! Faça o que lhe é dito! — disse firmemente.
Não gritou, mas havia um tom de comando em sua voz que deixou o grande cavalo em dúvida quanto a quem estava no comando. Kicker olhou para rio relutante, mas deixou-se levar embora. Quando ele fez isso, Will esfregou seu focinho delicadamente.
― Bom rapaz — disse ele baixinho. ― Nós ainda vamos transformá-lo em um cavalo arqueiro.
A poucos metros, Puxão relinchou de escárnio.
Você me diverte às vezes.

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Boa leitura :)