18 de dezembro de 2016

Capítulo 27

Choveu durante a noite, uma leve chuva que caiu por apenas cerca de quinze minutos depois da meia noite. Mas o acampamento não era tão desconfortável quanto Halt e Horace tinham previsto. Eles tinham esquecido o fato de que Will ainda tinha a sua barraca e os equipamentos de acampar com ele.
Mesmo as tendas sendo projetadas para um homem, era possível apertar duas pessoas numa só. E, claro, a todo momento um do grupo estaria de vigia.
Will tinha o turno final e, quando o amanhecer foi se espalhando lentamente sobre a paisagem e os pássaros foram acordando nas árvores e arbustos, ele viu Halt rastejando para fora da baixa tenda.
O arqueiro mais velho olhou com aborrecimento as manchas de umidade sobre os joelhos. Era impossível sair de uma barraca baixa como essa com o chão úmido sem molhar os joelhos, ele refletiu. Ele levantou e caminhou até onde Will estava observando a estrada, envolto em sua capa.
— Qualquer sinal deles?  ele perguntou.
Will balançou a cabeça.
— Nada ainda.
Então ele virou a cabeça.
— Pensei que você disse que um ataque de madrugada seria óbvio demais e eles provavelmente não iriam atacar até ao meio-dia.
Halt pegou o cantil de Will e tomou um gole de água fria, enxaguando-a em volta de sua boca, em seguida, a cuspindo.
— Eu falei. Mas então eles poderiam decidir fazer o óbvio, afinal  ele disse.
— Ah, é um caso daqueles: eles acham que eu vou pensar que vou fazer o A, assim vou fazer B porque eu não acho que eles pensam isso, mas então como eu poderia pensar que eles estão pensando que vou fazer um depois de tudo, porque não acho que eles pensam dessa forma  disse Will.
Halt olhou para ele por um longo momento de silêncio.
— Você sabe, eu estou quase tentado a pedir-lhe para repetir isso.
Will sorriu pesarosamente.
— Não tenho certeza de que eu poderia.
Halt se moveu para remexer na mochila de Will por um pote de café.
— Poderia também acender uma pequena fogueira  disse ele. — Eles não vão vê-la entre as árvores e se sentirem o cheiro da fumaça pensarão que é de Craikennis.
Will se animou com as palavras. Ele assumiu que teria um acampamento frio. A ideia do café quente foi uma agradável surpresa. Poucos minutos depois, Horace rastejou para fora da tenda. Ele fez de um modo que saiu com as mãos e os pés, não deixando os joelhos tocarem o chão molhado. Halt fez uma carranca para ele quando o viu se levantar e se esticar atleticamente.
— Eu odeio os jovens  disse ele para si mesmo.
Horace vagueou e pegou uma xícara de café para Will, então voltou para pegar uma para ele mesmo. Os três pararam, sorvendo a quente bebida restauradora, aliviando as dores de uma noite passada no duro e úmido solo de seus músculos. Demorou um pouco mais para Halt melhorar isso. Ele murmurou sombriamente sobre os jovens novamente. Horace e Will, sabiamente, escolheram ignorá-lo.
Depois de alguns minutos, Horace perguntou:
— Então, qual é a nossa missão para hoje, Halt?
Halt apontou para um pequeno monte de terra a poucos metros da linha das árvores.
— Essa é a nossa posição. Will e eu vamos ver se podemos diminuir os números de Padraig um pouco.  Ele olhou para o ex-aprendiz. — Não perca nenhuma chance, mas sempre que puder, atire para ferir ou desarmar.
Ele viu a pergunta silenciosa nos olhos de Will e continuou.
— Eu sei, estes homens são assassinos e matadores e não tenho pudores em atirar para matar. Mas um homem ferido tira outro homem fora da batalha – alguém tem que cuidar dele.
Horace sorriu.
— Eu pensei que você estivesse ficando sentimental em sua velhice, Halt.
O arqueiro não disse nada. Ele olhou para Horace por um longo momento e o grande guerreiro desejava que pudesse retirar a expressão “velhice”. Durante as últimas semanas, ele percebeu que Halt estava um pouco espinhoso sobre o fato de que ele não era mais tão jovem.
— Desculpe  ele murmurou finalmente.
Halt não disse nada. Ele bufou irritado e Horace de repente achou necessário ter um grande interesse em ajustar a fivela até que estivesse perfeita. Halt o deixou sofrer por alguns instantes, em seguida, chamou-o para continuar.
— Eu quero você montado e pronto, Horace. Mas fique para trás, fora da vista até eu chamar para você. E eu quero que você ponha isto sobre seu escudo.
Ele procurou em seus alforjes e trouxe um pedaço dobrado de tecido pesado, entregando-o ao homem mais jovem.
Horace o estendeu e viu que era uma peça circular, um pouco maior do que o seu escudo, com um cordão em torno da borda. Isso iria deslizar sobre o escudo e o cordão puxaria forte para mantê-lo na posição. Às vezes, ele sabia, cavaleiros usavam essas capas brancas em torneios, quando queriam cobrir as suas insígnias e lutarem incógnitos.
Mas essa capa não estava em branco. Ela tinha uma estranha e bastante marcante estampa no centro. Era um círculo laranja-avermelhado, com o fundo cortado por uma linha reta preta, que projetava a poucos centímetros de cada lado. Ele lembrava Horace de algo, mas ele não conseguia lembrar.
— É a insígnia do Guerreiro do Sol Nascente  Halt disse a ele.
Horace inclinou a cabeça para um lado interrogativamente e o arqueiro continuou.
— Ele é uma figura do folclore hiberniano. A história diz que quando os reinos estão em perigo, o Guerreiro do Sol Nascente vai surgir a partir do leste e restaurar a ordem no reino.
— E você quer que eu seja ele?  Horace perguntou.
Agora que o Halt tinha mencionado as palavras “Sol Nascente”, ele percebeu que era isso o que a estampa tinha lhe lembrado.
Halt assentiu.
— Sua lenda começa hoje, quando você salvar a aldeia de Craikennis de duzentos homens.
— Oitenta  disse Will.
Ele se virou para ver quando Horace prendia a capa sobre seu escudo. Para esta viagem, a insígnia verde normal de Folha de Carvalho de Horace tinha sido pintada e seu escudo estava branco. Halt olhou para a intervenção.
— Haverá duzentos quando eu terminar de contá-la  ele disse a Will. — Podemos até chegar a compor uma canção de louvor ao Guerreiro do Sol Nascente.
Horace sorriu.
— Eu acho que gostaria disso  ele disse.
Will deu-lhe um olhar triste, mas ele fingiu não perceber isso e continuou.
— Mas, realmente, Halt, o que é que toda essa lenda e mito tem a ver com nosso problema?
— Nós vamos combater fogo com fogo. Tennyson está reivindicando o apoio de Alseiass, o Todo Poderoso Deus do Ouro. Ele diz que Alseiass é a única esperança para o reino, a única esperança de proteção contra esses bandidos. E as pessoas estão comprando a sua mensagem. Então, vamos recorrer ao Guerreiro do Sol Nascente e oferecê-lo como uma alternativa. Cedo ou tarde, Tennyson terá de nos desafiar. Quando ele fizer, nós vamos acabar com isso.
— Não poderíamos simplesmente capturá-lo e livrar-se dele sem todas essas baboseiras? — Will perguntou.
— Podíamos. Mas temos que quebrar o seu poder, seu domínio sobre o povo. Temos de destruir o mito dos forasteiros. E nós temos que ser vistos fazendo isso. Caso contrário, ele vai ser visto como um mártir e um dos seus seguidores simplesmente se levantará e continuará com este maldito negócio. Todo o plano dos forasteiros funcionava porque há um vácuo de poder. O rei é tão fraco e incapaz que Tennyson pode entrar em cena para fornecer uma liderança forte e um símbolo para reagrupar tudo. Temos que desacreditar tanto Tennyson e Alseiass, e fornecer uma alternativa viável, visível – e esse é o Guerreiro do Sol Nascente.
— Quer dizer que eu vou ter meu próprio culto?  Horace perguntou e Halt assentiu com relutância.
— De certa maneira. Sim.
Horace sorriu.
— Então talvez vocês possam começar a mostrar um pouco mais de respeito.
— Isso é improvável  Will disse.
Mas Horace o ignorou como antes, até mesmo mais radiante agora.
— Eu prefiro a ideia de ter vocês dois como meus acólitos  disse ele.
Will e Halt trocaram um olhar.
— Não venha com essa  ambos disseram ao mesmo tempo.


A manhã passava. Depois que o sol secou a sua tenda, Will a embalou e guardou, juntamente com a maioria de seus equipamentos de acampar. Ele deixou para fora apenas as suas necessidades básicas para cozinhar e, claro, o sempre presente pote de café.
Enquanto seu amigo atendia a esses detalhes, Horace limpou e afiou suas armas, correndo uma pedra para baixo das beiras já brilhantes de sua espada com um som agradável zzzz. Ele expôs sua cota de malha e capacete, pronto para colocá-los em um curto prazo, e selou Kicker. Ele checou o aperto, deixando as tiras um pouco soltas para o momento. Não havia nenhum ponto em submeter o seu cavalo ao desconforto de uma sela bem apertada enquanto eles esperavam.
Durante as próximas horas, eles estavam conscientes do movimento considerável no interior da aldeia vizinha. O posto de sentinela fora da barricada foi deixado sem tripulação, mas eles podiam ver homens caminhando por trás da barricada em si, em maior número do que tinham visto em anteriores ocasiões, e o zumbido baixo de vozes atravessava o campo para eles. De vez em quando, o sol da manhã brilhante refletia as lâminas de uma arma ou o capacete ocasional enquanto os defensores moviam de um lugar para outro.
— Parece que Conal está levando o aviso a sério  Will falou.
Halt, que passou a manhã prestando atenção na estrada, se precaveu com as costas contra uma árvore, olhou para a aldeia e balançou a cabeça.
— Ele me pareceu um homem razoável  disse ele. — Espero que não vire a mão tão cedo. Seria melhor se Padraig não estivesse ciente de que a guarnição inteira está esperando por ele.
— Isso pode ser demais para esperar  disse Will. — É mais provável que Conal espere que uma demonstração de força irá evitar uma luta.
— Não irá  Halt disse sombriamente.
— Você sabe e eu sei disso  disse Will. — Mas Conal sabe?
Mas, apesar de seu cinismo, parecia que Conal fazia compreender o valor da surpresa, e a inevitabilidade de um ataque. Quando o sol nasceu mais perto da posição de meio-dia, eles viram uma diminuição distinta na quantidade de atividade visível na barricada. Os homens de plantão já não apareciam por cima do muro improvisado para ver se o inimigo estava próximo. E o murmúrio de vozes se extinguiu. A aldeia parecia sonolenta e pacífica. Não havia nenhum sinal de defensores, nenhuma indicação de que Craikennis estava esperando um ataque. Um observador poderia pensar que os moradores estavam relaxando durante a refeição do meio-dia, talvez com um pouco de sono a seguir depois. O sol estava quente e os insetos zumbiam sonolentos. Havia até um ligeiro brilho de neblina ao longo da estrada. Era um pacífico, dia tranquilo normal no país – até o ponto onde Halt falou.
— Aqui vem eles  disse ele.

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