29 de dezembro de 2016

Capítulo 27

― Halt! Halt! Acorde!
O grito de Horace despertou Will de um sono profundo. Por um segundo, estava confuso, procurando saber onde estava e o que acontecia. Lembrou-se então dos acontecimentos do dia anterior, jogou seus cobertores para baixo, chegando rapidamente aos seus pés.
Horace estava agachado sobre Halt, que estava deitado de costas do jeito que o havia deixado. Quando Will chegou ao seu lado, Horace olhou para ele, com os olhos amedrontados, depois voltou a gritar novamente.
― Halt! Acorde!
Abelard, que tinha permanecido perto de seu mestre durante a noite, sentiu o ar de preocupação e relinchou nervosamente, batendo no chão com seus cascos. Halt mexeu-se inquieto sobre o fino colchonete de dormir, tentando livrar-se do cobertor que estava em cima dele. Seus olhos permaneceram fechados e ele estava resmungando para si mesmo. Enquanto o observavam, ele reclamava como se estivesse com dor.
Horace estendeu as mãos num gesto impotente.
― Ele me pareceu bem — disse, sua voz carregada de emoção. ― Eu estava falando com ele algumas horas atrás e parecia bem. Depois voltou a dormir. Apenas há alguns minutos atrás, ele começou a ficar nervoso e se debater, aí eu tentei acordá-lo, mas... ele não acordou.
Will inclinou-se para chegar mais perto do arqueiro barbudo e colocou a mão em seu ombro.
― Halt? — ele disse hesitante.
Sacudiu-o suavemente tentando acordá-lo. Halt reagiu ao toque, mas não do jeito que Will esperava que fizesse. Ele empurrou e gritou alguma coisa de forma inarticulada e com o braço bom tentou tirar a mão de Will do seu ombro. No entanto permanecia inconsciente.
Will tentou novamente, sacudindo-o um pouco mais forte desta vez.
― Halt! Acorde! Por favor!
Novamente, Halt reagiu contra o toque da mão de Will.
― Você acha que deve chacoalhá-lo desse jeito? — Horace perguntou ansiosamente.
― Eu não sei! — Will respondeu com raiva por causa da impotência que sentia. ― Você acha que pode fazer melhor?
Horace não disse nada. Mas era óbvio que Will chacoalhando Halt daquele jeito não ia conseguir nada – era apenas mais angustiante. Ele tirou a mão do ombro do velho arqueiro e parou de incomodá-lo. Em vez disso, colocou a mão suavemente em sua testa. A pele estava quente sob o toque e sentiu que estava estranhamente seca.
― Ele está febril — disse ele.
Todas as suas esperanças de que Halt iria melhorar após uma noite de descanso de repente foram frustradas. Ele havia piorado nas últimas horas. E piorado muito.
Ainda mantendo seu toque tão gentil quanto podia, Will removeu o curativo de linho que cobria o antebraço de Halt. Inclinou-se para ficar mais perto e cheirou a ferida. O odor da infecção era quase imperceptível e não parecia pior. A descoloração ainda era evidente. Mas, como o odor não tinha piorado durante a noite. Mas havia mais uma coisa, o inchaço havia diminuído um pouco. Com o dedo, encostou delicadamente na pele inchada. Ontem, estava quente ao toque. Hoje, a temperatura parecia normal.
― Ainda quente? — Horace perguntou.
Will balançou a cabeça um pouco intrigado.
― Não. Parece tudo certo — disse ele. ― Mas a testa está ardendo. Eu não entendo.
Sentou-se e considerou a situação. Ele queria desesperadamente saber mais sobre cura.
― A menos que — disse lentamente ― signifique que o veneno saiu de seu braço e agora está circulando... atravessando o corpo.
Ele olhou para cima e encontrou o olhar preocupado de Horace, então balançou a sua cabeça, desamparado.
― Eu não sei, Horace. Eu só não sei o suficiente sobre nada disso.
Will ocupou-se em colocar pedaços de linho imersas em água fria na testa de Halt, tentando abaixar sua temperatura. Ele tinha algumas cascas secas de salgueiro em seu kit médico que sabia que reduziria a febre. Mas o problema seria dá-lo a Halt. O arqueiro ainda estava agitado e gemendo, e mantinha sua mandíbula bem fechada.
Horace levantou-se e foi pegar o alforje de Halt, que estava a poucos metros de distância. Ele desamarrou a bolsa e remexeu em seu interior, pegando um mapa da área que Halt tinha com ele. Ele o estudou por alguns minutos, depois voltou para o lado Will, que estava ocupado cuidando de Halt.
― O que você está procurando? — Will perguntou a ele, atento a sua tarefa.
Horace mordia os lábios enquanto ainda estudava o mapa.
― Uma cidade. Ou uma grande aldeia. Deve haver algum lugar aqui perto, onde poderíamos encontrar um farmacêutico ou algum tipo de curandeiro.
Ele bateu com o dedo indicado sobre o mapa.
― Provavelmente, eu acho que estamos em algum lugar por... aqui — disse. ― Que não esteja longe. Que tal aqui? Drift Maddler? Não podia ser mais do que meio dia de viagem.
― Você está propondo que devemos levar Halt até lá? — Will perguntou.
Horace mastigava suas bochechas, pensativo.
― Transportar Halt pode não ser uma boa ideia. Seria melhor ver se alguém de lá poderia nos ajudar. Um curandeiro local. Vá até lá e traga-o aqui.
Ele olhou para Will, viu uma expressão de dúvida em seu rosto.
― Eu vou se você quiser — ele se ofereceu.
Mas Will estava balançando a cabeça lentamente.
― Se há alguém que deveria ir, sou eu — ele disse. ― Posso chegar lá muito mais rápido.
― Sim. Eu sei — Horace admitiu. ― Mas eu pensei que você não queria deixá-lo. Então, eu só...
― Eu sei Horace. E eu agradeço muito. Mas acho que este lugar é apenas um vilarejo. As probabilidades são de que não encontrarei um curandeiro lá. E se existe você acha que um curandeiro deste país terá a menor ideia de como curar isso? — ele apontou o polegar para Halt, que estava gemendo, resmungando e rangendo os dentes.
Horace suspirou profundamente.
― Vale à pena tentar. — Mas sua voz confirmava que ele mesmo não acreditava nas próprias palavras.
Will colocou a mão em seu antebraço.
― Vamos enfrentar os fatos. Mesmo um bom curandeiro local, não seria muito mais que um herbolário. E os maus, são pouco menos que charlatães e feiticeiros. Eu não quero alguém cantando e soltando fumaça colorida sobre Halt enquanto ele está morrendo.
A palavra finalmente surgiu antes que ele pudesse se conter. Morrendo. Halt estava morrendo. A esperada recuperação de que Halt havia falado, deveria correr em um período vital de doze horas, mas simplesmente não aconteceu.
Horace foi atingido quando ouviu Will dizer a palavra. Ele passou horas recusando-se a enfrentá-la. Recusando-se a sequer pensar nela.
― Halt não pode morrer. Ele não pode! Ele é... — Ele fez uma pausa, não sabia o que dizer, então terminou: ― Ele é Halt.
Ele deixou o mapa cair de seus dedos e afastou-se, não querendo que Will visse as lágrimas que escorriam em seu rosto. Halt era... Indomável. Era indestrutível. Ele sempre fez parte do seu mundo, desde que Horace podia se lembrar. Mesmo antes de ele saber que o arqueiro carrancudo era, na verdade, um sujeito gentil e bem humorado, também estava consciente de que ele fazia parte da vida do castelo Redmont.
Ele parecia ser maior que a vida, uma figura misteriosa de quem as pessoas contavam histórias fantásticas e os rumores voavam. Havia sobrevivido a várias batalhas. Havia enfrentado senhores da guerra e monstros aterrorizantes e triunfou em todas às vezes. Ele não poderia morrer por causa de um leve arranhão no braço. Não podia! Era simplesmente impossível.
Como Will, Horace ficou órfão quando era pequeno, e nos últimos anos, ele havia crescido ao lado de Halt e passou a olhá-lo como uma pessoa especial em sua vida. Ele sabia que Will considerava Halt como a um pai, que por sua vez retribuía o sentimento. A estreita relação pessoal entre mestre e aprendiz era óbvia para qualquer pessoa que os conhecia.
Horace nunca presumiu ter a mesma relação que eles compartilhavam. Era uma relação única. Mas Halt tinha assumido um papel na vida de Horace, semelhante a um tio muito amado e muito respeitado. Ele virou para trás, não se preocupando se Will veria as lágrimas em seu rosto. Halt merecia essas lágrimas, ele pensou. Não havia motivo para se envergonhar.
Will estava agachado. Ele não conseguia pensar em nada mais que poderia fazer por Halt. As tiras molhadas de linho pareciam que havia melhorado um pouco a febre. Os gemidos haviam cessado já há algum tempo e não via mais os músculos da mandíbula de Halt se contraindo. Talvez Halt estivesse mais relaxado, agora ele poderia fazer Halt tomar alguns goles da infusão de casca de salgueiro, para baixar a febre. E ele poderia colocar mais unguento na ferida, embora ele tenha percebido que o ferimento em si, já não era mais o problema. Tinha sido a fonte dos problemas, mas agora o veneno havia seguido em frente.
A brisa soprou o mapa de Horace para longe dele. Inconscientemente, Will o pegou e começou a dobrá-lo. Mas tinha que ser dobrado de certa forma, para não deixar vincos. Quando olhou e começou a corrigir o problema, uma palavra pareceu saltar da página.
Macindaw.
Castelo Macindaw. Cenário de sua batalha com os invasores scottis. E perto de Macindaw, claramente marcado no mapa, fica a floresta de Grimsdell, casa de Malcolm, que achavam ser a reencarnação do feiticeiro Malkallam, mas agora conhecido por ser um dos mais qualificados curandeiros, conhecido em toda Araluen.
― Horace? — ele disse olhando fixamente para o mapa.
Eles eram velhos amigos. Eles já haviam passado por várias situações juntos, Horace conhecia o suficiente de Will para sentir uma mudança na voz do amigo.
Esperança.
Mesmo com essa única palavra, Horace sabia que Will tinha uma ideia em mente. Ele pulou para o lado de seu amigo e olhou por cima do ombro, estudando a parte do mapa que estava aberto diante dele. Também viu o nome.
― Macindaw — ele sussurrou. ― Malcolm. Mas é claro!
― Alguns dias atrás, você disse que iríamos passar por perto, se pegássemos esse desvio — Will ressaltou. ― Onde acha que estamos agora?
Horace pegou o mapa e desdobrou-o para abrir a próxima seção. Ele encontrou os pontos de referência que tinha usado antes – o rio, a floresta afogada.
― Por aqui — disse ele, indicando uma posição sobre o mapa. ― Nós percorremos um bom caminho a sul desde que falei do desvio para você.
― Verdade. Percorremos também uma parte para leste. E Macindaw estava a leste de nós quando conversamos. O que perdemos vindo pelo sul ganhamos vindo para leste.
Horace franziu os lábios indecisos.
― Não é bem assim — disse ele. ― Mas provavelmente estamos a apenas um dia e meio de distância. Talvez dois.
― Vou fazê-lo em um — disse Will.
Horace ergueu as sobrancelhas sem acreditar.
― Um dia? Eu sei que Puxão pode correr durante todo dia e noite. Mas, mesmo para ele é muito longe. E você ainda tem que fazer a viagem de volta.
― Eu não estarei cavalgando Puxão o caminho todo — Will disse. ― Vou levar Abelard também. Posso alternar entre eles para descansá-los.
Horace sentiu uma onda de esperança. Will poderia cobrir aquela distância se montasse os dois cavalos, ele percebeu. Naturalmente, a viagem de volta trazendo Malcolm seria mais lenta.
― Então leve Kicker também — disse ele.
Viu Will abrir a boca para julgar a sugestão e se apressou a explicar sua ideia.
― Não monte nele no caminho para Macindaw. Conserve sua força para a viagem de regresso. Dessa forma, um cavalo sempre estará descansado, enquanto você e Malcolm viajam nos outros dois.
Will balançou a cabeça lentamente. A sugestão de Horace fazia sentido. Ele retornaria com Malcolm e isso iria significar que o curandeiro teria que montar Abelard. Mas com Kicker junto, bem, eles sempre teriam um cavalo relativamente descansado. E nem ele nem o curandeiro franzino pesam tanto quanto Horace de armadura completa.
― Boa ideia — disse ele finalmente.
Ele estudou o mapa novamente e chegou a uma decisão.
― Eu posso ganhar um tempo, se eu cortar todo o país por aqui.
Ele indicou um local onde a trilha fazia um grande desvio numa extensa elevação do terreno.
Horace concordou, então notou algo marcado no mapa nesse ponto, inclinou-se para ler a anotação.
― Túmulos? — Ele disse. ― Há um cemitério ali?
― São túmulos antigos — Will disse. ― Você os encontra de vez em quando, em áreas pouco povoadas como esta. Ninguém sabe quem está enterrado lá. Supõe-se que seja uma raça antiga que morreu há muito tempo.
― E por que o mapa faz um desvio nesse local? — Horace perguntou, embora achasse que sabia a resposta.
Will deu de ombros, tentando parecer despreocupado.
― Ah... É que algumas pessoas acham que é mal-assombrado.

5 comentários:

  1. Tava demorando. Ele jã parou para pensar nas possibilidades? E se o Malcom estiver morto? Adeus Halt...mas eu n acho q o autor seja tão fuleragem, eu espero.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pq o Malcolm estaria morto? Não há motivo

      Excluir
  2. espero q will traga o malcom logo
    ass: rosangela

    ResponderExcluir
  3. na real ele nao pode morrer n pow. seriao msm T_T

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)