9 de dezembro de 2016

Capítulo 27

Fiske estava de pé na frente da TV.
— Que diabos Jonah está fazendo? Isso não fazia parte do plano!
— Ele está tentando ganhar tempo! — Nellie guinchou. — Olhe – não sabem o que fazer com ele!
Havia um quê de confusão nas palmas que saudaram a chegada do superstar. Estes não eram exatamente fãs do hip-hop, e Jonah Wizard não estava na longa lista de celebridades convidadas que compareceram ao churrasco-de-amêijoas.
A transmissão mostrou um close-up da família Pierce. O próprio candidato estava sob controle rígido, embora seu rosto parecesse brilhar um pouco mais do que o habitual, e houvesse uma veia pulsando em sua têmpora. Ele mantinha um braço paternal sobre o filho, Galt, que parecia prestes a pular no palco e cometer assassinato.
— Cara, eu tenho algumas palavrinhas a dizer sobre o meu homem, J-dog — Jonah falou para a multidão. — Muitas pessoas não entendem como ele é respeitado na comunidade hip-hop. Vocês conhecem a expressão “like a boss”, como um chefão? Bem, ela foi inventada para ele, yo. E esperem até ouvir sobre isso...
— Uh-oh — Nellie preocupou-se. — Ele não tem absolutamente nada a dizer. Ama Pierce tanto quanto o resto de nós.
— Os Janus tem o dom da palavra — Fiske lembrou. — Ele poderia continuar para sempre – mas não acho que vão deixá-lo. Olhe.
A câmera se afastou e mostrou homens de Pierce reforçados pelo soro convergindo para o palco.
— E mesmo que minha gravadora seja de propriedade de seu maior concorrente — Jonah hesitava agora — eu ainda considero J- dog meu mentor... porque... porque... Uau, esses moluscos não cheiram muito bem?
O primeiro dos capangas subiu no palco e foi para Jonah.
— Isso é ruim — gemeu Fiske.
Os olhos de Nellie estavam fixos em um ponto minúsculo que tinha aparecido no céu azul acima de Pierce Landing.
— É melhor que isso não seja um pássaro — ela sussurrou.

* * *

A ilha jazia logo a frente, mas Amy Cahill estava a ponto de arrebentar pelas costuras.
Ela agarrou-se ao manche do biplano como um marinheiro se afogando pendurado em um colete salva-vidas, seus braços tremendo. Pelo menos seu aperto fornecia alguma estabilidade. Mais da metade de seu corpo estava completamente fora de seu controle.
A queima de fogos que distorcia sua visão só tinha crescido mais. Ela olhou para baixo, para Pierce Landing, através de uma névoa de pirotecnia, forçando-se a ver além das alucinações. Foguetes grandes rugiam, errando as asas por centímetros, e aviões de guerra enchiam o ar, disputando posição como carros de corrida.
Não! O céu está limpo! Eu estou sozinha com Jake no cockpit!
Ela olhou para Jake e em vez disso encontrou sua avó em seu lugar.
— Claro que você pode fazê-lo — Grace disse a ela, confiante. — Você é uma Cahill. Pode fazer qualquer coisa.
Mas então, diante dos olhos de Amy, o sereno sorriso da avó torceu para baixo em uma carranca, e ela não era mais Grace, e sim a irmã mais velha dela, tia Beatrice.
— Você está realmente nisso agora, Amy Cahill, e sem ninguém para culpar além de si mesma! Eu disse que você acabaria como sua mãe!
— Amy? Você está bem? — era Jake novamente, nenhum sinal de Grace ou Beatrice.
Mesmo que ela soubesse que ele tinha estado lá o tempo todo, estava estranhamente feliz em vê-lo, como se ele tivesse acabado de voltar depois de uma ausência de dois anos.
Ela teve um flashback da primeira vez que o viu, parado com Atticus do lado de fora do Coliseu romano. Ele era lindo, naquela época, e ainda mais agora – olhos castanhos com cílios escuros, feições perfeitas.
— Sinto muito sobre tudo, Jake. Você tem sido tão bom para mim, e eu tenho sido tão horrível...
— O avião, Amy! Pilote o avião! — Jake quase gritou. — O resto podemos falar mais tarde!
Eles se aproximaram de Pierce Landing do oeste. Podiam ver o palco e a multidão enorme em torno dele. O momento de diminuir a pressão no acelerador havia chegado. Isso diminuiria sua altitude, permitindo-lhes voar baixo sobre a ilha e pulverizar o antídoto.
Sua mão estava no manche, pronto para diminuir a velocidade.
— Amy... agora! — gritou Jake.
Ela não conseguia se mexer. De todas as horas, de todos os lugares, seu corpo tinha desligado aqui. Um pensamento estranhamente se destacava: Então, isso é o que se sente ao morrer...
— Vamos! — Jake pediu.
— Eu não posso — disse ela, estranhamente calma.
— Por que não?
— Meus braços não funcionam mais. Você vai ter que assumir.
— O quê? Você está louca?
— Você ajudou a conduzir o helicóptero em Tikal — ela lembrou a ele. — Pode fazer isso. Eu preciso de você, Jake.
Pode ter sido apenas sua imaginação, mas ela teria jurado que ele se sentou um pouco mais ereto enquanto pegava os controles dela.
Amy podia sentir quinhentos anos de história Cahill guiando-a a cada pensamento. A morte a encarava de frente, mas Amy estava completamente focada em dar suas instruções.
— Vê que vara no chão? Puxe-o para si... isso.
Agitado de medo, Jake o fez.
O avião agrícola voou baixo sobre o churrasco-de-amêijoas americano.

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Boa leitura :)