29 de dezembro de 2016

Capítulo 26

Depois que Horace montou o acampamento, ele estendeu o cobertor de Halt e o deitou cuidadosamente sobre ele.
De início, Halt protestou acenando que queria tentar ficar de pé. Mas sua força falhou antes mesmo de conseguir se sentar. No momento em que se deitava novamente, Will viu um rápido flash de medo em seus olhos.
― Talvez seja melhor vocês me carregarem — ele falou e os jovens obedeceram.
Horace colocou uma de suas tendas como cobertura para proteger Halt do sol. Will olhou ao redor, estudando o céu e as condições do tempo.
― Parece que esta noite será agradável — disse. ― Vamos deixá-lo aqui fora. O ar fresco fará muito bem a ele.
Estava apenas presumindo, ele sabia. Porém, estava convencido de que o interior de uma pequena tenda abafada não seria um bom lugar para se estar nas próximas horas.
Will estava consciente de que a ferida de Halt ainda exalava um pequeno odor de infecção, embora nem de longe fosse tão forte quanto antes. Poderia muito bem tornar-se insuportável se Halt ficasse confinado dentro de uma pequena barraca feita apenas para um homem.
Tão logo o moveram, Halt perdeu a consciência novamente. Ele resmungou e caiu no sono. Mas agora pelo menos, sua respiração parecia mais regular. Will se debruçou ao lado dele, vigiando-o como um falcão.
Nesse momento, Horace colocou a mão em seu ombro.
― Eu vou ficar com ele por enquanto. Você precisa descansar.
Mas Will balançou negativamente a cabeça.
― Eu estou bem. Vou ficar aqui.
Horace acabou concordando. Entendia como seu amigo se sentia.
― Avise-me quando precisar de uma pausa.
Will grunhiu em resposta, assim Horace ocupou-se em fazer uma sopa rala com suas provisões. Ele pensou que poderia dar a Halt quando este acordasse novamente. Sopa era ótimo para homens feridos, ele sabia. Manteve aquecida na beira do fogo, enquanto Will e ele faziam uma refeição simples, acompanhada por pão amassado, um pouco de carne fria e os picles que haviam levado. Ele ofereceu um prato a Will, que ainda estava sentado olhando seu professor. O jovem arqueiro pegou o prato e olhou para cima.
― Obrigado, Horace — disse brevemente.
Então seus olhos se voltaram para Halt e começou a comer sua refeição mecanicamente.
Perto do por do sol, Halt abriu os olhos novamente. Por um momento ou dois, ele olhou em volta perplexo, enquanto tentava recordar o que tinha acontecido, porque estava deitado aqui, com Will cochilando encolhido em sua capa ao seu lado. Em seguida caiu em si. Olhou vagamente para o braço enfaixado. Ele podia ver a carne inchada e descolorida, sentiu também um calor pulsante percorrendo seu braço. Uma mão gelada apertou seu coração, percebendo o que tinha acontecido.
Ele soltou um fraco som, vindo do fundo de sua garganta e Will levantou imediatamente sua cabeça, plenamente desperto.
― Halt! — ele disse com um evidente alívio em sua voz.
O arqueiro mais velho fez um pequeno gesto com a mão direita. A uma curta distância, as orelhas de Abelard levantaram e ele soltou um breve relincho, aproximando-se da figura reclinada. O pequeno cavalo não tinha ficado mais do que poucos metros longe de seu dono nas últimas três horas.
Halt sorriu fracamente para ele.
― Hey, velho amigo — disse ele. ― Andou preocupado comigo, não foi?
Abelard moveu-se para frente, inclinando a cabeça para baixo e acariciou a bochecha dele.
Halt disse algumas palavras para ele, falando galês, como sempre fazia quando estava confidenciando algo a Abelard. Will, assistindo esta simples interação entre eles, percebeu o profundo vínculo que compartilhavam, seus olhos se enchendo de lágrimas mais uma vez. Mas desta vez, eram de alívio.
Finalmente, Halt apontou gentilmente com seu braço bom para que Abelard se afastasse.
― Pode ir, garoto. Will e eu precisamos conversar um pouco.
O cavalo recuou alguns passos. Mas suas orelhas ainda estavam em pé e ele ainda estava atento a qualquer movimento ou ruído que Halt pudesse fazer. Will se aproximou e pegou a mão boa de Halt. O aperto em retorno foi surpreendentemente tão fraco que ele ficou emocionado e alarmado com o estado de Halt. Colocou o pensamento de lado. Halt esteve perto da morte. Ele iria demorar algum tempo para se recuperar.
― Você está bem agora — ele disse.
Halt olhou ao redor, tentando ver mais do acampamento.
― Horace está aqui?
Will concordou com a cabeça.
― Ele saiu para colocar algumas armadilhas. Há uma lagoa próxima daqui, e acha que os patos irão aparecer no crepúsculo, então foi tentar a sorte. Nosso alimento fresco está escasso.
Will com um aceno rápido, deixou para lá esta questão sem importância de Horace.
― Meu deus Halt, é bom vê-lo acordado de novo! Por um tempo pensamos que o havíamos perdido. Mas agora você está se recuperando.
Ele pegou um rápido flash de apreensão nos olhos Halt, sua face estava sombria e de repente lhe ocorreu uma dúvida terrível.
― Halt? Está tudo bem, não é? Claro que está. Você está acordado e conversando. Talvez um pouco fraco, mas vai recuperar sua força e antes que perceba, nós vamos...
Ele parou, consciente de que estava tagarelando, falando apenas para convencer a si mesmo e não ao arqueiro barbudo que estava diante dele. Houve um longo silêncio entre eles.
― Diga-me.
Halt hesitou, depois olhou para o braço lesionado. Ele suspirou profundamente antes de falar.
― Você compreende que a flecha estava envenenada, certo?
Will concordou com a cabeça desconsoladamente.
― Eu achei que estava. Mas deveria ter pensado nisso antes.
Halt balançou a cabeça suavemente.
― Não havia razão para você ter suspeitado. Eu é que antes deveria ter considerado esta opção. Aqueles genoveses bastardos sabem tudo sobre venenos. Eu deveria ter percebido que eles teriam mergulhado suas flechas em algum.
Halt fez uma pausa.
― Eu me lembro vagamente de ter ficado um pouco descontrolado. Achei que os Temujai estavam atrás da gente?
Will concordou com a cabeça.
― Foi quando começamos a nos preocupar. Então você saiu a galope na direção errada e caiu de seu cavalo. Estava inconsciente quando o alcançamos. Minha primeira impressão foi de que estivesse morto.
― Eu não estava respirando? — Halt perguntou.
― Não. Então deu uma espécie de suspiro profundo e começou a respirar novamente. Daí que pensamos em olhar o seu braço. Isso só me ocorreu porque o havia incomodado o dia todo.
Ele descreveu brevemente a situação da condição do braço, à medida que Halt o encorajava, e quais ações que ele havia tomado. Seu professor inclinou-se pensativo, enquanto Will descrevia como havia limpado a ferida e aplicado repetidas vezes o unguento da erva de calor.
― Sim — disse ele pensativo ― isso poderia ter baixado um pouco a febre. A erva do calor tende a ter várias propriedades, além de reduzir a dor. Eu ouvi dizer que algumas pessoas têm usado para o tratamento de picada de cobra, que é uma coisa muito similar, você deve ter pensado em usá-la por este motivo.
― E funcionou? — Will perguntou.
Ele não gostou da pausa que Halt deu antes de responder.
― Até certo ponto. Ela diminuiu o efeito do veneno. Mas a vítima ainda precisava de tratamento. O problema é que existe uma grande variedade de venenos, eu não sei qual o tratamento correto que deve ser aplicado.
― Mas Halt, você está melhorando! Você está muito melhor do que estava esta tarde! Eu posso ver que está se recuperando...
Will parou quando Halt colocou a mão em seu braço.
― Essa é a maneira como os venenos agem. A vítima parece se recuperar, então, tem uma recaída. A cada vez que perde a consciência, fica um pouco pior que antes. E gradualmente... — Ele parou e fez um gesto de incerteza no ar.
Will sentia que estava olhando para as profundezas de um buraco negro, bem atrás dele. O que Halt estava dizendo, apertava sua garganta e ele mal conseguia falar.
― Halt? — ele engasgou. — Você está dizendo que você está...?
Ele não conseguiu terminar a frase. Halt a completou.
― Morrendo? Eu receio que seja uma possibilidade, Will. Eu vou ter crises de consciência igual à última. Então acordarei novamente. Cada vez vou demorar um pouco mais para me recuperar. E quando eu conseguir, estarei mais fraco que antes.
― Mas Halt! — As lágrimas jorraram dos olhos de Will, cegando-o. ― Você não pode morrer! Você não deve! Como eu poderia viver sem...
De repente, ele estava além da fala e seu corpo foi tomado por grandes soluços. As lágrimas corriam facilmente pelo seu rosto. Ele curvou-se para frente sobre seus joelhos, balançando para trás e para frente e soltando um terrível lamento vindo do fundo de sua garganta.
― Will? — A voz de Halt era fraca e não conseguiu penetrar na dor de Will.
O arqueiro mais velho respirou fundo várias vezes e reuniu sua força.
― Will!
Desta vez, a tom da familiar autoridade estava lá e trouxe Will de volta à consciência. Ele parou de balançar e olhou para cima, enxugando os olhos e o nariz com a bainha de sua capa. Halt sorriu para ele, um sorriso torto e cansado.
― Eu prometo que vou fazer o meu melhor para não morrer. Mas você tem que estar preparado para qualquer coisa. Eu diria que nas próximas doze horas, ou algo assim, será o período mais crítico. E se eu me sentir mais forte amanhã de manhã, quem sabe? Eu poderia estar reagindo. Lidar com venenos não é uma ciência exata. Algumas pessoas são afetadas mais do que outras. Eu vou precisar de toda a minha força para lutar e preciso que você seja forte por mim.
Com os olhos vermelhos e vergonha de si mesmo, Will concordou com a cabeça. Suas costas endireitaram. Chorar e lamentar não ajudaria Halt em nada.
― Sinto muito — disse ele. ― Eu não vou deixar isso acontecer novamente. Existe alguma coisa que posso fazer por você?
Halt olhou para seu braço ferido.
― Talvez trocar minha bandagem daqui à uma hora ou coisa assim. E use um pouco mais de unguento. Faz quanto tempo desde que você aplicou pela última vez?
Will considerou a questão. Ele sabia que o remédio não poderia ser usado com muita frequência.
― Quatro, talvez cinco horas atrás.
Halt assentiu.
― Ótimo. Dê-me uma hora e depois aplique mais. Não tenho certeza o quanto isso vai ajudar, mas mal não fará. Talvez agora um pouco de água, se você tiver alguma?
― É claro — disse Will.
Ele destampou seu cantil e levantou Halt um pouco para que pudesse beber devagar. O arqueiro barbudo era experiente o suficiente para saber que não deveria beber a água com avidez.
Ele suspirou enquanto a água escorria pela sua boca e garganta que estavam secas.
― Oh, isso é muito bom — disse. ― As pessoas sempre subestimam a água.
Will olhou rapidamente para a fogueira, onde a cafeteira se encontrava em cima das brasas.
― Eu posso pegar um café, se quiser. Ou sopa? — Ele sugeriu.
Mas Halt sacudiu a cabeça, estava deitado de costas contra a sela, preenchido com o seu próprio manto todo dobrado, que estava servindo como um travesseiro.
― Não. Não. Água está ótimo. Talvez um pouco de sopa mais tarde.
Sua voz estava soando cansada, como se o esforço para conversar o tivesse esgotado. Seus olhos se fecharam e ele disse algo. Mas falou tão baixinho que Will teve que se inclinar para frente e pedir para repetir.
― Onde está Horace? — ele perguntou com seus olhos ainda fechados.
― Ele está arrumando as armadilhas. Eu te...
Ele ia dizer “eu te disse isso”, mas percebeu que Halt já estava perdendo a consciência de novo, exatamente como ele havia previsto. Haveria um breve período de lucidez, então ele iria cair lentamente de volta para a inconsciência.
― Sim. Sim. É claro. Você me disse. Ele é um bom menino. Assim como Will é claro. Ambos são bons meninos.
Will não disse nada. Ele simplesmente agarrou a mão boa de Halt e a apertou, não confiando em sua voz, se ele tentasse falar alguma coisa.
― Não posso deixá-lo lutar com Deparnieux, é claro. Todos lutam de acordo com as regras, o jovem Horace também...
Mais uma vez, Will apertou a mão de Halt, apenas para que soubesse que não estava sozinho. Ele esperava que o contato ficasse registrado na mente de Halt. Deparnieux havia sido um guerreiro galês que manteve Halt e Horace em cativeiro quando estavam à procura de Will e Evanlyn.
O veneno tomou sua mente de novo e ele já não estava vivendo mais no presente. Suas palavras cessaram com um resmungo e ele finalmente dormiu. Will sentou e ficou observando. A respiração estava profunda e uniforme. Talvez ele se recupere. Talvez uma boa noite de descanso fosse tudo o que precisava. Em uma hora ele trocaria as bandagens. O unguento de erva de calor faria sua magia. De manhã, Halt estaria no caminho da recuperação.
Horace retornou logo após o anoitecer com um par de patos e encontrou Will agachado ao lado de seu antigo mentor. Ele o achou com o rosto coberto de lágrimas e os olhos vermelhos. Delicadamente levou-o para perto do fogo. Deu café a ele, pão amassado e o fez tomar um pouco do caldo que havia preparado para Halt.
Quando Will recuperou a compostura, contou para Horace tudo o que Halt dissera sobre o veneno e as possíveis consequências que enfrentaria. Horace decidiu manter uma atitude positiva sobre o assunto, avaliou as condições de Halt enquanto Will limpava sua ferida e trocava os curativos.
― Mas ele disse que poderia melhorar? — insistiu.
― É verdade — disse Will, que substituiu a bandagem de linho sobre a ferida.
Não parecia haver nenhuma melhora aparente. Mas não piorou também, estava igual.
― Ele me disse que as próximas doze horas serão críticas.
― Ele está dormindo pacificamente agora — Horace observou. ― Nada de sono agitado. Acho que ele está ficando melhor. Eu definitivamente acho que está ficando melhor.
Will fez uma expressão de determinação, balançando a cabeça afirmativamente várias vezes. Então, respondeu energicamente:
― Você está certo. Tudo que ele precisa é uma boa noite de descanso. Pela manhã, ele estará bem.
Eles se revezaram para vigiar o abatido arqueiro durante a noite. Ele dormiu tranquilamente, sem qualquer sinal de perigo.
Cerca de três da manhã, Halt brevemente se manteve acordado e conversou com calma e lucidez com Horace, que estava no turno. Em seguida, adormeceu novamente e parecia que estava ganhando a batalha contra o veneno. Na manhã seguinte, eles não conseguiram acordá-lo.

7 comentários:

  1. meu deus. coitado do halt
    ass: rosangela

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  2. Se o Halt morre, eu mato o autor!
    Ass: Bina.

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  3. naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!

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  4. naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaooooooooooooooo!!!!!!!

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  5. Isso tudo é uma aflição Ahh
    Ass: Lua

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  6. Eles não estão perto de Macindaw? Porque simplesmente não ir em busca de Malcon, o curandeiro? Parece-me a solução mais viável, mas, se eles chegarem a mesma conclusão que eu, creio que seja Horace, com seu modo simples e direto, a alertar sobre o ponto, considerando o estado de Will.
    -Siqueira

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Boa leitura :)